22.11.21

A CONSTRUÇÃO

A gente constrói.

A gente constrói-se.

A gente reconstrói.

A gente reconstrói-se.

Nas fundações da construção, os braços da ruína.

A gente teima.

A gente diz que este não é o tempo da ruína.

Constrói, reconstrói.

A gente ilude o tamanho do tempo.

Constrói, reconstrói.

Constrói, reconstrói.


Licínia Quitério

11.11.21

OS MALDITOS

 Caminham sempre até os pés se gastarem, até se perderem dos filhos, das mães.

Já esqueceram palavras que digam casa, água, riso.
Aprenderam fome, tortura, ódio que foi tudo o que lhes deram para a viagem.
Caminham sempre, sobre o gelo, sobre a areia, sobre o fogo, até os pés se gastarem.
Vão em direcção à terra prometida pelos deuses que lhes disseram do leite e do mel.
Sacrificaram os animais, as mulheres, as crianças, para aplacarem a ira dos cobradores de impostos.
Se for preciso atravessam os rios ou adormecem na correnteza e por lá ficam iguais aos peixes seus irmãos.
Caminham até ao mar azul que não se abre para os deixar passar.
Confiam nos barqueiros, dão a moeda, a última, o salvo-conduto para a terra do esquecimento.
Os que não pagaram continuarão a caminhar até avistarem o império e os seus muros.
São da Terra dos deuses que não pagam promessas.
Dali não passarão, os malditos.

Licínia Quitério
Foto da net

8.10.21

A ESTRADA

 Na estrada longa, o nosso carro de sol e chuva  

segue a viagem de conhecer, esquecer.  

Passageiros sobem, passageiros descem.

Sinuosidades encobrem as margens

e apagam quem nelas caminhou e se perdeu.

Indelével, a memória dos vivos e dos mortos.

Revelados são os nomes dos passageiros

que continuam no carro, invisíveis,

testemunhas da inacabada solidão.

Todos os caminhos vão dar a Roma, dizia-se

quando o mundo era o tamanho da cidade.

 Neste tempo sabemos que todos os caminhos

 vão dar a uma cidade de nome Vida  e o seu contrário.



 Licínia Quitério

7.10.21

MADRUGADA

 Acordou cedo e saiu para a sua tarefa

de saber a madrugada.

A neblina esbatia os contornos das casas, das árvores,

das coisas que os humanos penduram

nos fios tensos de amarrar os dias.

Fitou o lugar donde lhe vem o medo e deteve-se,

musculada e avolumada.

Só o recorte das narinas fremia,

ao ritmo do coração.

É um ser animado,

no seu primeiro cuidado de defender a vida.

Escolheu-me para habitar com ela,

para viver como ela,

para ser ela, se quiser. 

Sendo ela, espero aprender a prezar as madrugadas.




Licínia Quitério

6.10.21

APRENDIZAGEM

 A aprender o silêncio, o murmúrio,

a fala, o grito,

a voz e a sua negação.

Tudo.

Na minha aprendizagem, a ajuda  

do pequeno visitante de corpo alado,

de penas cinzentas,

a espiar-me por entre a folhagem do salgueiro.

Sem nome, o meu espreitador,

que nome também não tem

a minha invenção

da liberdade.

Não se demora na lição do dia.

Parte desenhando no azul

a sua escolha do silêncio,

da vastidão.

A procurar  merecer o seu ensinamento.


Licínia Quitério

5.10.21

CLARO-ESCURO


 De luz e sombra cobrem-se  os dias dos homens.

Porque não têm memória de outras estrelas

afincam-se a guardar a luz do sol

nos olhos, nas mãos, no coração.

Na noite escura, quando o frio e o medo

assomam ao rés do corpo,

dizem baixinho,

meu amor minha luz,

e acende-se um raio de futuro.

No dia claro, alimentam-se de lembrança

de outras luzes

e dizem a meia voz,

meu amor meu natal.

Assim sempre, a vida clara, a vida escura.


Licínia Quitério

2.10.21

O PRINCÍPIO

 Nas manhãs de sábado podem acontecer

vulcões por dentro do silêncio.

O nosso corpo-corpo e o nosso corpo-Terra 

a construírem cenários do princípio.

