24.1.12

VERDE MAR


Podes dizer que o mar é verde
verde como os prados daqueles
países ao norte nos bilhetes postais
que chegavam no dia dos teus anos
e tu miravas e viajavas de mansinho
pelo corredor sombrio com um sorriso
guloso do chocolate do leite das vaquinhas
brancas pintalgadas de negro a pintalgarem
os tais prados verdes daquele verde
que agora dizes é a cor do mar
Isso era no tempo dos teus anos verdes
esses sim verdes como os prados
que depois pisaste e já não tinhas
um sorriso guloso nem mesmo um sorriso
triste e os chocolates foram amargos
que tudo fica amargo se os postais
demoram e às vezes chegam e dizem
nunca mais e mesmo assim ao dizeres
prado dizes mar ou meu amor como
no tempo verde dos teus anos

Licínia Quitério

16.1.12

UM CHEIRO A RELVA


Há um cheiro a relva
acabada de cortar 
nos passos leves com que medes
incansavelmente medes
a casa 

e o tempo de a viver


Não gastas 
a casa 

Acrescentas passado 
e escritas de sábios
à história que há de ter
a casa


Vestes 
a casa 
e o teu odor a ervas
pode ser o perfume das manhãs
o álcool das noites
o fumo do inverno 
o suor do verão


Sei que os teus passos
retomam a contagem 
quando a orquídea
na janela
abre um sorriso de mulher
e um tilintar de sinos
explica o vento
nos muros do quintal
onde respira
a casa



Licínia Quitério 


9.1.12

SOLSTÍCIO



Uma pena à tona de água
num crepúsculo sem deuses
O silêncio das aves
Uma súbita agonia
Tudo doi na tarde mais breve
de todas as tardes
Risos de infantes 

há muito envelhecidos 
cavalgam o solstício
Pragas bênçãos esconjuros
ladainhas remorsos rosários

abecedários obscuros incompletos
A tontura das nebulosas 
procura estrada no meu peito
O meu peito doi
Tudo doi na fronteira
insuportável da beleza
Tanto


Licínia Quitério 


4.1.12

SOBRE A AREIA


No dia das palavras 
apagadas, 
com as mãos desenharemos 
as cores da tarde sonolenta, 
a pele rasgada das casas
a alegria verde das plantas.
Quando faltarem as palavras
necessárias, na medida
das coisas nomeadas, 
caminharemos descalços sobre a areia
a inaugurar o livro das verdades
e o dos segredos e, antes do sangue,
o dos desejos.
O amor, à míngua de palavras,
só os olhos dirão, macios, irrequietos,
varrendo brumas e pináculos, 
iluminando a noite, alimentando
incêndios. 
Assim fechados, meus olhos sobre a areia.


Licínia Quitério





2.1.12

CLARISSE E OS ÁLBUNS




18. Ah como se lembra daquele inverno soalheiro de colher maresia e gritos de gaivotas e trazer tudo aconchegado para dentro do livro que começara a escrever há muito, muito tempo, quando ainda não sabia de desertos que nem de areias se povoam. Clarisse escalava rochedos e procurava ecos no côncavo das furnas. Inventava palavras para nomear o grande mar que para sempre lhe tingiu o olhar. Na velhice da foto, Clarisse reconhece o esplendor das ondas na sua posse faminta de mais mundos. Sentia-as tão próximo que chegava a pensar ser uma delas, assim violenta e poderosa, sequiosa e apaixonada. Talvez se possa ver, em contraluz, o contorno de um corpo, ou dois, abraçados, desafiando alturas e funduras. Barcos nem vê-los que a bravura do mar os não consente.   Uma fresta de inverno assim recolhida como uma alga ressequida entre papéis de recordar.


Licínia Quitério 

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