25.9.07

LUZES


Sentinelas de fogo
as luzes na cidade

Olhos sem pálpebras
a vigiar encontros
clandestinos
buscas de pão ou
outras sobras do dia
e a magreza das árvores
no exílio

Só no ventre das casas
defendidas das luzes
se acoitam férteis
os humores da noite

Era a sombra de um homem na noite da cidade. Aos ombros uma manta. Ou os restos dela. Das mãos pendiam sacos. Só os sacos eram brancos. Sentava-se no degrau amplo, abrigado, patamar da grande montra. Deitava-se, ali mesmo, quando as luzes da montra se apagavam. Deixava de ser sombra. Era agora um homem deitado no escuro. Como tantos outros.

Licínia Quitério

18.9.07

ILHAS


estas ilhas de mim
nem mar nem rio as pode reclamar

tiveram escarpas
onde gritava a flor do tojo
amáveis enseadas
a resguardar ladrões e enamorados
clareiras de cantares e dança em pontas

incêndios lhes calaram a verdura
tufões e malfeitores as desfearam

e os coelhos morreram
e as aves voaram para norte

estas ilhas de mim
ressuscitadas

"Era uma vez uma ilha, solitária como todas as ilhas, preguiçosa como não há muitas, que dormia até tarde, aconchegadinha no seu cobertor de névoa...". Pensei contar uma história de ninar em que a heroína era uma ilha. Até já tinha princípio, meio e fim. Ideias de serões prolongados, a adiar repousos. Desisti quando ouvi um choro de criança no andar de cima. Ilhas não habitam sonhos de meninos. Só mais tarde, quando nos foge a terra firme, nos pensamos ilha e começamos a ter medo dos tufões. Assim a história foi só o seu princípio. Se houver quem a queira continuar...

Licínia Quitério

11.9.07

EU SEI


Eu sei que devia falar
do relevo da cal
da agonia das nuvens grávidas de céu
do rolar do medo no olhar dos pombos
da gente nos terraços respirando a tarde

Mas prefiro dizer que
à luz duma lembrança
o mundo clareou como se a madrugada
na fundura do dia aprisionada
por mim se libertasse esquecida de morrer

Eu sei que isto de escrever poemas de amor a rimar com dor passou de moda. Sei que soa a banalidade aquela madrugada dita aprisionada. Sei que não valia a pena ter tentado um poema mais, com palavras de céu e cal e pombos. Sei, mas asseguro-vos que a serpente de nuvens que me caiu nos olhos, quando respirava no terraço, me fez, por momentos, perder o tempo e o lugar. Foi assim, como vos digo.

Licínia Quitério

4.9.07

ACONTECER


Aproveitando a nesga do silêncio,
sentamo-nos no prado verde-luz
e varremos o céu com olhos de água.
No entrelaçar dos dedos magoados,
aprisionamos desejos de regressos.
Ofertamos os ombros à neblina,
o gosto de gengibre pela boca.

Por vezes acontece um fim de tarde assim -
a sombra do salgueiro a afagar-nos a nuca,
o sono de menino a embalar-nos o colo.

Tão breve, tão breve este sangrar do dia.

Não foram aqueles parêntesis curvos a enquadrar-lhe os cantos da boca e dela se diria uma jovem mulher. Chegou sozinha, transportando na cintura o requebro de ladear os ventos. Era alguém sem pressa, já sem pressa, posso dizer. O andar encaminhou-a para a relva fresca. Um velho choupo ofereceu-lhe o tronco erecto, afirmativo do labor das seivas. Nele apoiou um ombro e logo a cabeça e logo o braço a procurar o quanto podia alcançar da impávida figura. Provavelmente, foi o tremeluzir das cores da tarde que lhe trouxe aquela estranha vertigem. Quem passou pressentiu um desacerto na mulher. À pergunta: Sente-se bem? respondeu baixinho, com um sorriso a acentuar a curva dos parêntesis: Sinto. Tenho uma flor no cabelo. Há tanto tempo não acontecia...

Licínia Quitério

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