26.11.07

OS PARDAIS


Pouco basta para que
um astro se acenda
sobre a mesa da tarde

Pode ser o fio de voz
de uma menina
e as suas mãos morenas
segurando um poema
que escreveu

Vendo bem não são as mãos
antes projecto de asas

Sejam sempre bem-vindos
os pardais

São aos milhares. Disputam poisos nos ramos das árvores da praça centenária. Um coro de piados estridentes encorpa e inunda os ares e as ruas e as casas em volta. São os pardais de fim de tarde. Qual deles deu o toque de recolher? Com que sinais dizem "vamos dormir"? Ficam mudos quando a noite se instala. São folhas de sangue quente nas árvores despidas pelo inverno. Perto dali, uma criança diz um poema. Não é que me pareceu um pardalito, desprezando a noite, a despertar?


Licínia Quitério

14.11.07

SE EU FOSSE


Se eu fosse uma estrela e medisse os anos-luz do meu brilhar, talvez eu desistisse e quisesse, entre rasgões e penumbras, descansar.

Licínia Quitério

7.11.07

BEIRA-MAR



Os olhos das mulheres
cavalgam as praias desertas
e a acalmia das ondas

Ficam verdes os olhos das mulheres
no seu afã de adivinhar os peixes

Águas-marinhas crescem-lhes nos dedos
longos longos

Há estrelas-do-mar a rematar
as tranças de meninas
que chegaram do longe longe

Debruçam-se serenas
sobre a caligrafia andarilha das gaivotas
a ler histórias que os netos lhes contaram

Antes que a tarde as envelheça
acendem nas areias fogos altos
e pintam as cores do sol poente
e cantam líquidas melopeias
e cantam e cantam
as mulheres da beira-mar

Volta o azul. Devagarinho. Quado menos espero, em forma de poema. Azul de calmaria, de segredos revelados, de horizontes perfeitos, de sabores antigos de baunilha e erva-doce. Azul de me sentar à beira-mar.

Licínia Quitério, "De Pé sobre o Silêncio"

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