30.3.09

HÁ QUEM DIGA


Rasgões em ameaça à coesão da cal, as plantas invasoras, vingativas, rejeitadas pela placidez dos bosques, as cores decadentes, tumulares, o sossobrar do prumo nas empenas, a desistência da onda nos beirais.

Há quem diga assim a casa velha.

A porta só no trinco, em alarde vermelho, as trepadeiras vivas abraçando a cal, em cada telha um ninho ou uma espera, um sossego, um tempo livre de traições ou abandonos. A respiração dos passos na soleira, o calor no inverno, o amor de quem partiu e a paz que se aprendeu.

Há quem diga assim a casa velha.


Licínia Quitério

25.3.09

RESISTEM À CLAUSURA



Resistem à clausura porque perderam, diz-se,
o livro das palavras incoerentes.
Silenciosos, bailam e o ondear das vestes
desmente a crueldade das miragens.
Em noites de lua nova há peixes mortos,
por medo de que o brilho se não cumpra.
Mas, nas manhãs solares, levanta-se um vapor
de sonho inacabado sobre as águas.

Licínia Quitério

20.3.09

SE ALGUMA VEZ A NOITE


Se alguma vez a noite,
cansada de esperar
pelo oiro da manhã, antecipasse
o despertar do dia?

Sem rumo as barcas,
pejadas de palavras,
em súplica de rimas,
como quem pede um vento de feição
ou ata a um desejo as sílabas cadentes.

Não soaria azul o azul de mar,
nem prata de luar as mãos de sal.

O sono da donzela sobre a fraga
apagaria grifos e quimeras.

Só na noite o poema é fonte de delírio
e se faz corpo e corda e lume e perdição.


Licínia Quitério

14.3.09

DEPOIS DO INCÊNDIO


Sei que depois do incêndio
os mitos se alimentam
de sobras de minúcias
na ponta diamantina
dos ocasos

Pudera eu
divisar a fractura
onde arrefece a cinza
e acompanhar
as vozes da planura
antiga clara principal

Para sempre caminhar
e não chegar e não chegar


Licínia Quitério













Nota: Clarisse pede-me que agradeça a hospedagem no Sítio e a amabilidade das visitas. Assim faço.

Licínia

8.3.09

CLARISSE 7


Numa página clandestina do álbum, um passageiro de lugares apagados perturbou a visão de Clarisse. Não podia tê-lo conhecido, tal como isso se diz de corpo e voz. Em pequena, habituara-se a vê-lo num grande quadro a óleo, oferta de amigo artista, como lhe contavam. Quantas gerações depois se apresentou Clarisse? Não pode precisar. Achara-o muito velho, quase tão velho como o Jesus crucificado na cómoda do quarto da avó. Agora o retrato diz-lhe um belo jovem com o perto e o longe no olhar. Pensa, com algum pudor, que ficaria bem ali, ao lado dela, não fora a morte a sépia que lhe deram. Houve uma bela casa, mandada construir pelo belo homem. Não a pode ter conhecido Clarisse, a não ser pelas histórias acrescentadas a um batente de bronze, em garra de leão, que hoje pisa papéis na escrivaninha antiga. Como aparecem então os peixes vermelhos no lago, por detrás do retrato? E o cão Piloto à sombra da romãzeira? E o vitral do guarda-vento e a porta giratória e as andorinhas viúvas, duas de cada lado do relógio de capela? O belo homem foi hoje o desassossego de Clarisse. Porque não o conheceu de corpo e voz, não pode nomeá-lo. A revolta do baralho de cartas e os gritos da rainha de copas são um súbito calor nas têmporas. O gato, esse, é o sorriso sobre a romãzeira. Indiferente, uma rola de peito róseo na beira do lago. O coração de Clarisse é um vaso de loiça fina cansado da corrida. Foram anos, foram séculos, foi o dia de ontem.

Fecha o sétimo álbum. O verde dos seus olhos amainou. É assim Clarisse, devoradora de passados.

