29.9.09
OUTONO
O murmúrio de insectos na vertical do olhar.
Promessas do bosque na queda dos frutos com sabores ao êxodo das aves.
Crianças abrindo portas para um sono leve.
É o Outono, dizem as velhas de mãos azuis com cheiro a alfazema.
A memória das folhas, implacável, a anunciar destinos madurados.
Um remoinho súbito, uma prece indistinta, um rumor, um estalido.
Melancólicas águas de outros tempos a inundar os passos da ternura.
É o Outono, digo.
Licínia Quitério
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23.9.09
NENÚFARES
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19.9.09
NÃO SE MEDE ESTA FORÇA
Não se mede esta força de atar
folhas verdes a troncos velhos.
A força de amarrar os barcos
ou de pegar nos frágeis ovos.
De esmagar o veneno ou
de amparar o sopro da tarde.
De acarinhar a pele ou
de empurrar o corpo encosta acima.
Não se mede esta força.
Por agora não há como nem porquê.
Saberemos do ofício quando
o tempo vier de dizer fome
com as letras de pão,
com o peso das penas,
com as cores da madrugada.
Licínia Quitério
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9.9.09
OS CAMINHOS VELHOS
Envelheceram as bermas dos caminhos.
Sombras, muitos risos fugidos do amanhã.
Por dentro do meu peito voam pássaros,
redondos pássaros de redondos cantos.
Levo-os a visitar caminhos de ontem.
Liberto-os no deslumbre do ribeiro.
Voltarão ao ninho, ao coração da frágua.
O sol a pique na queima da memória.
E a água em seu labor, criando o verde.
Licínia Quitério
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1.9.09
ENQUANTO O LOBO
Enquanto o lobo não chega
com o tempo atado nas goelas,
vigiamos a escuridão e os sinais
de luz nas matas sonolentas.
Quem sabe, vaga-lumes esquecidos
das infâncias, ou o sabor do pão
das mães a iluminar a fome.
Indistintos contornos de meninos
perdidos ou de mulheres insanas
com breu e oiro nos cabelos.
É a lua, dizem, que nos solta
da raiva primitiva dos presídios
e nos ensina o uivo disfarçado
no vai-vém incansável das marés.
Luar de fel por vezes, solitária luz.
Por entre os dedos fios de amor
escondido sob o adro de lajedos.
Luar de mel, também, na berma
clara de um caminho novo,
na trama de uma manta de segredos,
na média noite sem grades e sem lei.
Licínia Quitério
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26.8.09
O POEMA
se não anunciar que o poema nasceu?
Uma batida incerta a querer romper o peito,
uma breve tontura, uma agonia quase.
O mar vizinho, sempre inconformado,
apertado entre os céus e os fundos abissais.
O cheiro intenso a peixe, a náusea do que fomos,
a seduzir os braços do poema.
Ele aí vai, a roçagar escamas de luz,
febril, bamboleante, ébrio de sons,
ensaiando o nome do silêncio,
na estrada atapetada de algas e de búzios.
Em eterna vigília ficará, te digo,
o poema nascido à beira-mar.
Licínia Quitério, "Da Memória dos Sentidos"
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18.8.09
HAJA UM TEMPO
Haja um tempo em que o Verão
abra caminhos limpos, intervalos
de sombra onde dormitem musgos,
e as asas dos pássaros se aquietem
e os pés cansados se refresquem
na leveza das águas, no recorte
das ervas.
Num tempo assim hão-de ecoar
cantares de amor e abundância
no côncavo dos poços, nas cavernas
do frio, na garganta dos tristes.
Dobrados, rente ao medo, esperam.
O tempo há-de chegar.
