24.9.08

UMA SOMBRA


Na íris de outros olhos foi azul,
vermelho
e oiro vivo.
Na íris dos seus olhos foi a prata,
o verde
e a voz indefinível das marés.
No matiz da paixão
não se atreveu o branco.
No inverno foi a sépia
a devassa dos troncos,
do lajedo.

Depois da cor
há-de vir uma sombra.
Um soluço, um vibrato,
uma vertigem,
uma sombra, uma sombra...


Licínia Quitério

Música: Ainda a Callas

21.9.08

O QUE FICA...?

O que fica do corpo
sem a lâmpada acesa
na mesa grande e farta da ilusão?
O vulto escuro
contra parede escura,
alvura de novelos
tricotando asas,
volúpia de veludo verde-negro.
E a voz por toda a casa
a refazer o choro, o grito,
a oração maior que o abandono.
Suspenso, garrotado, exposto
à avidez da turba,
o que fica do corpo?


Licínia Quitério

Música: Maria Callas

14.9.08

AO NORTE 2









Dá-me a bandeja da tua mão para as oferendas do país distante onde as conversas poisavam antes do gelo na boca das cavernas. Não bem conversas, mas músicas tecidas nos invisíveis fios.

Trago-te a batida das asas da águia, o sopro da flauta do pastor, a doçura do olhar do cervo, a fundura dos lagos, a mudez hierática dos castelos assombrados, o choro dos vencidos e também o choro dos vencedores, as estranhas palavras acentuadas a bronze e sangue e a chuva poderosa e vertical.

Tudo te dou que por ti fiz o caminho.

Mais não trouxe senão esta vontade de chegar.


Licínia Quitério

8.9.08

AO NORTE




Os pássaros do norte têm o piar desolado dos arautos de procelas. Só acalmam quando a luz negra dos lagos sobe ao arrepio dos verdes e oferece espelhos de céus inconcebidos. Às vezes ficam em terra porque a leveza do ar os não sustenta.
O frio é um belíssimo cavalo branco passeando os cumes das montanhas.
Nos vales, os poetas celebram primaveras e derramam versos por entre pétalas de rosas em rituais festivos.

Digo isto com a certeza de nada entender de terras anteriores às catedrais, aos quadros, aos livros, às vozes dos poetas na primavera.

Necessário é escutar os sons do norte quando o sul nos abrasa até ao osso.


Licínia Quitério

21.8.08

LUGARES



Colorida a turba no vai-vem de falas noutros lugares nascidas. Pelas vielas, rosas de sangue com brandos espinhos cor das sombras da tarde. Os ecos breves do trote dos cavalos lambem a polpa granulosa das arcadas. Velhos corações procuram sinais gravados no musgo em doces caminhadas de inverno: um cheiro a vinho quente e rubro, cintilações em bojos de cristal, a voz fraquinha de um sino cumpridor, o corpo de um cão pesado e branco na soleira cansada e escura.

De como rever a quentura do inverno na frieza do verão.

Imagens reveladas. Reveladoras.

A tenacidade dos lugares.


Licínia Quitério

Pedido de desculpas - pela falta em comentar os vossos posts. Período de preparação de férias e de outras ocupações. Obrigada sempre pela vossa companhia. Licínia

15.8.08

FRESCURA






Quando aprendi a dizer frescura, os gatos incomodavam o sono dos pardais por entre as folhas. Na leveza das manhãs molhadas, os ramos deixavam perceber a imponência das grandes pedras. Havia um brilho suave na voz dos homens que diziam bons-dias. Assim, no plural, quando o tempo futuro era longo e certo.
Não devemos deixar-nos prender nos pequenos contos da província. É necessário escrever grandes romances onde se leiam as folhas verdes, as pedras cinzentas, o êxodo dos gatos, a persistência dos pardais, as vozes sem viço dos homens que perceberam a singularidade dos dias e a brevidade do tempo que diziam futuro.


Licínia Quitério

9.8.08

DO CALOR



Teatros de sombras nos palcos estivais
são a dolência dos abraços
nos pátios da memória.
O brilho feroz dos metais
não diz da escuridão das caves
nas cidades desertas.
Só o vento solar nos impede
de adormecer sobre a carne seca
dos animais degolados.
Este calor põe lâminas sujas
por dentro das palavras.



Licínia Quitério

4.8.08

O GESTO


Não parece importante como dizer que a alga dormita sobre o muro azul e que o mar a trouxe e que o mar sabia como nos iríamos entender.

