31.7.13

DE QUANTAS VIDAS


De quantas vidas me vivo? Quantos sonhos, quantos sustos, quantos lutos, quantas lutas, quantos amores, quantas dores, quantos minutos de espanto, quantos segundos de pranto, quanta guerra, quanta garra, quanta batalha perdida, quanta força renascida, quanto mundo me agarrou, quanta terra me soltou. Tudo muito e mais e tanto que me canso e me descanso na estrada que fui pisando, na rede que fui tecendo, no livro que fui escrevendo, a paixão continuando e os olhos alongando para o lado de lá do mar onde a água será tanta e tão salgada e tão doce como esta história de mim, tão banal, tão mentirosa como se verdade fosse.

Licínia Quitério

29.7.13

A INCONSTÂNCIA DAS ÁGUAS



A inconstância das águas inunda-me a memória quando me debruço no leito imemorial das fontes. Ao meu encontro vêm as sombras ondulantes dos castelos submersos pela incúria dos homens, pela quezília dos deuses. Um canto ignoto aflora a minha dor e uma dança acontece-me nas estradas do corpo. São flores inertes, silenciosas, imponderáveis, de pétala aguçada, de fogo e de gelo, tão distantes da vida, tão distantes da morte. O apelo da mãe de água, seu anúncio de limos, seu  respirar de réptil, meu desvario, meu cansaço, minha vontade de ficar e de partir, silente e nua, também líquida, na abstinência dos sentidos, na absoluta ignorância do amor.

Licínia Quitério    

23.7.13

SENTO-ME


Sento-me na inutilidade das coisas quando secam os frutos à míngua de carícias. Peso tanto como as minhas pernas cansadas de alinhavar viagens. A penumbra é um lugar indeciso aninhado no veludo do tempo. Na hora de folhear as outras horas, passam por mim cavaleiros de infindáveis batalhas, corças assustadas, cabeleiras fulvas, flores de oiro velho. Espero um teatro novo, de carne e não de sombras, de vozes alagadas de riachos, de corpos nus, terrenos, fabulosos, fabricando o pão, repartindo. Adormeço.

Licínia Quitério 

9.7.13

SE TU VIESSES


Se tu viesses ver-me e eu pudesse amar-te para além das coisas claras, perceber a noite e o seu dia futuro, matar o mal que nos ferra a virtude, ressuscitar o lobo que se perdeu no escuro quando perdeu a loba, explicar a persistência da floresta que espreita nas areias, dizer que continuo e não sei se comecei a falar-te deste sítio imenso e eterno, janela da casa sempre por construir, açoteia, vigia de estrelas, perdição, precipício, amor maior que as coisas claras, luz ausente, vida plena, morte. Se tu viesses.

Licínia Quitério

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