25.8.10

PEDI UM NOME


Pedi um nome, ou uma rua,
ou uma aldeia, ou um país,
ou um continente, ou um planeta
mesmo pequeno, do tamanho da lua.
Todos os nomes tinham sido dados,
a rua era só uma e tinha dono,
aldeias se as havia só desertas,
um país era coisa de pouco durar,
um continente, sem guerras nem vulcões,
difícil de encontrar.
Sem ser a lua qualquer planeta poderia ter.

Deram-me um mapa,
fui seguindo as manchas,
cor a cor vivendo.

Para tão vasto mundo eu só pedi um nome.
E não mo deram. 

Licínia Quitério

19.8.10

PAISAGEM SEM BARCOS


Há uma hora em que todos
se vão embora do retrato.
Ficamos sós, senhores do nada,  
acreditando em tudo. 
No silêncio do mundo
evaporam-se as águas
e uma bruma de rendas
desfoca contornos vegetais.
Se guerras houve por ali
e assassinos a soldo
e a loucura invadiu a cidade,
tudo se esvai naquela hora.
Ficamos nós e as brancas mãos
e os cabelos de fogo
e as lágrimas antigas
dos olhos das fadas
esperando eternamente
o tempo de chorar.
Sob as brumas ou cinzas,
tanto faz, um barco há-de
surgir, com gente dentro,
a remar devagar, reconstruindo
um tempo de beijar.

Licínia Quitério

7.8.10

VOLTAR


Uma aflição, uma corda de baloiço prestes a rebentar, os cachos das glicínias longe daquela mão, os olhos a lavarem-se no rio, assim serpenteando, debruçados na varanda que o tempo não levou. 
Uma dor sem lugar, a pairar, a espiar o vinho cor de sangue e o copo antigo e o corpo antigo e a varanda e a beleza cruel de tão intensa a calar a palavra, a suspender o gesto. 
A lua, cor do fogo, por entre os ombros da distância, subindo, enorme, lanternim da noite, balão liberto do cordel, senhora das penumbras, alumiando passos caminheiros que o dia pôs na serra e se perderam.
Voltar é esta força de calar os vidros sob os trilhos, ouvir os risos nas escadas e o chiar das portas e o saltar da rolha da garrafa.
Voltar é brindar, a mão a mesma, o copo igual, o vinho cor de sangue, a estilhaçar o inquebrável coração.
É preciso voltar dos ombros da distância, ser fogaréu na noite, chamar-se lua e subir e subir até ao fim da dor, até ao novo dia.



Licínia Quitério  

2.8.10

VERDE


Não fora o verde e o nosso olhar não saberia
da dimensão do dia, da sua fúria ou calmaria, 
da serena ou inquieta voz da madrugada, 
da espessura ou liquidez do céu que a noite traz.
Verde a persistência da trave e do beiral
da casa nunca feita mesmo quando habitada,
do arco ou do lintel tempos depois do fogo.
No verde os pássaros se amam e compõem o canto
e a lagarta verde é o destino do verde que tragou.
Quando o sol quer o verde é também oiro
e a lua  derrama sobre o verde a poalha de prata.
Verde é a alegria de todas as infâncias
por muito que o deserto as tente ressequir, escurecer.
Serão verdes os sonhos de quem nunca encontrou
a loucura, a quentura, a ternura maior que dizemos amor.
O verde é a frescura do caminho de quem sabe correr
preso a raízes, o tronco erecto, multiplicando folhas,
pintando cachos de uvas, verdes ainda, infantes,
maduras amanhã, falantes sempre do verde que as criou.

Licínia Quitério

Para a M., companheiras que somos de verdura e madureza. 

19.7.10

PARA SEMPRE


Pouco fica depois do temporal que quebrou a janela
sem dar tempo a guardar o frio sob as mantas.
A devassa da casa, insuportável, violando segredos,
desrespeitando os cofres e as gavetas e as jarras
com flores e os velhos linhos e os livros duas vezes lidos.
Depois do temporal não há bonança, não há brilhos,
há só estilhaços de silêncio nas paredes cinzentas,
nas gargantas sujeitas a uma corda impalpável.
Os rostos são iguais a outros rostos de porcelana
fina, frágil, ferida, sulcada de impropérios, vilanias.
As paredes resistem, assistem ao desmontar da cena,
que outra virá tal qual as que se foram, que tudo
se repete e tudo é novo e todo o vidro quebra
que o vento sempre volta a visitar a casa,
a resgatar o preço das palavras trocadas, frente 
a frente, em silêncio, sem pressa, para sempre. 

Licínia Quitério

NOTA: Este blog vai entrar de férias umas semanitas. Pode ser que lhe faça bem e que regresse ao vosso convívio com novos ares poéticos. Até lá, fiquem bem, Amigos.