Fixamo-nos no tempo

em que tudo se preparava para nos receber,

a casa já firme, o máximo e o ínfimo  ao nosso dispor.

Ainda os deuses não tinham nascido,

ainda o medo não se mostrava.

Ainda o corpo-corpo e o corpo-Terra

não se tinham separado,

a lava ainda não tinha arrefecido,

mas as lutas da água e do fogo

eram já o anúncio do eterno jogo

entre o princípio e o fim.

Os deuses aguardam que os inventem

quando o medo rugir no corpo-Terra.


Licínia Quitério


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30.9.21

TRILHOS

 



milhões de anos nos separam
da juventude das rochas

não sabemos o tempo que teremos
para lembrar os dinossauros

entretanto construímos novos trilhos
a afirmar nossas pegadas

poucos anos durará
a flor que somos

é o que sabemos

Licínia Quitério

24.9.21

VARIAÇÕES SOBRE O CORPO


Há lá maior intimidade do que esta

a que o corpo nos liga todo o tempo

sem pedir licença, sem fingir.

É a total pertença, nós com o nosso corpo

de que nada sabemos a não ser

que um dia ali não estará.

 

Dois pés são instrumentos para nos ensinarem

os metros do corredor e depois a largura da rua

e, se houver para tal força e vontade,

contar os degraus da escada,

avançar um pouco mais e abarcar o labirinto.

Só não saberemos onde começaram

e irão acabar os nossos pés,

se é que alguma vez foram os nossos.

 

Falam dela como se de pano ou vela

ou parte inteira  se tratasse

e nunca véu ou escama ou marca de água.

Pele devem dizer, como nascimento,

ou crescimento ou acrescento ou, em tempo seco,

outra estação que chega e só ela saberá

que seda, que beijo, que mortalha.

 

O corpo constrói-se. Reconstrói-se.

Nas fundações da construção

multiplicam-se os braços da ruína.


Licínia Quitério

23.9.21

O ROSTO

 O rosto. A gente sabe lá o que é o rosto, o nosso rosto.

Quem o viu chegar e à luz o percebeu

não saberá quem é, quem será, por quanto tempo.

Pode até acontecer que se esqueça de si,

do tal rosto que os outros olham

e que ele de verdade nunca viu.

Um dia mostram-lhe um espelho,

põem-no ali mesmo de fronte.

A mão do rosto aflora a superfície fria e pergunta

quem é que tem um rosto assim, quadriculado,

parece que vai desmoronar.

Ficam a olhar-se, como se fossem dois e perguntassem

Quem é esta figura tão igual, tão desigual.

Sabem-no ambos, mas guardarão segredo.


Licínia Quitério


21.9.21

A FIGURA

 Em jogos de luz e sombra, inquietos,

os espelhos mostram a figura
que será a nossa e aos outros exibimos.
Somos o orgulho de quem se julga eterno.
A figura caminha e vai mudando,
mas nós continuamos altivos,
seguros da permanência da luz
no desenho perfeito do que somos,
do que continuaremos a ser.
O dia chegará de o espelho devolver
as rugas da mãe, a palidez do avô.
A desfigura avança, encolhe, entorta,
assusta quem se julgou o figurante,
o caminhante da beleza,
os braços da alegria ao seu dispor.
Um vapor branco vai dominando o espelho,
apagando o rasto do orgulho,
até que estala o apagão
e nada mais importa ao figurante que passou.

Licínia Quitério

20.9.21

MUTANTE

 Perdemos o antigo saber da mão na mão,

os dedos enlaçados, o aperto leve,

nascente o suor maninho.

Da boca a boca, já pouco sabemos,

 a lembrança  de uma certa fala

nascida talvez no coração.

Do abraço, tão perto o braço,

esquecemos o formato. 

Passámos a dizer infindo laço que tivemos.

A pouco e pouco o corpo vai morrendo.

Ai de quem se atreveu a dizer

eu  sou, eu estou, eu ficarei.

Havia de vir um ladrão maior que os outros,

embora o mais pequeno, o mais mutante.

Aí o temos, enquanto formos o que somos.


Licínia Quitério


19.9.21

REGRESSO

 Não há regresso. 

