31.10.16

PARÁBOLA


Andam os nossos olhos assombrados
pela vastidão dos mares 

maiores que o medo
que a penúria.
No mar do meio é sempre noite.
Há uma hora a menos que aprisiona
as mãos cansadas de areia
os olhos encharcados de balas.
No ventre das águas
tem de haver florestas
árvores petrificadas
peixes cegos.
À tona há vultos
que se deixam pescar.
A praia é sementeira
de silêncios.
Se uma criança chora
as mulheres  dizem:
É o meu filho que se salvou das águas.
Para não enlouquecerem
as mulheres inventaram
as parábolas.

Licínia Quitério

20.10.16

CONVITE


15.10.16

ROSTOS


De quem os rostos no desfilar das horas?
Perfilam-se, fixam-nos, sacodem-nos
da modorra, do fastio.
Interrogam-nos, perguntam-nos
e nós não respondemos.
Queríamos ser um deles,
vivê-los, se necessário amá-los,
arrancá-los à história, trazê-los,
sobre o nosso papel colar o deles.
Do impossível fazer casa,
fazer riso, mudar a pele,
partir à descoberta.


Nada a fazer.
O nosso rosto mora deste lado.
Entre nós e os outros
a película do tempo
que pode ser fugaz,
que pode ser eterno.


Licínia Quitério

1.10.16

A HARPA



A harpa de folhas ensaia a música do Outono.
Vou à janela como se alguém estivesse para chegar.
Componho o cabelo, aconchego a gola do vestido.
Defendo-me do vento leve e da frescura do calendário.
Enrosco-me em lembranças cor de feno com a quentura do sol
e dos corpos extenuados dos homens.
Demoro-me no deslizar vegetal, encosto-me à velha ternura
dos degraus da escada, aos bordados de cal nos muros
sobrantes do Inverno.
Aqui permaneço, melancólica, na esteira do meu país,
nos seus estranhos dias em que o vinho não morre nem fermenta.

Licínia Quitério

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