Licínia

11.7.10

ENLOUQUECER

Que fazer deste dia a transbordar
músicas imprecisas de longínquas terras,
vozes esfarrapadas, ásperas, doridas,
dos homens que já viram tudo, que já calaram tudo
e  têm  uma navalha sobre os sonhos
e as mãos aflitas, desapossadas da forja e do metal?
Homens que levaram restos de homens pelos ares,
abriram as portas ao monstro e ao chicote,
viram o negro a rasgar-se em vermelho,
a escorrer pela savana donde os leões fugiram.
São loucos, dizem, estamos loucos, dizem.
Fizeram filhos antes de enlouquecerem
e não lhes disseram do sangue antes das flores,
das cordas, das feridas, da raiva, do medo.
Deram-lhes pão de farinhas amassadas
em águas que limparam da antiga sujidade.
Falaram-lhes de um mundo que haveria
de ter as fomes saciadas e planetas amáveis
onde seriam príncipes respeitados, beijados.
Que fazer agora deste dia em ruínas,
os fantasmas saindo dos escombros
e o desprezo dos filhos e a zanga das mulheres
e uma cruz de silêncio a apagar-lhes os gritos?
Mais logo cantarão, enlouquecidos.

Licínia Quitério

4.7.10

DO AMOR


Trazemos no olhar o tecido dos dias
que desejamos claro, com a suavidade
mate duma primeira e tão fugaz infância.
Navegamos mares, cruzamos ares,
resistimos à traição do escuro do abismo.
Esbanjamos desejo para dele sabermos.
Poupamos no amor para o termos inteiro,
sem importar o rosto ou o nome, que ele
é a mão e a voz e uma infinita paz, de pele
a pele, de vontade a vontade. A água sobre a água,
a pedra contra a pedra construindo a vereda,
um fogo brando, maior a  luz que a chama,
a iluminar um arco de passagem até ao fim do tempo.
E para lá do fim, teimosamente, a água sobre a água.

Licínia Quitério

28.6.10

NOITE

Como se não houvesse noite
E a chuva mais não fosse que
A inconstância dos teus olhos
Regando as malva-rosas
E acalmando a secura dos relógios,
Assim tu foste o despertar da terra
E a claridade das vertentes ao sul,
Mesmo que o sul não seja mar
E o amor se esconda para sempre
Na mão que te recusas a abrir.
Transportaste a tocha e o clarão
E acendeste o fogo e iluminaste
O quarto escuro e as letras do meu nome.
Por isso a chuva cai enquanto durmo
Embora seja dia, que não verei
De novo a solidão das pétalas
Encolhidas, rasgadas, chorosas

Por o sol ter falhado o encontro,
O afago, o bom-dia, a palavra
que transporta o oiro e a imensidão.

Licínia Quitério

27.6.10

OS MENINOS


Os meninos sentam-se. Não precisam mais do que de um pedaço de chão. Pouco se olham. Ainda não sentem o fascínio dos espelhos. Tocam-se apenas para lutar. Mais tarde lhes dirão do abraço que magoa. A luta não. Os homens são grandes e não se sentam. No chão, não. Ficam cansados, de pé, olhando os meninos, não vão eles sujar-se no chão. Ou apanharem o bicho que passa, muitas patas, pouco corpo. Os deditos dos meninos seguem o bicho que partilha com eles o chão. Há também mulheres grandes que não se sentam. Cansam-se de ficar de pé, olhando os homens e os meninos. Estão tão contentes os meninos. Não se olham, sorriem e com os deditos desenham o caminho sinuoso do bicho. Tantas patas para tão pouco corpo. Não lhe tocam que os homens e as mulheres, cansados, de pé, assustam-se e gritam. São grandes, estão cansados e têm medo, pensam os meninos. Senta aqui, mãe. Senta aqui, pai. Não sentam. São grandes e o chão mete-lhes medo, como o bicho que já lá vai, tão longe, a rabiar seu  corpo magrinho de pernas tantas. Acabou o tempo dos meninos no chão. Os grandes, cansados, medrosos, dizem: vamos embora. Vão todos sentar-se num animal de corpo grande e poucas patas. Os grandes riem, já não estão cansados, nem sentem medo. O animal grande anda depressa, mas os deditos dos meninos ainda não esqueceram o rabiar do outro, de corpo fino e muitas patas. Desta vez olham-se, sorriem e desenham o caminho do bicho pequenino nas costas dos bancos onde se sentam os grandes que já não estão cansados, nem sentem medo porque não sabem do bicho que lhes caminha nas costas. Os grandes não adivinham os segredos dos meninos marotos que acham que o chão é para sentar.

