29.6.22

XADREZ


Todo o mundo procurando

posição no tabuleiro.

Casa branca, casa preta,

qual das torres cai primeiro,

quantos cavalos se contam,

quem vem lá enviesado

que não deixa ver a cor.

Os infantes devorados,

alta dama vai cair.

Frente a frente,

casa branca casa negra,

senhor negro senhor branco,

e o tabuleiro a estalar,

a ruir, a regressar

à árvore de que foi feito.  

Xeque mate, xeque mate.


Licínia Quitério

26.6.22

A MAÇÃ


Entre nascer e morrer
Há sempre um fruto a amadurecer
Para poder entrar
Saboroso e fresco
Nas páginas de um livro
Que pode ser de versos
Ou de contos que se contam
Como se fossem poemas
Também eles sumarentos
Com a pele a estalar
Uma história a brotar
A procurar ser larva
Ser casulo e nele se guardar
Até ser borboleta ou então ficar
Aninhada recolhida
Silenciosa a pensar no tempo
Em que já foi maçã e já foi livro
E já foi tudo o que se possa imaginar
Que do nascer ao morrer
Muitas árvores chegam
Muitas árvores ardem
Muitas estrelas nascem Licínia Quitério

14.6.22

CHEGAM AS ROSAS



Nos sonhos da manhã
outros sonhos navegam.
Em confusão, por vezes.
Por vezes, limpidez.
Leve o desejo de ficar
por mais um tempo
ou para sempre
na morna fantasia
entre a recta e a curva
entre o sol e a sombra.
Livres do nevoeiro
nos sonhos da manhã
chegam as rosas.

Licínia Quitério

7.6.22

O UNIVERSO

Na minha mão o universo.

Sei que ele começa na semente que lancei à terra.

Expande-se o universo.

Só precisa de água para se fazer verde, aquele verde a que chamamos azul.

Na pele do universo nascem estrelas, planetas, que a minha mão afaga como se afaga o infinito.

Comovem-me a rosa, o tomate, quando me mostram a Lua, a Estrela Polar.

Um dia a minha mão perder-se-á.

O universo continuará para outras mãos onde ele sempre recomeça.


Licínia Quitério


4.6.22

VAGUEAVA

 

Vagueava pelo doirado da praia, as sandálias na mão, a baloiçar.
Afagava maternalmente um cão que corria ao seu encontro.
Baixava-se e apanhava conchas.
Devolvia-as ao mar e a boca soprava um beijo.
Acenava às gaivotas com braços de lenços brancos. Sempre sorria quando olhava o céu.
Deixava um rasto de pena nas areias.
Bailava em torno de uma pedra baça e nela acendia brilhos de fogueira.
Pisava rendas de espuma e uma poalha de estrelas salpicava-lhe a leveza da saia.
Dela não sei a cor dos olhos, dos cabelos.
Podiam mesmo não ter cor, como se diz da água.
Há quanto tempo a não vejo.
Vou perguntar ao mar se ma levou.

Licínia Quitério, 2006

30.5.22

FANTASIA


Sim
também pertenço a esta claridade matinal
suaves cortinados frescas névoas
macia a cal na fímbria dos telhados
restos de noite a deslizar nas ruas
mornas as vozes
esperança de sol na humidade das ervas
vagas promessas de árvores futuras
Manhã
se te pertenço traz-me o dia
farei dele o meu rosto
o meu vestido branco
a flor do meu papel de fantasia Licínia Quitério




11.5.22

OS OBJECTOS

 os objectos

uma vida duas vidas muitas vidas

revividos recompostos resistentes

inertes

atentos persistentes permanentes

viajantes

de parede em parede

de chão em chão

de casa em casa

provocadores

espreitadores

sabedores

guardadores

de amores de segredos de degredos

de histórias tantas quantas 

os anos as casas

as tempestades as danças

descoloridos deformados

estalados esventrados

os objectos são

a aragem

o anúncio da passagem


Licínia Quitério

14.4.22

NOVO LIVRO



Este meu novo livro será apresentado no próximo dia 23, pelas 16 horas, na


Casa de Cultura D. Pedro V

Rua José Elias Garcia, 72

MAFRA

Ali terei o prazer de vos receber para uma conversa amena com poetas e poemas.

Licínia Quitério
 

29.3.22

PALAVRAS NOVAS

 

Precisamos de palavras novas

limpas de violência e de perjúrio

Palavras breves libertas da rouquidão

encharcadas de sol e de abundância

Estamos cansados de palavras velhas

carregadas de pólvora e de botox

a pesarem na surdez dos rebanhos

Havemos de fazer a festa das palavras

se elas enfim chegarem e contarem

com que sílabas calaram

a infame ladainha dos guerreiros

sobre as ruínas metodicamente construídas


Licínia Quitério

26.3.22

A GUERRA

 

Nasceu da raiva dos vulcões

da inclemência da tempestade

da secura das florestas

a guerra

alimentou-se do leite azedo das mães

do sangue arrefecido dos soldados

da desmesura dos imperadores

a guerra

cresceu para ser dona das casas

das ruas das cidades dos países

para secar os rios

para queimar os corpos

para rasgar os mapas

para apagar os nomes

a guerra

ergueu altares ao ódio

à doença à fome

à morte de inocentes

a guerra

declarou-se invencível

universal eterna

obedecida e venerada

a guerra

esqueceu-se do amor

e definhou

a guerra


Licínia Quitério

22.12.21

O MEDO

 O medo atravessou fronteiras.

Veio até nós circular corrupto.

