26.5.08

JÓIAS


Dizia que havia de guardá-las num cofre inviolável. E acrescentava: ao abrigo das mansas insinuações dos deserdados e das curiosidades de escribas ocasionais. Conseguiu os seus intentos. Uma incrustação de madre-pérola na porta robusta anunciava -Jóias-. A chave trazia-a pendurada ao pescoço, balanceando nas malhas de um fio de prata. Quando a dona arrefeceu de viver, a chave deixou-se tocar e mostrou uma minúscula inscrição: Pega as pérolas. Bebe as lágrimas. Até hoje ninguém se atreveu a abrir o cofre.


Licínia Quitério

21.5.08

A NEVE HÁ-DE SER


no meu país a neve há-de ser cor-de-rosa.

eu a esmagar nos dedos flores de seda.

eu com uma rosa a morder-me na boca.

eu deitada na branca planície dos teus olhos.

eu a dançar nas espirais da tua voz.

eu no ramo mais tenro da árvore de cristal.

eu com um animal ferido nos braços.

eu com uma corda de esparto em redor da cintura.

eu a cobrir de versos os muros velhos do meu país.


Licínia Quitério

16.5.08

SOBREVIVOS


Não sabemos a dor dos peixes

quando seca o lago em pleno verão.


Premonições tiveram

e amorteceram cintilações nocturnas.

Enfeitaram de escamas o relevo dos fundos

a assegurar refúgio às últimas frescuras.

Por entre o lodo chegaram

outras guelras, outras mãos

e o novo tempo lhes chamou anfíbios.

Têm o ar robusto dos sobrevivos.

Desconfiam da firmeza da terra.

Vão pedindo à chuva notícias do lago.

Só ela sabe quanta devastação.


Licínia Quitério

10.5.08

NOTICIÁRIO



Notícias da Resistência:

As chuvas persistem em inundar a planície.
Quando as águas se retiram e descem aos vales sombrios, ficam estranhos desenhos de dores entrecruzadas.
Os aprendizes de adivinhos escrevem o passado nos jornais que ninguém lê.
Na casa, os móveis continuam a estratégia do pó para iludirem os antigos olhares.
Em quartos alugados, dizem-se palavras clandestinas e muitas mulheres as recebem nos colos remoçados.
Os poderosos insistem em abrir estradas de breu onde as formigas exaustas se suicidam.

Última hora:

Uma jovem planta de acanto, prestes a dar à luz, pediu asilo a uma mata de castanheiros. Deles, o mais velho e mais sábio ordenou que lhe dessem uma beberagem verde.


Nota de rodapé:

Aqui na Resistência chamamos-lhe Xarope de Utopia. Usamos e abusamos.

Licínia Quitério

6.5.08

ARQUITECTURA





Não voltes a perguntar-me
o caminho do céu.
Eu moro aqui
nas sólidas construções.
Esta é a arquitectura dos tectos falsos.
Só demando a limpidez dos vidros,
a afirmação das cores,
a exactidão dos ângulos.
O resto é com os pássaros.


Licínia Quitério

30.4.08

MAIOS


Salta fora da caminha p'ra que o Maio não possa entrar. A minha velha vizinha não se chega a levantar. Cantavam as vozes da rádio. Eu não entendia, mas trauteava.

Estás amarela. Deixaste entrar o Maio. Ralhava a avó, zeladora da continuidade dos temores ancestrais.

Para a semana vou a Lisboa ter com uns amigos. Avisava o pai, sem dizer no primeiro de Maio. A mãe suspirava e traçava um nervoso discreto no cós da saia.

Os estudantes tomaram a Sorbonne. Os operários tomaram as fábricas. O coração da Europa batia forte. Cheguei tarde. A polícia já limpara as ruas, mas senti o cheiro do novo Maio.

O povo unido jamais será vencido! O povo unido jamais será vencido! Nunca o choro e o riso se tinham encontrado para cavalgarem o rio colossal da liberdade. Estive lá.

Amanhã vou a Lisboa ter com uns amigos. Festejar o Primeiro de Maio. Digo isto bem alto. Ouvem-me?


