31.10.11

PODES PEDIR-ME UM BEIJO




Podes pedir-me um beijo nos dias de escarlate
quando as trepadeiras sangram
e eu visto a leveza dos vinte anos e dos outros
que decidimos guardar para não morrer.
Sabíamos que tudo havia de passar -
os muros, a trepadeira, o coro das velhas pela noitinha,
a tua mão pedindo a minha no declive da serra,
na ameaça do tojo.
Continuámos a desbravar ruínas,
a construir palácios de ninguém,
a apregoar unguentos,
que as feridas não soubemos afastar.
Breve foi o tempo, grande foi o lugar,
saudosa a guerra que ninguém perdeu,
amor menino que não envelheceu.
A trepadeira vive, o meu vestido é leve.
Nenhum beijo tem mais de vinte anos.
Digo-te sim nos dias de escarlate.


Licínia Quitério

25.10.11

POSSO ESCREVER


Posso escrever sobre coisas banais e dizer
que me bateram à porta quase noite e não
abri receosa de saber quem batia. Posso
escrever sobre grandes causas e afirmar
que as inventei e daí me veio a obrigação
de as defender. Posso, é bem claro, escrever
sobre os desgostos de pessoas tão iguais
a mim, tão iguais. Sobre milhões de coisas
e de causas e de pessoas à janela dos dias
do oiro, dos dias do chumbo, dos dias da raiva,
dos dias do amor. Posso escrever até ao dia
das janelas abertas, das coisas claras, das causas
maiores, das pessoas que me batem à porta
de manhã e eu abro sem medo de saber
quem bateu. 
O dia será em que tudo foi escrito.

Licínia Quitério
.

17.10.11

ENTRANÇA AS MÃOS







Entrança as mãos. Assim,
como asas a caminho do sol.
Imagina que o meu corpo
foi pássaro e de pássaro
foram o desnorte, as subidas
doiradas, as descidas a abismos,
os esponsais de vento. Olha-me.
Aguarda o meu sorriso a desenhar
o coração das nossas águas.

Foi o que disse e tu cumpriste.
Permaneces imóvel num repouso
de penas. Espera mais um pouco.
Nas tuas mãos desperta o meu
corpo de pássaro. Um sorriso
demora. Virá no vento morno
e dirá o que nunca foi dito.
Por agora não saias do retrato.


Licínia Quitério

12.10.11

INFORMAÇÃO



À venda também nas livrarias

- Livraria e Papelaria 77, em Mafra

- Ao pé das Letras, na Ericeira

Obrigada.

Licínia Quitério

11.10.11

A PERFEIÇÃO




A perfeição não cabe
no cálice do peito.
Transborda, alaga os pátios
interiores, procura a foz
para morder restos de pedra,
rasgar as flores altivas
do silêncio, gritar o nome
da grande deusa das manhãs.
A perfeição é impiedosa.
Sufoca, agride, aperta,
é um amor selvagem,
uma garra de tigre, um
batuque no longe, um
hibisco a sangrar, uma
pomba, uma pomba a adejar
no coração.
Insuportável bem que não existe.

Licínia Quitério


2.10.11

SABER O MAR



Saber o mar, cara a cara, sal a pele,
na branca viagem dos barcos
que me sulcam as mãos.
Olhá-lo de manhã como quem bebe
a rosa líquida do dia.
Ao fim da tarde como quem pensa
uma criança nua ou uma cidade devastada.
Não me deter no olhar e caminhar,
descer a rua, uma rua qualquer,
que todas vão dar a outra rua que
as conduz ao mar.
Será o mar o meu amor
maior que mãe, amante, amigo.
Será  a minha pátria e o meu desejo
permanente de partir ficando.
Por isso desço a rua e o fito, cara a cara,
a qualquer hora, e bebo o sal e
molho a pele e fecho as mãos
que  guardam barcos e choro.
E fico.

Licínia Quitério 

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