20.2.21

IMAGINAÇÃO

 


Escusas de chamar por mim.

Hoje não estou para ninguém.

Podes gritar que eu não te oiço.

Faço de conta que fiquei surda de repente.

A campainha da porta não para de tocar

ou são os ecos de toques passados

que hoje se lembraram de soar.

Não vou abrir.

Mesmo que quisesse não podia.

Mudaram a fechadura e eu distraída deitei fora a chave.

Não atendo o telefone ou se atender digo

enganou-se no número aqui não mora ninguém.

Se tocares de novo eu desligo.

Se chamares da rua eu sei que não é comigo,

nunca tive aquele nome.

Dantes havia o quadro preto na parede.

A giz alguém escreveu a tua história, a minha.

Isso sou eu a imaginar uma história que ninguém escreveu,

num quadro preto que nunca foi pendurado

na parede que não havia.

Foi a imaginação que criou este dia

em que não estou para ninguém

como se alguém não parasse de chamar por mim.


Licínia Quitério

23.1.21

PERDIDOS



Que foi que nos aconteceu,
país de fado e saudade e poetas e visionários?
País de frases feitas, não há-de ser nada,
não há mal que sempre dure,
e tudo está a acontecer
e não se sabe como nem quando acabará.
"Pode haver quem te defenda
quem beije o teu chão sagrado
mas a tua vida não."
Perdidos no labirinto, estamos.
Como seremos depois do pó, das cinzas?
Um povo somos igual a outros mais,
mas a si mesmos desiguais.

Licínia Quitério

18.1.21

NÃO PASSARÃO

 


Daqui desta Lisboa à beira Tejo
Daqui deste silêncio feito pedra
Desta tristeza vil sem ter poetas
Daqui eu vejo o antes e o agora
E o depois em palco de neblina
E eu tremo e conto histórias
Que ninguém quer ouvir
Mas a voz que me guia não desiste
E solto imprecações e solto versos
Que outras armas não tenho
Senão a liberdade de gritar
De pé, meu pobre coração
Eles não passarão

Licínia Quitério

5.1.21

ABSURDO

 


Este sol absurdo
a incandescer telhados
e vidros das janelas
e nós absortos
perguntamos
quando será aberta a praia
aberto o mar
para podermos navegar
quando seremos mão da outra mão
pele da outra pele
e o sol absurdo brilha
e faz brilhar a onda
a escama
a fruta do inverno
e nós absortos
vamos enrouquecendo
sem o mel na voz
vamos esmorecendo
sem o sal na pele
e este sol absurdo
a iluminar a praia
e nós absortos
sem poder navegar

Licínia Quitério

1.1.21

LONGE

 


E o Mundo fez-se espanto

E o espanto fez-se medo

Montámos o cerco

Dentro dele gaiolas

Os pássaros entravam

E saíam

E nós no lugar deles

Espantados

Temerosos

Ignorantes

Esperávamos

No silêncio

Pensávamos distância

 

E o perto fez-se longe


Licínia Quitério

28.12.20

LADAINHA PARA O ANO NOVO



ele sabe do ano que está no fim
e do outro e do outro
que findaram muito antes
de ele aqui chegar
tem os pés cansados
de contar os metros
que tem a rua
que o tem a ele
que não tem mais nada para contar
a não ser a história
dos seus pés cansados
que nem sequer é uma história
apenas uma verdade
sobre uns pés
de atravessar os anos
de atravessar a vida
de atravessar a rua
que o tem a ele
que não sabe quantos metros ela tem

Licínia Quitério

22.12.20

A IDADE


De Verão calçava sabrinas vermelhas, de bailarina.
Os lábios pintados de vermelho, a condizer.
Estava bem, diziam, para a idade.
Ela sorria ao cumprimento e entristecia ao dobrar a esquina.
No Outono calçava botas altas, brancas.
Os lábios sempre vermelhos.
Continuava muito bem, para a idade.
Ela sorria ao cumprimento e entristecia ao dobrar a esquina.
No Inverno usava chapéu preto, de aba larga.
Os lábios sempre vermelhos.
Que bem estava para idade.
Deixou de sorrir ao cumprimento e de entristecer ao dobrar a esquina.
Na Primavera, era uma mulher sem idade.

