Licínia Quitério
30.5.09
PAISAGENS
Licínia Quitério
partilhado por
Licínia Quitério
às
8:24:00 da manhã
10
comentários
24.5.09
À TARDE O VENTO
Chegam, nas mãos do tempo, as flores de papel. Amarrotadas. Esmaecidas. Brilharam em festões de romarias sem santos nem milagres. Suportaram a fúria de corações em fogo e as bátegas mornas, com cheiro acidulado de vulcões. Enregelaram na solidão da serra e dormiram sem sonhos de manhã. A lembrança da árvore foi o fio, a seda, a corda que as sustentou nas paredes do vento. São dele agora as flores e a leveza. Quando passam por nós, ao fim da tarde, e um mesmo vento as beija, há um tremeluzir por entre as copas, a indiciar novas florestas.
Licínia Quitério
partilhado por
Licínia Quitério
às
9:52:00 da manhã
13
comentários
19.5.09
A SEDE
Licínia Quitério
partilhado por
Licínia Quitério
às
1:45:00 da tarde
13
comentários
13.5.09
O FOGO E AS ÁGUAS

Tantas vezes no gelo
adormecemos.
Tantas vezes o fogo sob as águas
nos desperta.
Cristais de sal no olhar.
Sinais de espuma
na quadrícula dos dias.
Dizer eu tive eu fui eu quero.
Tocar o mármore
e vislumbrar o átrio.
Redesenhar o quadro
e expô-lo à claridade.
Dar o corpo ao presente
como se faz no amor.
Enquanto o fogo sob as águas.
Licínia Quitério
partilhado por
Licínia Quitério
às
9:20:00 da manhã
11
comentários
7.5.09
RAÍZES
Desmesuradas, as raízes,
cansadas de seus trilhos
profundos de toupeira,
esquecidas dos sinais
que lhes mostraram
âncoras, amarras,
contextos vegetais,
eis que se soltam
dos lodos do passado.
Afiam garras,
irrompem pelas terras,
pelas águas,
olham as copas,
moradas soberbas de animais,
sugam reservas de húmus
e avançam, seguras e ousadas.
Olham para trás a fixar memórias,
respiram virgindade no presente
e vão à frente.
Sobem pelas escarpas
e só descansarão
quando o ninho das águias mais não for
que mácula minúscula na rocha.
Depois, fortalecidas, as raízes
retomarão suas matrizes
e fecharão o círculo,
na imitação das copas habitadas
pelos verdes radicais.
Licínia Quitério, "Da Memória dos Sentidos"
Nota: De regresso, um poema antigo em tradução fotográfica recente. Agradeço as visitas, na ausência. Beijos.
Licínia
partilhado por
Licínia Quitério
às
11:51:00 da manhã
13
comentários
20.4.09
VIAJO
partilhado por
Licínia Quitério
às
9:41:00 da manhã
17
comentários
15.4.09
TORRE
partilhado por
Licínia Quitério
às
10:01:00 da tarde
15
comentários
6.4.09
CHEGAM PELA TARDINHA
Fazer soar um sino na garganta
Nota: Uma breve pausa para outros lugares, outros olhares. Até à volta. Fiquem bem. Deixo um abraço e um sorriso.
partilhado por
Licínia Quitério
às
8:23:00 da manhã
15
comentários
30.3.09
HÁ QUEM DIGA
Rasgões em ameaça à coesão da cal, as plantas invasoras, vingativas, rejeitadas pela placidez dos bosques, as cores decadentes, tumulares, o sossobrar do prumo nas empenas, a desistência da onda nos beirais.
Há quem diga assim a casa velha.
A porta só no trinco, em alarde vermelho, as trepadeiras vivas abraçando a cal, em cada telha um ninho ou uma espera, um sossego, um tempo livre de traições ou abandonos. A respiração dos passos na soleira, o calor no inverno, o amor de quem partiu e a paz que se aprendeu.
Há quem diga assim a casa velha.