Licínia Quitério
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12.8.09
CLARISSE 14
Ainda lá está, o banco. Clarisse fez questão de voltar ao pequeno largo e de saber notícias do tempo ido. Podemos chamar-lhe álbum, mas há dias em que Clarisse põe outras dimensões no olhar e vê, por exemplo, como o sol das onze horas num dia de Setembro se apodera do banco e o torna senhor do largo, como se não houvesse o austero edifício e a pequena igreja e as flores amáveis da azálea que se oferecem como bouquets de noiva, em berma de estrada. As fotos antigas transportam castelos de nuvens. Claro-escuras, de céus carregados de tempo e de bruma. Pensa-se deitada no chão da praia, não vês o coelho a espreitar, por detrás da torre do castelo. Isso mesmo, o vento está a desfazer-lhe a orelha, o pobrezito. É o caminho dele, seguir a tarde até ser barco, ou perfil de velho, ou nada que tenha nome a não ser de nuvem. Clarisse nunca fixou rostos, a não ser os de olhos falantes, melhor ainda se gostosos de brilhar. Prefere imaginá-los, na mancha de café sobre a mesa, no recorte da folha do livro antigo, na sombra dos ramos no luar da cal. Varrendo a foto, lentamente, com o vagar das horas que lhe sobram do colo, consegue recuperar uma silhueta de mulher que um dia passou no largo sem olhar o banco guardador de sol. A mulher, diz agora, caminhava devagar e sorria e quem sabe se o Homem sorria ao seu lado e nem precisavam de saber do banco, que o cansaço ainda não nascera e o sol morava dentro deles em quatro estações. Clarisse não tem emenda. Persiste em contar histórias que as fotos não dizem e em inventar rostos de olhos falantes que dos outros, em verdade, se esquece.Licínia Quitério
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6.8.09
FOI SEMPRE ASSIM
Violência é a fome, o choro
infindável de etiópias, o medo
de as saber e rastejar aos pés
da escarpa triunfante, cesárea,
coroada.
O amor, ah sim o amor, a poesia,
as danças e o pôr-do-sol a desabar
cornucópias de cor no litoral.
Foi sempre assim, não é? O riso impune
das hienas e a espera dos abutres.
Desde que o homem é homem.
Ou quando já não é. Amen.
Licínia Quitério
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31.7.09
CLARISSE 13
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28.7.09
DOS TIGRES
O novelo das horas tem as cores térreas do tigre,
a tensão das garras do tigre na tapada,
a quietude do concílio das gaivotas,
um zumbido de moscas em redes de ganância.
Só a água, quando for dela o dia, ternamente,
dissolverá o erro, e o medo escorrerá, aveludado,
pelos corpos dos amantes. Da fúria, um beijo novo.
Os tigres dormem, na tapada.
Licínia Quitério
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22.7.09
ROSA LÍQUIDA
Uma rosa líquida nas veias
é o que resta do jardim
depois do vento agudo
no esplendor do ácer.
Da abundância da chuva
ficaram feridas no saibro
provisório dos caminhos.
Cicatrizes serão, enigmáticas,
belas, nos dias quentes
dos sabidos enganos, desejados.
Uma rosa negra, líquida,
desafiando a fome, o vidro.
Licínia Quitério
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17.7.09
CLARISSE 12
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12.7.09
UMA PRECE, UM TIJOLO
Uma prece, um tijolo,
uma deusa, uma pedra,
uma morte, uma tinta,
um cimento de suor e de fé.
O desafio do tecto,
a certeza do arco,
as batalhas da luz,
a escalada dos muros,
o aprumo, o rigor,
o atrevimento, o risco.
A mão do arquitecto
presa ao fuste
e um rasto de cor
ensanguentada
a encher o copo de oiro
do anúncio do dia
de uma outra construção.
Talvez igual, talvez a tal.
Licínia Quitério
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6.7.09
CLARISSE 11
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1.7.09
FRAGMENTOS
Pode ocorrer um verão em que o calor
seja martelo e escopro contra as dunas
e as fragmente teimosamente fragmente
até que a visão táctil das miragens
desfaça a maldição dos velhos
e o sangue do mar em terra firme
apazigue o cansaço dos rebanhos
e a secura aprendida dos escravos.
Intactas ficarão as grutas dos mistérios
com as tábuas de sal por decifrar.
Os homens do deserto moldarão
com as mãos ardidas letras novas
outras perguntas cantos jovens
repetidos rostos de mulheres-leoas
enigmáticas como devem ser.
Ínfimos fragmentos só o verão os traz
e os crava na dor da pele em chamas.
