31.8.06

DA SAUDADE



Salvador Dali - Rosa Meditativa

Ainda é cedo, sabes?
As pedras são maiores que as nossas mãos.
No ar pesa a espessura da tristeza.
As uvas estão verdes.
Não é tempo do vinho.
O grão já é farinha mas
o fermento dorme.
Não é tempo do pão.
Pequenos os seios das mulheres.
Não é tempo do leite.
As abelhas zumbem mas
a flor do rosmaninho é só botão.
Não é tempo do mel.
Amargos os lábios dos homens.
Não é tempo do beijo.

Ainda é cedo, sabes?
Esperemos de mãos dadas
sentados no caixote dos brinquedos
bebendo os versos que havemos de escrever.

Verás que amadurece o tempo da saudade.



Vamos a um dicionário e encontramos a definição da palavra saudade: lembrança triste e suave de pessoas ou coisas distantes ou extintas, acompanhada do desejo de as tornar a ver ou possuir; pesar pela ausência de alguém que nos é querido; nostalgia.
Sabemos que é um substantivo muito comum, do género feminino (tinha de ser?), singular em número. A partir deste enquadramento gramatical, podemos dizer:

"Prazer em conhecer-te, saudade. Vou fazer-te sujeito da oração: A saudade é transparente. Ou objecto: Eu sinto saudade do mês de Abril. Adjectivar-te: Saudade louca. Quantificar-te: Tanta saudade. Tecer considerações a teu respeito: A saudade não mata. A saudade seca. Dar-te ordens: Vai-te embora, saudade."

Um desafio:
Saudade é...
Quem quer arriscar um sinónimo? Claro que não virá em dicionários. Tem de vir de dentro, do coração.
Fico à espera, na volta do correio.

Licínia Quitério

26.8.06

DA NOITE






Vincent Van Gogh - Noite Estrelada


NOCTURNO

Eram, na rua, passos de mulher.
Era o meu coração que os soletrava.
Era, na jarra, além do malmequer,
espectral o espinho de uma rosa brava...

Era, no copo, além do gin, o gelo;
além do gelo, a roda de limão...
Era a mão de ninguém no meu cabelo.
Era a noite mais quente deste Verão.

Era, no gira-discos, o "Martírio
de São Sebastião", de Débussy...
Era, na jarra, de repente, um lírio!
Era a suspeita de ficar sem ti.

Era o ladrar dos cães na vizinhança.
Era, também, um choro de criança...

DAVID MOURÃO-FERREIRA


É de noite e pelas paredes da casa escorrem sombras, a iludir as formas, a engordar volumes.
Ela é Alice e olha o gato enroscado no colo.

As flores na jarra secaram, mas a lembrança do orvalho dá à noite um cheiro líquido. Os livros dormem e alimentam a avidez das traças.
De longe, chega o lamento uivante de alguém que se perdeu e não voltou a casa.

É de noite que chora. Não grita, não soluça. Só lágrimas a lavar a máscara do dia.
De noite escreve. Sem endereço, que o mensageiro é a própria noite, sabedora de destinos por cumprir.


Licínia Quitério

25.8.06

DESAFIOS

Egon Schiele - Mulher Sentada


O Herético teve a gentileza de me nomear, no Jogo de Etiquetas que anda a passar entre bloguistas. Correndo o risco de não fazer a escolha mais correcta, porque apenas posso etiquetar seis Amigos, aqui declaro:

Alfazema Azul - O Preservar da Memória
Amar Palavras - A Poesia à Flor da Pele
Diafragma - O Bom Senso e o Bom Gosto
Dovoar - A Poesia em Estado Adulto
Era uma vez um Girassol - O Feminino
Papel de Fantasia - O Saudável Humor

Escuso-me a por etiquetas em mim própria. Deixo a tarefa para quem me conhece pelas palavras que escrevo.

Que este desafio seja mais um sinal de que as cumplicidades e as partilhas são possíveis neste nosso território "blogal" que também é, em grande medida, um local de recreio do espírito.

Licínia Quitério

20.8.06

DA GUERRA


Delacroix - Entrada dos Cruzados em Constantinopla

Chegam notícias da guerra.

Disseram-me que as guerras
visitam as cidades.
Tenho medo.
A minha cidade é antiga.
As ruas têm pedras soltas
em que os velhos tropeçam.
Na torre da igreja maior
faltou o azeite.
As corujas partiram.
Os jardins estão pobres
(a chuva tem sido salgada).
Mas na cidade eu habito
e nela acolho os irmãos
e os filhos deles.
Na pequena praça
há o banco verde
com uma criança ao colo.
É uma cidade triste,
mas antes de o ser
já era a minha cidade.

