19.9.06

VIRÁS

Fragonard

Virás solene e belo

com o brilho da prata
e o verde dos limos
e a maciez das pétalas
e a ternura inconfessada
dos guerreiros.

Sorrirás pelos trilhos da alva
desviando as facas
domando as fúrias
do meu descaminho.

Perguntarás:
Mulher quem és agora?
Lavarei as mãos
nos meus ribeiros
para nelas beber a tua voz.

Não te responderei
antes do anoitecer
quando o meu corpo
se esquecer do cardo
e se fizer o lírio.

Aguardarás sereno
como uma prega
na espádua do tempo.

A hora chegará
de retalhar as cordas
e atravessar o espelho
e apagar o lume
na casa da montanha.

Só então te direi:
Sou a pedra de canto
do sítio que habitavas.
Meu nome um monossílabo
como tu como eu
como chão como céu.

Licínia Quitério


Vou fazer uma pausa. Espero regressar brevemente. Este convívio é precioso demais para desistir. Que a Poesia, como eu a sinto, vos acompanhe.

Licínia

15.9.06

DA POESIA

Auguste Rodin - A Catedral

Se o poema demora,
espera o progresso dos ramos,
o choro oculto
na voz quente dos homens,
o anúncio do verão
na curva da cintura das mulheres.

Repousa as mãos na mesa
até que se desdobre
o algodão bordado
e se apresente o pão.
Dorme.
O corpo sobre a manta
da névoa litoral.

Acorda, com a calma
de um dia sem defeito.
Acolhe a ternura nas mãos,
o beija-flor no peito,
a música na pele.

Chegará o poema
a inundar a folha de papel,
a gravar nas sementes
a quentura do sol,
a desenhar perfis
de estátuas gregas
no céu do laranjal.


Licínia Quitério


"... Para seu equilíbrio, o Homem necessita tanto de instrumento como de símbolo, tanto de funcionalidade como de poesia, tanto de engenharia como de transcendência.
O excesso de um destes lados da balança produz doença. O excesso de instrumento produz a angústia de um grande vazio interior. O excesso de símbolo pode levar ao delírio sem meta nem objectivo.
A nossa sociedade prima pelo excesso de função. Pela falta de voo. Pela incapacidade para dialogar com as grandes e misteriosas forças do Universo e da alma humana.
Mas em todos os momentos da História apareceram os artistas e os poetas com as suas oficinas de pedras e de cores, de palavras e sonhos, a tentar levar o nosso olhar mais acima e mais ao fundo.
Estes artistas e poetas são homens e mulheres inquietos. Gente que se interroga sobre as suas angústias, que fala com a macieira e com a corrente do rio, que constrói catedrais e que se alimenta de música. ..."

JOSÉ FANHA

10.9.06

DO VAZIO

Foto antiga


Vazios os lugares
e as mãos abertas
a tactear os rostos
como paredes nuas.
Pálidas as vozes
e nos ouvidos
só apelos de mar
na vaza da maré.
Quando por fim a tarde
aceita a rendição
as mulheres amam
os lugares vazios
e deitam-nos no colo
e embalam-nos
com as vozes sobrantes
do cansaço.
Mesmo os lugares vazios

sonham com a enchente
na cava desse abraço.


Por instantes, a mulher desafiou o vão do arco e casou o corpo com o aprumo da coluna. Ergueu o braço e, com a mão em pala, ajudou o olhar na busca do rio. Talvez tenha avistado as caravelas por detrás das casas. Voltou-se a sorrir e convidou o homem: Vamos continuar as descobertas? Foram. O lugar permaneceu. Sem o sorriso de inventar navegações. Vazio.

Licínia Quitério

5.9.06

DAS MÃES

Postal antigo

Afagam os cabelos dos filhos
com dedos desarmados
e pensam fios de linho
no tear das lembranças
do enxoval.

Do linho nascem panos impolutos
que com dedos armados vão rasgar
até que a fios tornem.

Quando os filhos partirem
percorrerão os vales
subirão aos montes
com os fios do linho nos braços
a cantar.

Alguns ficarão presos em silvados.
Outros se perderão pelos caminhos. Mas
a paciência das mulheres é infinita
quando se trata de voltar ao tempo
de afagar as sedas

ou de rasgar o linho até ao fio do olhar.

Recordas-te, Mãe? Eu tinha os cabelos ruivos e encaracolados. Sentias muito orgulho na cabeleira da tua Menina. Dizias, quando eu corria ao Sol do meio-dia, que a minha cabeça parecia envolta em labaredas. E, ao dizê-lo, os teus olhos verdes eram lagos de Verão.
Depois, o meu cabelo envergonhou-se e escureceu. Acalmou as chamas. Mas ainda hoje, se está feliz, ganha reflexos rápidos de cobre líquido.
Agora estás a dizer-me que um dia os meus cabelos serão brancos, como os teus. Vou gostar. Já que não tenho olhos de mar, terei um diadema de espuma branca, como as ondas.
Recordas-te, Mãe? Quando eu aninhava a cabeça no teu colo, os meus cabelos corriam em busca da seda das tuas mãos. Tudo ficava tão lindo, Mãe. Recordas-te?

Licínia Quitério

31.8.06

DA SAUDADE



Salvador Dali - Rosa Meditativa

Ainda é cedo, sabes?
As pedras são maiores que as nossas mãos.
No ar pesa a espessura da tristeza.
As uvas estão verdes.
Não é tempo do vinho.
O grão já é farinha mas
o fermento dorme.
Não é tempo do pão.
Pequenos os seios das mulheres.
Não é tempo do leite.
As abelhas zumbem mas
a flor do rosmaninho é só botão.
Não é tempo do mel.
Amargos os lábios dos homens.
Não é tempo do beijo.

Ainda é cedo, sabes?
Esperemos de mãos dadas
sentados no caixote dos brinquedos
bebendo os versos que havemos de escrever.

Verás que amadurece o tempo da saudade.



Vamos a um dicionário e encontramos a definição da palavra saudade: lembrança triste e suave de pessoas ou coisas distantes ou extintas, acompanhada do desejo de as tornar a ver ou possuir; pesar pela ausência de alguém que nos é querido; nostalgia.
Sabemos que é um substantivo muito comum, do género feminino (tinha de ser?), singular em número. A partir deste enquadramento gramatical, podemos dizer:

"Prazer em conhecer-te, saudade. Vou fazer-te sujeito da oração: A saudade é transparente. Ou objecto: Eu sinto saudade do mês de Abril. Adjectivar-te: Saudade louca. Quantificar-te: Tanta saudade. Tecer considerações a teu respeito: A saudade não mata. A saudade seca. Dar-te ordens: Vai-te embora, saudade."

Um desafio:
Saudade é...
Quem quer arriscar um sinónimo? Claro que não virá em dicionários. Tem de vir de dentro, do coração.
Fico à espera, na volta do correio.

Licínia Quitério

26.8.06

DA NOITE






Vincent Van Gogh - Noite Estrelada


NOCTURNO

Eram, na rua, passos de mulher.
Era o meu coração que os soletrava.
Era, na jarra, além do malmequer,
espectral o espinho de uma rosa brava...

