14.6.10

AUTOBIOGRAFIA




Tudo passou por mim nas noites e nos dias:
a beleza dos corpos feitos de gelo ou brasa
fossem de gente ou ave ou seixo de riacho,
mudos como o luar ou com vozes de prata.
Eram bandeiras e choros e imprecações,
marchas negras de fome e arraiais e danças
e a ternura das mães e o desejo das mãos
e a deserção dos sujos e o abraço dos puros.
Houve também as paredes da casa e a janela
e a porta, como houve as minhas dores
recolhidas, fechadas. Aberta sempre a casa
a quem trouxesse o lume e a boa nova
ou precisasse de secar a roupagem dos olhos.
Com a fragilidade de um cristal de rocha
ou a exactidão e a força de uma teia de aranha,
por tudo vou passando e tudo em mim deixando
uma mancha de sol, uma breve lantejoula,
uma folha orvalhada, uma luz partilhada,
um amigo certo, uma palavra amada
e a loucura das rosas esquecidas do deserto.

Licínia Quitério

10.6.10

CLARISSE 15


Muito tempo passou desde que Clarisse folheou o último álbum. Nesse ano a invernia foi intensa, cruel, não deixando abertas no céu para que o sol  aquecesse o peito enregelado. Clarisse fingia-se sem tempo para reviver passados, numa moleza encostada a lareiras apagadas e a conversas alongadas com gente de outros álbuns. Já mal recordava os lugares e as músicas e os silêncios irrepetíveis bordados de pétalas de flores que ninguém se atrevia a nomear. E  caía numa melancolia de romance quando as rolas vinham beber ao tanque de regas, tão precisado de obras como se alguém ainda se importasse com a secura da terra que o verão impõe. Já a primavera ia adiantada quando um estremeção a fez virar-se, rodando sobre a cintura, resguardando a segurança dos pés, temendo por instinto uma tontura. E ela veio, leve e distante, sem exageros, como em sonhos. Do sonho seria a rola de peito róseo a que faltava uma asa e que a fitava, com seu olhinho de vidro, à beira de água, sem beber. Clarisse entendeu o sinal e foi finalmente folhear o último álbum. A humidade do inverno fizera das suas e um rosto que jurava ter conhecido estava agora manchado, de contornos esbatidos, como se fosse uma pintura a quem o desgaste não tivesse porém ocultado a serenidade e a beleza que se desprendem da palavra amor. Clarisse sentiu que a história tinha chegado ao fim e que não voltaria a folhear os álbuns. Antes de o fechar,  viu uma rosa branca, ainda estranhamente branca, a segurar um poema. Ilusão, só podia ser. A rosa e o poema tinham partido há muito com o homem do retrato manchado, sereno e belo, que o tempo não deixou que noutro se tornasse. Os olhos de Clarisse continuam verdes, verde-água, quando for tempo disso, e a enfrentar a estrada onde nunca faltam poemas e rosas brancas.

Foi esta uma maneira de contar a história de Clarisse, devoradora de passados e teimosamente construtora de futuros.

Licínia Quitério

8.6.10

CAMINHOS



Nos caminhos da sombra se acoitam nossos medos.
Ah não fossem as sombras como andariam loucos,
em desatino, a desfazer a nossa gargalhada, a desatar
o nosso abraço, a apagar o lume que o amor acende,
a ocultar os astros novos que as noites nos ofertam.
Libertos ficam os indícios das pedras que a outras
pedras nos conduzem, sempre mais amáveis, mais
redondas, mais lisas, mais conforme a lassidão do
nosso andar. E as cores, as cores, que nos traçam
os mapas na pele, nos olhos astrolábios, nas mãos
oceanos de gelo, lava de vulcões, nos braços a prata
do devir dos amantes, na boca o oiro  com que
se beija um filho ainda por nascer ou já entregue
às pedras e aos medos e ao brilho imenso de viver.

Licínia Quitério

6.6.10

PROVAVELMENTE




Provavelmente  nada seria igual
se um tritão inda houvesse, meu amigo,
meu escravo, meu senhor, minha casa de mar.
Os tritões agora são de pedra,
nos lagos e nas fontes,  fantasias
dos deuses depois da criação 
de vaidades e ambições do tamanho do sol,
da via láctea ou da  ínfima partícula
em que nenhum nome cabe para poder existir.
O tritão que eu sabia dos desenhos solares
que só as crianças constroem nas areias
era gentil e sorria quando eu o cavalgava.
Meu escravo, meu senhor,  levava-me
a viver minha casa de mar com peixes 
cor de luz e tudo o mais que eu não tive
que o meu amigo em pedra se tornou
e a criança assombrada na areia ficou.

Licínia Quitério

Apresento as minhas desculpas por, durante um tempo que espero breve, não visitar os vossos blogs, deixando os merecidos comentários. Grata pelas amáveis opiniões que sempre aqui fazeis o favor de expressar. Deixo-vos o meu terno abraço.

Licínia

31.5.10

AS MENINAS


Eram meninas e brincavam.