Licínia Quitério

20.6.10

QUENTE FOI O VERÃO

Era no tempo do estio em que as searas não passavam da lembrança do verde ondear. Os caminhos ardiam e os animais fugiam, as árvores ardiam e assobiavam um bailado de fogo. Veio o medo das bruxas e elas fugiam das chamas que lhes queimavam o nome. Os corações ardiam de uma paixão desconhecida, surgida das matas frias de um desejo devorador e antigo. Falavam de demónios vermelhos vindos de longe para fazerem a guerra. E os homens respondiam: "Nós trazemos o corpo inteiro e os livros da paz". E o medo das bruxas encorpava. Mulheres havia que esconderam as crianças. Era o medo do demónio, do fogo, da guerra, das sombras más que uivavam como lobos, diziam-lhes. O pão, escasso e duro, era fechado nas arcas. E os homens diziam: "Nós trazemos o pão, o leite, o mel e o vinho". No luar se encontraram, afastados, resguardados dos estranhos que diziam palavras estranhas como livro e paz. Lá no cimo, ao longe, as matas estavam acesas, um fogo rasteiro, de devorar restolho e afugentar coelhos. De homens nem sinal. E as mulheres diziam: "Foi o demo que lá passou. De manhã cedo vai-se embora e veste-se como um homem e fala como um homem, com palavras novas como livro e paz". Quando o dia nasceu, os homens limparam os caminhos e lavaram as águas e não  roubaram o pão e falaram às crianças numa língua que só elas entenderam. Já havia mulheres que diziam: "Eles não trazem a guerra. Lavaram a água e limparam os caminhos". Havia ainda os que diziam: "Mil formas tem o demo. Até de anjo se veste". E persignavam-se. No próximo luar, os homens sentaram-se, já mais perto dos que ali pertenciam, abriram livros e leram histórias de encantar. Um cão veio enroscar-se ao pé dum homem que lia. As crianças tinham os olhos muito abertos e diziam "mais" quando uma história acabava. Era já tarde quando se recolheram. De madrugada, uma mulher madura e esfarrapada bateu à porta dos homens. Trazia uma couve. "Façam um caldo, mas não contem a ninguém que eu aqui estive". Era sempre a primeira a chegar para ouvir as histórias. Sozinha, que desquitadas não eram boa companhia. Limpos todos os caminhos, lavada toda a água, lidos todos os livros, os homens partiram. "Afinal eram boa gente". E ouviu-se o choro abafado de uma mulher e o latido de um cão. Os homens subiram a serra, com cautela. Em volta tudo ardia.

Licínia Quitério

18.6.10

JOSÉ SARAMAGO

Este é o tempo em que todos me morrem.


Eu não sou nada e tenho a sorte de ter amado


a grandeza de homens imperfeitos.


Por isso, hei-de voar.


Licínia Quitério



Junho de 2005

Junho de 2010

16.6.10

VOLTAS AO CAMPO




Voltas ao campo, à horta, ao tanque, aos animais,
como se alguma vez ali tivesses pertencido.
Dizes ruína, mas nunca conheceste a infância
das pedras e da cal e do carinho dos homens.
O cheiro dos coentros traz-te lembranças
das ervas que nunca pisaste que o teu lugar
sempre foi o casulo das cidades cansadas
onde deixaste os passos e as esperas.
O telhado está roto, dizes, mas nunca lhe
soubeste a inteireza com que afrontava
o vento e o orgulho com que estancava
a chuva. Agora tens  a solidão nos olhos
e os braços vazios e a memória a pesar
nos ombros e na fala com que dizes voltar.
Perdeste o tempo e o lugar e o cantar
dos pássaros. Cidade foste tu e o teu modo
de abraçar o mundo. Só o amor te salvou
e te mostrou o caminho de volta. Esse que hoje
desbravas e constróis  no abrigo das arcadas
protectoras do sol abrasador que te esperava.

Licínia Quitério

14.6.10

AUTOBIOGRAFIA




Tudo passou por mim nas noites e nos dias:
a beleza dos corpos feitos de gelo ou brasa
fossem de gente ou ave ou seixo de riacho,
mudos como o luar ou com vozes de prata.
Eram bandeiras e choros e imprecações,
marchas negras de fome e arraiais e danças
e a ternura das mães e o desejo das mãos
e a deserção dos sujos e o abraço dos puros.
Houve também as paredes da casa e a janela
e a porta, como houve as minhas dores
recolhidas, fechadas. Aberta sempre a casa
a quem trouxesse o lume e a boa nova
ou precisasse de secar a roupagem dos olhos.
Com a fragilidade de um cristal de rocha
ou a exactidão e a força de uma teia de aranha,
por tudo vou passando e tudo em mim deixando
uma mancha de sol, uma breve lantejoula,
uma folha orvalhada, uma luz partilhada,
um amigo certo, uma palavra amada
e a loucura das rosas esquecidas do deserto.