Licínia Quitério

23.4.08

É ABRIL

Foi quando Abril chegou que encetei a subida da nova encosta. Lembro-me bem das lágrimas de meu pai que enfim podia chorar como só chora um homem a quem obrigaram a calar meio século de vida. Lembro-me dos abraços aos amigos enquanto gritávamos na praça pública: Cairam! Eles cairam! Lembro-me de um certo olhar que com o meu para sempre se cruzou, na luz baça duma sala em que por fim se soltavam histórias de nada ter e de muito querer.

Tem sido uma encosta íngreme. De muitas flores e de muitas pedras.

Hoje leio as notícias e estremeço. Lucros com muitos zeros à direita, reformas opulentas. Os sem casa, os sem emprego, os sem saúde, os velhos, muitos velhos. Os sem esperança, os sem voz, os com medo, os com fome. Os arrogantes, os rastejantes, os pedintes. Também os sonhadores e os limpos e os que falam verdade e os que não vendem nem compram porque só sabem dar.

Sou feita de muito Abril. Quase cheguei ao cimo da encosta.

Vou ainda envolver-me na lembrança do clarão das ruas e dos risos, suavemente deslizar pelo dia e afagar um cravo cor de sangue e glória.

Um terno abraço, Companheiros!


Licínia Quitério

17.4.08

UM HOMEM
















Com quantos golpes
se constrói um homem?
Do adamastor ao santo
quanta palpitação
até ao rebentar
das veias sob a pedra?
Quantas lâminas
para rasgar o oval
deserto e branco
do átrio do olhar?
De quantas cores se tinge
o pano de emoções
com que se forra o berço,
com que se apaga a chama?
Incontáveis os gritos
soltos em cada poro
até se abrir o ventre
à flor da claridade.
Da aridez da terra
um vulto de homem nasce.
Por ele se engrandece
uma casa do céu.


Licínia Quitério

8.4.08

ANDANTE




foto de J. Abel







Vem da noite insone das copas. Esquecido do fantasma das décadas nos ombros, assombrado pela poalha de esmeraldas na paisagem, segue o trilho dos eternos caminheiros. Uma casa ao longe, uma porta aberta, uma presença. Ainda não - este o seu grito na manhã. Com uma garra no peito, aguarda o eco. Um dia, quando a porta da casa se fechar, não saberá ouvi-lo. Hoje, modulados numa estranha harmonia, os sons regressam. Continua, com um sorriso líquido nos olhos. Vai riscando o cinzento das bermas com a cor sanguínea dos cabelos da urze quase seca.

Licínia Quitério

1.4.08

UMA ROSA


"Caminhava com uma rosa ao ombro." - Foi o que disse quando a detiveram atrapalhando o trânsito, no alinhavo branco da avenida, e lhe atiraram um porquê.
"Bem pesado, o saco à tiracolo. Bem leve, o cheiro da rosa." - Isto disse o autuante. Só ela ouviu.

Licínia Quitério

25.3.08

DE SÚBITO











De súbito uma cor
a confundir o branco
um pequeno volume
a deformar o nada
um claro atrevimento
na placidez do sono

uma preciosidade
uma jóia sem nome
um rasto de cometa
o recado de um sol

como se fosse possível
enunciar instantes

como se fosse prestável


Licínia Quitério

18.3.08

ERA OUTRO O TEMPO























Era outro
o tempo de darmos as mãos e
acolhermos o berro dos pavões
no recorte sombreado das tílias

Do fragor do leque dos pavões
abalando a moleza da tarde
guiando o desenho da pele
por entre o desalinho dos sentidos

Era outro
o tempo em que chorávamos
abraçados na dança dos pavões
ou tombávamos ébrios
porque as tílias estavam em flor


Licínia Quitério

10.3.08

TESTEMUNHO



Hás-de contar-lhes como atravessámos os serões com uma faca nos dentes, aguardando as pancadas secas na porta das traseiras. Que só podiam ser três, com um segundo de tempo entre elas medido. Abria-se Sésamo e a conversa folheava histórias com ladrões de pão e de futuro. Declarávamos que as asas da verdade seriam velozes e seus rumos altos e certeiros.