Era, no copo, além do gin, o gelo;
além do gelo, a roda de limão...
Era a mão de ninguém no meu cabelo.
Era a noite mais quente deste Verão.

Era, no gira-discos, o "Martírio
de São Sebastião", de Débussy...
Era, na jarra, de repente, um lírio!
Era a suspeita de ficar sem ti.

Era o ladrar dos cães na vizinhança.
Era, também, um choro de criança...

DAVID MOURÃO-FERREIRA


É de noite e pelas paredes da casa escorrem sombras, a iludir as formas, a engordar volumes.
Ela é Alice e olha o gato enroscado no colo.

As flores na jarra secaram, mas a lembrança do orvalho dá à noite um cheiro líquido. Os livros dormem e alimentam a avidez das traças.
De longe, chega o lamento uivante de alguém que se perdeu e não voltou a casa.

É de noite que chora. Não grita, não soluça. Só lágrimas a lavar a máscara do dia.
De noite escreve. Sem endereço, que o mensageiro é a própria noite, sabedora de destinos por cumprir.


Licínia Quitério

25.8.06

DESAFIOS

Egon Schiele - Mulher Sentada


O Herético teve a gentileza de me nomear, no Jogo de Etiquetas que anda a passar entre bloguistas. Correndo o risco de não fazer a escolha mais correcta, porque apenas posso etiquetar seis Amigos, aqui declaro:

Alfazema Azul - O Preservar da Memória
Amar Palavras - A Poesia à Flor da Pele
Diafragma - O Bom Senso e o Bom Gosto
Dovoar - A Poesia em Estado Adulto
Era uma vez um Girassol - O Feminino
Papel de Fantasia - O Saudável Humor

Escuso-me a por etiquetas em mim própria. Deixo a tarefa para quem me conhece pelas palavras que escrevo.

Que este desafio seja mais um sinal de que as cumplicidades e as partilhas são possíveis neste nosso território "blogal" que também é, em grande medida, um local de recreio do espírito.

Licínia Quitério

20.8.06

DA GUERRA


Delacroix - Entrada dos Cruzados em Constantinopla

Chegam notícias da guerra.

Disseram-me que as guerras
visitam as cidades.
Tenho medo.
A minha cidade é antiga.
As ruas têm pedras soltas
em que os velhos tropeçam.
Na torre da igreja maior
faltou o azeite.
As corujas partiram.
Os jardins estão pobres
(a chuva tem sido salgada).
Mas na cidade eu habito
e nela acolho os irmãos
e os filhos deles.
Na pequena praça
há o banco verde
com uma criança ao colo.
É uma cidade triste,
mas antes de o ser
já era a minha cidade.

Chegam notícias.
Penso fechar as portas da cidade
e convocar as cores.
A cidade será
o ocre da planície,
o cinzento do céu.
Cidade sem cidade.

Dizem as notícias
que a guerra nada sabe do silêncio.


Nos teus olhos morava, desde há muito, a guerra. Talvez lá tivesse estado desde o princípio. Da guerra soubeste quase tanto como do amor. Quando ela, sem convite, se sentou à tua mesa, afastaste decididamente as formigas de asa que te disputavam a carne ressequida. Olhaste os pés e viste que te tinham calçado botas de soldado. A palavra inimigo passou a morar diante da tua porta. Pensaste em acompanhar a debandada das formigas de asa e procurar o deslumbre de uma lâmpada. Mas mandaram-te ficar. Vestiste as cores sujas dos guerreiros e defendeste o teu charco e a pele dos teus homens. Apuraste os cálculos e a pontaria. Conseguiste, disparando, dizer ao inimigo: "Não te matarei. Não me matarás.". O pacto foi selado na escuridão da noite tracejada pelo lume das balas .
Na tua guerra ninguém morria. Até ao dia em que, de ambos os lados, o pacto foi quebrado. Nada pudeste fazer. Voltaste, incólume. Mas nem o amor conseguiu tirar dos teus olhos a dor de teres visto a guerra.


Licínia Quitério

15.8.06

DA ALEGRIA


dizes-me alegria
e abro-te a janela do meu peito
onde se escondem ramos
de perpétuas roxas

vem colhê-las com os olhos

a aragem dum beijo
poderá magoar
o tule a seda o vidro
à beira de quebrar



Os nossos sentimentos podem ser tão frágeis quanto esta árvore que Klimt pintou, quanto uma folha seca entre as páginas de um livro. Que fazer da alegria ? Contemplá-la, segredar-lhe carícias, abrir a alma e dar-lhe guarida, se quiser. Quando for embora, poderemos abraçá-la com força. Uma boa lembrança é um animal vigoroso a desbravar caminhos.

Licínia Quitério

10.8.06

DAS PALAVRAS


Helena Vieira da Silva - Biblioteca

Batiam asas mas
sempre tropeçavam
em borboletas brancas.
As sílabas
na busca do palácio
das palavras.
Assim dizias tu
a desculpar
a visível mudez.
Quando a chuva lavava
a pobre fala dos homens
choravas letras
dentro dos dicionários.
As estantes gemiam
ao peso das ideias
afogadas.
As larvas entretinham-se
a devorar discursos.
Não desesperaste.
E o dia aconteceu
em que disseste
a única palavra permitida
a quem pela voz dos anjos se perdeu.



O menino disse: Vem.
A menina disse: Fico.
O menino disse: Porque ficas?
A menina disse: Sou assim.
O menino disse: Já viste o bosque?
A menina disse: Gosto de medronhos.
O menino disse: Eu trepo às árvores.
A menina disse: Tenho medo das cobras.
O menino disse: Gosto muito das tuas tranças.
A menina disse: O meu pai é poeta.
O menino disse: A minha avó é Maria Isabel.
A menina disse: Estou cansada de dizer tantas coisas.
O menino disse: Quando for crescido compro um avião enorme.
A menina disse: Deixas-me encher o avião de letras?
O menino disse: Deixo.
A menina disse. Vou.

Foram bonitos para sempre porque falaram juntos muitas palavras felizes.

Licínia Quitério

5.8.06

HISTÓRIAS


Conta-me uma história
com lobos maus, raposas a voar,
cegonhas sem vergonha,
palavras a rimar.

Conta.
Que se não contas, Mãe,
com que é que eu vou sonhar?






Foto de Joana Leitão, em Mafra Regional

São os novos contadores de histórias. Andarilhos que percorrem o país, a desenterrar tesouros para os salvarem do esquecimento e depois os partilharem com crianças, em escolas, bibliotecas. Recolhem histórias, às vezes dão-lhes novas roupagens e depois contam-nas, com vozes bem moduladas e gestos expressivos, em salinhas coloridas, e encantam miúdos e graúdos. São modestos acontecimentos que não merecem notícia da chamada imprensa de referência. É pena. Neste nosso mundo de desalentos, seria conveniente anunciar que há gente que se ocupa de coisas tão notáveis como o levantar da memória e a passagem do seu testemunho. Por caminhos destes, não se perderá a magia das vozes que dão asas aos sonhos suspensos dos olhos das crianças. Já agora, contem-me uma história!