Licínia Quitério

10.6.10

CLARISSE 15


Muito tempo passou desde que Clarisse folheou o último álbum. Nesse ano a invernia foi intensa, cruel, não deixando abertas no céu para que o sol  aquecesse o peito enregelado. Clarisse fingia-se sem tempo para reviver passados, numa moleza encostada a lareiras apagadas e a conversas alongadas com gente de outros álbuns. Já mal recordava os lugares e as músicas e os silêncios irrepetíveis bordados de pétalas de flores que ninguém se atrevia a nomear. E  caía numa melancolia de romance quando as rolas vinham beber ao tanque de regas, tão precisado de obras como se alguém ainda se importasse com a secura da terra que o verão impõe. Já a primavera ia adiantada quando um estremeção a fez virar-se, rodando sobre a cintura, resguardando a segurança dos pés, temendo por instinto uma tontura. E ela veio, leve e distante, sem exageros, como em sonhos. Do sonho seria a rola de peito róseo a que faltava uma asa e que a fitava, com seu olhinho de vidro, à beira de água, sem beber. Clarisse entendeu o sinal e foi finalmente folhear o último álbum. A humidade do inverno fizera das suas e um rosto que jurava ter conhecido estava agora manchado, de contornos esbatidos, como se fosse uma pintura a quem o desgaste não tivesse porém ocultado a serenidade e a beleza que se desprendem da palavra amor. Clarisse sentiu que a história tinha chegado ao fim e que não voltaria a folhear os álbuns. Antes de o fechar,  viu uma rosa branca, ainda estranhamente branca, a segurar um poema. Ilusão, só podia ser. A rosa e o poema tinham partido há muito com o homem do retrato manchado, sereno e belo, que o tempo não deixou que noutro se tornasse. Os olhos de Clarisse continuam verdes, verde-água, quando for tempo disso, e a enfrentar a estrada onde nunca faltam poemas e rosas brancas.

Foi esta uma maneira de contar a história de Clarisse, devoradora de passados e teimosamente construtora de futuros.

Licínia Quitério

8.6.10

CAMINHOS



Nos caminhos da sombra se acoitam nossos medos.
Ah não fossem as sombras como andariam loucos,
em desatino, a desfazer a nossa gargalhada, a desatar
o nosso abraço, a apagar o lume que o amor acende,
a ocultar os astros novos que as noites nos ofertam.
Libertos ficam os indícios das pedras que a outras
pedras nos conduzem, sempre mais amáveis, mais
redondas, mais lisas, mais conforme a lassidão do
nosso andar. E as cores, as cores, que nos traçam
os mapas na pele, nos olhos astrolábios, nas mãos
oceanos de gelo, lava de vulcões, nos braços a prata
do devir dos amantes, na boca o oiro  com que
se beija um filho ainda por nascer ou já entregue
às pedras e aos medos e ao brilho imenso de viver.

Licínia Quitério

6.6.10

PROVAVELMENTE




Provavelmente  nada seria igual
se um tritão inda houvesse, meu amigo,
meu escravo, meu senhor, minha casa de mar.
Os tritões agora são de pedra,
nos lagos e nas fontes,  fantasias
dos deuses depois da criação 
de vaidades e ambições do tamanho do sol,
da via láctea ou da  ínfima partícula
em que nenhum nome cabe para poder existir.
O tritão que eu sabia dos desenhos solares
que só as crianças constroem nas areias
era gentil e sorria quando eu o cavalgava.
Meu escravo, meu senhor,  levava-me
a viver minha casa de mar com peixes 
cor de luz e tudo o mais que eu não tive
que o meu amigo em pedra se tornou
e a criança assombrada na areia ficou.

Licínia Quitério

Apresento as minhas desculpas por, durante um tempo que espero breve, não visitar os vossos blogs, deixando os merecidos comentários. Grata pelas amáveis opiniões que sempre aqui fazeis o favor de expressar. Deixo-vos o meu terno abraço.

Licínia

31.5.10

AS MENINAS


Eram meninas e brincavam.

Inventavam a floresta
e ela acontecia.
Escondiam-se e um manto
de asas de anjo as encobria.
A noite era um sítio longe
e o dia brotava-lhes das mãos.
Escutavam as árvores, 
o namoro das copas. 
As meninas tinham caixas
de guardar segredos
com chaves pequeninas,
invisíveis.
Nelas dormiam os cavalinhos brancos
de galopar, de galopar.
As meninas apressam-se a crescer.
Apagam as florestas antes que a noite chegue.
Já não se escondem, as meninas.
Souberam que não há anjos sem asas.
Deitaram fora as caixas dos segredos.
Foram-se embora  os cavalinhos,
a galopar, a galopar.
Estão tão grandes as meninas.
Pequeninas ficaram as chaves
invisíveis, 
para que o vento as leve
mundo fora, a voar, a voar.

Foram meninas e brincaram...

Licínia Quitério

24.5.10

SER ÁRVORE


Há um tempo que nos cabe
de sermos tronco adulto altivo
resistente à injúria e ao machado.
Raízes são olhares que deixamos
prender na solidão das casas
pejadas de gritos e abraços
e recados  ao encontro do futuro.
Não me falem de ninhos, nem de sonhos,
nem de viagens, nem de contas-correntes.
Eu só quero ser árvore, ouvem bem,
árvore, com seivas elaboradas,
diligentes, cantarolando
uma húmida e suave barcarola.
Hei-de ter folhas rente ao chão
ao alcance da fome e da loucura
de quem sonhou demais e definhou.
Hei-de ter copa, sim, da matéria
das sombras que o luar constrói
na cal dos muros, nos caminhos da noite.
Depois serei colosso, serei lenho,
as seivas já sem canto, só soluço,
em debandada as sombras e os espectros.
Velha serei, mas árvore e deixarei,
viçosas, esperançosas, algumas
jovens folhas rente ao chão.

