30.10.12

VI


Vi não sei bem se vi com os meus olhos de ver se com as mãos ou com a matéria incandescente do desejo na brevidade das mãos vi ou não vi no átrio a porta entreaberta o tilintar da loiça a sirene ao longe o aroma da alfazema vi agora posso afirmar agora que esse roçar de pele esse repique de sinos me acordou sim juro solenemente vi a tua cabeça esquecida do corpo do átrio dos ruídos dos cheiros da 
obscenidade da morte a tua cabeça a luz da tua cabeça a voz da tua cabeça tão igual tão antiga a voz dizia eu na fresta da porta no torpor da tarde pedindo ou dando é igual a sílaba única do meu nome as duas sílabas do sítio ainda inabalável redondo fogo e cinza janela e porta e a tua cabeça ou melhor a voz da tua bela cabeça dizendo

Licínia Quitério

NOVO LIVRO



E assim vai aparecer mais um livro de poemas. É o meu quarto livro, de geração tardia, como os outros, mas escrito com a vontade que a vida quis que em mim se renovasse, com a dedicação maior que ponho nas palavras, com tudo o que afinal sei e sou. No dia do lançamento, farei a festa como gosto, com os amigos de ontem e de hoje, do perto e do longe, com a voz que tenho, com a comoção que nunca falha. Não é nada importante. É só um livro. É só mais um bocadinho de mim.

A apresentação, que será feita pela HÉLIA CORREIA, decorrerá em Mafra, no salão dos Bombeiros Voluntários, no dia 10 de Novembro, pelas 15 horas.

Lá vos espero para o abraço. Muito obrigada.

Licínia


23.10.12

UM CANSAÇO




Há um cansaço por dentro desta tarde. Uma falsa quietude de seivas adoecidas. Bichos por entre as folhas mortas, amontoadas. Uma vozearia rumorosa, de palavras decompostas, insignificantes. O rodado dos carros é um rugido de feras severamente castradas. A minha cabeça inclina-se sobre a luz das candeias que nunca acendi. Há pobres à minha porta que desdobram papéis e recitam orações de santos que nunca adorei. Espero ainda as respostas impossíveis às perguntas impossíveis com que nasci. Chama-me a tarde, apodrecida e escura, entre o asfalto e as canas bravas, as velhas estrelas e um novo planeta. Cansada tarde, inclinada sobre a minha cabeça, comovida pelas luzes das candeias que ainda brilham, que ainda brilham.


Licínia Quitério

17.10.12

A NOVA ESTAÇÃO


Escuta, é a primeira chuva da estação. 
A minha boca seca aflora o barro, cheiroso 
à ingenuidade dos presépios da infância 
com seus espelhos-lagos a anularem maldições.
Põe a tua mão sobre a minha. Sente o sangue 
por baixo da pele, as toupeiras por baixo da terra. 
Cegos são e escavam vida inteira suas veias
infindas, desejando a  luz, dela fugindo.
Tens o espanto nos olhos. Há um livro que gorjeia. 
Eu explico - os pássaros andam mudos e eu guardei 
as vozes nos versos brancos dos meus livros.
Depois da chuva, a tua mão longe da minha,
o meu sangue paralelo às toupeiras, o barro
a desfazer-se com a memória dos presépios,
a debandada dos pássaros mudos. Nos livros,
o desenho das pautas dos seus imensos cantos.
É a nova estação. Podes já não escutar.

Licínia Quitério

5.10.12

INFORMAÇÃO

No dia 10 de Novembro próximo, será a apresentação pública de "Os Sítios", o meu novo livro de poemas.
Em devido tempo, darei as necessárias informações. Por agora, limito-me a deixar aqui convosco a expressão do meu contentamento por, mais uma vez ainda, reunir em livro poemas com que vou construindo os dias, os desejos, acalmando as sombras, os sustos, encontrando as amizades ou amores, que uma mesma coisa são para quem, como eu, confunde o riso com a lágrima, ambos fáceis, ambos indispensáveis. 

Voltarei para o convite.

Abraços, meus Amigos.

Licínia Quitério

1.10.12

DEIXA-TE FICAR

Deixa-te ficar. Encosta o cansaço
ao vermelho da rosa 
esquecida ela também de ser botão. 
Pensa na história mil vezes contada 
e acrescentada e sempre a mesma 
e já outra, a história.
Podes até não falar. 
Passeia os olhos nas capas dos livros, 
para cá, para lá, numa procura 
sem tempo de achamento. 
Os relógios não dizem tic-tac, 
mas tu vais ouvi-lo e leve, muito leve, 
a tua mão na mesa num batuque do longe, 
das  terras quentes que te não viveram. 
Fica mais um pouco. 
No vermelho da rosa aflora o negro. 
No teu rosto um sorriso de lua, 
a memória da prata.
Espera o piar dos mochos,
o coaxar das rãs, o cio triunfal
da vida sobre a morte.
Agora vai. A história espera
que a inventes, a contes, a acrescentes.
Que nunca o dia chegue de a saberes.


Licínia Quitério 

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