25.8.14

OS POETAS


Os poetas morrem muito. 
Morrem antes de fecharem um poema. 
Os poetas morrem cedo. 
Morrem com a luz da madrugada
ou com a noite a que chamam madrugada. 
Não se sabe que idade têm os poetas quando morrem. 
Têm a idade do primeiro ou do último poema que foram. 
Quando morrem não acrescentam estrelas às estrelas.  
Não foi para isso que nasceram. 
Morrem e brilham, os poetas.

Licínia Quitério

foto de António José Borges

24.8.14

AS ÁGUAS


Poucos se salvam das águas.
Muitos se perdem nas águas.
Todo o mar abismo, perdição.
Mais sal, menos sal, 
mais sangue, menos sangue.
À beira-mar, à beira-vida, à beira-morte.
Dizem haver ilhas tão belas
que os homens se aventuram
e vão. Muito mar, muita dor,
até findar o mar, achar o outro lado,
que pode ser ilha ou coisa nenhuma.
Pela fome é que vamos, dizem uns.
Outros dirão: é pela ambição.
Em terra sempre fica quem 
aprontar melhor embarcação,
não vá o mar crescer e afogar
ou secar e salgar.
Salgada e seca, sim, a pele de Ulisses
cansado de marear.

Licínia Quitério

20.8.14

A LUZ DA NOITE


Vou com a luz da noite. 

Não digo escuros os dias. 
Digo a fuga do arco-íris 
e a violação do pote de ouro, 
sem ouro, só reflexos de ouro. 
Cegos os homens de cegueira nova, 
vergados à ilusão das varas. 
Veladas as mulheres, 
videntes, bruxas, pitonisas, 
a carregarem filhos, flores de areia, 
estilhaços de metal e fome. 
A luz da noite me dará a cor dos campos, 
os rostos das mulheres, 
os homens recuperados da escuridão, 
os filhos-flores. 
Para trás ficará o estrépito da guerra, 
o peso das varas e o seu rancor. 
Pode ser que a luz da noite me segrede a explicação do dia. 

Licínia Quitério

14.8.14

JÁ NÃO TE LEMBRAS


Já não te lembras de me teres falado da sobrevivência das rosas, da sua permanência nos desertos, onde os homens lhes dão nomes impróprios, ignorantes da teimosia das rosas revelando a água, prometendo novos lagos que matarão a sede, matarão a insânia. Eu recordo como o brilho dos teus olhos atraía o perfume das rosas, ainda que o inverno corresse áspero, e das rosas do quintal não houvesse mais que uma estação de esperas. Neste tempo de cardos e fogueiras, revejo as rosas que dizias, na infâmia das cidades. São as rosas de sangue, rente aos muros, a afirmarem a impermanência do ódio e a anunciarem os lagos que, disseste e não te lembras, serão o fim da  seca e da loucura. 


Licínia Quitério 

7.8.14

A BELEZA


Só a beleza nos salva da demência. 
Quando nascemos é ela que buscamos
e chorando invocamos. 
Assim se esvai a vida, no medo 
de saber que não a encontraremos, 
porque de fumo a fronteira 
entre a bela e o monstro 
e de agulhas a dor de não sabermos
se belo é o que chamamos monstro, 
se horrível é o que dizemos belo.
A demência nos mata quando
o tempo de entender se é belo ou feio
se dissipou e deu lugar à nebulosa
onde tudo cabe, tudo igual
aos outros e a si próprio.
Palácio, floresta, canto ou grito,
tudo o mesmo. Ali será que a bela
e o monstro se perderão de amores.

Licínia Quitério 

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