Chegam notícias.
Penso fechar as portas da cidade
e convocar as cores.
A cidade será
o ocre da planície,
o cinzento do céu.
Cidade sem cidade.

Dizem as notícias
que a guerra nada sabe do silêncio.


Nos teus olhos morava, desde há muito, a guerra. Talvez lá tivesse estado desde o princípio. Da guerra soubeste quase tanto como do amor. Quando ela, sem convite, se sentou à tua mesa, afastaste decididamente as formigas de asa que te disputavam a carne ressequida. Olhaste os pés e viste que te tinham calçado botas de soldado. A palavra inimigo passou a morar diante da tua porta. Pensaste em acompanhar a debandada das formigas de asa e procurar o deslumbre de uma lâmpada. Mas mandaram-te ficar. Vestiste as cores sujas dos guerreiros e defendeste o teu charco e a pele dos teus homens. Apuraste os cálculos e a pontaria. Conseguiste, disparando, dizer ao inimigo: "Não te matarei. Não me matarás.". O pacto foi selado na escuridão da noite tracejada pelo lume das balas .
Na tua guerra ninguém morria. Até ao dia em que, de ambos os lados, o pacto foi quebrado. Nada pudeste fazer. Voltaste, incólume. Mas nem o amor conseguiu tirar dos teus olhos a dor de teres visto a guerra.


Licínia Quitério

15.8.06

DA ALEGRIA


dizes-me alegria
e abro-te a janela do meu peito
onde se escondem ramos
de perpétuas roxas

vem colhê-las com os olhos

a aragem dum beijo
poderá magoar
o tule a seda o vidro
à beira de quebrar



Os nossos sentimentos podem ser tão frágeis quanto esta árvore que Klimt pintou, quanto uma folha seca entre as páginas de um livro. Que fazer da alegria ? Contemplá-la, segredar-lhe carícias, abrir a alma e dar-lhe guarida, se quiser. Quando for embora, poderemos abraçá-la com força. Uma boa lembrança é um animal vigoroso a desbravar caminhos.

Licínia Quitério

10.8.06

DAS PALAVRAS


Helena Vieira da Silva - Biblioteca

Batiam asas mas
sempre tropeçavam
em borboletas brancas.
As sílabas
na busca do palácio
das palavras.
Assim dizias tu
a desculpar
a visível mudez.
Quando a chuva lavava
a pobre fala dos homens
choravas letras
dentro dos dicionários.
As estantes gemiam
ao peso das ideias
afogadas.
As larvas entretinham-se
a devorar discursos.
Não desesperaste.
E o dia aconteceu
em que disseste
a única palavra permitida
a quem pela voz dos anjos se perdeu.



O menino disse: Vem.
A menina disse: Fico.
O menino disse: Porque ficas?
A menina disse: Sou assim.
O menino disse: Já viste o bosque?
A menina disse: Gosto de medronhos.
O menino disse: Eu trepo às árvores.
A menina disse: Tenho medo das cobras.
O menino disse: Gosto muito das tuas tranças.
A menina disse: O meu pai é poeta.
O menino disse: A minha avó é Maria Isabel.
A menina disse: Estou cansada de dizer tantas coisas.
O menino disse: Quando for crescido compro um avião enorme.
A menina disse: Deixas-me encher o avião de letras?
O menino disse: Deixo.
A menina disse. Vou.

Foram bonitos para sempre porque falaram juntos muitas palavras felizes.

Licínia Quitério

5.8.06

HISTÓRIAS


Conta-me uma história
com lobos maus, raposas a voar,
cegonhas sem vergonha,
palavras a rimar.

Conta.
Que se não contas, Mãe,
com que é que eu vou sonhar?






Foto de Joana Leitão, em Mafra Regional

São os novos contadores de histórias. Andarilhos que percorrem o país, a desenterrar tesouros para os salvarem do esquecimento e depois os partilharem com crianças, em escolas, bibliotecas. Recolhem histórias, às vezes dão-lhes novas roupagens e depois contam-nas, com vozes bem moduladas e gestos expressivos, em salinhas coloridas, e encantam miúdos e graúdos. São modestos acontecimentos que não merecem notícia da chamada imprensa de referência. É pena. Neste nosso mundo de desalentos, seria conveniente anunciar que há gente que se ocupa de coisas tão notáveis como o levantar da memória e a passagem do seu testemunho. Por caminhos destes, não se perderá a magia das vozes que dão asas aos sonhos suspensos dos olhos das crianças. Já agora, contem-me uma história!

Licínia Quitério





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