24.11.11

MAIS DO QUE BRISA


Mais do que brisa
uma carícia no cetim da noite
um mudo harpejo
que só elas sentem
que só elas ouvem

É o tempo dos búzios
no peito das mulheres
o grande oculto mar
onde rebenta a onda
onde desaba o choro
dos que hão de nascer
dos que nasceram

No tempo dos búzios
a praia das mulheres
ou os seus olhos
ganha cintilações
de lagos encantados
no despertar dos mundos

As mulheres os homens
que as habitam
e os búzios e os búzios

Licínia Quitério

19.11.11

TANTAS VEZES SUBIMOS


Tantas vezes subimos os degraus da paixão
a esconjurar demónios de viagem
a conjugar passados com futuros

Tempo de brincar com palavras carnívoras -
sexo gengibre estandarte
ou imponderáveis -
abraço infinito teorema

Às vezes era o sol
que nos vestia de ouropel
e apagava o rasto dos chacais

As mãos pousadas em redes de silêncio
tecíamos pontes sobre o tédio

Antes de sabermos a medida do frio
quando se extingue a brasa
e as flores de gelo descem
exangues
a vertical das noites

Antes da verdura nas paredes



Licínia Quitério


8.11.11

AH QUE BONITO


Ah que bonito este país todo mar todo
azul todo saudade e fado e poetas e
mercadores que vão da índia às índias
e voltam com dentes de oiro no sítio
do sorriso ou não voltam e morrem por lá
pelas áfricas e brasis e américas várias
com a bandeira à tiracolo e uma dor no
peito. Todos tão semelhantes tão pintados
de espanto tão navalha na boca e coração
de pomba. Ei-los que partem heróis dos mares
e dos caroços das europas frutuosas.
Ah este país a entornar passado a despejar
os galos de barcelos a inventar provérbios
e um jeito antigo de encolher os ombros
e dizer que não há-de ser nada
que havemos de fazer eu volto logo
cuidado com os miúdos.

As mãos dos loucos ficaram para trás
e escalam as paredes e deixam manchas
marcas signos anúncios proclamações
de desespero futuro.

Frio é o sol nos abismos de verde.


Licínia Quitério


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