Confiámos na nossa capa de certezas.

Dissemos vai aqui não está ninguém.

Por resposta um riso de esporas afiadas.  

Vive na casa dos medos milenares.

Mutante senhor do mundo que mudou.

E nós com ele a tactear veredas e poemas.




Licínia Quitério

21.12.21

MAR


 


10.12.21

QUASE

 Um pássaro deixou tombar um fruto

ou o vento embalou uma semente,

um quase nada.

Vi da terra sair um gomo verde,

ainda quase nada.

Percebi tua vontade de crescer

e dei-te terra, água.

Mostraste flores singelas,

quase nada.

Os grãos de pólen convocaram as abelhas.

Os frutos vieram minúsculos,

quase nada.

A vida nos juntou e foste

a minha árvore sem nome,

quase tudo.


Licínia Quitério


22.11.21

A CONSTRUÇÃO

A gente constrói.

A gente constrói-se.

A gente reconstrói.

A gente reconstrói-se.

Nas fundações da construção, os braços da ruína.

A gente teima.

A gente diz que este não é o tempo da ruína.

Constrói, reconstrói.

A gente ilude o tamanho do tempo.

Constrói, reconstrói.

Constrói, reconstrói.


Licínia Quitério

11.11.21

OS MALDITOS

 Caminham sempre até os pés se gastarem, até se perderem dos filhos, das mães.

Já esqueceram palavras que digam casa, água, riso.
Aprenderam fome, tortura, ódio que foi tudo o que lhes deram para a viagem.
Caminham sempre, sobre o gelo, sobre a areia, sobre o fogo, até os pés se gastarem.
Vão em direcção à terra prometida pelos deuses que lhes disseram do leite e do mel.
Sacrificaram os animais, as mulheres, as crianças, para aplacarem a ira dos cobradores de impostos.
Se for preciso atravessam os rios ou adormecem na correnteza e por lá ficam iguais aos peixes seus irmãos.
Caminham até ao mar azul que não se abre para os deixar passar.
Confiam nos barqueiros, dão a moeda, a última, o salvo-conduto para a terra do esquecimento.
Os que não pagaram continuarão a caminhar até avistarem o império e os seus muros.
São da Terra dos deuses que não pagam promessas.
Dali não passarão, os malditos.

Licínia Quitério
Foto da net

8.10.21

A ESTRADA

 Na estrada longa, o nosso carro de sol e chuva  

segue a viagem de conhecer, esquecer.  

Passageiros sobem, passageiros descem.

Sinuosidades encobrem as margens

e apagam quem nelas caminhou e se perdeu.

Indelével, a memória dos vivos e dos mortos.

Revelados são os nomes dos passageiros

que continuam no carro, invisíveis,

testemunhas da inacabada solidão.

Todos os caminhos vão dar a Roma, dizia-se

quando o mundo era o tamanho da cidade.

 Neste tempo sabemos que todos os caminhos

 vão dar a uma cidade de nome Vida  e o seu contrário.



 Licínia Quitério

7.10.21

MADRUGADA

 Acordou cedo e saiu para a sua tarefa

de saber a madrugada.

A neblina esbatia os contornos das casas, das árvores,

das coisas que os humanos penduram

nos fios tensos de amarrar os dias.

Fitou o lugar donde lhe vem o medo e deteve-se,

musculada e avolumada.

Só o recorte das narinas fremia,

ao ritmo do coração.

É um ser animado,

no seu primeiro cuidado de defender a vida.

Escolheu-me para habitar com ela,

para viver como ela,

para ser ela, se quiser. 

Sendo ela, espero aprender a prezar as madrugadas.




Licínia Quitério

6.10.21

APRENDIZAGEM

 A aprender o silêncio, o murmúrio,

a fala, o grito,

a voz e a sua negação.

Tudo.

Na minha aprendizagem, a ajuda  

do pequeno visitante de corpo alado,

de penas cinzentas,

a espiar-me por entre a folhagem do salgueiro.

Sem nome, o meu espreitador,

que nome também não tem

a minha invenção

da liberdade.

Não se demora na lição do dia.

Parte desenhando no azul

a sua escolha do silêncio,

da vastidão.

A procurar  merecer o seu ensinamento.


Licínia Quitério

5.10.21

CLARO-ESCURO


 De luz e sombra cobrem-se  os dias dos homens.

Porque não têm memória de outras estrelas

afincam-se a guardar a luz do sol

nos olhos, nas mãos, no coração.

Na noite escura, quando o frio e o medo

assomam ao rés do corpo,

dizem baixinho,

meu amor minha luz,

e acende-se um raio de futuro.

No dia claro, alimentam-se de lembrança

de outras luzes

e dizem a meia voz,

meu amor meu natal.

Assim sempre, a vida clara, a vida escura.


Licínia Quitério

2.10.21

O PRINCÍPIO

 Nas manhãs de sábado podem acontecer

vulcões por dentro do silêncio.

O nosso corpo-corpo e o nosso corpo-Terra 

a construírem cenários do princípio.

Fixamo-nos no tempo

em que tudo se preparava para nos receber,

a casa já firme, o máximo e o ínfimo  ao nosso dispor.

Ainda os deuses não tinham nascido,

ainda o medo não se mostrava.

Ainda o corpo-corpo e o corpo-Terra

não se tinham separado,

a lava ainda não tinha arrefecido,

mas as lutas da água e do fogo

eram já o anúncio do eterno jogo

entre o princípio e o fim.

Os deuses aguardam que os inventem

quando o medo rugir no corpo-Terra.


Licínia Quitério


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