Licínia Quitério

1.3.09

CLARISSE 6



As ameixas e as abelhas, juntas em cada Verão. A passividade dos frutos em oferenda ao zumbido das asas. Acontecia a doçura antes do mel, como é preciso acontecer no amor. Nas folhas do agrião triunfava o verde, em louvor da água escorrida do tanque. Concha de regas, de lavagens de roupa e de banhos de alegria das crianças, em miragens de mar. Clarisse passeia-se no quintal da casa que dantes lhe contavam. Campo de engenhos e de esforços de mulher com sementeiras e colheitas nos braços. As árvores, as flores, os frutos, as sementes, em espaço exíguo, medido a palmo, estudadas com rigor a sombra e a luz e a demora dos dias. Histórias de vitórias e derrotas contra bichos devoradores, sempre à espreita de lugar na mesa posta, atravessavam as ameias dos muros e pairavam na rua para serem levadas no bico dos pássaros, ao fim da tarde. Foi por uma rola de peito róseo que Clarisse veio a sabê-las, de coração, como se fossem suas. Esta lassidão que não abandona Clarisse põe um véu sobre o rosto da casa que torna a ser jovem e liso, com o olhar aberto e limpo das tecelãs flamengas. A casa parada num tempo em que nada envelhece, em que ninguém falta à chamada. Coabitam as idades intactas e cruzam falas da história que lhes coube. Clarisse entende os sons da casa: o silvo do vapor nas panelas, as vozes do folhetim na rádio, o pedalar da máquina de costura, o sacho nas ervas daninhas, o chiar da roldana no poço, os gritos das crianças, de todas as crianças que permanecem, únicas, continuadas. Clarisse distingue-as pelas alturas, que em tudo o resto lhe parecem iguais. Vendo melhor, uma delas tem o nome Fernando no bolso do bibe e um livro debaixo do braço.

Clarisse esforça-se, em vão, por recordar o nome da grande terra, mãe da casa que a habita. Espera tê-lo de volta, ao folhear, descuidada, uma insónia, num álbum que não sabia.

Licínia Quitério

23.2.09

CLARISSE 5



Um homem-menino chegado da soleira de outro tempo abriu um sorriso nos olhos de Clarisse. Não se lembra do nome dele. Dirá que se chama Fernando. Tinha fome e tinha medo e levaram-no ao encontro de outras fomes, de outros medos. Era uma vez uma aldeia perdida, lá no fundo, passado que fosse o leito seco do ribeiro... Era? Clarisse no declive da serra, rodeada de canções de luta e sobressalto, levando nos braços a maior esperança do mundo. Fernando espantava os medos acariciando livros de ensinar a ler, os livros com que ele, Fernando, ensinaria a ler. Pelas serras fora, os ogres ateavam fogos e tocavam sinos a rebate, anunciando a chegada do anti-Cristo. Clarisse duvida agora se aquele foi tempo de desejo ou de passagem. Os álbuns não mentem, mas confundem. O sol do meio-dia era uma afronta nas paredes enrugadas e na magreza das couves. Histórias que talvez tenham contado a Clarisse ou, quem sabe, ela as tenha inventado quando à noitinha uma mulher lhe bateu à porta para ser ouvida. Mulher-desgraça, desacertada, pecadora de amores alheios, solteira e perdida e calada. Fernando era o rei dos meninos quando lhes lia histórias e os deixava tocar as capas grossas dos livros. Havia enxadas e forquilhas e ameaças de exorcismos. Ou não. Não pode saber quando isso acabou. Se acabou. Clarisse julga lembrar-se de ter falado, no luar, na rua. As pessoas iam chegando e ficavam e sentavam-se no chão. Um lobo uivou ali perto. Ninguém se importou. Os cães estavam sossegados, lambendo o pelo e as feridas. Que terá dito Clarisse? Por certo, as palavras necessárias que não sabia e já esqueceu. Os livros de Fernando a passarem de mão em mão, a fecharem a roda dos corpos no luar de todos. Que mais terá acontecido? Por onde andará em contra-luz aquele homem-menino? Que novas fomes terá sabido? Que histórias contará sobre o luar das noites que o fizeram rei das crianças, naquele Verão de fantasmas contra o tempo?

Clarisse há-de ter as respostas que moram noutros álbuns. Entretanto...