Inventavam a floresta
e ela acontecia.
Escondiam-se e um manto
de asas de anjo as encobria.
A noite era um sítio longe
e o dia brotava-lhes das mãos.
Escutavam as árvores, 
o namoro das copas. 
As meninas tinham caixas
de guardar segredos
com chaves pequeninas,
invisíveis.
Nelas dormiam os cavalinhos brancos
de galopar, de galopar.
As meninas apressam-se a crescer.
Apagam as florestas antes que a noite chegue.
Já não se escondem, as meninas.
Souberam que não há anjos sem asas.
Deitaram fora as caixas dos segredos.
Foram-se embora  os cavalinhos,
a galopar, a galopar.
Estão tão grandes as meninas.
Pequeninas ficaram as chaves
invisíveis, 
para que o vento as leve
mundo fora, a voar, a voar.

Foram meninas e brincaram...

Licínia Quitério

24.5.10

SER ÁRVORE


Há um tempo que nos cabe
de sermos tronco adulto altivo
resistente à injúria e ao machado.
Raízes são olhares que deixamos
prender na solidão das casas
pejadas de gritos e abraços
e recados  ao encontro do futuro.
Não me falem de ninhos, nem de sonhos,
nem de viagens, nem de contas-correntes.
Eu só quero ser árvore, ouvem bem,
árvore, com seivas elaboradas,
diligentes, cantarolando
uma húmida e suave barcarola.
Hei-de ter folhas rente ao chão
ao alcance da fome e da loucura
de quem sonhou demais e definhou.
Hei-de ter copa, sim, da matéria
das sombras que o luar constrói
na cal dos muros, nos caminhos da noite.
Depois serei colosso, serei lenho,
as seivas já sem canto, só soluço,
em debandada as sombras e os espectros.
Velha serei, mas árvore e deixarei,
viçosas, esperançosas, algumas
jovens folhas rente ao chão.

Licínia Quitério

16.5.10

LADAINHA EM REDOR DE UM BÚZIO

Encosta-o ao ouvido,
a mão em concha
a modelar-lhe o dorso.
Agora fecha os olhos,
aparta-te do mundo,
murmura búzio como
quando pela última vez
disseste meu amor
e só o mar te ouviu.
Escuta o clamor das ondas,
lá longe, onde findaram
as praias, as falésias,
e os navios  fantasmas
não podem aportar.
Espera um pouco mais.
Uma voz hás-de ouvir
que só pode ser água
que só pode ser vento
ou então a mesma  voz
com que disseste amor
pela última vez 
e só o mar ouviu
e para sempre guardou
no côncavo de um búzio.
E tu o tens colado no ouvido,
e tu de olhos fechados
e tu apartada do mundo
e tu escutando o mar
que no fundo da noite
acolheu tua voz
dizendo meu amor
de joelhos na praia.
Mulher de marinheiro
que foi e não voltou. 

Licínia Quitério

9.5.10

VISITAR O SÓTÃO



Chegou o tempo de visitar o sótão
onde ficaram presos, mutilados,
os dias da abundância e da aventura.
Do antigo fulgor, um brilho leve,
envergonhado, a recordar
as horas sensuais da seda pura.
Pela noite, o corpo era a ardência
da haste e a frescura dos ramos
e os olhos água com medo da ternura. 
Da festa só ficou o cheiro bafiento
das arcas guardadoras de bragais
e as cores dos óxidos a devorarem,
ímpios, a luzente alegria  dos metais.

Licínia Quitério
  

30.4.10

LEMBRANÇAS DE UM MAIO

O dia veio e a cor brotou.
Vermelho, sim, como as papoilas
e os lábios quentes das mulheres
e o canto livre que de outra cor
não se fazia.
Vermelhas as roupagens
da liberdade que soava
e punha mãos em mãos
que não se conheciam.
Tão doce o amor nascido
de gestos improváveis
e olhares incendiados
como nunca se vira.
Nome não teve a festa
porque sem nome é tudo
o que é maior que o sonho.
Havia sede, uma sede imparável
e a água se oferecia
que tudo era sem preço nesse dia.
Cravos vermelhos  havia
nas portas e nos braços 
dos rapazes que sorriam
perdido o medo da alegria.
Era um clamor de passos
uma batida que ecoava
na quentura dos ares
e entontecia.
Era um rio de pássaros
de asas vermelhas
como o riso das moças.
E os poetas não pararam de dizer
a urgência da palavra
há tanto encarcerada e agora aberta,
inteira e ousada.
Ela também vermelha como o dia.

Licinia Quitério

24.4.10

25 DE ABRIL de 2010

Foi numa manhã  de chuva miúda que punha a cidade cinzenta e chorosa, igual ao rio. Que idade tínhamos? Sei lá eu. Adultos de vidas feitas, imperfeitas. Crescêramos à sombra da inquietação de nunca chegarmos a ter o sol nas vidraças sem cortinas. Por vezes cruzávamo-nos em salas bafientas, em ruas escusas, onde as falas se faziam de repente claras como se a luz afirmada as invadisse. Tínhamos amigos com quem podíamos soltar pragas e discutir o futuro como se dele tivéssemos certezas. Íamos lendo e descobrindo outras letras, de contrabando e ousadia. Desafinados, cantávamos baixinho canções que só nós ouvíamos, feitas por outros que viviam no perto ou no longe,  atravessando os túneis, saltando as devesas.
Na manhã de chuva miúda, descemos às ruas e corremos às praças e sempre nos encontrámos  e nos abraçámos e chorámos e cantámos, com a voz alta que tínhamos guardada. Soltámos o amor e ele fez caminhos imprevistos, com cheiro a cravos e cafés de madrugar. Foi há tanto tempo. Tempo de vidas vividas e acabadas. Tempo de ter ficado mais um tempo para contar que era uma vez  uma espingarda que floriu e  uma mulher que gritou o seu nome: Liberdade.

