30.5.09

PAISAGENS



Se nos falam de céu pensamos nuvem.
Se pegamos a nuvem cavalgamos.
O que era o alto faz-se espelho e lago.
A vastidão não é assombro. É leito.
Há-de vir a manhã dos sonhos descobertos.
Paisagens fluidas, luminosas, maternais.


Licínia Quitério

24.5.09

À TARDE O VENTO









Chegam, nas mãos do tempo,
as flores de papel. Amarrotadas. Esmaecidas. Brilharam em festões de romarias sem santos nem milagres. Suportaram a fúria de corações em fogo e as bátegas mornas, com cheiro acidulado de vulcões. Enregelaram na solidão da serra e dormiram sem sonhos de manhã. A lembrança da árvore foi o fio, a seda, a corda que as sustentou nas paredes do vento. São dele agora as flores e a leveza. Quando passam por nós, ao fim da tarde, e um mesmo vento as beija, há um tremeluzir por entre as copas, a indiciar novas florestas.



Licínia Quitério

19.5.09

A SEDE

Atravessamos oceanos de palavras que nunca escreveremos. Navegamos, perdidos no fulgor dos pássaros dos trópicos. Dolorosamente trepamos pelas palavras dum irmão desconhecido. Morremos de cansaço à beira do jardim. Ressuscitamos pelo orvalho que um dia lemos nos olhos cegos da deusa de pedra que nos ensinou os frutos do despertar. Como árvores de uma única estação, guardamos a memória dum lugar em que nos despíamos e vestíamos ao som dos tambores e das flautas, entontecidos pela dança das estátuas que rodopiavam. Assim mitigávamos a grande sede. Bendita sede da última estação.


Licínia Quitério

13.5.09

O FOGO E AS ÁGUAS


Tantas vezes no gelo
adormecemos.
Tantas vezes o fogo sob as águas
nos desperta.
Cristais de sal no olhar.
Sinais de espuma
na quadrícula dos dias.
Dizer eu tive eu fui eu quero.
Tocar o mármore
e vislumbrar o átrio.
Redesenhar o quadro
e expô-lo à claridade.
Dar o corpo ao presente
como se faz no amor.
Enquanto o fogo sob as águas.

Licínia Quitério

7.5.09

RAÍZES

Desmesuradas, as raízes,
cansadas de seus trilhos
profundos de toupeira,
esquecidas dos sinais
que lhes mostraram
âncoras, amarras,
contextos vegetais,
eis que se soltam
dos lodos do passado.
Afiam garras,
irrompem pelas terras,
pelas águas,
olham as copas,
moradas soberbas de animais,
sugam reservas de húmus
e avançam, seguras e ousadas.
Olham para trás a fixar memórias,
respiram virgindade no presente
e vão à frente.
Sobem pelas escarpas
e só descansarão
quando o ninho das águias mais não for
que mácula minúscula na rocha.
Depois, fortalecidas, as raízes
retomarão suas matrizes
e fecharão o círculo,
na imitação das copas habitadas
pelos verdes radicais.


Licínia Quitério, "Da Memória dos Sentidos"

Nota: De regresso, um poema antigo em tradução fotográfica recente. Agradeço as visitas, na ausência. Beijos.

Licínia

20.4.09

VIAJO



Por vezes, viajo. Não o faço quando as asas da partida e da chegada ficam pesadas demais para os meus ombros. Digo da viagem concreta das estradas. Que da outra, inacabada, misteriosa, única, hoje ninguém alcançaria a minha fala.

Voltarei quando Maio ainda for giesta e rosa.

Até lá, o meu abraço de gratidão.


Licínia Quitério

15.4.09

TORRE

Mensageira entre o azul e o negro, o ardor e o gelo.
Esconderijo de anónimos segredos.
Indiferente à ofensa do machado, à ingratidão dos fracos, à vileza dos fortes, à afronta dos ventos sem mudança.
Árvore ressurrecta, refeita, recomposta, soberba.
Uma pedra ou um livro, um cântico ou uma fonte.
Escultura da memória.
Cerne de vida, lenho de morte.
De pé, sobre o alto dos altos, exposta, ofertada, violenta.
Torre, testemunha de castelo havido.