Licínia Quitério
partilhado por
Licínia Quitério
às
9:33:00 da tarde
15
comentários
25.3.09
RESISTEM À CLAUSURA
.jpg)
Resistem à clausura porque perderam, diz-se,
o livro das palavras incoerentes.
Silenciosos, bailam e o ondear das vestes
desmente a crueldade das miragens.
Em noites de lua nova há peixes mortos,
por medo de que o brilho se não cumpra.
Mas, nas manhãs solares, levanta-se um vapor
de sonho inacabado sobre as águas.
Licínia Quitério
partilhado por
Licínia Quitério
às
8:35:00 da manhã
14
comentários
20.3.09
SE ALGUMA VEZ A NOITE
e se faz corpo e corda e lume e perdição.
Licínia Quitério
partilhado por
Licínia Quitério
às
4:45:00 da tarde
14
comentários
14.3.09
DEPOIS DO INCÊNDIO
Sei que depois do incêndio
os mitos se alimentam
de sobras de minúcias
na ponta diamantina
dos ocasos
Pudera eu
divisar a fractura
onde arrefece a cinza
e acompanhar
as vozes da planura
antiga clara principal
Para sempre caminhar
e não chegar e não chegar
Licínia Quitério
Nota: Clarisse pede-me que agradeça a hospedagem no Sítio e a amabilidade das visitas. Assim faço.
Licínia
partilhado por
Licínia Quitério
às
11:27:00 da manhã
17
comentários
8.3.09
CLARISSE 7
partilhado por
Licínia Quitério
às
9:32:00 da manhã
14
comentários
1.3.09
CLARISSE 6

As ameixas e as abelhas, juntas em cada Verão. A passividade dos frutos em oferenda ao zumbido das asas. Acontecia a doçura antes do mel, como é preciso acontecer no amor. Nas folhas do agrião triunfava o verde, em louvor da água escorrida do tanque. Concha de regas, de lavagens de roupa e de banhos de alegria das crianças, em miragens de mar. Clarisse passeia-se no quintal da casa que dantes lhe contavam. Campo de engenhos e de esforços de mulher com sementeiras e colheitas nos braços. As árvores, as flores, os frutos, as sementes, em espaço exíguo, medido a palmo, estudadas com rigor a sombra e a luz e a demora dos dias. Histórias de vitórias e derrotas contra bichos devoradores, sempre à espreita de lugar na mesa posta, atravessavam as ameias dos muros e pairavam na rua para serem levadas no bico dos pássaros, ao fim da tarde. Foi por uma rola de peito róseo que Clarisse veio a sabê-las, de coração, como se fossem suas. Esta lassidão que não abandona Clarisse põe um véu sobre o rosto da casa que torna a ser jovem e liso, com o olhar aberto e limpo das tecelãs flamengas. A casa parada num tempo em que nada envelhece, em que ninguém falta à chamada. Coabitam as idades intactas e cruzam falas da história que lhes coube. Clarisse entende os sons da casa: o silvo do vapor nas panelas, as vozes do folhetim na rádio, o pedalar da máquina de costura, o sacho nas ervas daninhas, o chiar da roldana no poço, os gritos das crianças, de todas as crianças que permanecem, únicas, continuadas. Clarisse distingue-as pelas alturas, que em tudo o resto lhe parecem iguais. Vendo melhor, uma delas tem o nome Fernando no bolso do bibe e um livro debaixo do braço.
Clarisse esforça-se, em vão, por recordar o nome da grande terra, mãe da casa que a habita. Espera tê-lo de volta, ao folhear, descuidada, uma insónia, num álbum que não sabia.
