28.5.26
AS VELAS
partilhado por
Licínia Quitério
às
10:20:00 a.m.
0
comentários
24.5.26
A ROMÃ
esquecida a seda do vestido
eu seja bago e outro e outro
e seja festa
na mesa do inverno
Licínia Quitério
partilhado por
Licínia Quitério
às
9:28:00 a.m.
0
comentários
24.1.26
A NEVE
Se eu caminhasse sobre os campos de neve e olhasse para trás, perceberia um rasto verde de agulhas e um cheiro morno de incenso no altar da distância.
Havia de sentir uma dor provisória, amortecida, guardadora dos casulos da memória, uma garra cravada na garganta do inverno.
Chegada a hora de afastar um sonho enroscado no pulso, pegaria na espuma e nas sombras para as depor na paisagem com a leveza que as aves ensinam.
Licínia Quitério
partilhado por
Licínia Quitério
às
12:07:00 p.m.
0
comentários
20.12.25
AS VELAS
A água desistiu dos cântaros.
No novelo dos dias por contar
os caminhantes da fortuna
tecem mantas
de aconchego e perdição.
As velas ardem a alumiar a estrada.
partilhado por
Licínia Quitério
às
9:41:00 a.m.
0
comentários
18.12.25
O LUGAR
partilhado por
Licínia Quitério
às
10:14:00 a.m.
2
comentários
7.12.25
NATAL
De que serve um poema
se não for também sangue também ferida
se não disser da esperança assassinada
da negra solidão dos precipícios
Que poema desgraçado será
o que disser amor e não souber
o seu odor a mar o seu toque
que do cardo faz cetim
Um poema tem de crescer por dentro dos escombros
a salvar as crianças soterradas
Se não souber de guerras cale-se o poema
Se não souber de paz também se cale
Um poema indiferente
que não souber dizer senhora liberdade
não servirá de estrada não voará
mesmo que diga ave da madrugada
Os homens precisam de poemas
que digam carne e soluço
desfaçam vendas e amarras
abracem os nascidos e os que vão nascer
Poemas haja de vida e morte
que digam princípio e fim
por isso o caos e a ordem
por isso a sorte e a contradita
Um poema virá do novo tempo
a desfazer a tempestade
com a força das sílabas sonoras
a anunciar o reabrir da claridade
Licínia Quitério, na antologia "Numa rua completamente às escuras movem-se estes versos"
partilhado por
Licínia Quitério
às
4:46:00 p.m.
0
comentários
17.11.25
A FRONTEIRA
quero passar a fronteira
trago comigo
fechado neste saco
o pouco que aprendi
na mala a abarrotar
a teimosia de viver
mais nada a declarar
a não ser
senhor agente
este frasco a cheirar
às mãos da minha mãe
em afago permanente
senhor agente
vou dizer-lhe um segredo
uma fronteira é um traço
num mapa
é só passar um dedo e apagar
não conte a mais ninguém
e deixe-me passar
partilhado por
Licínia Quitério
às
1:21:00 p.m.
0
comentários
12.11.25
A TEMPESTADE
Vai passar vai passar a tempestade
Escuta o discurso do vento
Recolhe a folha seca
Com um recado inscrito
Podes não ter aprendido
A linguagem das nervuras
Mas elas conhecem
O desenho da tua mão
A voz do vento dir-te-á
Um nome que esqueceste
Numa conversa de outro tempo
A chuva canta no parapeito
Um cânone de outras paragens
A tempestade vem e vai e voltará
Tu continuarás sem entender
A impermanência dos dias da bonança
Licínia Quitério
partilhado por
Licínia Quitério
às
10:44:00 a.m.
0
comentários
9.11.25
AS CASAS DA GUERRA
Licínia Quitério
partilhado por
Licínia Quitério
às
3:14:00 p.m.
0
comentários
28.10.25
FALAR DE MIM
Podes ficar tranquilo.
O temporal passou.
O telhado furou
e a chuva pingou
sobre a dor do meu ombro.
O pouco que dormi
foi sempre em faz de conta,
não fosse a ventania
levantar o colchão
onde se escondia
das mágoas o cordão.
A parede rachou,
mas foi bom porque eu pude
ver um céu que foi meu,
em forma de crescente.
