Licínia Quitério
31.7.09
CLARISSE 13
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28.7.09
DOS TIGRES
O novelo das horas tem as cores térreas do tigre,
a tensão das garras do tigre na tapada,
a quietude do concílio das gaivotas,
um zumbido de moscas em redes de ganância.
Só a água, quando for dela o dia, ternamente,
dissolverá o erro, e o medo escorrerá, aveludado,
pelos corpos dos amantes. Da fúria, um beijo novo.
Os tigres dormem, na tapada.
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22.7.09
ROSA LÍQUIDA
Uma rosa líquida nas veias
é o que resta do jardim
depois do vento agudo
no esplendor do ácer.
Da abundância da chuva
ficaram feridas no saibro
provisório dos caminhos.
Cicatrizes serão, enigmáticas,
belas, nos dias quentes
dos sabidos enganos, desejados.
Uma rosa negra, líquida,
desafiando a fome, o vidro.
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17.7.09
CLARISSE 12
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12.7.09
UMA PRECE, UM TIJOLO
Uma prece, um tijolo,
uma deusa, uma pedra,
uma morte, uma tinta,
um cimento de suor e de fé.
O desafio do tecto,
a certeza do arco,
as batalhas da luz,
a escalada dos muros,
o aprumo, o rigor,
o atrevimento, o risco.
A mão do arquitecto
presa ao fuste
e um rasto de cor
ensanguentada
a encher o copo de oiro
do anúncio do dia
de uma outra construção.
Talvez igual, talvez a tal.
Licínia Quitério
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6.7.09
CLARISSE 11
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1.7.09
FRAGMENTOS
Pode ocorrer um verão em que o calor
seja martelo e escopro contra as dunas
e as fragmente teimosamente fragmente
até que a visão táctil das miragens
desfaça a maldição dos velhos
e o sangue do mar em terra firme
apazigue o cansaço dos rebanhos
e a secura aprendida dos escravos.
Intactas ficarão as grutas dos mistérios
com as tábuas de sal por decifrar.
Os homens do deserto moldarão
com as mãos ardidas letras novas
outras perguntas cantos jovens
repetidos rostos de mulheres-leoas
enigmáticas como devem ser.
Ínfimos fragmentos só o verão os traz
e os crava na dor da pele em chamas.
Licínia Quitério
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17.6.09
CLARISSE 10

Seria bem diferente quando a colaram no álbum. Naquele tempo, as flores brancas corriam pelos campos ou definhavam na estreiteza das jarras. Esta sobrenadava águas tão próximas do céu que podia tocar a liquidez das estrelas. Foi o que assustou Clarisse que logo fechou o álbum, olhando em volta como se alguém a espiasse. Receosa dos seus próprios gestos, abriu a gaveta, empurrou o álbum bem para o fundo, para o lugar onde repousam os álbuns que nasceram para nunca serem folheados e fechou-a à chave como há muito não o fazia. Sentou-se, afagou o gato impertinente a trepar-lhe para o colo e assim ficou, com uma inquietação húmida a desafiar-lhe os ombros. Antes de fechar os olhos, Clarisse fixou as mãos sobre o lombo do gato e admirou-se dos rios azuis que as percorriam, com seus afluentes e deltas. Não se lembra de os ter visto quando pela primeira vez visitou aquele álbum. Que acontecera então desde que alguém tentou contrariar a brevidade da flor, fixando-lhe a verdade, a idade, a essência? Mudaram as cores, dissolveram-se os traços, afirmou-se uma nova luz que Clarisse pensou transparência. Cumpriu-se o destino da flor? Avançou, insidiosa, a construção dos rios azuis? Clarisse está segura de que é o tempo das gavetas que mede a beleza da flor branca e das suas mãos de maré cheia, também elas flores de carícias sem hora nem porquê.
Licínia Quitério
Nota - Voltarei no sétimo mês. A este e ao Outro Sítio. Penso que Clarisse não deixará de me acompanhar. Lembrando Luís de Stau Monteiro, aconselho: Agarrem o Verão, Amigos, agarrem o Verão!