Porque foi então que eu não disse alga e muro e mar com os olhos e as mãos de quem diz uma frase solta? E se eu tivesse dito alga e muro e mar com os olhos secos e as mãos escorrendo as ancas ? E se eu tivesse calado alga e muro e mar ?

Se eu não tivesse dito alga e muro e mar com os olhos a brilhar e as mãos cruzadas sobre o colo, a alga seria um estilhaço encalhado numa ruga do muro azul. E não teria sido absoluto e comovido o entendimento da hora em que a alga não foi mais do que o meu gesto de a receber.




Licínia Quitério

28.7.08

A CASA



A casa sempre estala
que não há outra forma
de, no gelo da terra, perdurar.
Depois há os incêndios dos sonos breves
a tatuar na cal escorpiões,
crescentes de lua,
asas de borboleta,
algumas palavras sem vogais,
inesperadas simetrias.
Assim a grande casa,
monumental ruína,
livro do princípio com uma página em branco.
Alinhados permanecem os ninhos
de onde partiram todas as aves
no cinismo dos calendários.
A luz a justifica,
a define, a revela, a oferece
ao braço redentor do esquecimento.
Nada mais a dizer.

Licínia Quitério

23.7.08

MEU VELEIRO











Tenho um veleiro amarrado na varanda do olhar. Solto-o no odor salgado das tardes de verão e fico a vê-lo sorrir enquanto cavalga ondas meninas. Elegante e ágil esta nau de inventos, navegando à vista de todas as praias. Sabe de cor seu tempo de passeio, no verso e reverso da rota que traçou. Quando relembro a hora, ele regressa, revigorado, à sua amarração, seu cais, seu porto, seu país. Flor do Mar, meu veleiro, minha terra firme, minha única viagem.


Licínia Quitério

16.7.08

RECADOS









Uma palavra ou duas sob
o texto ou a bem dizer
na margem dele o vento traz
nas tardes crepusculares
do desalento.

Assim o assomar da branca flor
sob a esteira recente
do deserto.

Estrelas só podem ser
estes recados luminosos
da invencível pátria
dos afectos.

Licínia Quitério

1.7.08

DESPOJOS




São meus estes despojos?
A quentura do ar fecha a pergunta
no lar da minha boca.
Heróis de anónimas batalhas
passeiam-se ondulantes
na luz negra das janelas.
Dormem as aves.
Os lagartos devoram
a parede de sol.
Migrantes as águas,
tombados os cântaros.

Sítios que me habitam
nas horas do silêncio.

Licínia Quitério


P.S. Por uns tempos, este Sítio e o Outro irão ficar desabitados de mim. Deixo-os ao vosso cuidado. Sei que regarão as flores, darão comida aos bichos e limparão as palavras de alguma poeira impertinente. No regresso, receberão um sorriso grato que nada melhor me ocorre que vos possa ofertar.
Licínia Quitério

24.6.08

CANTATA DO DESASSOMBRO




Vou por entre as sombras
com uma saia de luz
e um trevo ao peito

Não sei dos símbolos
na casca das bétulas
nem da fala dos bruxos
curvados sobre a noite
nem do hálito das gárgulas
corroendo as pedras

Mergulho na água
a escrita das minhas mãos
e inauguro um livro
com a medida exacta
de um corpo nos meus braços

Sei da vida o que a morte me ensinou
A minha saia é luz e nada temo


Licínia Quitério

19.6.08

REGRESSO


Pela janela da infância, o mundo entrava.
O mundo, quero dizer, o canto estridente do canário da vizinha Celeste, com ganchos de tartaruga no carrapito.
O bater sola, cadenciado, do Júlio sapateiro, de beata apagada ao canto da boca.
O chiar do rodado do carro de bois, pachorrentos como se usa dizer dos bois.
Os gritos, os gritos dos meninos da rua que brincavam e lutavam e se insultavam, a enganar a fome da côdea que tardava.
Os gritos, os gritos das mães, a filarem-lhes as orelhas.
O piar dos pardais, à boquinha da noite, em luta por um abrigo nos braços do velho plátano solitário.
Noite feita, os morcegos a rasarem a janela, com seu chiar de ratos.
As corujas das torres a mandarem calar o murmúrio dos ares: “Chiiu, chiiu, chiiu…”.
Os pirilampos, na magia dormente das noites de Verão. Pequeninas estrelas ao alcance das pequeninas mãos.

