6.11.18

OS PEIXES



Contra o tempo nascidos
a terra os cria,
a guerra os mata, a guerra
a fome os mata, a fome
o medo os mata, o medo

Eis os sobrevivos, os andantes
os foragidos da tragédia
os do sangue fervente
por beberem as dunas
como se fossem água
por comerem as pedras
como se frutos fossem

Sonham com barcos
por não haver cavalos no deserto

O mar os chama
o mar os leva
o mar os traga

Alcançarão a frieza dos peixes
o seu bailado
a sua morte breve
líquida

Licínia Quitério

20.9.18

NOVO LIVRO


17.9.18

OBJECTOS


A tranquilidade dos objectos, 
o seu silêncio 
ajudam-me, 
acrescentam-me. 
Partilhamos histórias, segredos.
Eu sou, eles estão.
Usamos o mesmo canto de mundo,
a liquidez da noite.
Por sorte, eles não têm coração.

Licínia Quitério

14.9.18

RITMO



O gato dorme as suas horas de gato.
Os peixes ensaiam acrobacias.
As plantas crescem ao ritmo do silêncio.
Ventos furiosos massacram povos
longe do gato que dorme, dos peixes acrobatas,
do crescimento das plantas.
Eu espero ventos novos, sensatos.

Licínia Quitério

15.8.18

Que faremos


Dizemos que horror
que pena me dão
navegantes de barcos velhos
caminhantes de sandálias gastas
míseros de pão minguado
descrentes de milagres
comprados com as dores
dos finais infelizes

Fica pequeno o nosso coração
mas a nossa casa continua grande
a nossa pele ao abrigo das feras

Se tocarem à nossa porta
que perguntas lhes faremos
em que língua nos darão respostas

Deixaremos à solta os cães do medo
ou por sinais diremos
meu menino teu menino
água fresca mesa posta



Licínia Quitério

25.7.18

O INFINITO


Tudo é possível para lá do vidro.
Um candelabro, muros em pedaços,
rostos, folhas verdes,
um ou outro animal.
Reflexos, dizes, encontros, digo.
A luz é isto,
a transparência, o real e o virtual,

a verdade e a mentira.

A luz permite,
o vidro esconde, o vidro mostra.
Para lá do vidro todo o mundo habita
a mesma dimensão.
O nosso olhar
com o real não se conforma
e busca para além do vidro
o reflexo, dizes,
eu digo a ilusão, o infinito.

Licínia Quitério

23.7.18

O POEMA


Um poema não nasce nas pontas dos dedos
Não cresce porque o Sol se levanta
Um poema não se esconde nos retratos
Não espreita na cortina da noite
Não bebe no soluço da fonte
Um poema anda por aí
Na escuridão na claridade
No antes no depois
É preciso saber o nome do poema
Antes do nome a voz
Antes da voz
O silêncio
A casa onde o poema nos espera

Licínia Quitério

10.7.18


6.7.18

LUZ


Resistir, mudar, sobreviver
Um sonho a vários tempos
A casa, o corpo
Enquanto luz houver

Licínia Quitério

29.6.18


28.6.18

SIGNOS


Signos por decifrar, travessias de espelhos, fumarolas dançantes, soluços, agonias,
e também
risos, retratos gloriosos, fórmulas mágicas de poções mágicas, jardins de lírios e maçãs, anjos de pão e paz,
e também
demónios matadores, violadores de corpos e palavras, meninos afogados,
o desespero dos homens leiloados, o desespero das mulheres oferecidas, as gargalhadas dos invasores, as gargalhadas dos vendedores,
o rasgão na cortina, o estilhaço do vidro, o rasto de sangue no caminho das pedras.
Este rol infindável de carimbos na pele, este sufoco, esta ignorância, este desejo de luz que ilumine e não cegue
é o que nos habita os dias ensombrados
e também
os outros, quase felizes, ensolarados.

Licínia Quitério


14.6.18

MENINOS



Meninos
Na deriva dos ventos
Perdida a terra e a mãe
No grande mar balançam
Em frágeis fingidos barcos
Novas faluas sem barqueiro
Só frio só medo só sede
Quem os resgata
Quem os ampara
Na noite dos fantasmas
Quem lhes chama filhos
Quem lhes dá um nome
Quem lhes abre o porto
Quem

Licínia Quitério

10.6.18

COISAS RARAS




Estava no fundo do rio.
Era uma pedra, um segredo?
Só eu sei que senti frio.
Era Verão e tive medo

que a pedra me seduzisse,
que o segredo me tentasse,
que o sorriso me fugisse,
que a tua voz me escapasse.