Recusei aceitar a hora do poente
e fiz bem, porque assim
nunca tive o punhal
do dia no final
a remexer a ferida
a esfacelar a pomba,
guardada no meu peito.
Depois, foi só esperar
que o temporal se fosse,
já farto de afrontar-me
da pele até ao osso.
Podes ficar tranquilo.
O temporal já foi.
Eu sei que outros virão,
em formas de tufão,
de lágrimas, cansaços,
mas eu aperto os braços
e seguro os pedaços
que sobraram de mim.
Semicerrando os olhos,
liberto a dor dos ombros.
Compro um colchão de espuma
de sabão, do melhor.
Depois lá vou soprando
enquanto tiver força
e as bolas vão subindo,
de mil cores tingindo
o fio dos meus cabelos.
Podes ficar tranquilo.
Mais nenhum temporal
me pode causar mal.
Uma coisa te peço:
se souberes que morri,
se entenderes que mereço,
embrulha com cuidado,
num pano de brocado,
meus desejos de corça
que um dia galopou
e na praia, ao nascente,
agita-o com firmeza
até teres a certeza
de que nada lá dentro
escondido ficou.
Licínia Quitério
Inédito - Outubro de 2004
partilhado por
Licínia Quitério
às
11:37:00 a.m.
0
comentários
24.10.25
TEIA
A aranha tece a teia
No seu labor de carcereiro
A mosca toca os fios
Da frágil fortaleza
Aprende a imobilidade
Não percebeu a sedução
Da irradiante geometria
A aranha guarda o visco
Que nos ata nos mata
Somos apenas moscas
Licínia Quitério
partilhado por
Licínia Quitério
às
1:33:00 p.m.
0
comentários
22.10.25
ESTREMECE
Estremece, a casa velha.
Vai soltando pedras.
Nem o musgo as sustem.
Outro o desenho da cal.
Fissuras vão abrindo
A porta ao esquecimento.
Na hora de tombar
Cumpre-se, a casa velha.
Licínia Quitério
partilhado por
Licínia Quitério
às
10:31:00 a.m.
2
comentários
25.9.25
A VASSOURA
A vassoura, com sua haste altiva,
varria, que para isso vassoura foi criada.
Empunhada a preceito, que tudo tem de ter sua mestria,
varria o pó acumulado nas dobras dos degraus.
Cuidados de enfermeira, digamos maternais,
pouco usuais em tempos imperfeitos.
Quem dera ser degrau que alguém subisse
e fosse acumulando sombras pelos cantos.
Vassoura chegaria, que mesmo para ela tempo há,
e varreria, eficaz, por vezes a roçar uma carícia,
os restos que até lá fossem parar
para que degrau de pedra pessoa se sentisse.
Licínia Quitério
Mafra, Dezembro de 2005
partilhado por
Licínia Quitério
às
12:15:00 p.m.
0
comentários
24.9.25
VÍCIO
Tenho o vício dos teus olhos
das tuas mãos em tremura
da tua boca de seda
escaldante como o carvão
na minha lareira acesa.
Da tua voz registada
no meu ouvido profundo.
Tenho o vício de te ver
em memórias de veludo
nas sementes espalhadas
pelas flores que não cuidei.
Tenho o vício de sentir
as dores que não rejeitei.
Tenho o vício de cheirar
campos que não cultivei.
Tenho o vício de voltar
a caminhos que não pisei.
Tenho o vício de me rir
do choro que já chorei
e o vício da solidão
que me envolva de lembranças
das andanças que vivi.
Tenho o vício de escutar
segredos que me contaram
e aqueles que não contei.
Mais do que toda a virtude
é água pura a correr
o vício de te querer
sabendo que te não quero.
Licínia Quitério, 2006
partilhado por
Licínia Quitério
às
1:00:00 p.m.
0
comentários
23.9.25
AS MÃOS
Para além de nós ficam as mãos.
Com elas percebemos e palpamos
e moldamos o ar que respiramos.
As carícias, mesmo as que não demos,
fazem das mãos a nossa eterna idade,
a nossa infância a tactear o mundo.
Com elas nos prendemos ou soltamos
e falamos mais fundo do que as vozes.
São as mãos que nos marcam a presença.
Talvez não mãos, mas asas ansiosas
sempre à espera do voo nas alturas.
