25.1.11

TENS DE SENTIR



tens de sentir o respirar da terra.
não há outra evidência sobre a vida.
tens de acreditar na dança diurna das estrelas.
não terás outra vantagem para o amor.
duvida sempre da perenidade das águas no teu rio,
da persistência da alegria no teu andar de corça.
tens de estar atenta ao calendário das marés
se queres saber a soma dos teus passos.
olha as chagas nos ombros da velhice e,
se vires a fragilidade das perpétuas roxas,
foge da vidraça e espera o riso.
ele há-de passar rente à janela.
depois enrola-o no pescoço e diz
agasalho como se dissesses
recomeçar ou abrir os olhos no primeiro verão.


Licínia Quitério

18.1.11

A MADRUGADA





De uma asa posso falar no torpor da madrugada.
De uma asa onde mora o inteiro pássaro.
Adivinhar o canto é condão de meninos, por entre os frutos verdes do tempo moço.
Espero o vento cor de mel da manhã adulta, povoada de signos e augúrios, a soprar a poalha de amores nascidos no perfume do anoitecer.
Afirmo não saber o gosto das manhãs e sempre me confundir e dizer azul em vez de beijo, sanguíneo em vez de saliva, flor de zimbro em vez de baga, algodão e não canela ou camomila.
Tamanha é a minha esperança na asa, no pássaro novo, na espuma do dia claro, na força do vento morno.



Licínia Quitério 

11.1.11

UM POEMA DE AMOR



Estás comigo há tantos anos e sempre te pergunto porquê. Porque é que as tuas mãos de estátua grega se entrelaçam assim como se explicassem toda a beleza do mundo? Será que foste tu que colheste os girassóis e os ofereceste à jarra para que os meus olhos pudessem ver a luz no quarto escuro? Eu não falo de Vincent, mas de ti e do relâmpago do teu rosto sobre as paredes brancas da sala. Estão sempre as tuas mãos dentro do quadro, aquele ali colado na vidraça e que disseste ser a transparência do meu sorriso. Falamos de pintura, como poderíamos dizer ternura ou construção ou a eternidade possível deste amor. Posso perguntar se foste tu que pintaste os girassóis. Responderás não sei com uma flor de verdade na boca e a humildade dos inventores de futuro. Posso chamar-te Vincent e responderás como se fosse o  teu próprio nome. Achas natural. Eu também. Todos os nomes são iguais. A diferença mora na beleza das tuas mãos entrelaçadas na explicação da transparência do meu sorriso. 

Licínia Quitério  

3.1.11

O TEMPO



O tempo é o tempo é o tempo
um tecido um contínuo um tropel
um oceano um buraco uma forma
uma cor um odor uma pele
um allegro um andante um nocturno
um prelúdio uma fuga um vibrato
um da vinci um magritte um azimov
um pas de deux um bolero um trapézio
o pescoço do cisne o olhar do leão
o tronco da sequóia a avenca a lentilha
a aurora boreal o furacão a neve
o desejo o delírio  o repouso a vigília
uma esperança um contrato uma sorte
uma espera uma ausência uma morte


Licínia Quitério





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