Licínia Quitério
partilhado por
Licínia Quitério
às
4:04:00 da tarde
15
comentários
23.2.09
CLARISSE 5
Um homem-menino chegado da soleira de outro tempo abriu um sorriso nos olhos de Clarisse. Não se lembra do nome dele. Dirá que se chama Fernando. Tinha fome e tinha medo e levaram-no ao encontro de outras fomes, de outros medos. Era uma vez uma aldeia perdida, lá no fundo, passado que fosse o leito seco do ribeiro... Era? Clarisse no declive da serra, rodeada de canções de luta e sobressalto, levando nos braços a maior esperança do mundo. Fernando espantava os medos acariciando livros de ensinar a ler, os livros com que ele, Fernando, ensinaria a ler. Pelas serras fora, os ogres ateavam fogos e tocavam sinos a rebate, anunciando a chegada do anti-Cristo. Clarisse duvida agora se aquele foi tempo de desejo ou de passagem. Os álbuns não mentem, mas confundem. O sol do meio-dia era uma afronta nas paredes enrugadas e na magreza das couves. Histórias que talvez tenham contado a Clarisse ou, quem sabe, ela as tenha inventado quando à noitinha uma mulher lhe bateu à porta para ser ouvida. Mulher-desgraça, desacertada, pecadora de amores alheios, solteira e perdida e calada. Fernando era o rei dos meninos quando lhes lia histórias e os deixava tocar as capas grossas dos livros. Havia enxadas e forquilhas e ameaças de exorcismos. Ou não. Não pode saber quando isso acabou. Se acabou. Clarisse julga lembrar-se de ter falado, no luar, na rua. As pessoas iam chegando e ficavam e sentavam-se no chão. Um lobo uivou ali perto. Ninguém se importou. Os cães estavam sossegados, lambendo o pelo e as feridas. Que terá dito Clarisse? Por certo, as palavras necessárias que não sabia e já esqueceu. Os livros de Fernando a passarem de mão em mão, a fecharem a roda dos corpos no luar de todos. Que mais terá acontecido? Por onde andará em contra-luz aquele homem-menino? Que novas fomes terá sabido? Que histórias contará sobre o luar das noites que o fizeram rei das crianças, naquele Verão de fantasmas contra o tempo?
Clarisse há-de ter as respostas que moram noutros álbuns. Entretanto...
Licínia Quitério
partilhado por
Licínia Quitério
às
8:47:00 da manhã
16
comentários
16.2.09
CLARISSE 4
Licínia Quitério
partilhado por
Licínia Quitério
às
1:27:00 da tarde
19
comentários
12.2.09
CLARISSE 3

Clarisse pronunciava amarílis com prazer e recato. Não se atrevia a tocá-las, que aquele esplendor fazia temer a queima dos afagos. Tardes de Verão a reclamarem o resguardo de fetos e de canas bravas. Foi no ano em que o verdilhão nidificou no grande cedro e declarou que não entendia as dúvidas dos humanos. Um Verão prenhe de fábulas e de assombrações de luar na intimidade dos claustros. Clarisse começou a escrever um conto sobre a menina que se perdeu no escuro e as mãos feiticeiras que a trouxeram de volta à infância da água. Ainda não o terminou. Não será hoje, que Clarisse adormeceu sobre os álbuns, atordoada pela vibração das amarílis.