Licínia Quitério





31.7.06

DAS ESPERAS

Rafal Olbinski - Espera

A buganvília secou.
Não esperou pelo solstício.
Duas vezes floria em cada ano.
Viu uma vez a neve
e decidiu que tinha visto tudo.
Desistiu.
Florir sempre também cansa.
Recusou beber a água fria
com sabor a terra e a animais
enrijeceu as hastes
despediu as folhas
e ao vento as entregou.
Quando vierem as abelhas
já não encontrarão a mesa posta.
Ficaram os espinhos e
as marcas na parede.
Não passou testemunho mas
a festa escarlate dos seus cachos
perdurará na memória das abelhas.

Levantou a louça da mesa, lavou-a e pô-la a escorrer. Ele foi sentar-se no sofá a ler o suplemento de economia do jornal diário. Esperou que ela viesse sentar-se ao lado dele. Anunciou: Vai começar a telenovela. Estranhou o toc-toc dos sapatos de salto alto pelo corredor. Tem o péssimo hábito de andar descalça. Vestida para sair. O saco de fim-de-semana ao ombro. Olhou-a mas não lhe encontrou os olhos. Só a voz: Não esperes por mim.

No bairro ganhou o nome de o Espera-a-Mulher. Na paragem de autocarro. O das dezoito e vinte e quatro. É ali que se encontram quando voltam dos empregos. Espera que saia o último passageiro. Ela às vezes distrai-se a pensar sei lá em quê e não repara que chegou ao destino. Amanhã voltará.

Aprendeu a lavar a loiça e pô-la a escorrer. Espera não voltar a ouvir o toc-toc no soalho do corredor. Já o alcatifou.

Licínia Quitério

20.7.06

JORGE DE SENA


NOUTROS LUGARES

Não é que ser possível ser feliz acabe,
quando se aprende a sê-lo com bem pouco.
Ou que não mais saibamos repetir o gesto
que mais prazer nos dá, ou que daria
a outrem um prazer irresistível. Não:
o tempo nos afina e nos apura:
faríamos o gesto com infinda ciência.
Não é que passem as pessoas, quando
o nosso pouco é feito da passagem delas.
Nem é tanto que ao jovem seja dado
o que a mais velhos se recusa. Não.

É que os lugares acabam. Ou ainda antes
de serem destruídos, as pessoas somem
e não mais voltam onde parecia
que elas ou outras voltariam sempre
por toda a eternidade. Mas não voltam,
desviadas por razões ou por razão nenhuma.

É que as maneiras, modos, circunstâncias
mudam. Desertas ficam praias que brilhavam
não de água ou sol mas solta juventude.
As ruas rasgam casas onde leitos
já frios e lavados não rangiam mais.
E portas encostadas só se abrem sobre
a treva que nenhuma sombra aquece.

O modo como tínhamos ou víamos,
em que com tempo o gesto sempre o mesmo
faríamos com ciência refinada e sábia
(o mesmo gesto que seria útil,
se o modo e a circunstância permitissem),
tornou-se sem sentido e sem lugar.

Aonde e como? Aonde e como? Quando?
Em que praias, que ruas, casas e quais leitos,
a que horas do dia ou da noite não sei.
Apenas sei que as circunstâncias mudam
e que os lugares acabam. E que a gente
não volta ou não repete, e sem razão, o que
só por acaso era a razão dos outros.

Se do que vi ou tive uma saudade sinto,
feita de raiva e do vazio gélido,
não é saudade, não. Mas muito apenas
o horror de não saber como se sabe agora
o mesmo que aprendi. E a solidão
de tudo ser igual doutra maneira.
E o medo de que a vida seja isto:
um hábito quebrado que se não reata,
senão noutros lugares que não conheço.


JORGE DE SENA


Nunca o Poema é longo se tão belo.

Licínia Quitério

Notas:
1. Num intervalo do descanso, passei para vos deixar esta prendinha.
2. Foi com pesar que soube do encerramento do blog do Jorge Esteves. Penso traduzir o sentimento de muitos de nós ao afirmar: "Amigo Jorge, sentimos muito a falta da inteligência e da generosidade do seu unicórnio azul. Que seja muito feliz no mundo real e, se puder, volte a esta esfera onde tão boa companhia nos fez. Um grande abraço."

Licínia

7.7.06

DA PREGUIÇA


Fiodor Vasiliev - Prado Húmido

A preguiça envolve a tinta das manhãs.
Uma coberta a invadir a cama o quarto a casa.
A luz é baça e morna.
A vontade um bicho invertebrado.
Por fora da preguiça tudo é vidro.
Preguiça não tem porta.
Só umbrais.
Ranhura em casca de ovo.
A preguiça vencer é um desafio -
transpor a abertura
ousar ir ao combate
sem temer arestas afiadas e
acreditar nos braços promissores do aloés
.

A sua divisa era "Tem tempo...". Nunca tinha pressa. Nunca alguém lhe ouviu dizer "Despacha-te!". Os relógios, para ele, eram máquinas maravilhosas que a sabedoria dos homens tinha construído desde o princípio do céu. Para medirem o tempo do universo. Projectava relógios de sol. Os que mais o seduziam. Não os concluia. "Obra pensada já existe", dizia. Preguiçoso, chamavam-lhe. Tomava isso como um cumprimento. Nunca perdeu tempo. Ganhou-o todo. Pensar era o seu ofício, a sua paixão. Recusava agir, a não ser para produzir perfeição e beleza que, afirmava, são uma e a mesma coisa. Dada a raridade de oportunidades de o conseguir, preguiçava muito. Dormia pouco. Havia tanto para aprender. Mesmo quando não lia, os olhos profundos moviam-se incessantemente a decifrar o grande livro da vida e das pessoas que tanto amava. Foi o ser humano mais preguiçoso que conheci. Acho que os antigos lhe teriam chamado um Sábio. Prefiro lembrá-lo como um Homem Bom. A preguiça sente a sua falta.

Licínia Quitério

Recado para os Amigos:

Até Agosto, a minha presença no blog vai ser apenas fortuita. Razão? Férias. Não terei oportunidade de vos comentar, nem de vos retribuir as sempre amáveis visitas e ainda mais generosas palavras. Tem sido uma convivência que superou as minhas melhores expectativas. Por aqui têm passado palavras lindas, inteligentes e afectuosas. Como sabem, as palavras são para mim objecto de adoração, por isso vos declaro como me sinto feliz por vos ter encontrado. Atrevo-me a dizer que já reflectimos, rimos e chorámos juntos. Tudo num mundo chamado virtual. Embora. Daí há gente. E gente bonita. Daqui estou eu, disposta a continuar convosco esta partilha gostosa, até onde as minhas capacidades o permitirem. Bem hajam.