Licínia Quitério

13.12.20

DEZEMBRO

 



Dezembro, mês de folhas afogadas nas bermas onde agora ninguém passa. Mês das romãs do nosso calendário com seus bagos de sangue à espera da explosão.
Dezembro de velhas estrelas nas hastes das corças para que aconteça um estrépito na noite.
Mês de florestas violadas nos últimos incêndios onde o verde é uma lenda do setentrião.
Em Dezembro fala-se da morte para que tudo renasça.
É o tempo para uma gargalhada a assombrar os gestos da cidade. Licínia Quitério

28.11.20

MÃOS

 


Nas minhas mãos nascem caminhos
por onde o sangue corre
a levar recados do coração.
Sei de borboletas que ali flutuam
porque o bater das asas se anuncia
no tremor da pele.
Digo borboletas
mas poderia dizer antigos sonhos
que não desistem de adejar.
Digo das mãos
para dizer trabalhos nunca acabados,
na orla das grandes tempestades,
à entrada dos túneis imensos
com uma sombra ao fundo.
Digo mãos
como se amor fosse
a mão a acenar a outra que passa,
branca e fugidia,
nas noites de lua nova.

Licínia Quitério

15.11.20

DESERTAS AS CIDADES


Desertas as cidades

quando todos faltaram

ao encontro com o medo

e a derrota

Nem a voz dos cães

nem o restolhar das folhas

Nada soa nas paredes das casas

Nem o respirar dos velhos

nem a risada dos novos

Cidades prisioneiras

de gente prisioneira

do silêncio novo

encomendado e servido

em bandejas de cobre

oxidadas de verdete e malícia

Cidades programando a ruína

desprezando a gente e os seus lamentos

alimentando a lassidão ou o desespero

a raiva ou a desistência

num bailado incoerente

estúpido e silencioso

Não há traço de morte nas cidades desertas

Vivem o seu prelúdio da loucura


Licínia Quitério

1.11.20

MARÉ

 



não posso escrever sobre o sal

como se fosse areia
uma rocha é uma rocha e não posso
esmagá-la com os dedos desta mão
não posso escrever medo
com as letras todas do amor
no tempo do impossível
tudo é o contrário de si mesmo
e a minha vontade pouco conta
contra o muro invisível
da tormenta
tudo muda e tudo permanece
entre o longe e o perto
apagou-se a distância
não posso escrever porque não sei
o inacessível alfabeto
da silenciosa impiedosa maré

Licínia Quitério

1.10.20

POEMA MILITANTE





Hoje não me peças
Arengas em poemas
Sobre elevados temas
Como ser ou não ser
Ou o imenso mistério
De transportar o cosmos
Inexoravelmente
Desde os ventres bojudos
Das nossas ricas mães
Que sobre metafísica
Nunca ousaram falar
Muito provavelmente
De Einstein ou de Freud
Que passaram de moda
Ou do eterno retorno
Que é bonito citar

Hoje estou mal disposta
Aconteceu
Que me doeu um continente inteiro
E mais outro e mais meio
Fiquei agoniada porque vi
A mulher a carpir
O destino do filho
A explodir na bomba
A implodir na fome
A deslizar na rua
Da terra que é a sua
Mas onde é acossado
Tal como um cão danado
Por querer roubar o anel
A carteira a pulseira
O relógio o que houver
Que lhe dê o refúgio
Que nunca irá ter

Hoje estou irritada
com o mundo
Comigo
Que já ousei falar
De coisas transcendentes
De discutir problemas
Pequenos indecentes
Sem nada me doer
Ou então sem perceber
Que a pedra no sapato
A picar a moer
Era um aviso sério
De que algures no planeta
Há milhares de milhões
Que não têm sequer
Direito de dizer
Porque a fala acabou
E o país cujo nome
Eu na escola aprendi
Já não tem capital
Nem cidades nem casas
Só tem gente indigente
Deportada e sem asas

O meu poema hoje
Tem de ser militante
E dizer claramente
Poeta
Põe de lado a emoção
O que é mesmo importante
é o preço do pão

Licínia Quitério, 2004

25.9.20


 

21.9.20

VERÃO

 Anda por aí, de porta em porta, em despedidas.

Não é como o pai natal.

No saco não traz presentes

mas ameaças.

Diz, envolto num pano de vento:

Portem-se bem,

não abram os armários da ternura,

esqueçam tudo o que aprenderam sobre o amor.

Se assim fizerem,

voltarei para o ano a visitar

as vossas cidades de gelo.

