31.3.11

PEDRA A PEDRA

Pedra a pedra sabem os homens escrever
a memória dos tempos. Em Matchu Pichu, 
na Grande Muralha, na Grande Pirâmide,
ou em Babel que se diz teve uma torre.
Pedra a pedra, homem a homem, dor a dor,
chicote a chicote, a construção não para.
Mais alto, sempre mais alto, que a terra
é pouca e o céu é vasto. Inventam as escarpas
e sobem-nas, pé aqui pé ali, até ao medo.
Não olham para baixo que a pele da terra
os enfeitiça e no seu ventre há fogo. No topo,
diz-se, um ceptro de oiro a atiçar a cobiça.
Por ele continuam, ferida a ferida, corda a corda,
e as mãos sangrando, e as pedras poderosas
com janelas de sol, medindo luas, predizendo
futuros. Pelas alturas devorados, os homens
não regressam e já ninguém os sabe nomear.
Machu Pichu, Esfinge, Stonehenge, as pedras
essas ficaram e têm nomes. O ceptro de oiro
só o condor sabe onde reluz, mas não o diz,
e os homens continuam, de dor em dor, mais
alto, cada vez mais alto, cada vez mais longe,
até à fraga onde perdem o nome.

Licínia Quitério 

27.3.11

COM TUAS MÃOS
















Com tuas mãos falantes é que me anunciavas
a fala das andorinhas e dizias o desenho
do relógio de sol. Como se eu entendesse
as tuas viagens nos passos em redor da sala.
Foi preciso ver as asas saindo dos teus dedos
e a sombra da haste no declínio do dia.
Nessa hora os teus passos fecharam a viagem.
As tuas mãos perfeitas se fizeram arco
e eu pude divisar a rua que viveste
com cuidados maternos a afagar as ervas.
Para lá do arco, disseram os teus olhos,
eu havia de ter a minha luz e as pedras
brilhariam a iluminar esquinas e veredas
e a amplidão dos mares e a solidão dos versos
e sempre e sempre as andorinhas haviam de voltar
porque é nas tuas mãos que começam as aves.

Licínia Quitério

23.3.11

TÃO ESTRANHA A NOITE


Tão estranha a noite. A noite e os   escombros, cicatrizes de diurnos abusos, esconderijos de vigilantes répteis e seus membros renascidos. No meu coração a pele dos muros, alfabeto de povos chacinados no sono acre dos deuses. Cabeleiras vegetais alongam  os ombros da noite,  encobrem a desistência das pedras, desenham tranças e cabalas. Há homens que acendem luminárias e as põem a vogar na noite. Com elas os espectros e as gargalhadas tracejantes onde não poisam flores. Nos meus olhos a grande lua e os seus presságios de nascimentos fáceis e marés altas e súbitas germinações. Ela me deixa aperceber o recorte do polipódio, verde pela manhã.

Licínia Quitério

17.3.11

QUEM TE DISSE



Quem te disse, meu amor de mar, meu leão de maré, minha onda antiga, meu cavalo marinho, minha espuma da noite, minha flor afogada, meu cofre de ametista, minha vertigem, minha corda bamba, minha ponte, meu mirante, meu verso branco,

Quem te disse das mãos de cinza pela tarde, do sal da boca pela manhã, dos olhos nas esquinas, do cheiro a febre do outono, das colheitas sempre por fazer, do vinho, da cor do vinho, do doce vinho da paixão, do espanto, do terror, da ira dos terramotos,

Quem te disse, meu amor, mentiu,

Verdade és tu e os teus sentidos, e os teus pressentimentos, e os teus sonhos, e o teu olhar de fera ou o teu olhar de pomba, e os teus cabelos soltos ou os teus cabelos presos, e o teu desejo em fonte ou o teu desejo em fogo,

O resto, os mundos saberão se aconteceu,


Licínia Quitério

14.3.11

AVISO

QUEM QUISER ADQUIRIR O MEU LIVRO "POEMAS DO TEMPO BREVE" PODERÁ CONTACTAR-ME ATRAVÉS DE

                                              liciniaquiterio@sapo.pt

ESTE É O POST MENOS POÉTICO QUE ALGUMA VEZ PUBLIQUEI, MAS PENSO QUE COMPREENDEM!

MUITO OBRIGADA.

LICÍNIA

11.3.11

"POEMAS DO TEMPO BREVE"

É já amanhã, Sábado, 12 de Março, pela 15 horas, no salão nobre dos Bombeiros Voluntários de Mafra, que será apresentado publicamente o meu livro "Poemas do Tempo Breve". Cristina Carvalho e Joaquim Pessoa tiveram a bondade de acrescentar aos modestos méritos dos meus poemas dois textos magníficos, pelos quais lhes expresso, também aqui, a minha gratidão e o meu carinho. Estarão ambos presentes no lançamento, bem como o meu Amigo de já longa data e grande "responsável" pela minhas aventuras poéticas, o José Fanha. Será um encontro de muitos amigos e, a pretexto deste livro, falar-se-á de poesia, dir-se-á poesia, será, enfim, a Poesia a grande homenageada nesta tarde que, espero, seja um tempo de fraternidade e luminosidade.

Lá nos encontraremos. Grata por todos os apoios que aqui me têm sido dados.

Licínia Quitério

9.3.11

AINDA QUE QUISESSSES


Ainda que quisessses, como poderias sequer pensar "Não valeu a pena."?
O vento gélido perfurou-te a manta e arrefeceu-te o sono?
Mandaram-te calar a pequenez da tribo e a avidez do chefe?
Foi a ti que disseram "Sai do meu caminho e deixa-me brilhar."?
Riram-se quando pediste "Não me dêem jóias que me pesam nos ossos."?
A chuva foi tão bruta que te alagou os sonhos? 
Foste tu que gritaste "Nunca mais!" e agora ouves o riso das hienas reclamando o festim?
Tudo isto foi contigo, em ti, na tua carne, no teu choro, no teu luto de tantas mortes, no teu longo tempo de lobos e de rosas.
Foi por elas, pelas rosas, que enfrentaste o abismo e regressaste, incólume, de sorriso entre as mãos, com a voz vestida de palavras sonoras, tranquilas, aladas, prontas para a partida.
E há mais.
A laranjeira fértil, sobranceira, que te obriga a dizer, ajoelhada, aturdida, plena "Sim, valeu a pena.".
E continuas, na senda perfumada dos desejos que por ti frutificaram. 

Licínia Quitério   

2.3.11

PODIA DIZER-TE

Podia dizer-te a luz da tarde acesa na janela,
ou a alegria envergonhada das ramadas,
ou as vozes dos amigos esboçando um fado,
ou a  nostalgia das bandeiras reclamando pátrias,
ou ainda as casas, sim, as sábias, astutas casas
debruadas de amores e perdições.

Podia até pintar uma aguarela, ou escrever um poema,
ou modelar um rosto, ou compor um adágio,
ou soltar um grito, ou correr, ou saltar,
ou abraçar-te, ou lançar um papagaio de papel
e depois dizer-te: Vês, eu não sei nada. Ou então:
Que queres de mim? Ou (porque não?): Amo-te.

Não podia dizer o coração da terra
nem a esperança fechada nas mãos dos homens
quando sofrem.

Licínia Quitério 

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