31.5.10

AS MENINAS


Eram meninas e brincavam.

Inventavam a floresta
e ela acontecia.
Escondiam-se e um manto
de asas de anjo as encobria.
A noite era um sítio longe
e o dia brotava-lhes das mãos.
Escutavam as árvores, 
o namoro das copas. 
As meninas tinham caixas
de guardar segredos
com chaves pequeninas,
invisíveis.
Nelas dormiam os cavalinhos brancos
de galopar, de galopar.
As meninas apressam-se a crescer.
Apagam as florestas antes que a noite chegue.
Já não se escondem, as meninas.
Souberam que não há anjos sem asas.
Deitaram fora as caixas dos segredos.
Foram-se embora  os cavalinhos,
a galopar, a galopar.
Estão tão grandes as meninas.
Pequeninas ficaram as chaves
invisíveis, 
para que o vento as leve
mundo fora, a voar, a voar.

Foram meninas e brincaram...

Licínia Quitério

24.5.10

SER ÁRVORE


Há um tempo que nos cabe
de sermos tronco adulto altivo
resistente à injúria e ao machado.
Raízes são olhares que deixamos
prender na solidão das casas
pejadas de gritos e abraços
e recados  ao encontro do futuro.
Não me falem de ninhos, nem de sonhos,
nem de viagens, nem de contas-correntes.
Eu só quero ser árvore, ouvem bem,
árvore, com seivas elaboradas,
diligentes, cantarolando
uma húmida e suave barcarola.
Hei-de ter folhas rente ao chão
ao alcance da fome e da loucura
de quem sonhou demais e definhou.
Hei-de ter copa, sim, da matéria
das sombras que o luar constrói
na cal dos muros, nos caminhos da noite.
Depois serei colosso, serei lenho,
as seivas já sem canto, só soluço,
em debandada as sombras e os espectros.
Velha serei, mas árvore e deixarei,
viçosas, esperançosas, algumas
jovens folhas rente ao chão.

Licínia Quitério

16.5.10

LADAINHA EM REDOR DE UM BÚZIO

Encosta-o ao ouvido,
a mão em concha
a modelar-lhe o dorso.
Agora fecha os olhos,
aparta-te do mundo,
murmura búzio como
quando pela última vez
disseste meu amor
e só o mar te ouviu.
Escuta o clamor das ondas,
lá longe, onde findaram
as praias, as falésias,
e os navios  fantasmas
não podem aportar.
Espera um pouco mais.
Uma voz hás-de ouvir
que só pode ser água
que só pode ser vento
ou então a mesma  voz
com que disseste amor
pela última vez 
e só o mar ouviu
e para sempre guardou
no côncavo de um búzio.
E tu o tens colado no ouvido,
e tu de olhos fechados
e tu apartada do mundo
e tu escutando o mar
que no fundo da noite
acolheu tua voz
dizendo meu amor
de joelhos na praia.
Mulher de marinheiro
que foi e não voltou. 

Licínia Quitério

9.5.10

VISITAR O SÓTÃO



Chegou o tempo de visitar o sótão
onde ficaram presos, mutilados,
os dias da abundância e da aventura.
Do antigo fulgor, um brilho leve,
envergonhado, a recordar
as horas sensuais da seda pura.
Pela noite, o corpo era a ardência
da haste e a frescura dos ramos
e os olhos água com medo da ternura. 
Da festa só ficou o cheiro bafiento
das arcas guardadoras de bragais
e as cores dos óxidos a devorarem,
ímpios, a luzente alegria  dos metais.

Licínia Quitério
  

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