29.6.13

FLORES



Filhas dos esponsais da luz e da treva.
Florir é verbo entre nascer e morrer.
Cantam as flores a canção da terra.
O sangue delas ferve sobre o gelo.
Duram, imóveis e mudas.
Não se indignam. Renascem.

Licínia Quitério

26.6.13

TÃO POUCO FOI



Tão pouco foi o que mudou. A porta ainda a mesma, com seu chiar nos gonzos, seu gemer de cansaços. O céu semeia oiro ou água ou vento, a endoidecer as virgens, a agoniar os velhos. Bem vês, pequena é a mudança. A farinha ainda é pão e o pão é corpo e o corpo é alimento da vontade. Os sonhos continuam, talvez mais imprecisos, mais voláteis, e as vigílias mais longas, a segurar as pedras na encosta. Se queres saber do sobressalto dos pardais, posso dizer-te que já não bato as palmas, que aprendi o sossego das ramadas. Solto os braços, embrulho-mna tarde, abro o livro. Um novo conto há-de começar.

Licínia Quitério

19.6.13

CORRENTES


Quantos elos nos prendem, 

nos impedem, nos mutilam? 
Com as correntes vamos, 
por força de ventos e marés 
de escárnio e maldição. 
Contra as correntes vão os pulsos 
e deixamos o sangue escorrer 
e refazer a pele dos dias 
com suas noites dentro. 
Além dos pulsos há as mãos 
a prender outras mãos, 
a fabricar outras correntes, 
amáveis laços, ternurentas penas, 
força de amor e desamor, 
respiro ondulante, graça, vitória, 
do fogo ao ferro, do ferro ao sol, 
inexplicavelmente.

Licínia Quitério  

12.6.13

DAS FLORES


Posso falar-te das flores. Baixinho, na dobra do outono, quando se despedem as voadoras. Em voz clara, nas harpas da primavera, dedilhando a esperança. No cimo da montanha, na coroa do verão, de braço dado com as raparigas de desejo suadas. No inverno, sim, posso tentar a fala rouca das sementes na espera em seu covil. Flores de todo o ano, sempre vivas, adornando versos, muros, campas, berços, canteiros, boas vindas, despedidas. Ai de nós na desistência das flores, descoloridas, tímidas, procurando o chão, cansadas flores, despedaçadas, violetas em botas cardadas, ainda assim perfumadas, alento de poetas, de virgens esfomeadas. Falemos então das flores.

Licínia Quitério

4.6.13

DEVASTAÇÃO


Em tempo de desventura 
os poetas falam 
de ervas daninhas 

porque a escassez das rimas não ajuda
a conjugação precária do amor
Viram a nascente o coração e
soletram novas sílabas
nas malhas apertadas da ternura
Com o orvalho da manhã
nascem-lhes nos dedos margaridas
que abrandarão a raiva de saberem 

seus versos poluídos
nos ímpios altares da fortuna

Choram os poetas e 
os anjos acrescentam
penas
pétalas
cantos
aos seus campos
devastados

Licínia Quitério

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