Licínia Quitério

17.4.10

DEMANDAS O ABRIGO



Demandas o abrigo que sabes
há-de haver na fronteira da estrada.
Por isso, homem,  inauguras
os dias deixando para trás a casa
e nela o sono breve e inquieto.
Levas o beijo da mulher, dos filhos,
e um trabalho imenso por fazer.
Visitas os lugares que te reclamam,
cumpres a hora de carregar na voz
o que esperam que digas, pouco mais.
Se for preciso cantas com palavras
brandas no embalo dos passos,
sílaba a sílaba a aguentares o prumo.
Ao fim da tarde, quando os  ombros
pesam, ganhas de novo a estrada.
Tu sabes, homem, que outra casa
te espera e a mulher está cansada
e os filhos sairam a correr pelo mundo.
Dormirás e sonharás com traços
imprecisos de portais e alpendres
e muros brancos e trepadeiras brancas
e um homem dizendo mansamente
sílaba a sílaba a leveza dos passos.

Licínia Quitério

8.4.10

ANIVERSÁRIO

Há precisamente quatro anos abri este blog. Titubeante, sem saber quem iria encontrar, quem me iria encontrar. Poemas meus e de outros por aqui se foram deitando, abrindo-se medrosos aos olhos de quem passasse. Ensaiei pequenos textos, poéticos quanto baste, que me davam prazer e segurança. Mais tarde, vieram as fotos que fui fabricando, trabalhando, no percurso irregular de quem principia uma tarefa de que desconhece as regras. As visitas foram chegando, amáveis e generosas, nos comentários  que deixavam. Uma boa parte delas passaram da virtualidade à realidade e muitas são as que hoje conto entre os meus amigos. O Sítio do Poema foi mudando de fatiota, de forma e de cores, seguindo provavelmente as minhas próprias mudanças. Também, entretanto, a minha escrita cresceu e amadureceu. Numa cadência quase semanal, aqui vou deixando palavras e imagens que vão fazendo caminhos insuspeitados. Tem sido um lugar tranquilo, ameno, donde muitas vezes tenho partido para outros lugares aprazíveis, com gente linda, cúmplice de palavras escritas e ditas sempre com a ternura com que a Poesia, esse reduto de salvação,  nos suaviza a aspereza dos dias. Foram só quatro anos. Há-de haver mais.

Licínia Quitério

4.4.10

O POEMA NÃO VEM


O poema não vem quando se chama
Desobediência é sua inclinação
ou  seu jeito de ouvir é uma brandura
que só percebe falar de coração

Aguardarei que a pedra
lançada ao lago no anoitecer
regresse reluzente à minha mão
e se diga palavra ou vento ou amanhecer


Licínia Quitério

24.3.10

LEVE A CARÍCIA



Leve a carícia deste sol de Março
com matizes de nuvens em farrapos
rasando as agudezas dos pinheiros.
Penso no sol de outras primaveras
e não sei se o que penso é somente
o desejo de alguma vez o ter sentido.
Observo os gatos em gestos obsessivos
de lavarem com sol o corpo inteiro
e é o meu corpo inteiro que se alonga
até às águas primevas da memória.
Um homem e uma mulher amam-se
desde o dia em que decidiram saber
se o amor que os outros dizem tem
o sabor de amoras rubras ou é tão só
a alegria de haver amoras nos caminhos.
Talvez eu esteja longe e tenha envelhecido
na contemplação das horas que não mudam
porque nada muda nem as dúvidas
que carregamos no côncavo do tempo.
De pouco serviria o afago deste Março
se a cicatriz do frio não morasse no longe
onde talvez eu tenha envelhecido
olhando um homem e uma mulher
que se amam decididamente na alegria
de amoras rubras em breves descaminhos.

Licínia Quitério

15.3.10

É BOM HAVER COMBOIOS


É bom haver comboios que nos levem,
de gare em gare, nos trilhos das cidades.
Cidades abertas, com cheiros de enseadas,
cidades nocturnas de cais e contrabando,
cidades fêmeas de bocas frescas e maduras,
ou as outras de suores, de milongas e tragédias.

De assalto penetramos as cidades
para saber das praças, dos museus, dos bares,
nunca da febre dos homens humilhados
nem dos rostos de cera das mulheres veladas.

De cidade em cidade nos levam os comboios.
Contentes da partida, cansados da chegada,
na mala o tempo provisório da viagem,
vamos no meio da multidão, até ao dia
em que na gare deserta saberemos os nomes
da cidade que somos, do comboio que nos leva
do princípio do mundo até ao fim do mundo.

