26.2.08

COMBOIOS


Enquanto dormem,
devoram paralelas infinitas.

Os comboios,
pois é deles que falo,
consentem sonolências,
no limiar das pálpebras
da madrugada.
Balanço de ombros afrontando
a austera textura das cortinas.
A espaços,
a sombra de uma casa
contra o rosto.
Brevíssimos instantes
de noites serenas
na primeira estação anunciadas.

Despertam quando param,
os comboios.
E nós com eles,
sabendo do regresso.


Licínia Quitério

19.2.08

DESVARIOS


Era verde e chamaram-lhe mar. Verde com escamas negras vindas do longe, do buraco fundo da vigília. Cansado de ser chão, ganhou vulto, encorpou, alteou-se em dorso de dragão. Ouviu dizer escarpa e sentiu medo do nome e da ameaça das sílabas. Pensou-se vermelho, quente e amadurado, peregrino terra adentro sobre marcas indeléveis de signos eternos. Encetou a descida, abrandando a fúria de chegar. A cor das vestes, esmaecida, dizia-lhe repouso. Palavra pouca para a branca agonia duma estrela.

Licínia Quitério

12.2.08

ERA UMA VEZ



Era uma vez... Assim o princípio do mar do encantamento. Uns olhos que se agarram à pele das palavras, escorregadias como tiras de algas. Uma voz a ondear na praia a que os ouvidos acederam. Um esvoaçar de mãos quase quase a aflorar o bater dum coração ansioso. Era uma vez... Assim se convoca a gota de mel ou o minúsculo cavalinho voador ou a menina de capinha vermelha ou a fada-passarinho tão leve tão leve a poisar na agudeza dos ramos do pinheiro alvar.


É urgente inundar de histórias os salões. A crueldade fez estragos nos olhos do sultão. Farto de virgens por uma noite, que o sangue delas, novo e quente, não logrou refazer o rasgão na tela do seu peito. Que volte Sherazade. Com outros véus, acrescentada de saberes e engenhos, com mil vozes por dentro das palavras, serena e digna, recuperada das infâmias, de ventre fértil e infinito canto. Liberta o sultão da sua raiva, suspende a degola dos inocentes, estende até nós o tapete mágico das palavras criadoras. Tu sabes, Sherazade, andam tão tristes os salões...



Licínia Quitério

1.2.08

NOITE E DIA



É hoje o dia.
Vamos trincar o Sol no pessegueiro
e acenar com mãos de Primavera.
Vamos beber a pedra, a catedral
ou apenas o grãozinho no areal
que é hoje o dia de matar a sede.








Levantámo-nos tarde. Perdemos esse dia e outro e outro e outros mais. Até que a noite atenta se vingou.


Licínia Quitério

arquivo

 
Site Meter