Licínia Quitério
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17.6.09
CLARISSE 10

Seria bem diferente quando a colaram no álbum. Naquele tempo, as flores brancas corriam pelos campos ou definhavam na estreiteza das jarras. Esta sobrenadava águas tão próximas do céu que podia tocar a liquidez das estrelas. Foi o que assustou Clarisse que logo fechou o álbum, olhando em volta como se alguém a espiasse. Receosa dos seus próprios gestos, abriu a gaveta, empurrou o álbum bem para o fundo, para o lugar onde repousam os álbuns que nasceram para nunca serem folheados e fechou-a à chave como há muito não o fazia. Sentou-se, afagou o gato impertinente a trepar-lhe para o colo e assim ficou, com uma inquietação húmida a desafiar-lhe os ombros. Antes de fechar os olhos, Clarisse fixou as mãos sobre o lombo do gato e admirou-se dos rios azuis que as percorriam, com seus afluentes e deltas. Não se lembra de os ter visto quando pela primeira vez visitou aquele álbum. Que acontecera então desde que alguém tentou contrariar a brevidade da flor, fixando-lhe a verdade, a idade, a essência? Mudaram as cores, dissolveram-se os traços, afirmou-se uma nova luz que Clarisse pensou transparência. Cumpriu-se o destino da flor? Avançou, insidiosa, a construção dos rios azuis? Clarisse está segura de que é o tempo das gavetas que mede a beleza da flor branca e das suas mãos de maré cheia, também elas flores de carícias sem hora nem porquê.
Licínia Quitério
Nota - Voltarei no sétimo mês. A este e ao Outro Sítio. Penso que Clarisse não deixará de me acompanhar. Lembrando Luís de Stau Monteiro, aconselho: Agarrem o Verão, Amigos, agarrem o Verão!
Licínia
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12.6.09
RETRATO DE CIDADE
Quando nasci, foste-me casa e rua,
o nome duma história a descobrir
e o mundo numa praça à beira rio.
Pela minha cidade me pensei
transeunte da boémia e da saudade,
a rimar caravela e desacato.
Entristeci nos palcos e nos becos
até que o cheiro a cravo se soltou
e Arlequim pulou e a lágrima secou.
Então te amei de amor aberto e rubro
neste pontão de enganos, nesta luz
sempre acesa no vidro dos telhados.
Pelas esquinas de vultos rente ao escuro,
de novo se alimenta esta cidade
com sobras de ternura e ousadia.
Persistência de pombos e mendigos
na rapina do sol e das sementes.
Meu corpo, minha terra, minha gente.
Licínia Quitério
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7.6.09
CLARISSE 9
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2.6.09
CLARISSE 8
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30.5.09
PAISAGENS
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24.5.09
À TARDE O VENTO
Chegam, nas mãos do tempo, as flores de papel. Amarrotadas. Esmaecidas. Brilharam em festões de romarias sem santos nem milagres. Suportaram a fúria de corações em fogo e as bátegas mornas, com cheiro acidulado de vulcões. Enregelaram na solidão da serra e dormiram sem sonhos de manhã. A lembrança da árvore foi o fio, a seda, a corda que as sustentou nas paredes do vento. São dele agora as flores e a leveza. Quando passam por nós, ao fim da tarde, e um mesmo vento as beija, há um tremeluzir por entre as copas, a indiciar novas florestas.
Licínia Quitério
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19.5.09
A SEDE
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13.5.09
O FOGO E AS ÁGUAS

Tantas vezes no gelo
adormecemos.
Tantas vezes o fogo sob as águas
nos desperta.
Cristais de sal no olhar.
Sinais de espuma
na quadrícula dos dias.
Dizer eu tive eu fui eu quero.
Tocar o mármore
e vislumbrar o átrio.
Redesenhar o quadro
e expô-lo à claridade.
Dar o corpo ao presente
como se faz no amor.
Enquanto o fogo sob as águas.
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7.5.09
RAÍZES
Desmesuradas, as raízes,
cansadas de seus trilhos
profundos de toupeira,
esquecidas dos sinais
que lhes mostraram
âncoras, amarras,
contextos vegetais,
eis que se soltam
dos lodos do passado.
Afiam garras,
irrompem pelas terras,
pelas águas,
olham as copas,
moradas soberbas de animais,
sugam reservas de húmus
e avançam, seguras e ousadas.
Olham para trás a fixar memórias,
respiram virgindade no presente
e vão à frente.
Sobem pelas escarpas
e só descansarão
quando o ninho das águias mais não for
que mácula minúscula na rocha.
Depois, fortalecidas, as raízes
retomarão suas matrizes
e fecharão o círculo,
na imitação das copas habitadas
pelos verdes radicais.
Licínia Quitério, "Da Memória dos Sentidos"
Nota: De regresso, um poema antigo em tradução fotográfica recente. Agradeço as visitas, na ausência. Beijos.
Licínia
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20.4.09
VIAJO
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15.4.09
TORRE
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6.4.09
CHEGAM PELA TARDINHA
Fazer soar um sino na garganta
Nota: Uma breve pausa para outros lugares, outros olhares. Até à volta. Fiquem bem. Deixo um abraço e um sorriso.
