29.9.16

ERA UM SONHO



Ver um sonho e dizer pedra,
ouvir chuva e dizer harpa,
trincar fruto e dizer sol
pode ser um desatino.
Abra-se então a janela
para ver se a pedra rola,
para ouvir se a chuva cai,
arde a maçã ou apodrece.
Cinco sejam os sentidos
cada um no seu lugar
a darem sinais de vida
mal contada, mal gerida,
baralhada, mas vivida.
E a janela a bater
com o vento a repetir
vai e volta, volta e vai,
olha a pedra que não rola,
olha a pedra que se esvai.
Era um sonho na janela,
era um sonho que eu bem vi,
se pedra disse menti.


Licínia Quitério

15.9.16

UM VERBO


Olhas os cisnes a debicar as penas 
e pensas, quem me dera ser
a água onde se banham, 
o tronco reclinado no umbral da tarde 
que só os cisnes vêem, e pisam 
como se estrada fosse.
Lembras os dias de espuma 
da brancura dos cisnes
e segues a pensar, quem me dera.
No peito uma palavra a arder,
a afastar as sombras sob as águas.
Quem me dera um verbo 
que não cantasse.
É o que pensas.
É o que os cisnes pensam.

Licinia Quitério


11.9.16

JANELAS


Que sabes tu das janelas abertas sobre as ruas
senão dos traços a carregar memórias 
de olhares que as devassaram?
Quedas-te a adivinhar de quem as casas,
donde  os metais, os vidros,
quais os últimos dedos que as tocaram.


Janelas iluminadas por faíscas diamantinas,
trespassadas por silvos de comboios,
atentas à estridência e ao silêncio das gares, 
antes e depois da viagem dos homens.
Olhos de construtores, misteriosas grafias,
saudades de cidades belas como nunca houve,
de mulheres não veladas, de homens potentes, 
prestimosos, despidos de loucura, a louvarem
a vida, a fabricarem.

Pouco mais saberás das janelas,
dos homens que as quiseram,
dos que as olham e dos outros,
passantes, indiferentes,
à beira de cegarem.

Licínia Quitério 

2.9.16

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