Há belas mãos, inteiras, tão galantes,
mãos de príncipe a desbravar silvados,
sem se doerem inda que o sangue aflore.
Pelas mãos nos perdemos e achamos.
Onde elas chegam chega o nosso amor.
Licínia Quitério, 2005
partilhado por
Licínia Quitério
às
9:22:00 a.m.
0
comentários
22.9.25
VIDA
partilhado por
Licínia Quitério
às
4:45:00 p.m.
0
comentários
AJUDA
Alguém pediu ajuda.
Ou foi o murmurar da água do ribeiro?
Ou o rumorejar das hastes do salgueiro?
Ou o cão a pisar folhas mortas de Outono?
É um choro de criança ao abandono?
É o lamento de um pobre esfomeado?
É a raiva do peixe picado pelo anzol?
É mulher a parir desamparada?
É um andar peregrino?
Uma onda de mar que se perdeu do sal?
Um pássaro do norte que se perdeu ao sul?
Um abraço sem força que se perdeu do amor?
Uma palavra solta que perdeu o sentido?
Uma saudade do amigo distante?
Uma dor sem remédio?
Uma flor despedida pelo vento do jardim?
Um sorriso sem rosto onde possa habitar?
Uma voz desgarrada sem saber ecoar?
Alguém pediu ajuda.
Ou foi no meu ouvido o sangue a latejar?
Melhor partir, dormir ou fingir ignorar.
Licínia Quitério
Mafra, Fevereiro de 2006
partilhado por
Licínia Quitério
às
4:38:00 p.m.
0
comentários
29.8.25
O MAR
o mar embraveceu alevantou-se
partilhado por
Licínia Quitério
às
9:48:00 a.m.
0
comentários
25.8.25
UMA LEMBRANÇA
da agonia das nuvens grávidas de céu
do rolar do medo no olhar dos pombos
da gente nos terraços respirando a tarde
Mas prefiro dizer
da luz duma lembrança
que o mundo clareou como se a madrugada
na fundura do dia aprisionada
por mim se libertasse esquecida de morrer
partilhado por
Licínia Quitério
às
1:06:00 p.m.
0
comentários
arquivo
-
►
2025
(37)
- dez. 2025 (3)
- nov. 2025 (3)
- out. 2025 (3)
- set. 2025 (5)
- ago. 2025 (4)
- jul. 2025 (1)
- mai. 2025 (4)
- abr. 2025 (2)
- mar. 2025 (5)
- fev. 2025 (3)
- jan. 2025 (4)
-
►
2024
(40)
- dez. 2024 (1)
- nov. 2024 (2)
- out. 2024 (4)
- set. 2024 (3)
- ago. 2024 (7)
- jul. 2024 (4)
- jun. 2024 (5)
- mai. 2024 (4)
- abr. 2024 (1)
- fev. 2024 (5)
- jan. 2024 (4)
-
►
2023
(9)
- out. 2023 (1)
- set. 2023 (1)
- jul. 2023 (1)
- abr. 2023 (1)
- mar. 2023 (3)
- fev. 2023 (1)
- jan. 2023 (1)
-
►
2022
(18)
- out. 2022 (3)
- set. 2022 (2)
- jul. 2022 (3)
- jun. 2022 (5)
- mai. 2022 (2)
- abr. 2022 (1)
- mar. 2022 (2)
-
►
2021
(29)
- dez. 2021 (3)
- nov. 2021 (2)
- out. 2021 (5)
- set. 2021 (9)
- ago. 2021 (5)
- fev. 2021 (1)
- jan. 2021 (4)
-
►
2020
(31)
- dez. 2020 (3)
- nov. 2020 (3)
- out. 2020 (1)
- set. 2020 (3)
- ago. 2020 (2)
- jul. 2020 (1)