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30.3.09
HÁ QUEM DIGA
Rasgões em ameaça à coesão da cal, as plantas invasoras, vingativas, rejeitadas pela placidez dos bosques, as cores decadentes, tumulares, o sossobrar do prumo nas empenas, a desistência da onda nos beirais.
Há quem diga assim a casa velha.
A porta só no trinco, em alarde vermelho, as trepadeiras vivas abraçando a cal, em cada telha um ninho ou uma espera, um sossego, um tempo livre de traições ou abandonos. A respiração dos passos na soleira, o calor no inverno, o amor de quem partiu e a paz que se aprendeu.
Há quem diga assim a casa velha.
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9:33:00 da tarde
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25.3.09
RESISTEM À CLAUSURA
.jpg)
Resistem à clausura porque perderam, diz-se,
o livro das palavras incoerentes.
Silenciosos, bailam e o ondear das vestes
desmente a crueldade das miragens.
Em noites de lua nova há peixes mortos,
por medo de que o brilho se não cumpra.
Mas, nas manhãs solares, levanta-se um vapor
de sonho inacabado sobre as águas.
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20.3.09
SE ALGUMA VEZ A NOITE
e se faz corpo e corda e lume e perdição.
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4:45:00 da tarde
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14.3.09
DEPOIS DO INCÊNDIO
Sei que depois do incêndio
os mitos se alimentam
de sobras de minúcias
na ponta diamantina
dos ocasos
Pudera eu
divisar a fractura
onde arrefece a cinza
e acompanhar
as vozes da planura
antiga clara principal
Para sempre caminhar
e não chegar e não chegar
Licínia Quitério
Nota: Clarisse pede-me que agradeça a hospedagem no Sítio e a amabilidade das visitas. Assim faço.
Licínia
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8.3.09
CLARISSE 7
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1.3.09
CLARISSE 6

As ameixas e as abelhas, juntas em cada Verão. A passividade dos frutos em oferenda ao zumbido das asas. Acontecia a doçura antes do mel, como é preciso acontecer no amor. Nas folhas do agrião triunfava o verde, em louvor da água escorrida do tanque. Concha de regas, de lavagens de roupa e de banhos de alegria das crianças, em miragens de mar. Clarisse passeia-se no quintal da casa que dantes lhe contavam. Campo de engenhos e de esforços de mulher com sementeiras e colheitas nos braços. As árvores, as flores, os frutos, as sementes, em espaço exíguo, medido a palmo, estudadas com rigor a sombra e a luz e a demora dos dias. Histórias de vitórias e derrotas contra bichos devoradores, sempre à espreita de lugar na mesa posta, atravessavam as ameias dos muros e pairavam na rua para serem levadas no bico dos pássaros, ao fim da tarde. Foi por uma rola de peito róseo que Clarisse veio a sabê-las, de coração, como se fossem suas. Esta lassidão que não abandona Clarisse põe um véu sobre o rosto da casa que torna a ser jovem e liso, com o olhar aberto e limpo das tecelãs flamengas. A casa parada num tempo em que nada envelhece, em que ninguém falta à chamada. Coabitam as idades intactas e cruzam falas da história que lhes coube. Clarisse entende os sons da casa: o silvo do vapor nas panelas, as vozes do folhetim na rádio, o pedalar da máquina de costura, o sacho nas ervas daninhas, o chiar da roldana no poço, os gritos das crianças, de todas as crianças que permanecem, únicas, continuadas. Clarisse distingue-as pelas alturas, que em tudo o resto lhe parecem iguais. Vendo melhor, uma delas tem o nome Fernando no bolso do bibe e um livro debaixo do braço.
Clarisse esforça-se, em vão, por recordar o nome da grande terra, mãe da casa que a habita. Espera tê-lo de volta, ao folhear, descuidada, uma insónia, num álbum que não sabia.