Licínia Quitério

7.3.10

DERIVA


Vi as águas os cabos vi as ilhas
E o longo baloiçar dos coqueirais
Vi lagunas azuis como safiras
Rápidas aves furtivos animais
Vi prodígios espantos maravilhas
Vi homens nus bailando nos areais
E ouvi o fundo som das suas falas
que já nenhum de nós entendeu mais
Vi ferros e vi setas e vi lanças
Oiro também à flor das ondas finas
E o diverso fulgor de outros metais
Vi pérolas e conchas e corais
Desertos fontes trémulas campinas
Vi o rosto de Eurydice das neblinas
Vi o frescor das coisas naturais
Só do Preste João não vi sinais


As ordens que levava não cumpri
E assim contando tudo quanto vi
Não sei se tudo errei ou descobri


SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN

Apeteceu-me reler Sophia.  A das palavras claras que penetram no fundo do tempo. Sempre me encanta. Começo a sentir saudades dos poetas que escreveram na luz. Há por aí tanta escuridão, tanta fealdade, em jovens poetas talentosos. Sinais dos tempos, dizem-me. Sinto pena. Por eles, por mim.

Licínia Quitério

26.2.10

AS DOCES MÃOS DA INFÂNCIA

As doces mãos da infância
subitamente afloram
o tecido enrugado
do dia a desmaiar.
Trazem consigo a tremura
das bolas de sabão
a crescer, a crescer, a voar.
E o nosso corpo freme a assomar
à janela do tempo que foi
mais que perfeito,
assim dizemos.
Não nos pertencem
as doces mãos da infância.
Cavalgam nuvens coloridas,
nadam em águas claras,
colhem flores e risadas
e canções de embalar.
Por vezes voltam,
num relâmpago,
a iluminar o nosso quarto escuro.
Por vezes não são mais
do que a ternura
que presssentimos
no dia a desmaiar.

Licínia Quitério

19.2.10

RUÍNAS



Na vila velha, a casa velha,
ou as veias nas fendas onde correm
trepadeiras de campainhas azuis
que sempre voltam com as andorinhas,
ou os gatos invisíveis nos parapeitos,
a lamberem feridas inventadas,
ou os restos teimosos da tinta verde
nas paredes da sala de jantar,
ou o frio respirar das lagartixas no beiral.

Lá dentro, uma tosse miúda, persistente,
ou um ranger de portas empenadas
ou os talheres a tilintar na mesa,
a abafar suspiros censurados,
ou os gritos do medo pelo escuro
ou tão só o piar do velho mocho
ou as correrias das crianças:
não me apanhas, não me apanhas…

Ali a casa ainda habitada
a alimentar ruínas.

Licínia Quitério  "Da Memória dos Sentidos"

12.2.10

O MAR IMENSO, DIZIA



O mar imenso, dizia,
como se dissesse sede de viagens.
A leveza das aves, dizia,
se o ar não se detinha no cálice das  mãos.
As pedras robustas, dizia,
quando não sabia das areias 
movediças, no jardim da casa. 
Nos umbrais das esperas,
os frutos maduraram,
as crianças cresceram.
Já era velha a tarde 
quando a estrada lhe pegou os passos, 
duas gotas de orvalho nos cabelos,
uma lua de prata presa ao peito. 
Foi a hora de aprender com as cigarras
o ofício de cantar a vastidão dos campos
e o breve breve tempo do Verão.

Licínia Quitério 

3.2.10

QUANDO A SOMBRA



Quando a sombra se adensa  nos degraus da tarde,
na polpa dos dedos há rumores de sangue,
lamentos de mendigos  nas ramadas altas 
e um vento branco na floresta de preces maternais.
  
A ternura,  um dócil animal no limiar do sono, 
ensina aos homens a canção da terra, dolente, 
augúrio de feitiços no ritmo da noite.

Assim todos os dias, a aprendizagem das sombras,
na travessia do grande chão silencioso.

Licínia Quitério

27.1.10

AMEI O VERÃO




Amei o verão e as sombras ofertantes
de grutas e desvãos e amáveis
copas  aos tórridos amantes.
Imensa a praia onde me deitei
e mais ninguém pisou como eu pisei.
Eram então os dias em  que o corpo
se  vestia de carmim e açafrão
para receber o desenho dos pássaros
na frescura da lâmina da tarde
e a minha escrita era líquida e nua
a deixar-se tomar por peixes verdes
que um poeta andarilho me oferecera.

Foi claro e breve o tempo da inocência.
A praia essa continua imensa.

Licínia Quitério

18.1.10

HAITI



Com que palavras dizer a ordem das coisas,
a razão das coisas, quando tudo
é temor e raiva e subversão?
Como dizer a leveza do céu
ou a aspereza do chão, quando o céu
e o chão se desenham na poeira dos gritos,
na pele insuportável do silêncio?
Uma cidade desfeita é um monstro a devorar os filhos.
A morte é o espanto nos olhos dos homens, 
o andar deambulante entre ruínas, 
a sede dos vivos,  a arma na mão
de coração a coração,
a assimetria dos corpos,
a náusea, a podridão.
Uma mulher canta cavalgando a dor,
uma criança apressa-se a nascer. 
Que fazer destes dias da ira
no grande afã de esfacelar a esperança?
Como entender a geografia do  humano sofrimento?
Pobre de ti, Haiti.
Pobres de nós.