Há quem lhe chame o medo.

É apenas um Verão

que aprendeu a mentir.

 

 Licínia Quitério


5.9.20

HAVEMOS DE VOLTAR


 Havemos de voltar deste degredo

com a bagagem que guardámos

a salvo da inclemência e da usura.

A nossa pele terá envelhecido

esquecida do calor do outro corpo.

Proibida a volúpia

as nossas mãos serão maiores 

porque espalmadas longo tempo

nas coxas, nas mesas,

nos vidros das janelas.

Na aprendizagem das fronteiras

soletrámos medo com as letras

que dantes nos diziam amor

ou ousadia.

Havemos de voltar da guerra

sem saber para que servem

os braços ou os lábios

a não ser para  funções de sobrevida.

Por muito tempo havemos de temer

o irmão, a mãe, o filho,

todos capazes de nos matar

com a arma invisível 

que o seu sangue transporta.

Voltaremos do palácio da demência

à casa donde nunca saimos

e nada contaremos da viagem.


Licínia Quitério

18.8.20

O POEMA

Palavras chegam, limpas, arrumadas,

segundo a ordem natural da fala.

Estranho despertar, com o poema

oferecido, desnudo, cruel, maravilhoso.

Obscuro o poder das palavras na pele

que de lágrimas se faz quanto de força.

Agradeço e aceito e amaldiçoo o poema.

Com ele vou pelos caminhos do dia,

a desbravar o tédio e os silvados.

Licínia Quitério

4.8.20

A VOZ DO VENTO


15.7.20

O FIO


Não fosse este fio que nos amarra
às paredes da casa, à soleira da porta,
havíamos de sair sem cuidados,
sem disfarces,
sem receio de tocarmos os lugares proibidos,
os rostos proibidos.
É o fio mais forte que nos aconteceu.
Invisível, impalpável,
é ele que nos comanda.
Do fio não sabemos origem nem destino.
Toda a estratégia falha com um inimigo assim,
fora de todas as regras, 
fora de todos os jogos
de guerra e paz com que vivemos.
É o fio que nos ata ao medo 
e nos desata os velhos laços.
Agora não sabemos como reaprender 
o gosto das coisas naturais 
que matam a sede, a fome, 
alimentam o amor.

Dorido caminhar sobre o vazio
até que o fio se rompa.

Licínia Quitério

27.6.20

OS LUGARES DA NOITE

Os lugares da noite escrevem histórias

proibidas aos mortais.

Se a chuva os toma

abrem as portas do choro,

deixam correr rios ignorantes

de margens e barcaças.

Na devassa dos ventos

tecem intrigas e lançam pedras,

sustos, gritos, às vidraças.

Às vezes  acendem luminárias

e são olhos de feras,

candeias caminhantes,

fogos-fátuos.

A lua nova aguarda

o seu parto de luz

para ensinar aos homens

os lugares da noite

e as provisórias trevas.


Licínia Quitério

12.6.20

LUGARES




Lugares concêntricos, profundos, uterinos,
de céus abertos
ao Sol e à Cassiopeia.
Apetecidos, distantes, únicos,
oferecidos ao guloso melro,
à fértil mariposa.
Lugares de iniciação de caminheiros
sem regresso.

Licínia Quitério

10.6.20

SILÊNCIO


Quero dizer silêncio como antes se dizia vestido de branco denso quase a doer silêncio que não rejeitava a pulsação nas veias uma cadência de sino a ensaiar o toque o silêncio da fala da minha mãe só olhar só sorrir muito antes das palavras o silêncio do amor religioso breve para depois ser lágrima explosão  Perdi o rasto do silêncio o meu desejo dele é agora uma maneira de dizer uma marca num livro um nome antigo duas linhas paralelas no palco da memória  Licínia Quitério




Quero dizer silêncio
como antes se dizia
vestido de branco
denso
quase a doer

silêncio que não rejeitava
a pulsação nas veias
uma cadência
de sino a ensaiar o toque

o silêncio da fala da minha mãe
só olhar
só sorrir
muito antes das palavras

o silêncio do amor
religioso
breve
para depois ser lágrima
explosão

Perdi o rasto do silêncio

o meu desejo dele
é agora uma maneira de dizer
uma marca num livro
um nome antigo
duas linhas paralelas
no palco da memória

Licínia Quitério

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