Licínia Quitério

16.5.10

LADAINHA EM REDOR DE UM BÚZIO

Encosta-o ao ouvido,
a mão em concha
a modelar-lhe o dorso.
Agora fecha os olhos,
aparta-te do mundo,
murmura búzio como
quando pela última vez
disseste meu amor
e só o mar te ouviu.
Escuta o clamor das ondas,
lá longe, onde findaram
as praias, as falésias,
e os navios  fantasmas
não podem aportar.
Espera um pouco mais.
Uma voz hás-de ouvir
que só pode ser água
que só pode ser vento
ou então a mesma  voz
com que disseste amor
pela última vez 
e só o mar ouviu
e para sempre guardou
no côncavo de um búzio.
E tu o tens colado no ouvido,
e tu de olhos fechados
e tu apartada do mundo
e tu escutando o mar
que no fundo da noite
acolheu tua voz
dizendo meu amor
de joelhos na praia.
Mulher de marinheiro
que foi e não voltou. 

Licínia Quitério

9.5.10

VISITAR O SÓTÃO



Chegou o tempo de visitar o sótão
onde ficaram presos, mutilados,
os dias da abundância e da aventura.
Do antigo fulgor, um brilho leve,
envergonhado, a recordar
as horas sensuais da seda pura.
Pela noite, o corpo era a ardência
da haste e a frescura dos ramos
e os olhos água com medo da ternura. 
Da festa só ficou o cheiro bafiento
das arcas guardadoras de bragais
e as cores dos óxidos a devorarem,
ímpios, a luzente alegria  dos metais.

Licínia Quitério
  

30.4.10

LEMBRANÇAS DE UM MAIO

O dia veio e a cor brotou.
Vermelho, sim, como as papoilas
e os lábios quentes das mulheres
e o canto livre que de outra cor
não se fazia.
Vermelhas as roupagens
da liberdade que soava
e punha mãos em mãos
que não se conheciam.
Tão doce o amor nascido
de gestos improváveis
e olhares incendiados
como nunca se vira.
Nome não teve a festa
porque sem nome é tudo
o que é maior que o sonho.
Havia sede, uma sede imparável
e a água se oferecia
que tudo era sem preço nesse dia.
Cravos vermelhos  havia
nas portas e nos braços 
dos rapazes que sorriam
perdido o medo da alegria.
Era um clamor de passos
uma batida que ecoava
na quentura dos ares
e entontecia.
Era um rio de pássaros
de asas vermelhas
como o riso das moças.
E os poetas não pararam de dizer
a urgência da palavra
há tanto encarcerada e agora aberta,
inteira e ousada.
Ela também vermelha como o dia.

Licinia Quitério

24.4.10

25 DE ABRIL de 2010

Foi numa manhã  de chuva miúda que punha a cidade cinzenta e chorosa, igual ao rio. Que idade tínhamos? Sei lá eu. Adultos de vidas feitas, imperfeitas. Crescêramos à sombra da inquietação de nunca chegarmos a ter o sol nas vidraças sem cortinas. Por vezes cruzávamo-nos em salas bafientas, em ruas escusas, onde as falas se faziam de repente claras como se a luz afirmada as invadisse. Tínhamos amigos com quem podíamos soltar pragas e discutir o futuro como se dele tivéssemos certezas. Íamos lendo e descobrindo outras letras, de contrabando e ousadia. Desafinados, cantávamos baixinho canções que só nós ouvíamos, feitas por outros que viviam no perto ou no longe,  atravessando os túneis, saltando as devesas.
Na manhã de chuva miúda, descemos às ruas e corremos às praças e sempre nos encontrámos  e nos abraçámos e chorámos e cantámos, com a voz alta que tínhamos guardada. Soltámos o amor e ele fez caminhos imprevistos, com cheiro a cravos e cafés de madrugar. Foi há tanto tempo. Tempo de vidas vividas e acabadas. Tempo de ter ficado mais um tempo para contar que era uma vez  uma espingarda que floriu e  uma mulher que gritou o seu nome: Liberdade.

Licínia Quitério

17.4.10

DEMANDAS O ABRIGO



Demandas o abrigo que sabes
há-de haver na fronteira da estrada.
Por isso, homem,  inauguras
os dias deixando para trás a casa
e nela o sono breve e inquieto.
Levas o beijo da mulher, dos filhos,
e um trabalho imenso por fazer.
Visitas os lugares que te reclamam,
cumpres a hora de carregar na voz
o que esperam que digas, pouco mais.
Se for preciso cantas com palavras
brandas no embalo dos passos,
sílaba a sílaba a aguentares o prumo.
Ao fim da tarde, quando os  ombros
pesam, ganhas de novo a estrada.
Tu sabes, homem, que outra casa
te espera e a mulher está cansada
e os filhos sairam a correr pelo mundo.
Dormirás e sonharás com traços
imprecisos de portais e alpendres
e muros brancos e trepadeiras brancas
e um homem dizendo mansamente
sílaba a sílaba a leveza dos passos.

