29.5.07

TEMPOS


Sou do tempo da negrura
dos becos nas cidades
cansadas de bandidos
Era quando se dizia bidon-ville
ou nova-iorque ou liberdade
com os dentes cerrados
com as portas cerradas
Era um tempo de carroças
de ciganos atulhadas
de cantares e imprecações
Foi um tempo de amarrar viagens
nas varandas altas
dos aeroportos
nos cais imensos
dos comboios imensos
de mais partidas que chegadas

Sou também do tempo
do incêndio das papoilas
do fundo respirar dos becos
da alegria dos escravos
e do susto dos faraós
Nesse tempo soubemos abraçar
com igual ternura
a ferrugem dos cascos dos navios
e a velha prostituta de amesterdão

Sou ainda deste tempo em que me sento
na cadeira-baloiço de um cow-boy
e espero novas de darfur ou bombaim

Vou ficar neste tempo de remorso
e de preguiça como um deus a descansar


Licínia Quitério



21.5.07

NASCENTE

foto gentilmente cedida por uma Amiga



Vem, sem avisares,
dizer-me que provaste
a água fria das nascentes
e gostaste
e eu vou gostar de lhe tomar
o gosto em tua boca.
Dirás da força dessa água
na fonte inicial que procuraste.
Eu vou senti-la
em contenção na dobra do teu braço.



Vem dizer-me
o som fantástico da gruta
por onde a água escorre
e às vezes se detem
adiando a viagem.
Eu vou escutá-lo em tua voz
e não sentirei medo
que tudo o que me trazes
vem do sítio exacto
onde as flores aguardam
as águas do meu peito.


Chamavam-lhe Zé da Fonte. Todos os dias, mal o sol acordava, caminhava até à nascente modesta, escondida por entre pedras gastas e ramadas pendentes. Ajoelhava-se e lavava os olhos, longamente, com as mãos inundadas de água fria. Depois tirava do bolso um naco de pão que mastigava devagar, muito devagar. Já de pé, dizia baixinho: Até amanhã, Mãe.

Ninguém lhe conhecia família. Não se poderia dizer que idade tinha. Caminhava aos saltinhos como um rio sobre leito pedregoso. Havia quem o temesse. Havia quem o adorasse. Por uns dias ninguém o viu. Procuraram em redor da fonte. Nem rasto.

Um corpo apareceu a boiar no ponto em que o ribeiro que nascia da fonte se encontrava com outro ribeiro nascido de outra fonte. As pessoas ficaram pesarosas. Coitado do pobre Zé da Fonte. Como foi que isto sucedeu? Só a Rosa Maria, que também caminhava aos saltinhos e tinha olhos cor de musgo, soube explicar, na sua voz murmurante: Voltou a ser água. Um homem tem de cumprir o seu destino.


Licínia Quitério

15.5.07

DIAFRAGMA

"Silêncios e Sombras" foi o último poema que nos deste.

Mas tu foste LUZ.

Obrigada, S.



Licínia Quitério

14.5.07

INFÂNCIA


Tenho estado a pensar que
a infância era do tamanho
da casa da minha tia -
nem muito grande nem muito pequena.
Na conta exacta dos meus anos
a que os adultos chamavam
felizes e despreocupados.
A casa da minha tia
também tinha o feitio da minha infância.
Era como um brinquedo grande
que me fazia imaginar histórias
que um dia eu havia de contar aos meus filhos.
Tinha uma parede forrada de papel pintado,
a imitar um jardim para onde abria uma grande janela,
igualmente pintada.
Eu abria a janela e regava com um regador de cartão
as plantas viçosas que estremeciam contentes comigo.
Na sala, havia uma janela, janela mesmo,
e sempre a minha tia dizia: cuidado
não te debruces.
(Ainda hoje gosto da palavra “debruces”
que há muito deixaram de me dizer.
pelo menos, com aquele tom de voz
de almofadinha morna.)
Sem me debruçar,
eu regalava-me a ver as janelas dos prédios
para além do jardim, jardim mesmo.
Pessoas abriam e fechavam as janelas
e eu podia distinguir as mãos, os ombros,
as cabeças e os olhos.
Bom, os olhos só os adivinhava
(azuis, como na minha família não havia.)
e com eles enfeitava livros cheios das histórias
que um dia havia de contar aos meus filhos.
Agora que já não há a tia
nem a casa com jardins de papel e
nem sei se os olhos seriam azuis
quando abriam e fechavam as janelas,
agora dedico-me a recordar a infância
que nem sequer sei se foi a minha


Licínia Quitério

7.5.07

ANOITECER


Por vezes não é mais do que uma sombra
No soalho à frente do teu passo
Por vezes dizes – vai-te
E arredas a cortina

Por vezes tem contornos de animal
Cansado e ferido
Não sabes se avançar ou recuar
Não sabes se gritar ou emudecer

Não te ensinou o berço o anoitecer


Levantava-se cedo. Quase sempre. E cantarolava enquanto abria as portadas e arredava as cortinas. Brincava com o gato ainda de olhos piscos, ajeitava as flores nas jarras, fazia um café que aspirava com delícia e rodeava a chávena com a concha das mãos. Seria sempre assim.
Lia quando tropeçou na frase "caiu a noite". Um ligeiro aperto no peito, uma sombra no chão da sala, a quietude do gato. Correu para o espelho e ele devolveu-lhe o rosto enrugado, baço.
Como podia não ter dado por tantas rotações e translações? Foi esse o instante em que percebeu que anoitecer não é um verbo. É uma oração.


Licínia Quitério

1.5.07

ABRIL E MAIO



Sentado no degrau do mês de Abril,
Assim te quero.
Muitos livros abertos no olhar
O das perguntas ainda sem resposta,
O dos enigmas dos sonhos de cristal,
Os de aventuras de heróis,
Sem nome e sem morada,
E os outros, lavrados de paixões
Incendiadas de manhã
E à noite amortecidas.

Assim te quero.
De mãos limpas do pó e das ofensas.
Os braços tensos pela espera
De outros braços.
No desalinho dos cabelos,
Os alvos, luminosos fios
dos tempos de passagem.

Só não te quero se não cantares.
Que a tua voz fala de Maio
E é por ela que Abril há-de voltar.

Era Abril quando a casa me espreitou. Uma velha menina solitária, a descansar as suas pedras nuas. A porta entreaberta a convidar o cheiro das flores, o piar das aves, o rumor das árvores tocadas pela mornidão da brisa. Assim eu poderia falar da casa perdida na paisagem sem homens. Não consegui. Se me perguntam onde a vi, digo: Está onde Abril não chegou. Um sonho em ruínas, rodeado de mal-me-queres. A porta, essa sim, ainda entreaberta. Na esperança teimosa de um Maio que bem-lhe-queira.

Licínia Quitério

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