Licínia

3.7.06

DA DIGNIDADE



Francisco de Goya - Os Fuzilamentos do 3 de Maio de 1808

A que morreu às portas de Madrid,
com uma praga na boca
e a espingarda na mão,
teve a sorte que quis,
teve o fim que escolheu.
Nunca, passiva e aterrada, ela rezou.
E antes de flor, foi, como tantas, pomo.
Ninguém a virgindade lhe roubou
depois de um saque - antes a deu
a quem lha desejou,
na lama dum reduto,
sem náusea mas sem cio,
sob a manta comum,
a pretexto do frio.
Não quis na retaguarda aligeirar,
entre «champagne», aos generais senis,
as horas de lazer.
Não quis, activa e boa, tricotar
agasalhos pueris,
no sossego dum lar.
Não sonhou minorar,
num heroísmo branco,
de bicho de hospital,
a aflição dos aflitos.
Uma noite, às portas de Madrid,
com uma praga na boca
e a espingarda na mão,
à hora tal, atacou e morreu.
Teve a sorte que quis.
Teve o fim que escolheu.

REINALDO FERREIRA

Você trabalha para nós há muitos anos já. Sabe que gostamos do seu trabalho. Sabe que é mesmo uma das pessoas mais competentes da nossa empresa. Os clientes fazem muito boas referências a seu respeito. E é muito bem vista pelos seus colegas. Nem todos, claro. Você sabe porquê. Ninguém gosta de ser chamado de traidor. Lá porque não alinharam naquela greve, não quer dizer que não sejam boa gente. Onde é que eu quero chegar? Não, sabe bem que nós não queremos saber da política de cada um. Por você ser mulher? Nem pense nisso. Na nossa família sempre fomos muito liberais. Até tive uma tia-bisavó sufragista, você sabe. Porque o seu marido é lá dos sindicatos? Isso não tem nada a ver, acredite. Então? Ora, como é que eu hei-de dizer... Pronto, vamos direitos ao assunto. Você é inteligente e sabe o que lhe convém. Há aquele lugar de chefia há muito à sua espera. Sim. Só que, você sabe, é um cargo de confiança e precisamos que você... Não faça essa cara. Estou a falar-lhe com o coração nas mãos. Eu sei que anda aí uma lista de reivindicações a correr pela fábrica. Já viu, pois então. Está lá o seu nome. Não, não estou irritado. Percebeu, percebeu o quê? Bastava uma palavrinha sua e esse estúpido movimento acalmava. Ó mulher, não se precipite. Pense na oportunidade que lhe estamos a oferecer. Amanhã dá-me uma resposta. Chantagem? Você diz cada coisa! Dignidade, dignidade... Pronto, pronto, não se exalte. Vamos ficar por aqui. A propósito: fica a saber que o seu serviço passará a depender directamente do Dr. Guimarães. Então se já calculava, agora pode ter a certeza. E só mais uma coisa: esta conversa entre nós nunca existiu. Apre, não me fale mais em dignidade! Pode ir.

Licínia Quitério

29.6.06

DO TEMPO


Foto do Tó-Zé - Tempo Antigo

Há quanto tempo foi
que esta batida começou
a ecoar pelas crateras
dos vulcões dormentes?
Vieram gelos e degelos
e com eles chegaram e partiram,
de mãos dadas com os deuses,
bactérias, sáurios, mastodontes
que ainda procuramos,

na ânsia de saber
como foi que tudo aconteceu.
Esse pulsar cadente
ora nos enche de sustos,
ora nos despe ao sol,
ora se diz amor ou raiva ou dor.

Quando não o sentirmos,
vão dizer que morremos.
E não nos importamos.

Também os retratos envelhecem. Amarelados. Manchados de humidades. O pulsar do Tempo nada poupa. Um dia talvez as nossas interrogações cessem de pairar. Um dia talvez possamos transpor o arco para além do qual alguma luz se mostra. Um dia talvez saibamos da batida e saudemos os sáurios. Entretanto, para cá do arco, vamos contemplando os retratos no fundo das gavetas, lembrando o musgo nas paredes e aproveitando o Sol para nos despirmos.

Licínia Quitério

26.6.06

FAZ DE CONTA


Antoine de Saint-Exupéry - Aguarela

Jogar ao faz de conta com a vida.
Dizer fizeste bem a quem me deixou mal.
Falar do vento forte no meio da calmaria.
Recomeçar a obra de costas para o fim.
Fazer a festa ao cão antes de o ver chegar.
Pular na nuvem quando pisar o asfalto.
Brincar às escondidas no deserto.
Sentir o negro e afagar o branco.
Prender a lantejoula por debaixo da pele.
Enunciar o cheiro das flores por nascer.
Cantar ao desafio com a própria voz.
Trepar à amoreira e anunciar a seda.
Olhar o velho sentado no degrau e
Dizer de um barco que acostou no cais.
Acreditar que o sino é um seno a soar.
Quedar-me à beira-morte e dizer beira-mar.



"...- Se fazes favor... desenha-me um carneiro...
Quando o mistério nos impressiona demais, não ousamos desobedecer. Por muito absurdo que tal me parecesse, a mil milhas de distância de qualquer lugar habitado e em perigo de morte, tirei da algibeira uma folha de papel e uma caneta. Mas, lembrando-me de que tinha estudado principalmente geografia, história, cálculo e gramática, disse ao homenzinho (com um ligeiro mau humor) que não sabia desenhar. Ele respondeu-me:
- Não tem importância. Desenha-me um carneiro."

Que tem a ver este pequeno excerto de "O Principezinho", de Antoine Saint-Exupéry, com o meu texto acima e o título "Faz de Conta"?

Convenhamos que, quando a lógica da vida não funciona, o absurdo é um caminho tão válido como qualquer outro.
Façamos então de conta. Eu faço versos sem o saber dos Poetas. O Principezinho, sem saber desenhar, desenhou um carneiro. Às vezes resulta...

Licínia Quitério

22.6.06

PUTA DE VIDA


Toulouse-Lautrec - Au Salon de la Rue des Moulins

AS PUTAS DA AVENIDA

Eu vi gelar as putas da Avenida
ao griso de Janeiro e tive pena
do que elas chamam em jargão a vida
com um requebro triste de açucena

vi-as às duas e às três falando
como se fala antes de entrar em cena
o gesto já compondo à voz de mando
do director fatal que lhes ordena

essa pose de flor recém-cortada
que para as mais batidas não é nada
senão fingirem lírios da Lorena

mas a todas o griso ia aturdindo
e eu que do trabalho tinha vindo
calçando as luvas senti tanta pena


FERNANDO ASSIS PACHECO


Lembras-te do barquinho de papel? Sim, de papel de jornal. Sempre foste muito exacto. Na vela podia ler-se: "Vende-se cachorro". Foi por causa do peso do cachorro que o barquinho adornou. Não, não foi o vento. No vale, o ar estava imóvel. Por isso o charco sem ondas. Foi o meu olhar que empurrou o barco. Se o cachorro se afogou? Não. Saltou a tempo para o ramo do salgueiro. Tu não viste. Estavas tão entretido a matar formigas. Ontem vi o barquinho aos pés da nossa cama. De vela panda. Não ouviste ladrar? Estavas a dormir, eu sei. Já não te interessas por formigas. Eu ainda gosto dos cachorros escritos nos barcos. Até amanhã.

