21.7.26

O CHÁ

 Na sala há aromas de chá

a espuma a coroar a taça

o sol nas paredes da tarde. 

É a hora dos relógios

da areia da água

das árvores sobrantes

dos véus da cor do chá

do arremedo das danças

dos medos das preces

do calor dos corpos

do calor do chá

do ardor da memória

da febre dos animais

do tremor da grande pedra

do odor do sangue. 

Na taça o chá esfriou.´


Licínia Quitério



 

20.7.26

DAR

 O verbo dar no seu modo reflexo 

tudo inverte tudo torna e transtorna

e pode destruir o sujeito que dá

porque de tanto querer acrescentar

se encurtou diminuiu.

 

O verbo lá ficou no seu modo infinito

a pairar a esperar a mão que colhe

o coração que aperta.

A rua está deserta e o verbo não conjuga

por se ter enganado no pronome sujeito.


Licínia Quitério

 

9.6.26

A DECADÊNCIA

 A decadência veloz duma era, o anúncio da mudança, a relatividade do mal, a pressa e o temor de conhecer o acto final.

Travestidos os bruxos, as sibilas, indecifráveis os oráculos.

Tempo de fogo e enxurrada a adubarem a pobreza infinitamente crescente.

A natureza e os humanos em competição, no sofrimento, na mortandade.

Nem os poetas, nem eles, se apercebem das vozes nos seus pátios interiores.


Licínia Quitério


28.5.26

AS VELAS

Atravessam as horas e os anos
os caminhantes da fortuna
Longos os dias de tédio
sem anúncios de horizonte
A névoa não morreu de madrugada
A água desistiu dos cântaros
No novelo dos anos por contar
os caminhantes tecem mantas
de aconchego e perdição
As velas ardem a alumiar a estrada

Licínia Quitério

24.5.26

A ROMÃ

quem sabe um dia

esquecida a seda do vestido

eu seja bago e outro e outro

e seja festa

na mesa do inverno


Licínia Quitério

 

24.1.26

A NEVE

 Se eu caminhasse sobre os campos de neve e olhasse para trás, perceberia um rasto verde de agulhas e um cheiro morno de incenso no altar da distância.

Havia de sentir uma dor provisória, amortecida, guardadora dos casulos da memória, uma garra cravada na garganta do inverno.

Chegada a hora de afastar um sonho enroscado no pulso, pegaria na espuma e nas sombras para as depor na paisagem com a leveza que as aves ensinam.

 Licínia Quitério


20.12.25

AS VELAS


Longos os anos
breve o anúncio de horizonte.
A água desistiu dos cântaros.
No novelo dos dias por contar
os caminhantes da fortuna
tecem mantas
de aconchego e perdição.
As velas ardem a alumiar a estrada.

Licínia Quitério

18.12.25

O LUGAR


Lugar com pele por inteiro
Não importa quando foi por que foi
Estivemos respiramos
Sentimos a aragem
Qualquer coisa de animal
Qualquer coisa de amante
O lugar possuiu-nos
Não não nos prendeu
Não pediu licença
Fez-se ao caminho
Sua pele nossa pele
Connosco veio e ficou
Para que dele falemos
No passado presente
Como de amor falamos
Eu fui eu tive
O lugar que sou
Licínia Quitério

7.12.25

NATAL

 De que serve um poema

se não for também sangue também ferida

se não disser da esperança assassinada

da negra solidão dos precipícios

 

Que poema desgraçado será

o que disser amor e não souber

o seu odor a mar o seu toque

que do cardo faz cetim

 

Um poema tem de crescer por dentro dos escombros

a salvar as crianças soterradas

Se não souber de guerras cale-se o poema

Se não souber de paz também se cale

 

Um poema indiferente

que não souber dizer senhora liberdade

não servirá de estrada não voará

mesmo que diga ave da madrugada

 

Os homens precisam de poemas

que digam carne e soluço

desfaçam vendas e amarras

abracem os nascidos e os que vão nascer

 

Poemas haja de vida e morte

que digam princípio e fim

 

por isso o caos e a ordem

por isso a sorte e a contradita

 

Um poema virá do novo tempo

a desfazer a tempestade

com a força  das sílabas sonoras

a anunciar o reabrir da claridade

 

Licínia Quitério, na antologia "Numa rua completamente às escuras movem-se estes versos"


 