Licínia Quitério

6.4.09

CHEGAM PELA TARDINHA

Chegam pela tardinha
com as costelas doridas
e o amargo nas pupilas.
Um dia mais, pleno de
turvações e folhas mortas.
Pensam caminhos sobre
feno acabado de cortar,
mas vem tão longe o estio.
Fazer a festa, o gesto largo,
armar o palco das palavras
e pô-las a tocar, olhar e ver.
Pegar a voz nas mãos unidas
e lançá-la, despudorada e forte,
do cimo da vontade, até ao céu.
Soltar o medo e apear os ídolos
dos pedestais de cera.
Fazer soar um sino na garganta
e expulsar a rouquidão
das névoas persistentes.
Do magenta ao escarlate é
um pé descalço e o peito aberto
à tentação do vento.
Que venha o tempo de pôr asas na voz
e desvendar segredos de Epidauro.

Licínia Quitério

Nota: Uma breve pausa para outros lugares, outros olhares. Até à volta. Fiquem bem. Deixo um abraço e um sorriso.
Licínia

30.3.09

HÁ QUEM DIGA


Rasgões em ameaça à coesão da cal, as plantas invasoras, vingativas, rejeitadas pela placidez dos bosques, as cores decadentes, tumulares, o sossobrar do prumo nas empenas, a desistência da onda nos beirais.

Há quem diga assim a casa velha.

A porta só no trinco, em alarde vermelho, as trepadeiras vivas abraçando a cal, em cada telha um ninho ou uma espera, um sossego, um tempo livre de traições ou abandonos. A respiração dos passos na soleira, o calor no inverno, o amor de quem partiu e a paz que se aprendeu.

Há quem diga assim a casa velha.


Licínia Quitério

25.3.09

RESISTEM À CLAUSURA



Resistem à clausura porque perderam, diz-se,
o livro das palavras incoerentes.
Silenciosos, bailam e o ondear das vestes
desmente a crueldade das miragens.
Em noites de lua nova há peixes mortos,
por medo de que o brilho se não cumpra.
Mas, nas manhãs solares, levanta-se um vapor
de sonho inacabado sobre as águas.

Licínia Quitério

20.3.09

SE ALGUMA VEZ A NOITE


Se alguma vez a noite,
cansada de esperar
pelo oiro da manhã, antecipasse
o despertar do dia?

Sem rumo as barcas,
pejadas de palavras,
em súplica de rimas,
como quem pede um vento de feição
ou ata a um desejo as sílabas cadentes.

Não soaria azul o azul de mar,
nem prata de luar as mãos de sal.

O sono da donzela sobre a fraga
apagaria grifos e quimeras.

Só na noite o poema é fonte de delírio
e se faz corpo e corda e lume e perdição.


Licínia Quitério

14.3.09

DEPOIS DO INCÊNDIO


Sei que depois do incêndio
os mitos se alimentam
de sobras de minúcias
na ponta diamantina
dos ocasos

Pudera eu
divisar a fractura
onde arrefece a cinza
e acompanhar
as vozes da planura
antiga clara principal

Para sempre caminhar
e não chegar e não chegar


Licínia Quitério













Nota: Clarisse pede-me que agradeça a hospedagem no Sítio e a amabilidade das visitas. Assim faço.

Licínia

8.3.09

CLARISSE 7


Numa página clandestina do álbum, um passageiro de lugares apagados perturbou a visão de Clarisse. Não podia tê-lo conhecido, tal como isso se diz de corpo e voz. Em pequena, habituara-se a vê-lo num grande quadro a óleo, oferta de amigo artista, como lhe contavam. Quantas gerações depois se apresentou Clarisse? Não pode precisar. Achara-o muito velho, quase tão velho como o Jesus crucificado na cómoda do quarto da avó. Agora o retrato diz-lhe um belo jovem com o perto e o longe no olhar. Pensa, com algum pudor, que ficaria bem ali, ao lado dela, não fora a morte a sépia que lhe deram. Houve uma bela casa, mandada construir pelo belo homem. Não a pode ter conhecido Clarisse, a não ser pelas histórias acrescentadas a um batente de bronze, em garra de leão, que hoje pisa papéis na escrivaninha antiga. Como aparecem então os peixes vermelhos no lago, por detrás do retrato? E o cão Piloto à sombra da romãzeira? E o vitral do guarda-vento e a porta giratória e as andorinhas viúvas, duas de cada lado do relógio de capela? O belo homem foi hoje o desassossego de Clarisse. Porque não o conheceu de corpo e voz, não pode nomeá-lo. A revolta do baralho de cartas e os gritos da rainha de copas são um súbito calor nas têmporas. O gato, esse, é o sorriso sobre a romãzeira. Indiferente, uma rola de peito róseo na beira do lago. O coração de Clarisse é um vaso de loiça fina cansado da corrida. Foram anos, foram séculos, foi o dia de ontem.