Licínia Quitério

11.1.10

O GRITO




Quantas vezes o grito é o silêncio
a invadir da velha casa o esconso
e a explodir nas frestas da memória.
Ou choro de criança a construir o sono
onde se criam histórias de gigantes
desajeitados como o voo róseo
dos flamingos  na crista dos sapais.
Por vezes a urgência de uma boca
colada em desespero ao vidro como
se não houvesse promessas de maçãs.
Se for maior que a minha inquietação
o grito será  o arco e a corda e o canto
do  violoncelo a cravejar de estrelas
a infindável noite dos famintos.


Licínia Quitério 

3.1.10

COM O VENTO NO ROSTO




Com o vento no rosto e as mãos despidas
detemo-nos e escutamos
um murmúrio de vozes muito antigas.
Aos nossos pés tombam palavras
fatigadas de saberem tantos mares.
É quando as aves saem da paisagem,
um manto de espuma cobre a praia
e  uma janela se abre sobre o tempo
que somos. O corpo esse nos sobra
dorido e persistente guardador
das marcas de água ou do nosso rasto.

Licínia Quitério 

27.12.09

BOM ANO



Um dia destes o calendário nos dirá que já é maior a soma dos anos havidos. Encetaremos mais uma contagem do tempo das nossas vidas. Ficarão para trás as dores e alegrias que nos rechearam os dias. Olharemos mais uma vez o filme do passado e deitaremos contas ao que doámos e ao que negámos, ao que construimos e ao que adiámos, às horas que rimos e às que chorámos, aos amigos novos que conquistámos e aos que nos esqueceram ou partiram para sempre.
Fazemos votos de um novo ano diferente e melhor. A esperança ainda não morreu. Bem por dentro do nosso coração, projectamos um mundo luminoso e solidário, povoado de homens e mulheres com gestos verticais, rodeados de crianças de risos abundantes. Rejeitamos palavras como guerra e fome e doença e solidão. Em seu lugar, sonhamos árvores frondosas e cantares em bando e mesas fartas de pão e de poemas. Assim continuamos desenhando a estrada. Fortes e frágeis, austeros e ternos,  decididos e titubeantes, desesperados e esperançosos, humanos e imperfeitos que somos.

Bom Ano para todos.

Licínia Quitério

18.12.09

OS SINOS



Os sinos tocam. Repicam. Tangem. Dobram.  Os sinos falam. Rezam. Cantam. Riem. Choram. Chamam. Para acordar e para recolher. Para a festa e para o luto. Dão sinais. Dão avisos. Dão as boas-vindas e as despedidas. Envelhecem. Enrouquecem. Deformam-se. Têm vidas longas. Serenas. Sabem muito do silêncio. Edificam-no. Prolongam-no. Afirmam-no. Moram nas alturas e são atentos à fala da Terra. À fala dos Homens. Há quem os ame. Há quem os deteste. Não há quem fique indiferente ao seu soar. Quem os constrói sabe de fórmulas secretas. Rigorosas. Mágicas. São elas que dão voz aos sinos. Como se fossem gente. Como se fossem vida.

Licínia Quitério

6.12.09

VAI LONGE O TEMPO



Vai longe o tempo de peregrinar
por searas fartas e maduras
como se fossem mesa,
como se fossem pão.
Agora há um deserto em cada esquina
e a palavra Nunca é um desatino,
uma prega de gelo no olhar.
Porém, na madrugada há um vapor de seda
a cavalgar as pedras,
a despertar os bichos,
e os rios nos acolhem,
com seus barcos tranquilos,
seus espelhos de céu,
seu sabor a nascente.
Seguir nos dias o rumo da corrente,
com um sonho ancorado
no fio do horizonte,
um grão de sal em cada mão,
um desejo de porto
amarrado no peito.
Até dizer seara como quem diz viagem.
Até morder a vida como quem morde o pão.

 
Licínia Quitério

27.11.09

DA AUSÊNCIA

 
Podia dizer-te da ausência como quem morde a espuma ou apunhala sombras e afastar um sonho enroscado no pulso. Pegar na espuma e nas sombras e depô-las na paisagem com a leveza que as aves ensinam.  Se eu caminhasse sobre os campos de neve e olhasse para trás e apercebesse um rasto verde de agulhas e um cheiro morno de incenso no altar da distância, quem sabe a ausência mais não fosse que uma garra cravada na garganta do inverno, dor provisória, amortecida, guardadora dos casulos da memória.


Licínia Quitério

17.11.09

SE EU PUDESSE


Se eu pudesse dizer-te:  amanhã à tardinha havemos de respirar o verão das cigarras, caminhar enlaçados nas cordas do orvalho, saborear a memória da construção do templo.
Ah se eu pudesse recuperar a humidade das avencas ainda que tivesse de inventar os poços, à minha rua voltariam os sons dolentes da aldeia, como os dos rebanhos que apenas os poemas me disseram.
É tão útil escrever versos e com eles fazer ramos de saudade.

Licínia Quitério

5.11.09

A ESCRITA DA CHUVA



A escrita da chuva é miúda, madrugadora, breve. 
Escrita, apenas, livre da escravatura das palavras. 
Quem  sabe ler a sua transparência?
Quem lhe desvenda o verbo na liquida mudez? 
Alguém falou do tempo efémero na cintura do dia,
de relâmpagos e árvores tombadas à entrada das cidades,
de cavalos fumegantes e do susto das donzelas na orla das planícies.
Nada a propósito da escrita da chuva no recorte do Outono.