Licínia Quitério

16.2.09

CLARISSE 4

Tão verdade era o sono que Clarisse subiu e poisou na varanda do último andar. No Verão, todos os homens passavam as noites nas varandas. As mulheres vigiavam-nos por detrás das portadas, não fossem eles cair à rua em sobressaltos de vinho e desamor. Na varanda onde Clarisse se achou, estava um homem ainda acordado na sua cadeira de pensar. Tinha poisada no ombro uma rola a que faltava uma asa. Não deram por Clarisse, distraído o homem a contar os carros que subiam a rua e ocupada a ave a alisar com o bico as penas róseas do peito. As paredes de todos os prédios tinham a palidez das pedras colhidas de madrugada. Havia um grande silêncio no mesmo tom, apesar dos muitos carros que desciam e subiam para serem contados. Clarisse disse estou aqui, mas ninguém lhe respondeu. Rodopiou na estreiteza da varanda, mas o homem não desviou o olhar da rua e a rola não suspendeu os esmeros da tarefa. Foi então que Clarisse decidiu abandonar o sítio para que pudesssem ver-lhe a ausência. Sentou-se no parapeito, as pernas para o lado de fora, a baloiçar. Um impulso breve do tronco a fez descer, devagar, com passadas largas, os braços desbravando transparências, o corpo a afundar, a afundar. Do chão da rua, despontou e floriu um leque de mãos de luz. Nele alongou a leveza e ali ficou, tranquila e nua, igual às pedras no leito, antes da madrugada.

Quanto tempo dormiu Clarisse? O tempo sem horas de revisitar a rua das varandas com homens dormentes nas noites de calor. A quantas ruas regressará ainda? Estão tão arruinados, os álbuns.


Licínia Quitério

12.2.09

CLARISSE 3


Clarisse pronunciava amarílis com prazer e recato. Não se atrevia a tocá-las, que aquele esplendor fazia temer a queima dos afagos. Tardes de Verão a reclamarem o resguardo de fetos e de canas bravas. Foi no ano em que o verdilhão nidificou no grande cedro e declarou que não entendia as dúvidas dos humanos. Um Verão prenhe de fábulas e de assombrações de luar na intimidade dos claustros. Clarisse começou a escrever um conto sobre a menina que se perdeu no escuro e as mãos feiticeiras que a trouxeram de volta à infância da água. Ainda não o terminou. Não será hoje, que Clarisse adormeceu sobre os álbuns, atordoada pela vibração das amarílis.

Licínia Quitério

8.2.09

CLARISSE 2



Clarisse insiste em folhear-se nos álbuns. Flores de cinzento e sépia colam-se na frescura dos dedos. No silêncio dos papéis choraram árvores e nasceram torres e ameias de castelos pagãos. Passeia-se Clarisse e os seus passos acalmam a inquietação dos vultos. Alonga-se em ternura e um suavíssimo abraço surpreende a penumbra. No vão dum arco, antes do negro, um sorriso regressado da cabana de musgo dos invernos. Clarisse atenta na brancura dos céus. Azuis seriam as aves que fugiram da história. Teimosamente verde é a brandura dos seus olhos respirando a estrada.

Licínia Quitério

4.2.09

CLARISSE


Clarisse a decifrar segredos na humidade dos álbuns. Pouco encontra que uma sombra avança inexorável sobre os recortes. Não se deixam espreitar. As memórias. Diluem-se num rio de prata salgada. Nada entende Clarisse. Revelados apenas os seus olhos. Repetindo-se serenos no doce caminho do impossível. A estrada de Clarisse.

Licínia Quitério

29.1.09

MADRUGADA


Inda goteja a noite.
Na garganta um vibrato.
No cântaro quebrado, o incenso amortecido.
Desfocada, uma rosa desenha a madrugada.

Que ilumine o negrume das copas
e acalme a sede das ervas
e apague o rasto da peçonha
e alimente as palavras novas.

Que seja a boca e o beijo,
a forja e o aço,
o sangue e o útero

e nos ensine o princípio da alegria.

Licínia Quitério

25.1.09

ELOGIO DOS RELÓGIOS DE SOL


Um tempo houve em que tiveram rosto.
Neles viam os homens a grandeza dos dias.
Livros de luz para quem sabia ler,
nas encruzilhadas dos caminhos certos,
nas amplas clareiras dos enganos.
Quadrantes de numéricos segredos.
Gnomos paridos nas entranhas da terra,
condenados ao exílio nas alturas do sol.

Quisessem os relógios só medir o dia
e a noite dormiria num campo raso e largo,
favorável ao crescimento das asas,
ao germinar dos trigos, à desmesura do amor.

Licínia Quitério

20.1.09

OBAMA



Rosa não era se não fosse a luz acetinada do desejo, sim, o desejo denso das noites vagas.
Uma outra água no olhar e espreitam flores na ardência das feridas.
O vórtice das anteriores esperas refazendo os lugares das que vierem.

Hoje chama-se Obama. Precisei de o registar.