Licínia Quitério

18.6.06

O QUENTE SABOR


Foto de autor que desconheço

Sonhei com o quente sabor das tâmaras
a polpa cor de açúcar queimado
a trazer lembranças de leite-creme das avós
as fibras a prenderem-se nos dentes
a retardar prazeres a prolongar trabalhos

Acordei na areia da praia e
quando disse bom-dia saiu da minha boca
um fruto sem nome que tomou o caminho
dos navios ao longe.

Fechei os olhos mas não voltei a sonhar
com o sabor quente das tâmaras.

Abandonei a praia e passei a seguir a rota dos navios.



Têm um "o" esculpido no tegumento lenhoso da semente. As tâmaras. Isso sabemos nós, os que fazemos palavras cruzadas. Em pequena, apanhava-as do chão, limpava-as do pó com o avesso da orla da saia e comia-as com avidez, só para chegar depressa ao caroço. Sempre desejei encontrar uma tâmara que fugisse à regra natural e não tivesse aquela circunferência mágica que me intrigava. Parecia-se com um pequenino olho a testemunhar a minha gulodice. Até hoje, nunca me apareceu uma tâmara cega. Também nunca achei um trevo de quatro folhas. Nem vi um elefante branco. Nem uma túlipa negra. Nem sequer estive em Creta com o Minotauro. Mas não me lamento. Uma raridade a vida me ofertou. Alguém me deu a conhecer o sabor quente das tâmaras e me ensinou a rota dos navios. Para sempre. Que mais posso desejar?


Licínia Quitério

15.6.06

JOSÉ GOMES FERREIRA


Postal antigo

Por dentro do perfume das flores

já não anda a tua boca

a beijar as estrelas

na cor do silêncio

- para além do gosto agudo das mucosas.



Agora no luar caído

só uma cadela de gelo

morde o perfume das rosas...


JOSÉ GOMES FERREIRA

Um Poeta hoje injustamente esquecido. Um Homem inteiro, militante das causas em que acreditou. Lutou de corpo e palavra contra a ditadura salazarista. Teve uma vida longa e deixou uma vasta obra poética. Quando o conheci, era ainda um belo homem, com uma farta cabeleira branca, e o seu rosto irradiava firmeza e juventude. Escreveu versos de combate, de indignação, mas também de ironia e de amor. Rosas te deixo aqui, Poeta do meu País.

Licínia Quitério

12.6.06

NATUREZA QUASE MORTA


Paul Cézanne - Natureza Morta

eram mulheres à volta duma mesa.
teciam conversas com linhas da voz.
os olhos desviavam insectos verdes
a zumbirem memórias de outras mesas.

deitavam cartas a convocar futuros.
no fruteiro a natureza quase morta.
no retrato tinham pupilas vermelhas.
como as feras no escuro.

Vou ficar a pensar nessas mulheres. Sem letras azuis que as digam.

Licínia Quitério

9.6.06

DA FUGA


Tocata em Fuga - Pecárovics

Fugir da casa pela fresta do desejo
Seguir o brilho das estrelas
que os olhos construíram
Deitar a mão ao soluço do amigo
e levá-lo contigo
até ao cimo da vontade
mais alta que a mais alta das montanhas
Soltar o grito e aguardar o eco
Se ele vier valeu a pena a fuga
Regressarás em paz à casa
abraçarás a árvore
velarás pelos ninhos e
ajudarás os pássaros
que um dia para a montanha fugirão


Porque fugimos? De que fugimos? Ou de quem? Tantas interrogações cabem dentro deste tema. Dei comigo a pensar numa cantilena em que o rato foge do gato que foge do cão que foge do pau que foge do lume que foge da água que foge... que foge... No fim da história (ou no princípio?) haverá um homem que também foge, sem saber de quê. Seria fácil dizer: "De si próprio.". Mas não me interesso por histórias com finais explícitos. Prefiro que acabe com uma interrogação. Prefiro? Ou será que estou a fugir de pensar no assunto? Quem sabe?!

Licínia Quitério

5.6.06

A LUA

Robert Delaunay - Sol e Lua

Nestes dias solares,
desassombrados,
em que um sopro nos toca,
dissimuladamente,
e se serve de nós
e nos penetra sem pedir licença
e nos põe a vibrar
como um velho instrumento
esquecido de soar,
queria ser um lagarto
imóvel, esverdeado,
determinado a enganar a vida,
filá-la, distraída,
escondida
em ternuras de pomba
e garras de falcão,
saltar,
morder-lhe a mão,
nela deixar os dentes
como quem espeta no Sol
um ferro em brasa.

Poder, enfim, esperar solenemente
a Lua,
Senhora das Frescuras e
cavalgar ribeiros e remansos
.

Licínia Quitério, "Da Memória dos Sentidos"


Lua dos enamorados. De Julieta, em resposta a Romeu: "Não jures pela Lua que é inconstante." Lua dos poetas."Uma noite por ano Uma noite pelo menos/ assaltemos o céu e a Lua aprisionemos" (David Mourão Ferreira em DIDÁCTICA). Lua dos astrónomos a beberem-lhe os eclipses. Lua dos astro-navegantes que até ela se atreveram e lhe roubaram pedras. Lua das nove luas dos meninos por nascer. Lua cheia dos uivos dos lobos e das fêmeas no cio. Lua nova tão nova quanto promessa de Lua. Lua com um quarto a crescer e outro a minguar. Sete Luas de Blimunda para Sete Sóis de Baltasar. Ney Matogrosso e a sua Lua Feiticeira. Lua prata da noite. Lua espelho de cabelos de nuvem. Lua de Pierrot sem Columbina. Minha amiga Lua.

Licínia Quitério

2.6.06

BOA NOVA




Pablo Picasso - Pomba

Sempre esperaste pelo carteiro.
Ele trará a boa nova.
Virá da outra banda desse mar
num raio de lua cheia em pleno Abril
nascida de rimas clandestinas
de frutos maduros de vogais abertas
da dança ritmada do namoro das aves
da branca intimidade dos poetas.
Virá ao arrepio de ventos e correntes.
Com cheiros de sal ou de suor
em papel dobrado envelope fechado
a boa-nova chegará.
Vale a pena esperares pelo carteiro.
Ainda que seja noite ele virá
chamar pelo teu nome como quem diz
destino ou trinca uma maçã.
Abraçarás a carta e não a abrirás
não vá voar de vez a boa nova.
Dormirás noite inteira e acordarás.
Deixarás de esperar pelo carteiro.