Licínia Quitério

29.10.09

NA ARESTA DA ÁGUA



Na aresta da água o canto dos corais.
Insone este mar de náufragos.
Na órbita dos barcos tudo é lume.
Desapossados do beijo das estrelas, 
na praia nos quedamos e bebemos
azul em lâminas de sal.
Dói-nos a espada da infância sobre o ventre
e um menino lança contos de encantar.
Sobre o mar. Sobre a legenda do mar.

Licínia Quitério

20.10.09

DESCALÇA VOU



Descalça vou pelos trilhos do sempre.
Levo na boca a aspereza das amoras
que os melros rejeitaram.
O meu bordão é de oliveira
e não floriu ainda.
Um passo é só um passo e a rocha é quente.
Os latidos dos cães  me dizem a distância
e eu vou, descalça e firme e sequiosa.
Os adivinhos me dirão
a lonjura da fonte e a cama do ocaso.
Se me perguntam quem me doou 
este manto de espuma e a verdura do olhar,
respondo:
Quem me fadou assim, descalça,
a desvendar a estrada?


Licínia Quitério

7.10.09

SUAVE A CHUVA

.



A chuva cai e eu sou uma frase que experimenta voar.
Lágrimas de deuses aprisionados nas nuvens.
As oliveiras tremem e o violoncelo chora no leito dos amantes.
Como se não houvesse barcos para o amanhã e o teu rosto
fossem as últimas maçãs do ramo. Suave a chuva.
A liquidez da tarde e eu esquecida do estrépito da escrita.

Licínia Quitério

29.9.09

OUTONO


É o Outono, dizem, este arrepio das ervas rasando-nos o corpo.
O murmúrio de insectos na vertical do olhar.
Promessas do bosque  na queda dos  frutos com sabores ao êxodo das aves.
Crianças abrindo portas para um sono leve.
É o Outono, dizem as velhas de mãos azuis com cheiro a alfazema.
A memória das folhas, implacável, a anunciar destinos madurados.
Um remoinho súbito, uma prece indistinta, um rumor, um estalido.
Melancólicas águas de outros tempos a inundar os passos da ternura.
É o Outono, digo.

Licínia Quitério

23.9.09

NENÚFARES




Vêm dos fundos e repousam os braços na finíssima linha de água. Florescem e perduram com pétalas de porcelana. Têm pequenos estremecimentos acompanhando os remoinhos súbitos que o vento traz. Oferecem conchas e abraços aos peixes coloridos. São a tentação das libelinhas rasantes que lhes afagam as folhas. Pacientes, procuram a quietude, o sono de vestais no templo. Respiram a bruma do lago e transpiram gotas reluzentes. Quando os vemos nos quadros sabemos que nos escutam os silêncios. Falo de nenúfares. Ou de antigas esperas.

Licínia Quitério

19.9.09

NÃO SE MEDE ESTA FORÇA


Não se mede esta força de atar
folhas verdes a troncos velhos.
A força de amarrar os barcos
ou de pegar nos frágeis ovos.
De esmagar o veneno ou
de amparar o sopro da tarde.
De acarinhar a pele ou
de empurrar o corpo encosta acima.
Não se mede esta força.
Por agora não há como nem porquê.
Saberemos do ofício quando
o tempo vier de dizer fome
com as letras de pão,
com o peso das penas,
com as cores da madrugada.

Licínia Quitério

9.9.09

OS CAMINHOS VELHOS

Envelheceram as bermas dos caminhos.

Sombras, muitos risos fugidos do amanhã.

Por dentro do meu peito voam pássaros,

redondos pássaros de redondos cantos.

Levo-os a visitar caminhos de ontem.

Liberto-os no deslumbre do ribeiro.

Voltarão ao ninho, ao coração da frágua.

O sol a pique na queima da memória.

E a água em seu labor, criando o verde.


Licínia Quitério

1.9.09

ENQUANTO O LOBO

Enquanto o lobo não chega
com o tempo atado nas goelas,
vigiamos a escuridão e os sinais
de luz nas matas sonolentas.

Quem sabe, vaga-lumes esquecidos
das infâncias, ou o sabor do pão
das mães a iluminar a fome.

Indistintos contornos de meninos
perdidos ou de mulheres insanas
com breu e oiro nos cabelos.

É a lua, dizem, que nos solta
da raiva primitiva dos presídios
e nos ensina o uivo disfarçado
no vai-vém incansável das marés.

Luar de fel por vezes, solitária luz.
Por entre os dedos fios de amor
escondido sob o adro de lajedos.

Luar de mel, também, na berma
clara de um caminho novo,
na trama de uma manta de segredos,
na média noite sem grades e sem lei.


Licínia Quitério

26.8.09

O POEMA


Que te posso dizer daqui da beira-mar
se não anunciar que o poema nasceu?
Uma batida incerta a querer romper o peito,
uma breve tontura, uma agonia quase.
O mar vizinho, sempre inconformado,
apertado entre os céus e os fundos abissais.
O cheiro intenso a peixe, a náusea do que fomos,
a seduzir os braços do poema.
Ele aí vai, a roçagar escamas de luz,
febril, bamboleante, ébrio de sons,
ensaiando o nome do silêncio,
na estrada atapetada de algas e de búzios.
Em eterna vigília ficará, te digo,
o poema nascido à beira-mar.