Licínia Quitério

8.4.10

ANIVERSÁRIO

Há precisamente quatro anos abri este blog. Titubeante, sem saber quem iria encontrar, quem me iria encontrar. Poemas meus e de outros por aqui se foram deitando, abrindo-se medrosos aos olhos de quem passasse. Ensaiei pequenos textos, poéticos quanto baste, que me davam prazer e segurança. Mais tarde, vieram as fotos que fui fabricando, trabalhando, no percurso irregular de quem principia uma tarefa de que desconhece as regras. As visitas foram chegando, amáveis e generosas, nos comentários  que deixavam. Uma boa parte delas passaram da virtualidade à realidade e muitas são as que hoje conto entre os meus amigos. O Sítio do Poema foi mudando de fatiota, de forma e de cores, seguindo provavelmente as minhas próprias mudanças. Também, entretanto, a minha escrita cresceu e amadureceu. Numa cadência quase semanal, aqui vou deixando palavras e imagens que vão fazendo caminhos insuspeitados. Tem sido um lugar tranquilo, ameno, donde muitas vezes tenho partido para outros lugares aprazíveis, com gente linda, cúmplice de palavras escritas e ditas sempre com a ternura com que a Poesia, esse reduto de salvação,  nos suaviza a aspereza dos dias. Foram só quatro anos. Há-de haver mais.

Licínia Quitério

4.4.10

O POEMA NÃO VEM


O poema não vem quando se chama
Desobediência é sua inclinação
ou  seu jeito de ouvir é uma brandura
que só percebe falar de coração

Aguardarei que a pedra
lançada ao lago no anoitecer
regresse reluzente à minha mão
e se diga palavra ou vento ou amanhecer


Licínia Quitério

24.3.10

LEVE A CARÍCIA



Leve a carícia deste sol de Março
com matizes de nuvens em farrapos
rasando as agudezas dos pinheiros.
Penso no sol de outras primaveras
e não sei se o que penso é somente
o desejo de alguma vez o ter sentido.
Observo os gatos em gestos obsessivos
de lavarem com sol o corpo inteiro
e é o meu corpo inteiro que se alonga
até às águas primevas da memória.
Um homem e uma mulher amam-se
desde o dia em que decidiram saber
se o amor que os outros dizem tem
o sabor de amoras rubras ou é tão só
a alegria de haver amoras nos caminhos.
Talvez eu esteja longe e tenha envelhecido
na contemplação das horas que não mudam
porque nada muda nem as dúvidas
que carregamos no côncavo do tempo.
De pouco serviria o afago deste Março
se a cicatriz do frio não morasse no longe
onde talvez eu tenha envelhecido
olhando um homem e uma mulher
que se amam decididamente na alegria
de amoras rubras em breves descaminhos.

Licínia Quitério

15.3.10

É BOM HAVER COMBOIOS


É bom haver comboios que nos levem,
de gare em gare, nos trilhos das cidades.
Cidades abertas, com cheiros de enseadas,
cidades nocturnas de cais e contrabando,
cidades fêmeas de bocas frescas e maduras,
ou as outras de suores, de milongas e tragédias.

De assalto penetramos as cidades
para saber das praças, dos museus, dos bares,
nunca da febre dos homens humilhados
nem dos rostos de cera das mulheres veladas.

De cidade em cidade nos levam os comboios.
Contentes da partida, cansados da chegada,
na mala o tempo provisório da viagem,
vamos no meio da multidão, até ao dia
em que na gare deserta saberemos os nomes
da cidade que somos, do comboio que nos leva
do princípio do mundo até ao fim do mundo.

Licínia Quitério

7.3.10

DERIVA


Vi as águas os cabos vi as ilhas
E o longo baloiçar dos coqueirais
Vi lagunas azuis como safiras
Rápidas aves furtivos animais
Vi prodígios espantos maravilhas
Vi homens nus bailando nos areais
E ouvi o fundo som das suas falas
que já nenhum de nós entendeu mais
Vi ferros e vi setas e vi lanças
Oiro também à flor das ondas finas
E o diverso fulgor de outros metais
Vi pérolas e conchas e corais
Desertos fontes trémulas campinas
Vi o rosto de Eurydice das neblinas
Vi o frescor das coisas naturais
Só do Preste João não vi sinais


As ordens que levava não cumpri
E assim contando tudo quanto vi
Não sei se tudo errei ou descobri


SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN

Apeteceu-me reler Sophia.  A das palavras claras que penetram no fundo do tempo. Sempre me encanta. Começo a sentir saudades dos poetas que escreveram na luz. Há por aí tanta escuridão, tanta fealdade, em jovens poetas talentosos. Sinais dos tempos, dizem-me. Sinto pena. Por eles, por mim.