Licínia Quitério
partilhado por
Licínia Quitério
às
11:30:00 da manhã
17
comentários
8.2.09
CLARISSE 2
Licínia Quitério
partilhado por
Licínia Quitério
às
4:15:00 da tarde
15
comentários
4.2.09
CLARISSE
Licínia Quitério
partilhado por
Licínia Quitério
às
10:49:00 da manhã
17
comentários
29.1.09
MADRUGADA
Que ilumine o negrume das copas
Que seja a boca e o beijo,
Licínia Quitério
partilhado por
Licínia Quitério
às
11:37:00 da manhã
19
comentários
arquivo
-
►
2019
(26)
- dez 2019 (3)
- nov 2019 (3)
- out 2019 (3)
- set 2019 (3)
- ago 2019 (2)
- jul 2019 (3)
- jun 2019 (1)
- abr 2019 (2)
- mar 2019 (3)
- fev 2019 (1)
- jan 2019 (2)
-
►
2018
(41)
- dez 2018 (4)
- nov 2018 (3)
- set 2018 (3)
- ago 2018 (1)
- jul 2018 (4)
- jun 2018 (7)
- mai 2018 (3)
- abr 2018 (4)
- mar 2018 (2)
- fev 2018 (4)
- jan 2018 (6)
-
►
2017
(56)
- dez 2017 (5)
- nov 2017 (3)
- out 2017 (3)
- set 2017 (4)
- ago 2017 (5)
- jul 2017 (5)
- jun 2017 (3)
- mai 2017 (6)
- abr 2017 (5)
- mar 2017 (4)
- fev 2017 (4)
- jan 2017 (9)
-
►
2016
(46)
- dez 2016 (7)
- nov 2016 (7)
- out 2016 (4)
- set 2016 (4)
- ago 2016 (1)
- jul 2016 (4)
- jun 2016 (5)
- mai 2016 (6)
- abr 2016 (1)
- mar 2016 (1)
- fev 2016 (2)
- jan 2016 (4)
-
►
2015
(50)
- dez 2015 (5)
- nov 2015 (2)
- out 2015 (3)
- set 2015 (4)
- ago 2015 (5)
- jul 2015 (5)
- jun 2015 (5)
- mai 2015 (4)
- abr 2015 (7)
- mar 2015 (6)
- fev 2015 (2)
- jan 2015 (2)
-
►
2014
(60)
- dez 2014 (4)
- nov 2014 (5)
- out 2014 (4)
- set 2014 (4)
- ago 2014 (5)
- jul 2014 (6)
- jun 2014 (5)
- mai 2014 (7)
- abr 2014 (3)
- mar 2014 (7)
- fev 2014 (4)
- jan 2014 (6)
-
►
2013
(48)
- dez 2013 (5)
- nov 2013 (3)
- out 2013 (5)
- set 2013 (5)
- ago 2013 (7)
- jul 2013 (4)
- jun 2013 (5)
- mai 2013 (3)
- abr 2013 (1)
- mar 2013 (3)
- fev 2013 (3)
- jan 2013 (4)
-
►
2012
(52)
- dez 2012 (4)
- nov 2012 (4)
- out 2012 (6)
- set 2012 (2)
- ago 2012 (4)
- jul 2012 (6)
- jun 2012 (4)
- mai 2012 (4)
- abr 2012 (4)
- mar 2012 (4)
- fev 2012 (5)
- jan 2012 (5)
-
►
2011
(60)
- dez 2011 (5)
- nov 2011 (3)
- out 2011 (6)
- set 2011 (6)
- ago 2011 (6)
- jul 2011 (3)
- jun 2011 (5)
- mai 2011 (7)
- abr 2011 (4)
- mar 2011 (8)
- fev 2011 (3)
- jan 2011 (4)
-
►
2010
(54)
- dez 2010 (4)
- nov 2010 (3)
- out 2010 (5)
- set 2010 (5)
- ago 2010 (5)
- jul 2010 (3)
- jun 2010 (9)
- mai 2010 (4)
- abr 2010 (5)
- mar 2010 (3)
- fev 2010 (4)
- jan 2010 (4)
-
►
2009
(54)
- dez 2009 (3)
- nov 2009 (3)
- out 2009 (3)
- set 2009 (5)
- ago 2009 (4)
- jul 2009 (7)
- jun 2009 (4)
- mai 2009 (5)
- abr 2009 (3)
- mar 2009 (6)
- fev 2009 (5)
- jan 2009 (6)
-
►
2008
(55)
- dez 2008 (6)
- nov 2008 (5)
- out 2008 (5)
- set 2008 (4)
- ago 2008 (4)
- jul 2008 (4)
- jun 2008 (5)
- mai 2008 (5)
- abr 2008 (5)
- mar 2008 (4)
- fev 2008 (4)
- jan 2008 (4)