17.11.25

A FRONTEIRA

 

quero passar a fronteira

trago comigo

fechado neste saco

o pouco que aprendi

na mala a abarrotar

a teimosia de viver


mais nada a declarar

a não ser

senhor agente

este frasco a cheirar

às mãos da minha mãe

em afago permanente


senhor agente

vou dizer-lhe um segredo

uma fronteira é um traço

num mapa

é só passar um dedo e apagar


não conte a mais ninguém

e deixe-me passar


adeus senhor agente
Licínia Quitério

12.11.25

A TEMPESTADE

 Vai passar vai passar a tempestade

Escuta o discurso do vento

Recolhe a folha seca

Com um recado inscrito

Podes não ter aprendido

A linguagem das nervuras

Mas elas conhecem

O desenho da tua mão

A voz do vento dir-te-á

Um nome que esqueceste

Numa conversa de outro tempo

A chuva canta no parapeito

Um cânone de outras paragens

A tempestade vem e vai e voltará

Tu continuarás  sem entender

A impermanência dos dias da bonança


Licínia Quitério


9.11.25

AS CASAS DA GUERRA


São as casas da guerra
tão baixas
quase rente à ideia de casa
Esventradas
quase só pedra e memória de abrigo
São volúveis
seduzidas por cantos novos
silvos estrondos
As casas ajoelham
sobre uma manta um colchão
Uma panela sobre a trave
Uma desordem nova
nas casas da guerra
todas semelhantes
Uma vergonha antiga
de moradores que eram também as casas
as paredes das casas
o respiro dos bichos das casas
Fumegam as casas da guerra
como se fervessem
o chá o caldo
a água de um carinho que esqueceram
que lhes roubaram
Diz-se


Licínia Quitério


28.10.25

FALAR DE MIM



Podes ficar tranquilo.
O temporal passou.
O telhado furou
e a chuva pingou
sobre a dor do meu ombro.
O pouco que dormi
foi sempre em faz de conta,
não fosse a ventania
levantar o colchão
onde se escondia
das mágoas o cordão.
A parede rachou,
mas foi bom porque eu pude
ver um céu que foi meu,
em forma de crescente.
Recusei aceitar a hora do poente
e fiz bem, porque assim
nunca tive o punhal
do dia no final
a remexer a ferida
a esfacelar a pomba,
guardada no meu peito.
Depois, foi só esperar
que o temporal se fosse,
já farto de afrontar-me
da pele até ao osso.

Podes ficar tranquilo.
O temporal já foi.
Eu sei que outros virão,
em formas de tufão,
de lágrimas, cansaços,
mas eu aperto os braços
e seguro os pedaços
que sobraram de mim.
Semicerrando os olhos,
liberto a dor dos ombros.
Compro um colchão de espuma
de sabão, do melhor.
Depois lá vou soprando
enquanto tiver força
e as bolas vão subindo,
de mil cores tingindo
o fio dos meus cabelos.

Podes ficar tranquilo.
Mais nenhum temporal
me pode causar mal.
Uma coisa te peço:
se souberes que morri,
se entenderes que mereço,
embrulha com cuidado,
num pano de brocado,
meus desejos de corça
que um dia galopou
e na praia, ao nascente,
agita-o com firmeza
até teres a certeza
de que nada lá dentro
escondido ficou.

Licínia Quitério
Inédito - Outubro de 2004

24.10.25

TEIA

A aranha tece a teia

No seu labor de carcereiro

A mosca toca os fios

Da frágil fortaleza

Aprende a imobilidade

Não percebeu a sedução

Da irradiante geometria

A aranha guarda o visco

Que nos ata nos mata

Somos apenas moscas


Licínia Quitério


 

22.10.25

ESTREMECE

 Estremece, a casa velha.

Vai soltando pedras.

Nem o musgo as sustem.

Outro o desenho da cal.

Fissuras vão abrindo

A porta ao esquecimento.

Na hora de tombar

Cumpre-se, a casa velha.


Licínia Quitério




25.9.25

A VASSOURA

 A vassoura, com sua haste altiva,

varria, que para isso vassoura foi criada.

Empunhada a preceito, que tudo tem de ter sua mestria,

varria o pó acumulado nas dobras dos degraus.

Cuidados de enfermeira, digamos maternais,

pouco usuais em tempos imperfeitos.

 

Quem dera ser degrau que alguém subisse

e fosse acumulando sombras pelos cantos.

Vassoura chegaria, que mesmo para ela tempo há,

e varreria, eficaz, por vezes a roçar uma carícia,

os restos que até lá fossem parar

para que degrau de pedra pessoa se sentisse.


Licínia Quitério

Mafra, Dezembro de 2005



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