Quando a janela da infância se fechava, começava o sono. E nele entrava um novo mundo, encantado e bizarro.



Era então que o canário da vizinha Celeste, liberto da prisão, voava como um louco em redor da cabeça do Júlio sapateiro, a bater sola sem fazer ruído, empoleirado no carro de bois que, vendo bem, nem era um carro, mas uma gaiola a abarrotar de pardais.
E havia os gritos, os gritos das corujas das torres, procurando as orelhas dos meninos da rua.
Depois, num clarão, as corujas, transformadas em pirilampos, pousavam, brandamente, no carrapito da vizinha Celeste.

Também os mundos se cansam.Talvez por isso, chegava o tempo em que tudo parava. E aquele mundo subia, subia, subia, deixando cá em baixo, ao rés do sono, a quietude, a grande paz. Até que, despertado pelo sol madrugador, o canário da vizinha Celeste cantava de novo, em estridências de amarelo oiro, a pedir-me que abrisse, inda por mais um dia, a janela da infância por onde entrava o mundo.


Licínia Quitério

13.6.08

CANSADOS RIOS



Se me perguntas
de que águas
me alimento

digo-te do tempo
em que os rios

tranquilos rios
de penas brancas

amaciavam mágoas
nos ombros da verdura

nada mais te digo
que hoje todas as palavras
são águas de outros rios

cansados rios
de chumbo e desassossego


Licínia Quitério

8.6.08

UMA PORTA

Provavelmente foi o cansaço de certas vozes que me fez desviar para uma ruela batida pelo sol violento do meio do dia. Era a única porta da primeira casa ao alcance da minha mão esquerda. Já não bem uma porta, mas um objecto ali esquecido pelos muitos anos da gente que pela casa passou. Na porta, uma montra de vidro estilhaçado. Vendo melhor, um quadro, uma colagem de despojos de batalhas presas no ranger dos dentes. Decadências, pensei, enquanto guardava o quadro na galeria da minúscula máquina de apanhar memórias. Uma pontinha de remorso, como se tivesse tentado roubar a alma a alguém.


Licínia Quitério

1.6.08

UM CORAÇÃO

Vestes talhadas em

claros panos de aconchego.

Sombras de orientes

a adornar águas de agosto.

Doiradas cabeleiras

anunciadas na fala das estrelas.

O zumbido ondulante dos insectos.

O azul, o grande azul

sobre a memória da terra calcinada.

Indiferente ao estrépito dos mundos,

neste desvão das horas se reclina

absorto um coração.



Licínia Quitério

26.5.08

JÓIAS


Dizia que havia de guardá-las num cofre inviolável. E acrescentava: ao abrigo das mansas insinuações dos deserdados e das curiosidades de escribas ocasionais. Conseguiu os seus intentos. Uma incrustação de madre-pérola na porta robusta anunciava -Jóias-. A chave trazia-a pendurada ao pescoço, balanceando nas malhas de um fio de prata. Quando a dona arrefeceu de viver, a chave deixou-se tocar e mostrou uma minúscula inscrição: Pega as pérolas. Bebe as lágrimas. Até hoje ninguém se atreveu a abrir o cofre.


Licínia Quitério

21.5.08

A NEVE HÁ-DE SER


no meu país a neve há-de ser cor-de-rosa.

eu a esmagar nos dedos flores de seda.

eu com uma rosa a morder-me na boca.

eu deitada na branca planície dos teus olhos.

eu a dançar nas espirais da tua voz.

eu no ramo mais tenro da árvore de cristal.

eu com um animal ferido nos braços.

eu com uma corda de esparto em redor da cintura.

eu a cobrir de versos os muros velhos do meu país.


Licínia Quitério

16.5.08

SOBREVIVOS


Não sabemos a dor dos peixes

quando seca o lago em pleno verão.


Premonições tiveram

e amorteceram cintilações nocturnas.

Enfeitaram de escamas o relevo dos fundos

a assegurar refúgio às últimas frescuras.

Por entre o lodo chegaram

outras guelras, outras mãos

e o novo tempo lhes chamou anfíbios.

Têm o ar robusto dos sobrevivos.

Desconfiam da firmeza da terra.

Vão pedindo à chuva notícias do lago.

Só ela sabe quanta devastação.


Licínia Quitério

arquivo

 
Site Meter