17.6.09

CLARISSE 10


Seria bem diferente quando a colaram no álbum. Naquele tempo, as flores brancas corriam pelos campos ou definhavam na estreiteza das jarras. Esta sobrenadava águas tão próximas do céu que podia tocar a liquidez das estrelas. Foi o que assustou Clarisse que logo fechou o álbum, olhando em volta como se alguém a espiasse. Receosa dos seus próprios gestos, abriu a gaveta, empurrou o álbum bem para o fundo, para o lugar onde repousam os álbuns que nasceram para nunca serem folheados e fechou-a à chave como há muito não o fazia. Sentou-se, afagou o gato impertinente a trepar-lhe para o colo e assim ficou, com uma inquietação húmida a desafiar-lhe os ombros. Antes de fechar os olhos, Clarisse fixou as mãos sobre o lombo do gato e admirou-se dos rios azuis que as percorriam, com seus afluentes e deltas. Não se lembra de os ter visto quando pela primeira vez visitou aquele álbum. Que acontecera então desde que alguém tentou contrariar a brevidade da flor, fixando-lhe a verdade, a idade, a essência? Mudaram as cores, dissolveram-se os traços, afirmou-se uma nova luz que Clarisse pensou transparência. Cumpriu-se o destino da flor? Avançou, insidiosa, a construção dos rios azuis? Clarisse está segura de que é o tempo das gavetas que mede a beleza da flor branca e das suas mãos de maré cheia, também elas flores de carícias sem hora nem porquê.


Licínia Quitério


Nota - Voltarei no sétimo mês. A este e ao Outro Sítio. Penso que Clarisse não deixará de me acompanhar. Lembrando Luís de Stau Monteiro, aconselho: Agarrem o Verão, Amigos, agarrem o Verão!

Licínia

12.6.09

RETRATO DE CIDADE



Quando nasci, foste-me casa e rua,
o nome duma história a descobrir
e o mundo numa praça à beira rio.

Pela minha cidade me pensei
transeunte da boémia e da saudade,
a rimar caravela e desacato.

Entristeci nos palcos e nos becos
até que o cheiro a cravo se soltou
e Arlequim pulou e a lágrima secou.

Então te amei de amor aberto e rubro
neste pontão de enganos, nesta luz
sempre acesa no vidro dos telhados.

Pelas esquinas de vultos rente ao escuro,
de novo se alimenta esta cidade
com sobras de ternura e ousadia.

Persistência de pombos e mendigos
na rapina do sol e das sementes.
Meu corpo, minha terra, minha gente.


Licínia Quitério

7.6.09

CLARISSE 9

Que linda falua que lá vem, lá vem. É uma falua que vem de Belém. É assim que Clarisse começa a cantarolar, mal o álbum lhe abre o portão do pátio. As meninas em fila e a outra, destacada, perguntando. Peço ao meu barqueiro se nos deixa passar. Passará, passará. Se não for a mãe da frente, é o filho lá detrás. O barqueiro decidia. Tu. E tu. E tu. Tu não. Clarissse sentiu um aperto no peito. Hoje o barqueiro voltou a rejeitá-la. Quedou-se nesta margem, chorando baixinho, para as outras meninas não ouvirem. Que lin-da fa-lu-a... Pelo chão, as redondezas meladas das nêsperas que os pardais dilaceraram, sem piedade. As ameixas verdes já maiores que cerejas. Se os ventos desabridos da primavera não lhes matarem a vontade de crescer, haverá troncos de árvore vergados ao peso das bolinhas amarelo-doce. No pátio vizinho, por detrás do muro alto, Clarisse pode ouvir o coro das falas gritadas dos rapazes que não brincam aos barqueiros com poderes de rejeitar. Falta no muro uma pedra, do tamanho da curiosidade no centro do olhar de Clarisse. Recorda o desassossego nos bicos dos pés, o tum-tum do coraçãozito nos ouvidos, a alegria de ter visto, do lado de lá do muro, o menino que já lia histórias, o menino que todo o tempo depois leu a Clarisse as maravilhosas histórias do mundo. Era o sol a pique a rendilhar de sombras a terra batida e os bancos de pedra e a brancura do poço. Tapado, pois claro, que lá dentro morava a donzela com cabelos de fogo que água nenhuma conseguia apagar. Numa noite de lobos famintos, o Homem que foi menino contou a Clarisse como no fundo dos poços mais fundos viviam filhos dilectos de estrelas e dançavam feitiços de luar. Hoje, Clarisse não teme a escolha do barqueiro nem a ameaça dos lobos, apaziguadores que são os velhos álbuns em que dormitam pátios interiores.


Licínia Quitério

2.6.09

CLARISSE 8

Que vês em mim, perguntava Clarisse, antes de pensar em folhear os álbuns. Diz-me de que cor são os teus olhos, respondia-lhe o Homem. Só tu, que sabes ler, podes saber, insinuava Clarisse. Eram longos e limpos os dias de perguntas sem respostas e de respostas nunca perguntadas. Falavam da cor dos olhos para desvendarem o mistério do tanque da horta. Clarisse gostava de lápis de cor. Pedia-lhes que lhe ensinassem o início do tanque quando ainda aguardava a chegada das folhas caídas e o nascimento das larvas. Nunca conseguiu que lhe dissessem. Talvez o tanque tivesse chegado depois das águas com acordos secretos de vida e morte em sua substância. Também o Homem procurava a transparência das tintas que lhe desse a cor primordial dos líquidos. Em vão. Sempre a enganadora imobilidade de um mundo onde, sabiam, se agitavam multidões de predadores, em ritos de sobrevivência. Os lápis de cor de Clarisse lado a lado com as tintas do Homem. Interrogando-se na mudez do olhar. Que vês em mim, perguntava Clarisse. Qual é a cor dos teus olhos, dizia o Homem. Nenhum deles aprendeu a cor antes do tanque, antes da água, antes do apodrecimento das folhas e da metamorfose das larvas. Vivia assim Clarisse, quando ainda não devorava passados. Já uma rola de peito róseo matava a sede no tanque, sempre que a horta se reerguia na frescura da tarde velha.


Licínia Quitério

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