Licínia
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12.6.09
RETRATO DE CIDADE
Quando nasci, foste-me casa e rua,
o nome duma história a descobrir
e o mundo numa praça à beira rio.
Pela minha cidade me pensei
transeunte da boémia e da saudade,
a rimar caravela e desacato.
Entristeci nos palcos e nos becos
até que o cheiro a cravo se soltou
e Arlequim pulou e a lágrima secou.
Então te amei de amor aberto e rubro
neste pontão de enganos, nesta luz
sempre acesa no vidro dos telhados.
Pelas esquinas de vultos rente ao escuro,
de novo se alimenta esta cidade
com sobras de ternura e ousadia.
Persistência de pombos e mendigos
na rapina do sol e das sementes.
Meu corpo, minha terra, minha gente.
Licínia Quitério
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7.6.09
CLARISSE 9
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2.6.09
CLARISSE 8
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30.5.09
PAISAGENS
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24.5.09
À TARDE O VENTO
Chegam, nas mãos do tempo, as flores de papel. Amarrotadas. Esmaecidas. Brilharam em festões de romarias sem santos nem milagres. Suportaram a fúria de corações em fogo e as bátegas mornas, com cheiro acidulado de vulcões. Enregelaram na solidão da serra e dormiram sem sonhos de manhã. A lembrança da árvore foi o fio, a seda, a corda que as sustentou nas paredes do vento. São dele agora as flores e a leveza. Quando passam por nós, ao fim da tarde, e um mesmo vento as beija, há um tremeluzir por entre as copas, a indiciar novas florestas.
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19.5.09
A SEDE
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13.5.09
O FOGO E AS ÁGUAS

Tantas vezes no gelo
adormecemos.
Tantas vezes o fogo sob as águas
nos desperta.
Cristais de sal no olhar.
Sinais de espuma
na quadrícula dos dias.
Dizer eu tive eu fui eu quero.
Tocar o mármore
e vislumbrar o átrio.
Redesenhar o quadro
e expô-lo à claridade.
Dar o corpo ao presente
como se faz no amor.
Enquanto o fogo sob as águas.
Licínia Quitério
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7.5.09
RAÍZES
Desmesuradas, as raízes,
cansadas de seus trilhos
profundos de toupeira,
esquecidas dos sinais
que lhes mostraram
âncoras, amarras,
contextos vegetais,
eis que se soltam
dos lodos do passado.
Afiam garras,
irrompem pelas terras,
pelas águas,
olham as copas,
moradas soberbas de animais,
sugam reservas de húmus
e avançam, seguras e ousadas.
Olham para trás a fixar memórias,
respiram virgindade no presente
e vão à frente.
Sobem pelas escarpas
e só descansarão
quando o ninho das águias mais não for
que mácula minúscula na rocha.
Depois, fortalecidas, as raízes
retomarão suas matrizes
e fecharão o círculo,
na imitação das copas habitadas
pelos verdes radicais.
Licínia Quitério, "Da Memória dos Sentidos"
Nota: De regresso, um poema antigo em tradução fotográfica recente. Agradeço as visitas, na ausência. Beijos.
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20.4.09
VIAJO
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15.4.09
TORRE
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6.4.09
CHEGAM PELA TARDINHA
Fazer soar um sino na garganta
Nota: Uma breve pausa para outros lugares, outros olhares. Até à volta. Fiquem bem. Deixo um abraço e um sorriso.
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30.3.09
HÁ QUEM DIGA
Rasgões em ameaça à coesão da cal, as plantas invasoras, vingativas, rejeitadas pela placidez dos bosques, as cores decadentes, tumulares, o sossobrar do prumo nas empenas, a desistência da onda nos beirais.
Há quem diga assim a casa velha.
A porta só no trinco, em alarde vermelho, as trepadeiras vivas abraçando a cal, em cada telha um ninho ou uma espera, um sossego, um tempo livre de traições ou abandonos. A respiração dos passos na soleira, o calor no inverno, o amor de quem partiu e a paz que se aprendeu.
Há quem diga assim a casa velha.
Licínia Quitério
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