A figura do carteiro atravessa muitas histórias do nosso próximo passado. Em livros, em filmes, em canções. O carteiro tem sido uma versão profana do anjo anunciador. Da boa nova, de preferência. A pouco e pouco, vai cedendo terreno a outras entidades portadoras do anúncio. Chame-se "mensagem telefónica" que, à chegada, toca a campainha, ou "correio electrónico " que estampa, no monitor do computador, a imagem de uma cartinha fechada. Novas técnicas, velhos símbolos a darem corpo à mesma ideia: Estamos permanentemente à espera da "notícia" e o seu mensageiro, tenha a forma que tiver, causará angústia pela ausência e sobressalto pela chegada.
Desejo-vos Boas Novas!

Licínia Quitério

31.5.06

SER PORTUGUÊS


em que mares navego
em que reinado
que sombras me decoram
em anel de virtudes
outrora celebradas


e que dizer dos ossos
a aguardar banquetes
de matilhas esfaimadas
sem deuses que castiguem
ou perdoem

que fazer com o silêncio
da dor que implode
o prédio da saudade

ser português O’Neil
aqui agora
não cabe num poema
é uma aflição


Sabe-me bem falar com os Poetas, os de hoje e os de ontem. Atrevo-me. Peço-lhes de empréstimo as palavras que descobrem ou que refazem, os sentimentos que revelam e onde vamos encontrar amparo, as reflexões sobre a vida e o mundo, sempre traçadas na fronteira do choro e do riso. Alexandre O'Neil é um dos sacrificados pelas minhas incursões nos seus domínios, conforme amostra acima. Ele que escreveu um poema tão belo sobre o País que amava e que tão mal o tratou. Passo a transcrever o final:

"...Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós... ".

Licínia Quitério

29.5.06

ALICE


Cecilia González Oreján (Técnica Mista)


quando ali me sentava
os anzóis prendiam as sombras da tarde a ganir com o cio
se a água do rio ao menos vazasse a prata sem dor
ou os meus pés fossem canas de pescar sapatos
mas ali sentada diante do nada
era lume brando a cozer traições
e a agonia dos peixes na berma da água
era o fim dos teus olhos a acabar a tarde
se ao menos os barcos passassem de véspera pelas ilusões
ou as redes vazassem sonhos menos fáceis
mas ali sentada com a alma trocada
pescava o diabo e as tentações
ainda que eu cruzasse a solidão entre as pernas
o cio esganava o brilho da prata caído no chão
mesmo que os anzóis mordessem a margem
nunca a rota dos barcos me corrigia a alma
e ali sentada de pernas cruzadas não tinha calçado
nem canas de pesca para a solidão

Uma jovem Poetisa que anda por aqui presenteou-me com este trabalho na caixa de comentários. Não resisti à tentação de o postar. A blogosfera propicia-nos encontros muito saborosos. Este foi um deles. Se o seu verdadeiro nome é Alice, eu não sei. Se tem 28 anos, também não sei. O que sei é que um Poema veio assomar à janela do meu Sítio. Estou muito contente. Por ti, Alice!

Licínia Quitério

26.5.06

SERENIDADE



A casa do amigo não tem chave
Com um pequeno sopro abre-se a porta
e o aconchego envolve quem entrou
Tem um sofá em forma de sorriso
um copo de água fresca sobre a mesa
e a calma de um nocturno de Chopin
O amigo fez a casa e em nós pensou
A voz é doce e com palavras poucas
abranda a nossa pressa de falar
Naturalmente deixa-nos chorar
O amigo não tem nada para contar
e nunca diz: isso não é verdade
Acha que quem chegou deve partir
a arriscar sentir serenidade


Serenidade. Aqui está uma palavra a que chamarei de macia. Tão macia como a sensação aveludada que traduz. Sibilada quanto baste, pronunciável toda com os lábios entreabertos, com o seu i doce, o seu a tónico logo acalmado pela brandura do de. Quase um ser vivo, não acham?
Se o sofá referido no poema tiver a forma do sorriso do Menino lindo que vos apresento, a se-re-ni-da-de virá.
A propósito deste tema, tratado aqui à minha modesta maneira, aconselho a leitura de um longo e magnífico poema, justamente intitulado "Serenidade", da autoria do Poeta Raul de Carvalho. Depois digam-me se gostaram.

Licínia Quitério

24.5.06

"CARPE DIEM"

foto de J. Bastos


Carpe diem amigo
o dia claro com cheiro de açucenas
dia aberto sem portas nem telhado
dia a escorrer pelas fendas da muralha
dia com a espessura branda dos poemas
dia único amável imperdível
dia antigo de tanto ser esperado
dia feito e desfeito em poucas horas
é esse o dia de todos os sentidos
das amplas planuras sem chacais
só gazelas em livres correrias
é o teu dia amigo
não o desprezes
dá-lhe a mão
que um dia assim perfeito
com pouco se contenta
apenas quer sentir tua verdade
tua respiração


"Aproveita o dia" - a frase chave do filme O Clube dos Poetas Mortos que revisito sempre que posso. Muitas vezes, nas horas em que nada faz sentido, em que a esperança não é mais do que uma mancha cinzenta, me socorro desta tão curta frase (apenas um verbo imperativo e o seu complemento). Não vos digo que se trata de uma poção contra a tristeza, mas funciona como o leve sopro de uma voz amiga que nos faz levantar o queixo e seguir em frente. Há palavras que nos guiam. Talvez mágicas... Aproveitai as palavras!

Licínia Quitério

21.5.06

O JARDIM


Claude Monet - Nenúfares

Passeávamos de mãos dadas no jardim,
comíamos os frutos caídos do Outono,
escutávamos o choro das seivas,
com os ouvidos colados nos troncos,
e dizíamos das vozes na prisão.
Espiávamos o voo rasteiro do melro
e falávamos de flamingos em África.
Da boca do leão de pedra, a água jorrava
para o lago pintado de nenúfares.
Sonhávamos voltar a Paris na Primavera.
Visitávamos o gato bravo em sua jaula.
Tínhamos lido O Bom Selvagem.
Havia um prenúncio de chuva
ou o arrepio morava já dentro de nós.
Não sabíamos nada do Inverno.
Quando ele chegou,
encontrou-nos ainda ou de novo no jardim.
Cada qual no seu banco.
As seivas tinham calado os seus lamentos.
O gato morrera nas malhas da raiva.
Os nenúfares tremiam sob as nossas mãos.
Flamingos voavam acima dos castanheiros.
Sim, havíamos de rever Paris na Primavera.


Licínia Quitério, "Da Memória dos Sentidos"

Tenho um jardim de encantos que sabe tudo dos meus segredos de menina. De quando me aventurava e trepava aos ramos e neles me sentava, com os pés a baloiçar, e me imaginava a aparecer e a desaparecer, sempre sorrindo, como o gato de Alice no País das Maravilhas. De quando namorava pelos cantos mais sombrios, mesmo que o namorado fosse o unicórnio azul que só eu via. De quando chorava baixinho porque os joelhos sangravam e o meu pai não podia saber que eu tinha lutado com rapazes. Isso foi no tempo em que eu tinha uma grande pressa de ser crescida.
Passados muitos anos, quando regressei ao jardim foi para lhe dizer que nunca o tinha esquecido, que sempre lhe sentira a falta, mas eu ocupara o tempo todo a crescer. Ele compreendeu e ofertou-me de novo o rumor das folhas, o cheiro da terra, a luz coada pelas ramagens. Dessa vez, já não trepei aos ramos com receio que se quebrassem, já perdera o unicórnio ou ele se perdera de mim, já os joelhos não sangravam porque os rapazes se tornaram meus amigos.
Hoje, visito-o amiúde. Só que ele não sabe que já não sou eu que me passeio. Ao fim de tanto andar, tenho um jardim que em mim passeia.