- jun. 2020 (4)
- mai. 2020 (2)
- abr. 2020 (3)
- mar. 2020 (1)
- fev. 2020 (5)
- jan. 2020 (3)
-
►
2019
(26)
- dez. 2019 (3)
- nov. 2019 (3)
- out. 2019 (3)
- set. 2019 (3)
- ago. 2019 (2)
- jul. 2019 (3)
- jun. 2019 (1)
- abr. 2019 (2)
- mar. 2019 (3)
- fev. 2019 (1)
- jan. 2019 (2)
-
►
2018
(41)
- dez. 2018 (4)
- nov. 2018 (3)
- set. 2018 (3)
- ago. 2018 (1)
- jul. 2018 (4)
- jun. 2018 (7)
- mai. 2018 (3)
- abr. 2018 (4)
- mar. 2018 (2)
- fev. 2018 (4)
- jan. 2018 (6)
-
►
2017
(56)
- dez. 2017 (5)
- nov. 2017 (3)
- out. 2017 (3)
- set. 2017 (4)
- ago. 2017 (5)
- jul. 2017 (5)
- jun. 2017 (3)
- mai. 2017 (6)
- abr. 2017 (5)
- mar. 2017 (4)
- fev. 2017 (4)
- jan. 2017 (9)
-
►
2016
(46)
- dez. 2016 (7)
- nov. 2016 (7)
- out. 2016 (4)
- set. 2016 (4)
- ago. 2016 (1)
- jul. 2016 (4)
- jun. 2016 (5)
- mai. 2016 (6)
- abr. 2016 (1)
- mar. 2016 (1)
- fev. 2016 (2)
- jan. 2016 (4)
-
►
2015
(50)
- dez. 2015 (5)
- nov. 2015 (2)
- out. 2015 (3)
- set. 2015 (4)
- ago. 2015 (5)
- jul. 2015 (5)
- jun. 2015 (5)
- mai. 2015 (4)
- abr. 2015 (7)
- mar. 2015 (6)
- fev. 2015 (2)
- jan. 2015 (2)
-
►
2014
(60)
- dez. 2014 (4)
- nov. 2014 (5)
- out. 2014 (4)
- set. 2014 (4)
- ago. 2014 (5)
- jul. 2014 (6)
- jun. 2014 (5)
- mai. 2014 (7)
- abr. 2014 (3)
- mar. 2014 (7)
- fev. 2014 (4)
- jan. 2014 (6)
-
►
2013
(48)
- dez. 2013 (5)
- nov. 2013 (3)
- out. 2013 (5)
- set. 2013 (5)
- ago. 2013 (7)
- jul. 2013 (4)
- jun. 2013 (5)
- mai. 2013 (3)
- abr. 2013 (1)
- mar. 2013 (3)
- fev. 2013 (3)
- jan. 2013 (4)
-
►
2012
(52)
- dez. 2012 (4)
- nov. 2012 (4)
- out. 2012 (6)
- set. 2012 (2)
- ago. 2012 (4)
- jul. 2012 (6)
- jun. 2012 (4)
- mai. 2012 (4)
- abr. 2012 (4)
- mar. 2012 (4)
- fev. 2012 (5)
- jan. 2012 (5)
-
►
2011
(60)
- dez. 2011 (5)
- nov. 2011 (3)
- out. 2011 (6)
- set. 2011 (6)
- ago. 2011 (6)
- jul. 2011 (3)
- jun. 2011 (5)
- mai. 2011 (7)
- abr. 2011 (4)
- mar. 2011 (8)
- fev. 2011 (3)
- jan. 2011 (4)
-
►
2010
(54)
- dez. 2010 (4)
- nov. 2010 (3)
- out. 2010 (5)
- set. 2010 (5)
- ago. 2010 (5)
- jul. 2010 (3)
- jun. 2010 (9)
- mai. 2010 (4)
- abr. 2010 (5)
- mar. 2010 (3)
- fev. 2010 (4)
- jan. 2010 (4)
-
►
2009
(54)
- dez. 2009 (3)
- nov. 2009 (3)
- out. 2009 (3)
- set. 2009 (5)
- ago. 2009 (4)
- jul. 2009 (7)
- jun. 2009 (4)
- mai. 2009 (5)
- abr. 2009 (3)
- mar. 2009 (6)
- fev. 2009 (5)
- jan. 2009 (6)
-
►
2008
(55)
- dez. 2008 (6)
- nov. 2008 (5)
- out. 2008 (5)
- set. 2008 (4)
- ago. 2008 (4)
- jul. 2008 (4)
- jun. 2008 (5)
- mai. 2008 (5)
- abr. 2008 (5)
- mar. 2008 (4)
- fev. 2008 (4)
- jan. 2008 (4)

