28.1.14

GUERRA E PAZ



Passam os homens e no seu rasto ficam  as muralhas a  contar a história da defesa e do ataque, do saque e dos saqueados, dos heróis e dos cobardes, dos homens guerreiros, das mulheres guerreiras, da força do ferro, da escassez do pão, da vigilância, da artimanha, da traição, da lealdade, da indigência, da fartura, da queda, da vitória, do ouro e do sangue, da matança, da embriaguês, da humilhação, da confiança, da desistência, da glória dos vencedores, do opróbio  dos vencidos.

A queda das muralhas, o campo aberto, o gado tresmalhado, a orgia do ar novo, a confiança, a fartura, a alegria, os homens de paz, as mulheres de paz e as crianças que dantes não havia.


Passam os homens  e no seu rasto ficam as muralhas a contar a história, a repetir a história, eterna a história de erguer muralhas, de derrubar muralhas, e sempre e sempre a glória eterna, o opróbio eterno e, por raras vezes, os homens de paz, as mulheres de paz, a cuidarem crianças que na guerra não havia.

Licínia Quitério  

26.1.14

NÃO TE ILUDAS


Não te iludas, o teu poder tem apenas o peso da tua bolsa. Menor do que o teu medo é o teu grito de comando. O teu desejo de água será sempre do tamanho da fonte que não alcanças. Podes fazes nascer a construção que guardará o teu tesouro, mas não a liberdade. Se isto aprenderes, talvez um pássaro pegue o teu tormento e te mostre a gota que faz viver o amor.

Licínia Quitério 

19.1.14

CINEMA


Passeio em ti como num corpo nu.
Percorro-te, abraço-te, comovo-me.
Cidade foste do tempo da ternura
a deslizar dos braços para a rua.
Na sala do cinema havia pombos
e grãos de lua nas nossa mãos
ausentes do tormento, da geada.
Corria o filme e nós com ele, brancos,
despojados, aninhados na hora
que era a nossa e se cumpria.
Estava escuro lá fora, a casa envelhecia.
Lá dentro a história ardente acontecia.
Passavam rebuçados da minha boca
à tua, em calda de desejo e de doçura.
Por lá ficámos, do futuro esquecidos,
arrumados em latas de memória.
Percorro-te, descubro-te, invento-te,

tropeço na calçada, sujo-me na caliça,
regresso à sala como se fosse a mesma,
como se fosse eu que ali estivesse
e a história inacabada terminasse,
desfeito o rebuçado, desenrolada a fita.
Disseste corta! ou fui eu que adormeci?

Licínia Quitério

16.1.14

AMAR UMA PEDRA


Amar uma pedra é descobrir-lhe o coração. Entender o respirar dos séculos, os traços, as cicatrizes. Não confundir beleza com tragédia. Saber os nomes do rei e do construtor. Contemplar colunas e os braços a erguê-las: as rendas e as feridas. Capitel como cabeça a altear o fuste e a suportar o tecto, o céu. Adivinhar a palpitação do homem, o poder do homem, a ousadia do homem, a miséria do homem. Ajoelhar se for preciso, beijar o chão da pedra, ouvir, vindas da terra, a humildade da pedra, a soberba do homem, o bater de um coração, que foi pedra, que foi homem.

Licínia Quitério

11.1.14

AS CIDADES ABERTAS



Levei-te a passear nas cidades abertas, construídas antes de eu ter entrado nos dias da névoa e do ruído, antes da partida da rola de peito róseo a que faltava uma asa. Havia gente nas janelas, havia janelas nas casas, havia casas nas ruas, havia ruas na cidade. Havia e não havia. Por dentro de nós passava o mundo,  saía e entrava sem licença e não deixava traço nem poeira. Cidade que tocássemos passava a respirar na nossa mão, no nosso olhar. Assim voltávamos à cidade que não voltava a si mesma, que nada volta a ser o que uma vez vivemos. E nós já outros, e a imobilidade das estátuas a retardar-nos o passo, e nós caminhando sempre, pensando frutos e nunca os pronunciando, tal qual como nos sonhos em que passeamos por cidades abertas, sem névoa e sem ruído.


Licínia Quitério

3.1.14

NADA A OPOR



Nada a opor. O céu azul, a pedra branca, a planta verde. E a água, dirás, que não tem cor. Tudo o mais se faz curva, princípio e fim, o ar que somos, a chuva prometida. É a íris, é o arco, é o desejo de subir, de perceber a luz e a ilusão, o som além do sino, a erosão a preceder a queda, a ascensão da seiva e o seu regresso. Assim se faz a história do acordar em campo aberto à nossa incompetência de viver, no começo do escombro, anunciado nas runas, na beleza insondável das ruínas.


Licínia Quitério  

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