Licínia Quitério, "Da Memória dos Sentidos"

18.8.09

HAJA UM TEMPO


Haja um tempo em que o Verão
abra caminhos limpos, intervalos
de sombra onde dormitem musgos,
e as asas dos pássaros se aquietem
e os pés cansados se refresquem
na leveza das águas, no recorte
das ervas.
Num tempo assim hão-de ecoar
cantares de amor e abundância
no côncavo dos poços, nas cavernas
do frio, na garganta dos tristes.
Dobrados, rente ao medo, esperam.
O tempo há-de chegar.

Licínia Quitério

12.8.09

CLARISSE 14

Ainda lá está, o banco. Clarisse fez questão de voltar ao pequeno largo e de saber notícias do tempo ido. Podemos chamar-lhe álbum, mas há dias em que Clarisse põe outras dimensões no olhar e vê, por exemplo, como o sol das onze horas num dia de Setembro se apodera do banco e o torna senhor do largo, como se não houvesse o austero edifício e a pequena igreja e as flores amáveis da azálea que se oferecem como bouquets de noiva, em berma de estrada. As fotos antigas transportam castelos de nuvens. Claro-escuras, de céus carregados de tempo e de bruma. Pensa-se deitada no chão da praia, não vês o coelho a espreitar, por detrás da torre do castelo. Isso mesmo, o vento está a desfazer-lhe a orelha, o pobrezito. É o caminho dele, seguir a tarde até ser barco, ou perfil de velho, ou nada que tenha nome a não ser de nuvem. Clarisse nunca fixou rostos, a não ser os de olhos falantes, melhor ainda se gostosos de brilhar. Prefere imaginá-los, na mancha de café sobre a mesa, no recorte da folha do livro antigo, na sombra dos ramos no luar da cal. Varrendo a foto, lentamente, com o vagar das horas que lhe sobram do colo, consegue recuperar uma silhueta de mulher que um dia passou no largo sem olhar o banco guardador de sol. A mulher, diz agora, caminhava devagar e sorria e quem sabe se o Homem sorria ao seu lado e nem precisavam de saber do banco, que o cansaço ainda não nascera e o sol morava dentro deles em quatro estações. Clarisse não tem emenda. Persiste em contar histórias que as fotos não dizem e em inventar rostos de olhos falantes que dos outros, em verdade, se esquece.

Licínia Quitério

6.8.09

FOI SEMPRE ASSIM



Violência é a fome, o choro
infindável de etiópias, o medo
de as saber e rastejar aos pés
da escarpa triunfante, cesárea,
coroada.

O amor, ah sim o amor, a poesia,
as danças e o pôr-do-sol a desabar
cornucópias de cor no litoral.

Foi sempre assim, não é? O riso impune
das hienas e a espera dos abutres.
Desde que o homem é homem.
Ou quando já não é. Amen.

Licínia Quitério

31.7.09

CLARISSE 13



Parece não pertencer ao álbum. Uma índia em chão de sol e areia. De pronto Clarisse a revisita, num fim de tarde ardente, frente ao pequeno rio de atrevimentos e inocências. A fragilidade dos barquinhos a remos, chape-chape no zumbido da tarde. O dorso prateado das tainhas brincalhonas, em saltos pelas tangentes dos rodopios concêntricos. Dizia: o mar está a entrar. Ou então: o rio está fechado. Aquele não era um rio de saída. Esperava a subida da maré e acolhia minúsculos camarões translúcidos. Ganhava ondas, pequeninas é certo, e saboreava o sal e os farrapos de algas cor de alface. Clarisse pensava: assim há-de ser o meu rio em tempo de maré alta. Inquietações renovadas, sabores exóticos, anúncios de outras paragens. Por agora, ficava assim, sentada, os braços rodeando os joelhos, os pés na areia quente e húmida, aguardando a chegada da sombra que o morro estendia no rio, a ensinar o poente, o recolhimento aos fundões do leito, o sono dos peixes sem pálpebras. Na esteira do olhar de Clarisse há uma jangada, rio acima, e um chapéu de palha vermelho que lá esqueceu na última travessia. Voltará, uma manhã, quando o primeiro sol soltar da pele do rio os véus do despertar. Clarisse dirá: o mar está a entrar. O Homem dirá: esperava que o dissesses. E só ela saberá da alegria no sorriso envergonhado do Homem que finge medir com uma vara a altura do sol.

Licínia Quitério

28.7.09

DOS TIGRES


O novelo das horas tem as cores térreas do tigre,
a tensão das garras do tigre na tapada,
a quietude do concílio das gaivotas,
um zumbido de moscas em redes de ganância.

Só a água, quando for dela o dia, ternamente,
dissolverá o erro, e o medo escorrerá, aveludado,
pelos corpos dos amantes. Da fúria, um beijo novo.
Os tigres dormem, na tapada.

Licínia Quitério

22.7.09

ROSA LÍQUIDA

Uma rosa líquida nas veias
é o que resta do jardim
depois do vento agudo
no esplendor do ácer.
Da abundância da chuva
ficaram feridas no saibro
provisório dos caminhos.
Cicatrizes serão, enigmáticas,
belas, nos dias quentes
dos sabidos enganos, desejados.
Uma rosa negra, líquida,
desafiando a fome, o vidro.