Fecha o sétimo álbum. O verde dos seus olhos amainou. É assim Clarisse, devoradora de passados.

Licínia Quitério

1.3.09

CLARISSE 6



As ameixas e as abelhas, juntas em cada Verão. A passividade dos frutos em oferenda ao zumbido das asas. Acontecia a doçura antes do mel, como é preciso acontecer no amor. Nas folhas do agrião triunfava o verde, em louvor da água escorrida do tanque. Concha de regas, de lavagens de roupa e de banhos de alegria das crianças, em miragens de mar. Clarisse passeia-se no quintal da casa que dantes lhe contavam. Campo de engenhos e de esforços de mulher com sementeiras e colheitas nos braços. As árvores, as flores, os frutos, as sementes, em espaço exíguo, medido a palmo, estudadas com rigor a sombra e a luz e a demora dos dias. Histórias de vitórias e derrotas contra bichos devoradores, sempre à espreita de lugar na mesa posta, atravessavam as ameias dos muros e pairavam na rua para serem levadas no bico dos pássaros, ao fim da tarde. Foi por uma rola de peito róseo que Clarisse veio a sabê-las, de coração, como se fossem suas. Esta lassidão que não abandona Clarisse põe um véu sobre o rosto da casa que torna a ser jovem e liso, com o olhar aberto e limpo das tecelãs flamengas. A casa parada num tempo em que nada envelhece, em que ninguém falta à chamada. Coabitam as idades intactas e cruzam falas da história que lhes coube. Clarisse entende os sons da casa: o silvo do vapor nas panelas, as vozes do folhetim na rádio, o pedalar da máquina de costura, o sacho nas ervas daninhas, o chiar da roldana no poço, os gritos das crianças, de todas as crianças que permanecem, únicas, continuadas. Clarisse distingue-as pelas alturas, que em tudo o resto lhe parecem iguais. Vendo melhor, uma delas tem o nome Fernando no bolso do bibe e um livro debaixo do braço.

Clarisse esforça-se, em vão, por recordar o nome da grande terra, mãe da casa que a habita. Espera tê-lo de volta, ao folhear, descuidada, uma insónia, num álbum que não sabia.

Licínia Quitério

23.2.09

CLARISSE 5



Um homem-menino chegado da soleira de outro tempo abriu um sorriso nos olhos de Clarisse. Não se lembra do nome dele. Dirá que se chama Fernando. Tinha fome e tinha medo e levaram-no ao encontro de outras fomes, de outros medos. Era uma vez uma aldeia perdida, lá no fundo, passado que fosse o leito seco do ribeiro... Era? Clarisse no declive da serra, rodeada de canções de luta e sobressalto, levando nos braços a maior esperança do mundo. Fernando espantava os medos acariciando livros de ensinar a ler, os livros com que ele, Fernando, ensinaria a ler. Pelas serras fora, os ogres ateavam fogos e tocavam sinos a rebate, anunciando a chegada do anti-Cristo. Clarisse duvida agora se aquele foi tempo de desejo ou de passagem. Os álbuns não mentem, mas confundem. O sol do meio-dia era uma afronta nas paredes enrugadas e na magreza das couves. Histórias que talvez tenham contado a Clarisse ou, quem sabe, ela as tenha inventado quando à noitinha uma mulher lhe bateu à porta para ser ouvida. Mulher-desgraça, desacertada, pecadora de amores alheios, solteira e perdida e calada. Fernando era o rei dos meninos quando lhes lia histórias e os deixava tocar as capas grossas dos livros. Havia enxadas e forquilhas e ameaças de exorcismos. Ou não. Não pode saber quando isso acabou. Se acabou. Clarisse julga lembrar-se de ter falado, no luar, na rua. As pessoas iam chegando e ficavam e sentavam-se no chão. Um lobo uivou ali perto. Ninguém se importou. Os cães estavam sossegados, lambendo o pelo e as feridas. Que terá dito Clarisse? Por certo, as palavras necessárias que não sabia e já esqueceu. Os livros de Fernando a passarem de mão em mão, a fecharem a roda dos corpos no luar de todos. Que mais terá acontecido? Por onde andará em contra-luz aquele homem-menino? Que novas fomes terá sabido? Que histórias contará sobre o luar das noites que o fizeram rei das crianças, naquele Verão de fantasmas contra o tempo?

