19.9.14

ASTROS


Não vale a pena procurar astros morrentes, que para tal nos basta o espelho de água, nas voltas do tempo vário.
Grandiosa a corrida dos peixes rio acima, na sua estação de esperanças, na ignorância da força da corrente.
Maior é a vida que carregam.
Correm as folhas do Outono, monte abaixo, ao sabor da levada, arrefecida a seiva, cegas pelas esperas.
Entre o peixe e a folha um astro se levanta.
Nascentes, inaugurais, brotam palavras.

Licínia Quitério

15.9.14

VAI


Vai, traz-me do longe o pássaro de chamas.

Longe é o passeio do nosso olhar.
Volta, eu te darei a asa líquida da noite.
Perto é o bater do nosso peito contra o outro, embora longe, ao largo, num lençol navegante, remo ou vela, barco ou pedra, tanto faz.


Licínia Quitério

7.9.14

O MAR


Um homem diante do mar pode ser toda a praia, todo o céu e alguma ave passageira.
Sentado na areia, pode receber uma onda ou recusá-la.
Talvez a sétima, disseram-lhe, mas ele não sabe contar.

Licínia Quitério

Foto de O MAR, de Jean-Michel FOLON


6.9.14

ERA UM VIOLINO


Era um violino.
Nada mais.
Um chapéu preto,  um vestido vermelho, o perfil mudo de menina, uns olhos fechados, o violino preso ao vestido.
Havia o silêncio  dos olhos e o vermelho  do  vestido.
Um cão não havia, mas o saco onde tombavam moedas.
O violino tocava  e as folhas do Outono roçavam o vermelho, no ombro do vestido, no braço do violino.
Era o Outono.
Nada mais.
Um violino em silêncio, um perfil em silêncio, uma moeda no saco e outra, e outra, até ao fim do arco, até ao cão do Inverno. 


Licínia Quitério

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