Hás-de dizer-lhes como voltámos ao claro-escuro dos pátios onde deixáramos as construções de saibro e chuva, para nos alegrarmos com o germinar das sementes.

Não lhes dirás que alguns deles rapinarão as águas, nem que outros soltarão os cânticos purificadores da sujidade das ruas.

Deixa que riam quando uma cigana lhes ler a sina na palma da mão.


Licínia Quitério

4.3.08

GRAFIAS




Porque as dores são verticais
tem de haver um lugar






onde escrever pela mão dos anjos
horizontalmente


assim


Licínia Quitério

26.2.08

COMBOIOS


Enquanto dormem,
devoram paralelas infinitas.

Os comboios,
pois é deles que falo,
consentem sonolências,
no limiar das pálpebras
da madrugada.
Balanço de ombros afrontando
a austera textura das cortinas.
A espaços,
a sombra de uma casa
contra o rosto.
Brevíssimos instantes
de noites serenas
na primeira estação anunciadas.

Despertam quando param,
os comboios.
E nós com eles,
sabendo do regresso.


Licínia Quitério

19.2.08

DESVARIOS


Era verde e chamaram-lhe mar. Verde com escamas negras vindas do longe, do buraco fundo da vigília. Cansado de ser chão, ganhou vulto, encorpou, alteou-se em dorso de dragão. Ouviu dizer escarpa e sentiu medo do nome e da ameaça das sílabas. Pensou-se vermelho, quente e amadurado, peregrino terra adentro sobre marcas indeléveis de signos eternos. Encetou a descida, abrandando a fúria de chegar. A cor das vestes, esmaecida, dizia-lhe repouso. Palavra pouca para a branca agonia duma estrela.

Licínia Quitério

12.2.08

ERA UMA VEZ



Era uma vez... Assim o princípio do mar do encantamento. Uns olhos que se agarram à pele das palavras, escorregadias como tiras de algas. Uma voz a ondear na praia a que os ouvidos acederam. Um esvoaçar de mãos quase quase a aflorar o bater dum coração ansioso. Era uma vez... Assim se convoca a gota de mel ou o minúsculo cavalinho voador ou a menina de capinha vermelha ou a fada-passarinho tão leve tão leve a poisar na agudeza dos ramos do pinheiro alvar.


É urgente inundar de histórias os salões. A crueldade fez estragos nos olhos do sultão. Farto de virgens por uma noite, que o sangue delas, novo e quente, não logrou refazer o rasgão na tela do seu peito. Que volte Sherazade. Com outros véus, acrescentada de saberes e engenhos, com mil vozes por dentro das palavras, serena e digna, recuperada das infâmias, de ventre fértil e infinito canto. Liberta o sultão da sua raiva, suspende a degola dos inocentes, estende até nós o tapete mágico das palavras criadoras. Tu sabes, Sherazade, andam tão tristes os salões...



Licínia Quitério

1.2.08

NOITE E DIA



É hoje o dia.
Vamos trincar o Sol no pessegueiro
e acenar com mãos de Primavera.
Vamos beber a pedra, a catedral
ou apenas o grãozinho no areal
que é hoje o dia de matar a sede.








Levantámo-nos tarde. Perdemos esse dia e outro e outro e outros mais. Até que a noite atenta se vingou.


Licínia Quitério

25.1.08

FOI QUANDO DISSE


Foi quando disse rosa
que te fizeste flor.
Tivesse eu dito casa
terias sido o olhar
mais alto da cidade.
Porque te disse amor
passeias o meu corpo
junto às torres,
digo, estátuas.


Licínia Quitério

16.1.08

CENÁRIOS IMPROVÁVEIS 3







Temos tanto mundo para andar.
É só redescobrir o antigo olhar e perscrutar o interior das grutas.
Expulsar da pele os detritos do tempo.
Caminhar ao acaso sobre tesouros e segredos.
Repegar os cenários improváveis do anúncio que fomos e aguardar naturalmente a explicação das pedras.


Licínia Quitério


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