Licínia Quitério

26.2.10

AS DOCES MÃOS DA INFÂNCIA

As doces mãos da infância
subitamente afloram
o tecido enrugado
do dia a desmaiar.
Trazem consigo a tremura
das bolas de sabão
a crescer, a crescer, a voar.
E o nosso corpo freme a assomar
à janela do tempo que foi
mais que perfeito,
assim dizemos.
Não nos pertencem
as doces mãos da infância.
Cavalgam nuvens coloridas,
nadam em águas claras,
colhem flores e risadas
e canções de embalar.
Por vezes voltam,
num relâmpago,
a iluminar o nosso quarto escuro.
Por vezes não são mais
do que a ternura
que presssentimos
no dia a desmaiar.

Licínia Quitério

19.2.10

RUÍNAS



Na vila velha, a casa velha,
ou as veias nas fendas onde correm
trepadeiras de campainhas azuis
que sempre voltam com as andorinhas,
ou os gatos invisíveis nos parapeitos,
a lamberem feridas inventadas,
ou os restos teimosos da tinta verde
nas paredes da sala de jantar,
ou o frio respirar das lagartixas no beiral.

Lá dentro, uma tosse miúda, persistente,
ou um ranger de portas empenadas
ou os talheres a tilintar na mesa,
a abafar suspiros censurados,
ou os gritos do medo pelo escuro
ou tão só o piar do velho mocho
ou as correrias das crianças:
não me apanhas, não me apanhas…

Ali a casa ainda habitada
a alimentar ruínas.

Licínia Quitério  "Da Memória dos Sentidos"

12.2.10

O MAR IMENSO, DIZIA



O mar imenso, dizia,
como se dissesse sede de viagens.
A leveza das aves, dizia,
se o ar não se detinha no cálice das  mãos.
As pedras robustas, dizia,
quando não sabia das areias 
movediças, no jardim da casa. 
Nos umbrais das esperas,
os frutos maduraram,
as crianças cresceram.
Já era velha a tarde 
quando a estrada lhe pegou os passos, 
duas gotas de orvalho nos cabelos,
uma lua de prata presa ao peito. 
Foi a hora de aprender com as cigarras
o ofício de cantar a vastidão dos campos
e o breve breve tempo do Verão.

Licínia Quitério 

3.2.10

QUANDO A SOMBRA



Quando a sombra se adensa  nos degraus da tarde,
na polpa dos dedos há rumores de sangue,
lamentos de mendigos  nas ramadas altas 
e um vento branco na floresta de preces maternais.
  
A ternura,  um dócil animal no limiar do sono, 
ensina aos homens a canção da terra, dolente, 
augúrio de feitiços no ritmo da noite.

Assim todos os dias, a aprendizagem das sombras,
na travessia do grande chão silencioso.

Licínia Quitério

27.1.10

AMEI O VERÃO




Amei o verão e as sombras ofertantes
de grutas e desvãos e amáveis
copas  aos tórridos amantes.
Imensa a praia onde me deitei
e mais ninguém pisou como eu pisei.
Eram então os dias em  que o corpo
se  vestia de carmim e açafrão
para receber o desenho dos pássaros
na frescura da lâmina da tarde
e a minha escrita era líquida e nua
a deixar-se tomar por peixes verdes
que um poeta andarilho me oferecera.

Foi claro e breve o tempo da inocência.
A praia essa continua imensa.

Licínia Quitério

18.1.10

HAITI



Com que palavras dizer a ordem das coisas,
a razão das coisas, quando tudo
é temor e raiva e subversão?
Como dizer a leveza do céu
ou a aspereza do chão, quando o céu
e o chão se desenham na poeira dos gritos,
na pele insuportável do silêncio?
Uma cidade desfeita é um monstro a devorar os filhos.
A morte é o espanto nos olhos dos homens, 
o andar deambulante entre ruínas, 
a sede dos vivos,  a arma na mão
de coração a coração,
a assimetria dos corpos,
a náusea, a podridão.
Uma mulher canta cavalgando a dor,
uma criança apressa-se a nascer. 
Que fazer destes dias da ira
no grande afã de esfacelar a esperança?
Como entender a geografia do  humano sofrimento?
Pobre de ti, Haiti.
Pobres de nós.


Licínia Quitério

11.1.10

O GRITO




Quantas vezes o grito é o silêncio
a invadir da velha casa o esconso
e a explodir nas frestas da memória.
Ou choro de criança a construir o sono
onde se criam histórias de gigantes
desajeitados como o voo róseo
dos flamingos  na crista dos sapais.
Por vezes a urgência de uma boca
colada em desespero ao vidro como
se não houvesse promessas de maçãs.
Se for maior que a minha inquietação
o grito será  o arco e a corda e o canto
do  violoncelo a cravejar de estrelas
a infindável noite dos famintos.