Licínia Quitério

18.5.06

NATÁLIA


O ESPÍRITO

Nada a fazer, amor, eu sou do bando
impermanente das aves friorentas;
e nos galhos dos anos desbotando
já as folhas me ofuscam macilentas;

e vou com as andorinhas. Até quando?
À vida breve não perguntes: cruentas
rugas me humilham. Não mais em estilo brando
ave estroina serei em mãos sedentas.

Pensa-me eterna que o eterno gera
quem na amada o conjura. Além, mais alto,
em ileso beiral, aí espera:

andorinha indemne ao sobressalto
do tempo, núncia de perene primavera.
Confia. Eu sou romântica. Não falto.

NATÁLIA CORREIA


Encontrei na net a imagem que introduz este post. Terá sido feita por um aluno (aposto que foi por uma aluna) de uma escola do ensino básico. Foi a partir dela, sei lá eu porquê, que me lembrei deste magnífico soneto da Natália Correia. "Eu sou do bando impermanente das aves friorentas...". Não posso saber se a mulher impetuosa que dizem ter sido Natália Correia teria gostado desta associação, mas o que vou conhecendo dela deixa-me a impressão de que o fogo que a envolvia se casava com um frio intenso a fustigar-lhe o espírito. E não é que consigo ver esse espírito de Mulher-Poeta na "naïveté" de uma criança?
A minha humilde homenagem, Natália!

Licínia Quitério

16.5.06

DAS NOITES COM A PELE EM VOLTA



Largaste a pele ao pisar o tapete.
Entraste e não te vi.
Não produziste sombra
em frente ao candeeiro.
O espelho não falou de ti.
Respiraste em silêncio e
o meu cabelo ondeou.
Um toque de veludo

aconchegou-me os ombros.
Um cheiro a cravos inundou a sala.
O canário cantou como se ouvisse
da madrugada o despertar.
Reacenderam chamas as brasas na lareira.

Ouvi bater a porta e acordei.
Amanhã voltarás e o serão
se embrulhará na tua pele
e o meu coração acalmará.


Poemas de amor e saudade. Quem não os escreveu mesmo sem letras? Se vivemos, somos e amamos. Mesmo sem música, cantamos. Se perdemos, mesmo sem lágrimas choramos. Mas continuamos. Somos humanos.

Licínia Quitério

14.5.06

DO VENTO

Aguarela de Tomaso Marcolla - Vento

O VALOR DO VENTO

Está hoje um dia de vento e eu gosto do vento
O vento tem entrado nos meus versos de todas as maneiras e
só entram nos meus versos as coisas de que gosto
O vento das árvores o vento dos cabelos
o vento do inverno o vento de verão
O vento é o melhor veículo que conheço
Só ele traz o perfume das flores só ele traz
a música que jaz à beira-mar em Agosto
Mas só hoje soube o verdadeiro valor do vento
O vento actualmente vale oitenta escudos
Partiu-se o vidro grande da janela do meu quarto


RUY BELO

Na minha terra o vento é companheiro assíduo.
No Inverno é rude, desatinado, apanha-nos ao virar de cada esquina e desacerta-nos o passo. Uiva como um lobo por dentro das chaminés. Não me mete medo. Conheço-lhe as manhas.
Na Primavera, à socapa, levanta as saias já mais leves das mulheres. Visto calças. Conheço-lhe a brejeirice.
No Verão, pela noitinha, teima em varrer as esplanadas e arrepia a pele ainda quente do Sol. Ponho sempre um xaile. Conheço-lhe a traquinice.
No Outono, apazigua-se. Faz-se uma doce brisa que me entristece quando a tarde desmaia. Conheço-o e deixo-me levar.
Se gosto do vento? Acho que sim. Quando se ausenta, sinto um pequeno desconforto. Como se me faltassem notícias de um amigo. Nasci nesta terra. Sou assim.

Licínia Quitério

11.5.06

DO PASSADO


A velha tinha olhos aguados e sem viço.
O sofá moldava-lhe o passado
que descia os degraus da longa escada
e passava pelos nós dos dedos
como um fio escuro e intermitente.

Num esforço, a velha agarrava-o e desenhava,
com os olhos aguados, no vidro da janela,
o cão pastor, o bule de porcelana,
as palavras feias, como ciúme ou traição,
as palavras bonitas, como amor ou princesa,
as palavras cheias, como presença ou vida,
as palavras sem cor, como vazio ou outros.

A velha, com seus cuidados de velha,
fechava ou abria as palavras,
a controlar os tempos de passagem,
e, para não se esquecer da sua tarefa
de velha, com o fio do passado nos dedos,
desenhava uma neta que acendia luzes
verdes ou vermelhas.


Falamos tanto no passado. Pudera! É do ontem que somos feitos. Hoje é só uma palavra que dura menos do que o tempo de a pronunciarmos. Do amanhã nada sabemos, mas é por ele que vivemos.
Pois, filosofia barata esta, mas quem dá o que pensa...

Licínia Quitério

P.S. Há mais de um mês que ando por aqui. É um curto passado para um blog. Aqui vai ele a caminho do amanhã. Com a vossa cumplicidade.



9.5.06

ÁFRICA

Óleo de Malangatana


Tambor está velho de gritar
Oh velho Deus dos homens

deixa-me ser tambor
corpo e alma só tambor só tambor gritando na noite quente dos trópicos.

Nem flor nascida no mato do desespero
Nem rio correndo para o mar do desespero
Nem zagaia temperada no lume vivo do desespero
Nem mesmo poesia forjada na dor rubra do desespero.

Nem nada!

Só tambor velho de gritar na lua cheia da minha terra
Só tambor de pele curtida ao sol da minha terra
Só tambor cavado nos troncos duros da minha terra.

Eu
Só tambor rebentando o silêncio amargo da Mafalala
Só tambor velho de sentar no batuque da minha terra
Só tambor perdido na escuridão da noite perdida.

Oh velho Deus dos homens
eu quero ser tambor
e nem rio
e nem flor
e nem zagaia por enquanto
e nem mesmo poesia. Só tambor ecoando como a canção da força e da vida
Só tambor noite e dia
dia e noite só tambor
até à consumação da grande festa do batuque!
Oh velho Deus dos homens
deixa-me ser tambor
só tambor!

