Pela janela da infância, o mundo entrava.
O mundo, quero dizer, o canto estridente do canário da vizinha Celeste, com ganchos de tartaruga no carrapito.
O bater sola, cadenciado, do Júlio sapateiro, de beata apagada ao canto da boca.
O chiar do rodado do carro de bois, pachorrentos como se usa dizer dos bois.
Os gritos, os gritos dos meninos da rua que brincavam e lutavam e se insultavam, a enganar a fome da côdea que tardava.
Os gritos, os gritos das mães, a filarem-lhes as orelhas.
O piar dos pardais, à boquinha da noite, em luta por um abrigo nos braços do velho plátano solitário.
Noite feita, os morcegos a rasarem a janela, com seu chiar de ratos.
As corujas das torres a mandarem calar o murmúrio dos ares: “Chiiu, chiiu, chiiu…”.
Os pirilampos, na magia dormente das noites de Verão. Pequeninas estrelas ao alcance das pequeninas mãos.
Quando a janela da infância se fechava, começava o sono. E nele entrava um novo mundo, encantado e bizarro.
Era então que o canário da vizinha Celeste, liberto da prisão, voava como um louco em redor da cabeça do Júlio sapateiro, a bater sola sem fazer ruído, empoleirado no carro de bois que, vendo bem, nem era um carro, mas uma gaiola a abarrotar de pardais.
E havia os gritos, os gritos das corujas das torres, procurando as orelhas dos meninos da rua.
Depois, num clarão, as corujas, transformadas em pirilampos, pousavam, brandamente, no carrapito da vizinha Celeste.
Também os mundos se cansam.Talvez por isso, chegava o tempo em que tudo parava. E aquele mundo subia, subia, subia, deixando cá em baixo, ao rés do sono, a quietude, a grande paz. Até que, despertado pelo sol madrugador, o canário da vizinha Celeste cantava de novo, em estridências de amarelo oiro, a pedir-me que abrisse, inda por mais um dia, a janela da infância por onde entrava o mundo.
Licínia Quitério