Guardei o rio na memória
das coisas raras que achei.
Assim se conta uma história
de pontes que atravessei.

Licínia Quitério

9.6.18

CONVITE

http://www.centesima.com/content.asp?startAt=4&categoryID=15&newsID=859

Na Livraria Centésima Página, em Braga, no dia 22 de Junho, pelas 18h30m,

com os meus livros e as caligrafias de Ariana Andrade.

Apresentação de Virgínia do Carmo, da Poética Edições.

Apareçam.


Licínia


6.6.18



5.6.18

VOLTAR


Voltamos aos lugares onde passámos
de mão dada com a pequena idade.
Foi a rua que estreitou
ou os nossos braços se alongaram
em busca de outras ruas outros sóis.
Era uma terra amável de bons dias boas tardes
então por cá menina.
As tias velhas eram mais novas do que eu
agora sou. 
O tio levava-me ao castelo. 
O braço dele a apontar
vês lá em baixo o rio.
Hoje não sei ao certo como chegar
ao rio nem isso é importante
depois de tantos rios ter passado
e nem sequer dos nomes me lembrar.
Gostei de ver as andorinhas
iguaizinhas às que rasavam a janela.
Juro que ouvi a voz da tia
anda para dentro está a arrefecer.
Puxei para cima a gola do casaco
caminhei sem do calor me aperceber.

Licínia Quitério

16.5.18

A SEDE


Nasceram há muito
inda o país era um desejo
de terras férteis águas mornas
onde pousar a espada e acasalar


Guerrearam os que chegavam


Não sabiam que partilhada

a terra cresce  e alimenta
a água brota e dessedenta

Deuses com deuses nunca se entenderam


Os homens com eles aprenderam
a vigiar dos altos quem se atreve
a cruzar o caminho da abundância

a cobiçar mulheres do outro dono

Pedra sobre pedra subiram torres
muralhas a proteger as torres
fortes e fortins e revelins

A cidade cresceu encarcerada
nas pedras do seu medo
até que os homens se atreveram
ao campo aberto e livre
na paz da vizinhança

Hoje passeiam o olhar 
pela inutilidade dos castelos

A água brota lá dos fundos
benfazeja e morna

Nos homens adivinha a persistência
da sede de outros muros

Licínia Quitério

8.5.18

TRAVESSIA


A noite em terra alheia é promessa 

de conforto e resguardo,
de novos convivas em redor da mesa,
em redor da afinação das vozes,
solitárias ainda e logo mais soando
em tímidos duetos
até que a embriaguez aquém do vinho
aclare e aqueça e a palavra se faça
caminho e destino da viagem.

Lá fora estão as árvores pujantes
e as fontes quentes e o rio manso
com os  peixes prateados.
Tudo contido em seus limites
como se falássemos de quadro 
concebido e pintado por um monge
na média luz do claustro.

Se a promessa se cumpre eu já não sei.
Sei das luzes que se acendem na rua,
da renda de sombras nos vidros da janela,
do rumor da água do rio sob as pontes.
Só me falta saber quando farei a travessia.

Licínia Quitério

1.5.18

A DOR DO RIO


O homem não sabia a fundura do colo
Pensou na mãe
Disse estou aqui vou-me deitar estou cansado
Disse acorda-me amanhã devagarinho
Foi abaixo e voltou
e voltou e voltou
O rio estremeceu
Do suspiro do homem nasceu um remoinho
Depois tudo ficou sereno e limpo
Um corpo deitado na corrente
A gente sabe lá a dor de um rio
quando se afoga um homem

Licínia Quitério

24.4.18

TAIS-TOI

Tais-toi, poète,
tu sais, la guerre
est avare de tes mots.
Garde-les,
garde-les bien,
abimés dans ton coeur.
Personne ne saura
pourquoi tu deviendras
un poète muet.
On dira
que ta vie est gachée.
Calme-toi, poète,
tu sais, la guerre
s’achèvera sans te prendre tes mots
si bien gardés
au fond de tes sanglots
au bout de ton silence.
Écoute-moi, poète,
attend!
Le temps arrivera
pour tes mots,
pour ta voix
pour ton chant libéré,
encore plus haut,
en demandant le tout,
l’immensité.


Licínia Quitério

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