Clarisse há-de ter as respostas que moram noutros álbuns. Entretanto...


Licínia Quitério

16.2.09

CLARISSE 4

Tão verdade era o sono que Clarisse subiu e poisou na varanda do último andar. No Verão, todos os homens passavam as noites nas varandas. As mulheres vigiavam-nos por detrás das portadas, não fossem eles cair à rua em sobressaltos de vinho e desamor. Na varanda onde Clarisse se achou, estava um homem ainda acordado na sua cadeira de pensar. Tinha poisada no ombro uma rola a que faltava uma asa. Não deram por Clarisse, distraído o homem a contar os carros que subiam a rua e ocupada a ave a alisar com o bico as penas róseas do peito. As paredes de todos os prédios tinham a palidez das pedras colhidas de madrugada. Havia um grande silêncio no mesmo tom, apesar dos muitos carros que desciam e subiam para serem contados. Clarisse disse estou aqui, mas ninguém lhe respondeu. Rodopiou na estreiteza da varanda, mas o homem não desviou o olhar da rua e a rola não suspendeu os esmeros da tarefa. Foi então que Clarisse decidiu abandonar o sítio para que pudesssem ver-lhe a ausência. Sentou-se no parapeito, as pernas para o lado de fora, a baloiçar. Um impulso breve do tronco a fez descer, devagar, com passadas largas, os braços desbravando transparências, o corpo a afundar, a afundar. Do chão da rua, despontou e floriu um leque de mãos de luz. Nele alongou a leveza e ali ficou, tranquila e nua, igual às pedras no leito, antes da madrugada.

Quanto tempo dormiu Clarisse? O tempo sem horas de revisitar a rua das varandas com homens dormentes nas noites de calor. A quantas ruas regressará ainda? Estão tão arruinados, os álbuns.


Licínia Quitério

12.2.09

CLARISSE 3


Clarisse pronunciava amarílis com prazer e recato. Não se atrevia a tocá-las, que aquele esplendor fazia temer a queima dos afagos. Tardes de Verão a reclamarem o resguardo de fetos e de canas bravas. Foi no ano em que o verdilhão nidificou no grande cedro e declarou que não entendia as dúvidas dos humanos. Um Verão prenhe de fábulas e de assombrações de luar na intimidade dos claustros. Clarisse começou a escrever um conto sobre a menina que se perdeu no escuro e as mãos feiticeiras que a trouxeram de volta à infância da água. Ainda não o terminou. Não será hoje, que Clarisse adormeceu sobre os álbuns, atordoada pela vibração das amarílis.

Licínia Quitério

8.2.09

CLARISSE 2



Clarisse insiste em folhear-se nos álbuns. Flores de cinzento e sépia colam-se na frescura dos dedos. No silêncio dos papéis choraram árvores e nasceram torres e ameias de castelos pagãos. Passeia-se Clarisse e os seus passos acalmam a inquietação dos vultos. Alonga-se em ternura e um suavíssimo abraço surpreende a penumbra. No vão dum arco, antes do negro, um sorriso regressado da cabana de musgo dos invernos. Clarisse atenta na brancura dos céus. Azuis seriam as aves que fugiram da história. Teimosamente verde é a brandura dos seus olhos respirando a estrada.

Licínia Quitério

4.2.09

CLARISSE


Clarisse a decifrar segredos na humidade dos álbuns. Pouco encontra que uma sombra avança inexorável sobre os recortes. Não se deixam espreitar. As memórias. Diluem-se num rio de prata salgada. Nada entende Clarisse. Revelados apenas os seus olhos. Repetindo-se serenos no doce caminho do impossível. A estrada de Clarisse.

Licínia Quitério

29.1.09

MADRUGADA


Inda goteja a noite.
Na garganta um vibrato.
No cântaro quebrado, o incenso amortecido.
Desfocada, uma rosa desenha a madrugada.

Que ilumine o negrume das copas
e acalme a sede das ervas
e apague o rasto da peçonha
e alimente as palavras novas.

Que seja a boca e o beijo,
a forja e o aço,
o sangue e o útero

e nos ensine o princípio da alegria.

Licínia Quitério

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