Escusas de  dizer eu já fui assim e assim hei-de regressar.

Confortas-te a pensar no sorriso que foste,

no olhar sempre aberto,

pricipalmente nas mãos de luar.

Dizes, tudo volta a ser o que já foi.

É só esperar o vento suão. 

 

Não te iludas, eu aprendi há pouco,

disse-te, não há regresso.

Quando tudo parece caminhar em frente

até fechar o círculo,

eis a rocha que estala,

o sopro que arremessa

e tudo fica igual a nada

apenas porque o tudo e o nada se contêm.

 

Só há regressos simulados. 

Aprendi há pouco, eu avisei-te.


Licínia Quitério



18.9.21

MADRUGADA


 Acordou cedo e saiu para a sua tarefa de saber a madrugada.

A neblina esbatia os contornos das casas, das árvores, das coisas que os humanos penduram nos fios tensos do correr dos dias.
Fitou o lugar donde lhe vem o medo e deteve-se, musculada e avolumada.
Só o recorte das narinas fremia, ao ritmo do coração.
Como qualquer ser animado, no seu primeiro cuidado de defender a vida.
Escolheu-me para ser igual a ela.
Ensinou-me a prezar as madrugadas.

6.9.21

AS FALÉSIAS

 


Ontem eu andava na aprendizagem do Verão
e nos meus olhos não cabiam pedras gastas.
Hoje os mesmos olhos dizem
que as falésias envelheceram
e já não ensaiam esfinges no perfil.
Fartas de céu, deixam rolar as pedras.
Deitam-nas no chão que os homens vão pisar.
Eles não hão de perceber
a decadência das falésias.

Licínia Quitério

1.9.21

A MORNIDÃO DOS DIAS

A mornidão dos dias que nos cabem

nos anúncios de outono

é um bálsamo para as feridas do incêndio.
O nosso corpo abranda
a indecência da febre, da doença.
Saboreamos um intervalo que pode ser
uma linha de partida ou de chegada.
Confundimos os sonhos com a beleza
dos crepúsculos.
A ombreira da porta conhece o nosso desamparo,
chama-nos, mas recusamos a oferta.
Preferimos balançar. Sabemos da queda,
mas no outono tudo se esquece.



Licínia Quitério

20.8.21

UMA PEQUENA LUZ


 Uma pequena luz

Uma luz pequena e nova Nascida no bosque Na verdura do bosque Aguarda ser colhida Colhida e guardada Numa mão fechada Uma mão sem medo das fogueiras Uma mão capaz de segurar uma bala De segurar outra mão Consumada a colheita Da luz pequena e nova A mão que sem temor lhe tocou e a guardou Será candeia archote fogaréu A iluminar a cegueira dos olhos O negrume dos becos Os rostos gradeados das mulheres Era uma pequena e nova luz Na verdura do bosque Licínia Quitério

12.8.21

BALADA DA PORTA FECHADA

 É a porta fechada

dessa casa assombrada
no dizer das mulheres
ligeiras no andar.
E o vento a sussurrar:
Vai chegar vai chegar
o tempo de arrombar
essa porta fechada
dessa casa assombrada.
E a mulher a pensar:
É comigo é comigo
que ele está a falar.
Amanhã vou voltar
rente à casa passar
o meu ombro encostar
à ombreira da porta
baixinho perguntar:
Quem foi que te assombrou?
Quem foi que te fechou?
E a casa a responder:
Alguém que não gostou
da luz que em mim brilhou
e esta porta fechou
e sobre mim espalhou
este manto de sombra
e as mulheres afastou
e os homens afastou
e o medo semeou
e desde então ninguém
junto de mim passou
nem sequer reparou
que a luz não se apagou
e às vezes é luar
e às vezes nevoeiro
e às vezes é braseiro
a descair no mar.

A mulher despertou.
Não sabe se sonhou
mas pela casa passou
e a porta estava aberta
e lá dentro era dia
e o vento sussurrou:
Foste tu que passaste
contra o medo lutaste
e o teu ombro apoiaste
na ombreira da porta
que não mais se fechou.
Foste tu que mataste
a sombra que assombrou
a casa que voltou
a ser luz a ser guia.

E a casa sorria.
E a mulher sorria.

Licínia Quitério



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