JOSÉ CRAVEIRINHA

Que sei eu de África (ou das Áfricas)? Nunca lá estive. Como posso então sentir sedução e deslumbramento pelas suas cores de carne e de terra, pelos seus cheiros de animais a acordar, pelos seus espaços maiores que o nosso olhar, pela linguagem rítmica dos seus sons, pelas trovoadas em coreografias medonhas, pelos poentes súbitos e apoteóticos?
Simplesmente porque de tudo isto há muito oiço falar?
Ou será que amamos os lugares por onde os nossos sonhos se passeiam?
Com Malangatana e José Craveirinha, aqui fica o convite para irmos ali a Moçambique. Tão possível quanto o nosso desejo de viagem.

Licínia Quitério

7.5.06

DA LOUCURA



Caminha lesto o vagabundo,
à procura da origem de seus males.
Acossado pelos lobos,
ignorado pelos reis.
Tem encontro marcado,
anunciado pelo bater do próprio coração.
Os olhos navegam pelas pedras
que sabe serem estrelas.
Por vezes pega numa e a afaga.
Guarda-a no bolso com cuidado
e o casacão se curva desabado.
Vem do sítio dos loucos deserdados,
com montanhas de jade e de ternuras.
Pela boca falam vozes comandantes:
Agora vai, agora ama, agora mata.
Só não pode parar o vagabundo.
A urgência de chegar não o permite.
As mãos morenas afastam sombras
- intrusos a impedir o progresso
do corpo já cansado.
Se desatento, tropeça num coral, numa romã,
demónios mascarados de natura.
Mas logo se endireita e continua.
Quando parar, será de sopetão.
As vozes deixarão de o incitar,
as estrelas no casaco o brilho perderão.
E lenta, lentamente, seu corpo vergará
até ao chão.
Pela primeira vez, verá os muros do castelo.
Ilusão ou verdade? Não lhe interessa.
Já não pobre, não louco. Apenas corpo.
Até que os reis e os lobos apareçam.


São vagabundos? São andarilhos? São loucos? Vemo-los por aí. De noite ou de dia. Não têm idade. Perturbam-nos. Se nos olham, sentimos um vago remorso. Medo de virmos a ser um deles? Acredito que são uma das nossas fronteiras. Mas é melhor não pensar nisso.

Licínia Quitério

5.5.06

FLORBELA


Mais alto, sim! mais alto, mais além
Do sonho, onde morar a dor da vida,
Até sair de mim! Ser a Perdida,
A que se não encontra! Aquela a quem

O mundo não conhece por Alguém!
Ser orgulho, ser águia na subida,
Até chegar a ser, entontecida,
Aquela que sonhou o meu desdém!

Mais alto, sim! Mais alto! A Intangível!
Turris Eburnea erguida nos espaços,
À rutilante luz dum impossível!

Mais alto, sim! Mais alto! Onde couber
O mal da vida dentro dos meus braços,
Dos meus divinos braços de Mulher!

FLORBELA ESPANCA


Uma Mulher fora do seu tempo. À frente dele. Marcada por muitas dores e sempre com Poesia em fundo. Gosto muito deste soneto e comove-me a expressão fortíssima do seu desejo de fuga para o inatingível. Alguém me provocou para escrever sobre "a fuga". Mas eu não sou nem Flor nem Bela.
Nunca sentiram qualquer coisa assim: "Que ando eu para aqui a dizer se tudo já foi dito..." ?

Licínia Quitério

4.5.06

DOM SEBASTIÃO


Os braços tão pesados,
escorrendo corpo abaixo.
As mãos dentro das luvas,
não galantes
que para tal o tempo não chegou.
O corpo, assim franzino,
aos poucos devorado
pela doçura do mal.
Aos pés, o elmo
desmesurado, austero,
pronto para encobrir
os doirados cabelos
e depois deles a figura inteira.
Os ombros falsamente erguidos,
esperando que não venha
a luta por que esperam.
Olhos de loiça azul
abertos pelo espanto
de se verem ali no meio do dia
que só meio haverá.
No branco desamparo,
o podemos olhar,
o podemos chamar
de rei, de rei-menino,
Sebastião em pedra regressado
lá dos confins da História
para onde o expulsou
dos homens a cegueira.
Mandaram-no reinar e fez-se rei.
Mandaram-no matar e fez-se morte.
Mandaram-no voltar e fez-se mito.
Pelos tempos se tornou
remorso insuportável
e lhe chamaram névoa,
esperança, desejo, aparição
e tudo o mais que queremos
e (quem sabe?) tenhamos
aqui à beira mão.


Licínia Quitério, "Da Memória dos Sentidos"

Gosto de ir a Lagos e de me sentar à beira da estátua. Tenho tido longas conversas com este rei-menino. Ele fala-me de Alcácer-Quibir, onde ainda não foi. Da última vez que estive com ele, avisei-o de que anda por aí um Poeta chamado Joaquim Pessoa a dizer que "Em Alcácer eram verdes ...". Não me deixou continuar. Esboçou um sorriso matreiro e disse, pontapeando o elmo: "Os meus súbditos são tão ingénuos! Um dia até serão capazes de acreditar que me verão no meio do nevoeiro.". Sobressaltei-me. Terá ele tido alguma conversa com o Bandarra? Ou terei sido eu que desalinhei a História?
Deixei-o a brincar. Não consegui contar-lhe como acaba a aventura. Até porque, aqui que ninguém nos ouve, eu também não sei.

Licínia Quitério

2.5.06

MULHERES/ÁRVORES

Georgia O'Keeffe - Spring Tree


As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões.
E muitas transformam-se em árvores cheias de ninhos - digo,
as mulheres - ainda que as casas apresentem os telhados

inclinados ao peso dos pássaros que se abrigam.
É à janela dos filhos que as mulheres respiram
sentadas nos degraus olhando para eles e muitas
transformam-se em escadas.
Muitas mulheres transformam-se em paisagens
em árvores cheias de crianças trepando que se penduram
nos ramos - no pescoço das mães - ainda que as árvores irradiem
cheias de rebentos.
As mulheres aspiram para dentro
e geram continuamente.
Transformam-se em pomares.
Elas arrumam a casa.
Elas põem a mesa
Ao redor do coração.

Daniel Faria


Penso que qualquer mulher quererá que a deixem por momentos em silêncio depois de ler este poema. As árvores precisam de respirar até às raízes.

Licínia Quitério

1.5.06

PRIMEIRO DE MAIO DE 1974


Dia primeiro
do Maio que Abril nos deu.
Dia rasgado

pelo Sol em cada peito,
pelo riso de todos nós crianças,
pelo abraço dos irmãos em festa.
Dia de todas as cores
dançando em roda,
de cantos mil

voando pelas praças.
Dia sem sede

que a água se oferecia
nos parapeitos das janelas.
Dia de acreditar.
Foi esse o Maio
em que comemos flores
e nos embriagámos.
Foi esse o dia

de todos os amores.


Zeca Afonso cantou "Maio, maduro Maio, quem te pintou".
Henri Matisse pintou "Dança", simbolizando liberdade e unidade.
Pelos tempos fora, há Homens que falam a mesma língua. Apesar de Babel.

VIVA E FRUTIFIQUE O PRIMEIRO DE MAIO DE 2006!

Licínia Quitério

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