Licínia Quitério

17.7.09

CLARISSE 12



Ainda hoje Clarisse não fala de vulcões com a voz em sosssego. Nunca tinha visto algum, até ao dia em que pisou terra nascida quando Clarisse já contava alguns sedimentos. No declive, sentiu que o chão lhe ditava o avanço do corpo, sem que ela comandasse os próprios passos. Lembra-se do rugido do mar, lá em baixo, encorpado e escuro, ameaçando violar a juventude do monte, grande demais para que filho lhe chamasse. Recorda, com clareza, no longe-perto, a mudez dum rosto a esfumar-se contra o céu em fogo. E ela, Clarisse, olhando para trás e caminhando, encosta abaixo, cada vez mais perto da voz do profundo. Não sentia medo, mas um espanto que lhe punha lágrimas nas palmas das mãos. Tudo se confundia, na poeira dum tempo ignoto. Como num sonho dentro de outro e de outro ainda, sem porta para o despertar. Foi quando se apresentou um obstáculo sob os pés. Uma plantinha, verde, tímida, pedindo para não ser esmagada. Um aceno de vida nova, perfurando a lava, afastando a incomodidade da areia. Era da cor dos seus olhos e atrevia-se a enfrentar pequenos insectos que voltavam. Talvez peixes de outrora, abandonados no confronto brutal entre o fogo e a água. O corpo de Clarisse reganhou vontade e gesto. Sorriu à planta e retrocedeu. No perto-longe, o rosto esperava-a e mostrava-lhe uma estrada polvilhada de caminheiros. Clarisse aceitou a estrada e disse baixinho: Pareceu-me avistar uma rola de peito róseo. O rosto explicou, condescendente: Não as há nesta latitude. Hoje gostou de rever o registo no álbum. Só ela consegue divisar o rosto contra o céu. Uma presença, uma espera. Clarisse sabe que há uma paisagem que lhe pertence e a que voltará. Que importa que seja lava, ou mar, ou planta, ou fogo? Tudo o que for lá será.

Licínia Quitério

12.7.09

UMA PRECE, UM TIJOLO



Uma prece, um tijolo,
uma deusa, uma pedra,
uma morte, uma tinta,
um cimento de suor e de fé.

O desafio do tecto,
a certeza do arco,
as batalhas da luz,
a escalada dos muros,
o aprumo, o rigor,
o atrevimento, o risco.

A mão do arquitecto
presa ao fuste
e um rasto de cor
ensanguentada
a encher o copo de oiro
do anúncio do dia
de uma outra construção.


Talvez igual, talvez a tal.

Licínia Quitério

6.7.09

CLARISSE 11


Arqueologia de passados é o mester de Clarisse. A leitura dos vestígios cada vez mais difícil. Houve um tempo, um modo, um lugar. Houve porque as marcas lá estão. Mas que ficou das linhas do rosto, do desenho do corpo? Da vibração das cores que seduziram Clarisse e o seu outro olhar? Qual o nome da terra, do rio, se nome teve, das árvores que por perto tinha de haver? Que murmúrios de seixos na corrente, que gentes ali passando ou vivendo? Clarisse semi-cerra os olhos, tentando ver para além do grão do tempo, da cortina acastanhada a enevoar o quadro outrora luminoso e fresco. Fotograma salvo do rescaldo do incêndio que abrasou a cidade e deixou assomos de dor nas polpas dos dedos de Clarisse. Uma noite passou e uma ligeira febre agitou os sonhos de Clarisse. Cavalgando as dúvidas do dia, a incongruência do sono mostrou-lhe uma montanha forrada de abetos. Clarisse subia a montanha, suspensa por um fio. Vistas de cima, as árvores abriam as copas quais alfaces gigantes. Reparou que calçava chinelas de uma só tira que ameaçavam cair ao menor balanço do fio. Afligiu-se, temeu a nudez dos pés, reparou que sob as copas havia movimentos que podiam ser de feras, ávidas de comida chegada dos altos. Pediu socorro sem voz ao seu outro olhar, mas ele estava entretido a medir pelo relógio a altura da montanha. A um esticão do fio, acordou e, estremunhada, correu a rever o fotograma. O sonho devolvera-lhe o lugar, o tempo, os nomes. Consegue distinguir as chinelas, pousadas numa pedra, e sentir nos pés o frio da água. Clarisse lembra-se agora de ter sido assim. Subia montanhas e calçava chinelas vermelhas de uma só tira. Sempre pronta a mergulhar em fios de água pura no brilho do seu outro olhar. Histórias que os álbuns reeditam...

Licínia Quitério

1.7.09

FRAGMENTOS



Pode ocorrer um verão em que o calor
seja martelo e escopro contra as dunas
e as fragmente teimosamente fragmente
até que a visão táctil das miragens
desfaça a maldição dos velhos
e o sangue do mar em terra firme
apazigue o cansaço dos rebanhos
e a secura aprendida dos escravos.

Intactas ficarão as grutas dos mistérios
com as tábuas de sal por decifrar.
Os homens do deserto moldarão
com as mãos ardidas letras novas
outras perguntas cantos jovens
repetidos rostos de mulheres-leoas
enigmáticas como devem ser.

Ínfimos fragmentos só o verão os traz
e os crava na dor da pele em chamas.


Licínia Quitério

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