31.1.07

MUROS


Muros, vendas, avisos,
feridas por sarar,
choros de estrelas moribundas,
ondas, memórias de mar,
metais ferventes,
trilhos de lava,
que quereis de mim?
Que tenha medo do oriente?
Nada sabeis dos meus domínios.
No meu peito há uma rosa de ventos
a girar, a girar.
Na minha voz um som antigo
a ecoar.
Que venham muros, vendas, avisos!
Vós não cabeis
nas minha mãos tão nuas.
Trilhos de lava,
esperai meu despertar.


Pequena, franzina, uma modesta página por escrever, diriam. Muitas estações percorridas, impressas na pele, nos cabelos. O corpo a fingir agilidade, traído por breves estremecimentos, como se memórias de vento o agitassem. O sorriso persistente, em desafios de alegria. Preparada para a luta, gostava de pensar. Assim enganava os pesadelos. Os óculos escuros, quase sempre. Os olhos eram o seu maior obstáculo. Macerados, mas teimando em denunciar brilhos profundos. Ainda não queria ser ilha. Península, sim. Estreita, cada vez mais estreita, a ligação ao continente. Quando decidia visitá-lo, transfigurava-se, com uma força de leoa jovem. Dizia, depois, cansada, mas contente: mais um muro derrubado. Era essa a sua maneira de contar os dias. Desde que o calendário enlouquecera.

Licínia Quitério

26.1.07

FIAMA


foto tirada da net


URBANIZAÇÃO

Tudo o que vivêramos
um dia fundiu-se
com o que estava
a ser vivido.
Não na memória
mas no puro espaço
dos cinco sentidos.
Havíamos estado no mundo, raso
um campo vazio de tojo seco.

Depois, alguém
urbanizou o vazio,
e havia casas e habitantes
sobre o tojo. E eu,
que estivera sempre presente,
vi a dupla configuração de um campo,
ou a sós em silêncio
ou narrando esse meu ver.

FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO


Como José Gomes Ferreira dizia dos pássaros, eu quero dizer que os POETAS quando morrem caem no céu. Seja ele o que for ou nada seja. É esse agora o lugar que me acolhe quando leio FIAMA.

Licínia Quitério

20.1.07

OS PÁSSAROS



O dia há-de chegar,
com a capa de vento

a ondular

e cabelos de sol
a clarear
o côncavo das grutas.


Nas mãos, o riso dos meninos

e o canto dos pássaros.

Sempre os pássaros,

com seus presságios

álacres ou soturnos.


Estarei na minha torre,

a entrançar desejos

de tapetes de flores

e de águas borbulhantes

e de pássaros verdes.

Sempre os pássaros.

O dia há-de chegar,

a embrulhar de azul

o meu castelo,

a invadir a torre,

a incitar-me ao salto,

a colar-me nos olhos

a leveza dos pássaros.

Sempre os pássaros.


Irei.


Desde sempre os conhecemos. Em bandos ou solitários, nos campos, nas praias, nas cidades, os pássaros lá estão. Espiam-nos, chamam-nos, provocam-nos. Às vezes rasam-nos o corpo, sem se deixarem tocar. Cantam para nos acordar, gritam à procura do asilo nocturno ou aparecem de noite a piar tristezas. Louvam a vida e pressentem a morte. Habitam os troncos das árvores ou as moitas rasteiras ou as fragas nas alturas. Mergulham até ao peixe ou debicam as searas. Sabem tudo do vento e das tempestades. Livres, livres. Tão alto subindo, tão alto, são a nossa inveja, a medida da nossa pequenez. Nunca os poetas os ignoram. Ilustram-lhes os versos ou são os próprios versos. Quem pode imaginar um mundo sem os pássaros?

Licínia Quitério

14.1.07

PENAS



como uma pena
deixas a ave-mãe e oblíqua voas

por vezes hesitante por vezes saudosa


vejo-te arrepiada mas não fria
ainda não cansada não dorida

mas ao sabor dos ventos dominantes


fazes-me pena agora

apenas pena

à espera de repouso numa ave

que te embale sem nada perguntar

Penas como tu assim perdidas
escondem as falas na dobra do olhar


Desejos de partir. Quem os não tem? Deixar a moleza do berço, dizer adeus à casa, guardar na trouxa o respirar das ervas do quintal, a cantata de vozes amigas, uma mão-cheia de luz da janela do quarto e nada mais. Fazer-se vaga-mundo. Declarar, pela primeira vez, como gosto de ti, minha Senhora Vida. Seguir, subir, subir. E sorrir, sorrir muito. Sentir o corpo igual à terra e ao ar. Esquecer que há ganhar e perder.
Poucos o fazem. Medo de regressar. De não achar a aldeia. De nunca mais as suas falas serem percebidas. Guardarão no coração para sempre a pena de terem ficado. Por medo de outras penas.

Licínia Quitério

8.1.07

PIEGUICES


dizer
o teu olhar

assim como quem diz
o tamanho da nuvem

ou o peso do vento

ou o contorno breve
da alegria


as tuas mãos

como falar dos peixes

em lagos de frescura
ou dos arados

na quentura dos dias

a tua voz

a cantar no silêncio

das cordas do violino

antes do arco


dizer-te
na lonjura
inteiro nos meus passos

como se fosses música
como se fosses luz

como se fosses força

como se sempre fosses


Piegas, como já não se usa. Acocorada, a fotografar um pequeno lago de jardim há muito necessitado de limpeza. Explicou:

é a Vida. pequenos frutos selvagens que ninguém quis comer. folhas cansadas das árvores. seixos atirados por crianças marotas. musgos. larvas. um fervilhar dos fundos a explodir à tona. águas antigas, sábias. já aqui nadaram peixes vermelhos. se pudesse, guardava tudo isto num livro que foi meu.

E riu-se. Parecia contente. Aquela cabeça! Não acaba bem, não.

Licínia Quitério

2.1.07

PERCURSOS


Venho de longe
de terras pobres
caseadas de portas
com trincos de madeira

Trago nos olhos
os microcosmos
das brasas das fogueiras


Nos cabelos
os cheiros da queima das ervas

a esconjurar maleitas


No longe havia gente
que atirava palavras

à dor e à alegria

e aos bichos tresmalhados


Para trás ficaram
as fontes e a sede dos cântaros

e a evidência da Cassiopeia

e o bailado dos vaga-lumes

Venho guiada pelo murmúrio

de raízes subaquáticas

Perdi o mapa das viagens

e desprezo regressos


Aqui cheguei
para conjugar o verbo

no tempo dos meus passos


Percorres-te. E vais abrindo sulcos até chegares ao ponto em que te vejas.
Tropeçarás em músculos, nervos e artérias onde pulsa o vermelho. Continuarás sem pressas e pensarás como cidade velha que rompeu as muralhas.
Quem te habitou? Quem te viveu? Quem de ti emigrou?
De tanto caminhares na inclinação do corpo, mesmo encostado ao osso te hás-de achar.
Muito sereno, sem nada te doer, esquecido das espadas, enfim dirás:
Prazer em conhecer-te. Contigo vou ficar.

Licínia Quitério

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