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23.2.09
CLARISSE 5
Um homem-menino chegado da soleira de outro tempo abriu um sorriso nos olhos de Clarisse. Não se lembra do nome dele. Dirá que se chama Fernando. Tinha fome e tinha medo e levaram-no ao encontro de outras fomes, de outros medos. Era uma vez uma aldeia perdida, lá no fundo, passado que fosse o leito seco do ribeiro... Era? Clarisse no declive da serra, rodeada de canções de luta e sobressalto, levando nos braços a maior esperança do mundo. Fernando espantava os medos acariciando livros de ensinar a ler, os livros com que ele, Fernando, ensinaria a ler. Pelas serras fora, os ogres ateavam fogos e tocavam sinos a rebate, anunciando a chegada do anti-Cristo. Clarisse duvida agora se aquele foi tempo de desejo ou de passagem. Os álbuns não mentem, mas confundem. O sol do meio-dia era uma afronta nas paredes enrugadas e na magreza das couves. Histórias que talvez tenham contado a Clarisse ou, quem sabe, ela as tenha inventado quando à noitinha uma mulher lhe bateu à porta para ser ouvida. Mulher-desgraça, desacertada, pecadora de amores alheios, solteira e perdida e calada. Fernando era o rei dos meninos quando lhes lia histórias e os deixava tocar as capas grossas dos livros. Havia enxadas e forquilhas e ameaças de exorcismos. Ou não. Não pode saber quando isso acabou. Se acabou. Clarisse julga lembrar-se de ter falado, no luar, na rua. As pessoas iam chegando e ficavam e sentavam-se no chão. Um lobo uivou ali perto. Ninguém se importou. Os cães estavam sossegados, lambendo o pelo e as feridas. Que terá dito Clarisse? Por certo, as palavras necessárias que não sabia e já esqueceu. Os livros de Fernando a passarem de mão em mão, a fecharem a roda dos corpos no luar de todos. Que mais terá acontecido? Por onde andará em contra-luz aquele homem-menino? Que novas fomes terá sabido? Que histórias contará sobre o luar das noites que o fizeram rei das crianças, naquele Verão de fantasmas contra o tempo?
Clarisse há-de ter as respostas que moram noutros álbuns. Entretanto...
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16.2.09
CLARISSE 4
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12.2.09
CLARISSE 3

Clarisse pronunciava amarílis com prazer e recato. Não se atrevia a tocá-las, que aquele esplendor fazia temer a queima dos afagos. Tardes de Verão a reclamarem o resguardo de fetos e de canas bravas. Foi no ano em que o verdilhão nidificou no grande cedro e declarou que não entendia as dúvidas dos humanos. Um Verão prenhe de fábulas e de assombrações de luar na intimidade dos claustros. Clarisse começou a escrever um conto sobre a menina que se perdeu no escuro e as mãos feiticeiras que a trouxeram de volta à infância da água. Ainda não o terminou. Não será hoje, que Clarisse adormeceu sobre os álbuns, atordoada pela vibração das amarílis.
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8.2.09
CLARISSE 2
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4.2.09
CLARISSE
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29.1.09
MADRUGADA
Que ilumine o negrume das copas
Que seja a boca e o beijo,
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25.1.09
ELOGIO DOS RELÓGIOS DE SOL
Quisessem os relógios só medir o dia
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20.1.09
OBAMA
Hoje chama-se Obama. Precisei de o registar.
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16.1.09
UM SONHO MAU

Não digas o que viste. Pode ser que nada tenha acontecido além do corte brusco no caminho. O vento mais não fez que relembrar o separar das águas. Tu não ouviste a ladainha dos crentes nem a imprecação das mulheres. A bainha das cores tem sangue de cordeiros que morreram há muito. Quando ainda havia profetas e deuses e a estrada da fome era a ondulação das dunas. Não fales do clamor das estrelas cadentes. Tu não sabes quantas vozes tem o céu. Tu que te julgas sábio porque conheces as idades da lua e a gravidez das marés. Cala-te. Nenhum manjar é novo nesta mesa de enganos. Tu conheceste algozes e deste-lhes a lâmina e não acreditaste que matassem. Agora não te movas. Pensa-te rocha. Sente o tropel a adentrar-se na terra. Dorme as noites de solidão ainda por cumprir.
Dá-me a tua mão. Foi um sonho mau. Foi um sonho mau.
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10.1.09
FALEMOS ENTÃO
Falemos então da elegância das mulheres. Não soletremos a feminina condição. Digamos da sua matéria inspiradora. Vestidas de chuva as mulheres desafiam o sol. Com uma dor cinzelada no braço sorriem à curva da serpente. Contam as misérias do mundo no rosário de sonhos de opulência. Falemos então dos homens que não podem amá-las. Estão cansados de fazerem a guerra. Estão doridos por não pararem a guerra. Lamentam não terem feito filhos na delicadeza das mulheres. Ficaram estéreis os homens que mulheres condenaram à guerra. Os homens que restarem abraçarão as mulheres que restarem. Elas vestirão a prata das noites sem remorso. Todos eles terão os olhos da cor do esquecimento.
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