Licínia Quitério 

3.1.10

COM O VENTO NO ROSTO




Com o vento no rosto e as mãos despidas
detemo-nos e escutamos
um murmúrio de vozes muito antigas.
Aos nossos pés tombam palavras
fatigadas de saberem tantos mares.
É quando as aves saem da paisagem,
um manto de espuma cobre a praia
e  uma janela se abre sobre o tempo
que somos. O corpo esse nos sobra
dorido e persistente guardador
das marcas de água ou do nosso rasto.

Licínia Quitério 

27.12.09

BOM ANO



Um dia destes o calendário nos dirá que já é maior a soma dos anos havidos. Encetaremos mais uma contagem do tempo das nossas vidas. Ficarão para trás as dores e alegrias que nos rechearam os dias. Olharemos mais uma vez o filme do passado e deitaremos contas ao que doámos e ao que negámos, ao que construimos e ao que adiámos, às horas que rimos e às que chorámos, aos amigos novos que conquistámos e aos que nos esqueceram ou partiram para sempre.
Fazemos votos de um novo ano diferente e melhor. A esperança ainda não morreu. Bem por dentro do nosso coração, projectamos um mundo luminoso e solidário, povoado de homens e mulheres com gestos verticais, rodeados de crianças de risos abundantes. Rejeitamos palavras como guerra e fome e doença e solidão. Em seu lugar, sonhamos árvores frondosas e cantares em bando e mesas fartas de pão e de poemas. Assim continuamos desenhando a estrada. Fortes e frágeis, austeros e ternos,  decididos e titubeantes, desesperados e esperançosos, humanos e imperfeitos que somos.

Bom Ano para todos.

Licínia Quitério

18.12.09

OS SINOS



Os sinos tocam. Repicam. Tangem. Dobram.  Os sinos falam. Rezam. Cantam. Riem. Choram. Chamam. Para acordar e para recolher. Para a festa e para o luto. Dão sinais. Dão avisos. Dão as boas-vindas e as despedidas. Envelhecem. Enrouquecem. Deformam-se. Têm vidas longas. Serenas. Sabem muito do silêncio. Edificam-no. Prolongam-no. Afirmam-no. Moram nas alturas e são atentos à fala da Terra. À fala dos Homens. Há quem os ame. Há quem os deteste. Não há quem fique indiferente ao seu soar. Quem os constrói sabe de fórmulas secretas. Rigorosas. Mágicas. São elas que dão voz aos sinos. Como se fossem gente. Como se fossem vida.

Licínia Quitério

6.12.09

VAI LONGE O TEMPO



Vai longe o tempo de peregrinar
por searas fartas e maduras
como se fossem mesa,
como se fossem pão.
Agora há um deserto em cada esquina
e a palavra Nunca é um desatino,
uma prega de gelo no olhar.
Porém, na madrugada há um vapor de seda
a cavalgar as pedras,
a despertar os bichos,
e os rios nos acolhem,
com seus barcos tranquilos,
seus espelhos de céu,
seu sabor a nascente.
Seguir nos dias o rumo da corrente,
com um sonho ancorado
no fio do horizonte,
um grão de sal em cada mão,
um desejo de porto
amarrado no peito.
Até dizer seara como quem diz viagem.
Até morder a vida como quem morde o pão.

 
Licínia Quitério

27.11.09

DA AUSÊNCIA

 
Podia dizer-te da ausência como quem morde a espuma ou apunhala sombras e afastar um sonho enroscado no pulso. Pegar na espuma e nas sombras e depô-las na paisagem com a leveza que as aves ensinam.  Se eu caminhasse sobre os campos de neve e olhasse para trás e apercebesse um rasto verde de agulhas e um cheiro morno de incenso no altar da distância, quem sabe a ausência mais não fosse que uma garra cravada na garganta do inverno, dor provisória, amortecida, guardadora dos casulos da memória.


Licínia Quitério

17.11.09

SE EU PUDESSE


Se eu pudesse dizer-te:  amanhã à tardinha havemos de respirar o verão das cigarras, caminhar enlaçados nas cordas do orvalho, saborear a memória da construção do templo.
Ah se eu pudesse recuperar a humidade das avencas ainda que tivesse de inventar os poços, à minha rua voltariam os sons dolentes da aldeia, como os dos rebanhos que apenas os poemas me disseram.
É tão útil escrever versos e com eles fazer ramos de saudade.

Licínia Quitério

5.11.09

A ESCRITA DA CHUVA



A escrita da chuva é miúda, madrugadora, breve. 
Escrita, apenas, livre da escravatura das palavras. 
Quem  sabe ler a sua transparência?
Quem lhe desvenda o verbo na liquida mudez? 
Alguém falou do tempo efémero na cintura do dia,
de relâmpagos e árvores tombadas à entrada das cidades,
de cavalos fumegantes e do susto das donzelas na orla das planícies.
Nada a propósito da escrita da chuva no recorte do Outono.

Licínia Quitério

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