Licínia Quitério

16.1.09

UM SONHO MAU


Não digas o que viste. Pode ser que nada tenha acontecido além do corte brusco no caminho. O vento mais não fez que relembrar o separar das águas. Tu não ouviste a ladainha dos crentes nem a imprecação das mulheres. A bainha das cores tem sangue de cordeiros que morreram há muito. Quando ainda havia profetas e deuses e a estrada da fome era a ondulação das dunas. Não fales do clamor das estrelas cadentes. Tu não sabes quantas vozes tem o céu. Tu que te julgas sábio porque conheces as idades da lua e a gravidez das marés. Cala-te. Nenhum manjar é novo nesta mesa de enganos. Tu conheceste algozes e deste-lhes a lâmina e não acreditaste que matassem. Agora não te movas. Pensa-te rocha. Sente o tropel a adentrar-se na terra. Dorme as noites de solidão ainda por cumprir.

Dá-me a tua mão. Foi um sonho mau. Foi um sonho mau.


Licínia Quitério

10.1.09

FALEMOS ENTÃO


Falemos então da elegância das mulheres. Não soletremos a feminina condição. Digamos da sua matéria inspiradora. Vestidas de chuva as mulheres desafiam o sol. Com uma dor cinzelada no braço sorriem à curva da serpente. Contam as misérias do mundo no rosário de sonhos de opulência. Falemos então dos homens que não podem amá-las. Estão cansados de fazerem a guerra. Estão doridos por não pararem a guerra. Lamentam não terem feito filhos na delicadeza das mulheres. Ficaram estéreis os homens que mulheres condenaram à guerra. Os homens que restarem abraçarão as mulheres que restarem. Elas vestirão a prata das noites sem remorso. Todos eles terão os olhos da cor do esquecimento.

Licínia Quitério

4.1.09

GAZA

Um fumo negro, um choro imenso de inocentes. Da dignidade apenas os escombros. Melhor calar que todas as infâmias foram ditas. Tempos em que a poesia não amanhece.

Licínia Quitério

imagem Google

28.12.08

REDACÇÃO

O Quintal da Avó



Na casa da avó havia um quintal. Nas casas dos ricos havia jardins. E havia roseiras e a avó chamava belas-portuguesas às rosas que elas davam. As couves galegas eram muito altas. Algumas mais altas que os netos mais altos. As folhas de baixo iam para os coelhos que tinham um olhar assustado. A pereira dava peras francesas que os bichos, antes dos netos mais velhos, atacavam sem dó nem piedade. No quintal da avó havia um alegrete. Nunca mais encontrei nenhum. Era uma tirinha comprida de terra e tinha à volta um murinho de cimento caiado de branco. Como um canteiro. Mas não era. Era um alegrete. Todo o ano tinha flores. As minhas preferidas eram os brincos-de-princesa. Dava um trabalhão catar as lagartas e matar os caracóis e as lesmas. A avó capava os craveiros e assim os cravos que resistiam à capadela eram enormes. Por esta altura do ano estavam quase a florir as alcoviteiras-da-primavera. A avó nunca soube que se chamavam frésias. Ao sair da porta da cozinha a avó tinha plantado uma roseira que tinha crescido muito e dava rosas-de-toucar. O quintal da avó era enorme. Tão grande que hoje fizeram nele uma salinha de um restaurante. O resto do restaurante é o resto da casa que foi da minha avó. Quando lá vou almoçar procuro ficar na mesa debaixo da pereira das peras francesas. Se levo amigos, digo sempre "Vamos ao Alegrete". Depois acham que eu estou a brincar porque o nome do restaurante não é esse. Porque é que havia de ser?


Nota: Este texto não tem nada a ver com O Sítio do Poema, dirão. Fantasias minhas, de fim de ano.
Até 2009. Por aqui voltaremos a encontrar-nos.

Licínia Quitério

23.12.08

BOAS FESTAS

Uma manchinha de cor. Um imperceptível aceno. O riso de modestas bagas procurando o alto. Posso chamar-lhes Natal. São o meu presente para os caminheiros que por aqui passarem.




Licínia Quitério

19.12.08

OUTONO



Hei-de partir antes dos ventos altos.
Nos braços levo uma escrita tardia
com cheiro a frutos secos em terraços.
Grinaldas de lilazes no olhar.
Nos ombros o matiz bordado nas florestas
pelas mulheres magníficas do verão.

Encurtados aqui os trabalhos do sol
soltarei os gritos de pobres e de bichos
contra a insânia maior que a invernia.

De pronto partirei que um outro povo
aguarda o tempo novo além do capricórnio.


Licínia Quitério

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