28.2.18

O OIRO

 


se eu tivesse a idade das montanhas
e a sensatez das aves em viagem
eu seria capaz de construir
por minhas mãos a casa a mesa 
a toalha o arado
de inventar as palavras que não ferem 
nem sobram
de transmutar em pão o pó das derrocadas
de aprender e ensinar ao mesmo tempo 
e sempre
seria até capaz de devolver ao marinheiro
o mar
o peixe ao pescador
ao camponês a terra

mas pensando melhor
à minha sorte só faltava o oiro
para eu poder comprar
o mar a terra o ar
e mais ainda
a morte

Licínia Quitério 

20.2.18

INTIMIDADES


Recordo hoje as horas em que líamos
sentados nos sofás da sala
todos desiguais
um era grande e escarlate
o outro era branco e outro ainda mais pequeno
tinha por cima uma manta de quadrados.
Líamos e de vez em quando falávamos do que líamos.
Raramente estávamos de acordo
como convinha à diferença que cultivávamos
com primores de jardineiro.
Recordo bem a tarde em que lias
relias
um livro sobre trigonometria
em búlgaro
tenho a certeza
a língua em que chegaste a sonhar.
Eu teimava em terminar um poema sobre o Pont-Neuf
que não leste.
Dessa tarde não recordo mais nada.
Talvez tu tenhas adormecido no sofá branco
e eu me tenha embrulhado na manta de quadrados.

Afinal era Fevereiro e fazia frio.

Licínia Quitério

12.2.18

A OUTRA



Fui outra que passou e outra e outra e tantas.
De todas me perdi. 
Continuei. Os olhos deslumbrados de sol. 
As sombras essas as apaguei ou as bebi 
já não sei. 
Os dias houve de cantares e amores amigos.
E os outros de resistir e subir pelas cordas 
e chegar ao cume e perceber um pouco mais. 
Sou a de agora a que principiou o livro e o vai escrevendo.
Difícil é construir o fim da história 
a de todos os nomes todos os retratos.

Licínia Quitério

6.2.18

ANDARILHOS


São vultos contra a luz.
Têm dentro pessoas que vagueiam
em direcção ao outro lado
sempre ao outro lado
do muro do bosque da praia
do nada que às vezes dizem vida
sem grandes certezas a não ser
a da criança que transportam
e se atreve a rir e a chorar
e as ajuda a correr e a saltar
contra a distância contra a altura.
São andarilhos vagabundos
viageiros aventureiros inquietos
da partida ansiosos da chegada.
Têm pressa. Já beberam muitos rios
saborearam cidades países continentes.
Provam o vinho o pão a fruta.
Em várias línguas se apresentam
se despedem. São músicos
do vento e do deserto. São poetas
do amor da liberdade. Construtores
de construções inacabadas.
Caminham em direcção à luz
inda que seja noite. Amam demais.

Licínia Quitério

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