20.12.25

AS VELAS


Longos os anos
breve o anúncio de horizonte.
A água desistiu dos cântaros.
No novelo dos dias por contar
os caminhantes da fortuna
tecem mantas
de aconchego e perdição.
As velas ardem a alumiar a estrada.

Licínia Quitério

18.12.25

O LUGAR


Lugar com pele por inteiro
Não importa quando foi por que foi
Estivemos respiramos
Sentimos a aragem
Qualquer coisa de animal
Qualquer coisa de amante
O lugar possuiu-nos
Não não nos prendeu
Não pediu licença
Fez-se ao caminho
Sua pele nossa pele
Connosco veio e ficou
Para que dele falemos
No passado presente
Como de amor falamos
Eu fui eu tive
O lugar que sou
Licínia Quitério

7.12.25

NATAL

 De que serve um poema

se não for também sangue também ferida

se não disser da esperança assassinada

da negra solidão dos precipícios

 

Que poema desgraçado será

o que disser amor e não souber

o seu odor a mar o seu toque

que do cardo faz cetim

 

Um poema tem de crescer por dentro dos escombros

a salvar as crianças soterradas

Se não souber de guerras cale-se o poema

Se não souber de paz também se cale

 

Um poema indiferente

que não souber dizer senhora liberdade

não servirá de estrada não voará

mesmo que diga ave da madrugada

 

Os homens precisam de poemas

que digam carne e soluço

desfaçam vendas e amarras

abracem os nascidos e os que vão nascer

 

Poemas haja de vida e morte

que digam princípio e fim

 

por isso o caos e a ordem

por isso a sorte e a contradita

 

Um poema virá do novo tempo

a desfazer a tempestade

com a força  das sílabas sonoras

a anunciar o reabrir da claridade

 

Licínia Quitério, na antologia "Numa rua completamente às escuras movem-se estes versos"


 


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