22.9.22

IMPREVISIBILIDADE

Este não é o tempo de prever

É o tempo de ver como nunca se viu

Incerto o tempo futuro como sempre foi

Acabou-se o tempo dos adivinhos

o tempo dos profetas

Dos deuses nem se fala que perderam

os manuais de perdões e castigos

A chuva ou o tufão não se anunciam

As guerras não sabem de vitórias ou derrotas

Constante apenas o nascimento

dos filhos das mulheres, dos homens

porém sem tempo certo, sem aviso

Um pé depois do outro devagar

que o caminho não fala de chegada

e a ideia de regresso foi esquecida

É este o tempo de aprender

o tempo nosso de cada hora

o pão de todos enquanto é dia


Licínia Quitério

2.9.22

SETEMBRO

 

E vem mais um Setembro
com a memória do restolho ardido
na passagem do incêndio
na passada da guerra
Traz o olhar soturno este Setembro
como se anunciasse derrocadas
desertos
vinho azedo
dilúvios
como se fosse profeta ou adivinho
como se não soubesse
da crueldade
a assolar todos os Setembros
quando o leite das mães se faz coalho
as fontes secam
as aves esquecem a partida
Vergado este Setembro
ao peso da estiagem
o passo incerto
de quem já muito andou
e ainda arrisca
outra viagem
na busca duma flor
entre os escombros

Licínia Quitério


12.8.22

INVOCAÇÃO

 Vem sereníssima

moradora

nas alturas dos sonhadores

nas profundezas dos tombados

nos mares dos fugitivos

nas celas dos cativos

Vem suavíssima

sabedora

da aflição dos abusados

da solidão dos desprezados

do desespero dos perdedores

da decepção dos ganhadores

Vem humaníssima

amante

do silêncio nocturno

do estrépito diurno

Vem poderosíssima

dona

dos segredos inconfessados

da contradição dos espíritos

dos medos da paz e da guerra

dos medos da fome e da abundância

 

Vem desconhecida

Aqui te invocamos

Podes ser deusa

Podes ser sibila

Podes ser amor

ou poesia

Vem aplacar a fúria de todos nós

Estamos perdidos

sós


Licínia Quitério


24.7.22

DA IGNORÂNCIA

como explicar o choro no restolho

se os humanos já ali não vivem


e o silvo a cortar os ares

a fazer-se lume e a estilhaçar a sorte

dos audazes

quem lhe deu a mão lhe segredou

o nome da distância


de perguntas andam grávidos os dias

pesados os dias

vamos pisando as respostas

há muito afundadas no chão das guerras


senhora da ignorância afasta-te de nós


Licínia Qiuitério

22.7.22

NEM OS POETAS

A decadência veloz duma era, o anúncio da mudança, a relatividade do mal, a pressa e o temor de conhecer o acto final.

Travestidos os bruxos, as sibilas, indecifráveis os oráculos.

Tempo de fogo e enxurrada a adubarem a pobreza infinitamente crescente.

A natureza e os humanos em competição, no sofrimento, na mortandade.

Nem os poetas, nem eles, se apercebem das vozes nos seus pátios interiores.

Licínia Quitério


3.7.22

CANSAÇO

 

Que sei eu do cansaço senão o que li nas pernas das mulheres

nas cordas cinzentas que lhes sobem pelas pernas

até ao peito que já foi fonte e se cansou.

Nos homens que não se cansam de plantar

para dar de comer a outros homens que tombam de cansaço

na beira dos campos, na beira dos dias.

No eterno cansaço de Sísifo, coitado,

iô-iô de deuses brincalhões

agora carrega agora sobe agora desce

e sempre e sempre sem descanso

mesmo nos quadros dos pintores famosos.

No cansaço dos poetas mais ou menos líricos

a obrigarem as palavras a dizer o que eles pensam que os outros sentem

e elas sim as palavras a ficarem cansadas e inúteis e a fugirem na primeira aragem.

No supremíssimo cansaço de Álvaro de Campos.


Licínia Quitério

29.6.22

XADREZ


Todo o mundo procurando

posição no tabuleiro.

Casa branca, casa preta,

qual das torres cai primeiro,

quantos cavalos se contam,

quem vem lá enviesado

que não deixa ver a cor.

Os infantes devorados,

alta dama vai cair.

Frente a frente,

casa branca casa negra,

senhor negro senhor branco,

e o tabuleiro a estalar,

a ruir, a regressar

à árvore de que foi feito.  

Xeque mate, xeque mate.


Licínia Quitério

26.6.22

A MAÇÃ


Entre nascer e morrer
Há sempre um fruto a amadurecer
Para poder entrar
Saboroso e fresco
Nas páginas de um livro
Que pode ser de versos
Ou de contos que se contam
Como se fossem poemas
Também eles sumarentos
Com a pele a estalar
Uma história a brotar
A procurar ser larva
Ser casulo e nele se guardar
Até ser borboleta ou então ficar
Aninhada recolhida
Silenciosa a pensar no tempo
Em que já foi maçã e já foi livro
E já foi tudo o que se possa imaginar
Que do nascer ao morrer
Muitas árvores chegam
Muitas árvores ardem
Muitas estrelas nascem Licínia Quitério

14.6.22

CHEGAM AS ROSAS



Nos sonhos da manhã
outros sonhos navegam.
Em confusão, por vezes.
Por vezes, limpidez.
Leve o desejo de ficar
por mais um tempo
ou para sempre
na morna fantasia
entre a recta e a curva
entre o sol e a sombra.
Livres do nevoeiro
nos sonhos da manhã
chegam as rosas.

Licínia Quitério

7.6.22

O UNIVERSO

Na minha mão o universo.

Sei que ele começa na semente que lancei à terra.

Expande-se o universo.

Só precisa de água para se fazer verde, aquele verde a que chamamos azul.

Na pele do universo nascem estrelas, planetas, que a minha mão afaga como se afaga o infinito.

Comovem-me a rosa, o tomate, quando me mostram a Lua, a Estrela Polar.

Um dia a minha mão perder-se-á.

O universo continuará para outras mãos onde ele sempre recomeça.


Licínia Quitério


4.6.22

VAGUEAVA

 

Vagueava pelo doirado da praia, as sandálias na mão, a baloiçar.
Afagava maternalmente um cão que corria ao seu encontro.
Baixava-se e apanhava conchas.
Devolvia-as ao mar e a boca soprava um beijo.
Acenava às gaivotas com braços de lenços brancos. Sempre sorria quando olhava o céu.
Deixava um rasto de pena nas areias.
Bailava em torno de uma pedra baça e nela acendia brilhos de fogueira.
Pisava rendas de espuma e uma poalha de estrelas salpicava-lhe a leveza da saia.
Dela não sei a cor dos olhos, dos cabelos.
Podiam mesmo não ter cor, como se diz da água.
Há quanto tempo a não vejo.
Vou perguntar ao mar se ma levou.

Licínia Quitério, 2006

30.5.22

FANTASIA


Sim
também pertenço a esta claridade matinal
suaves cortinados frescas névoas
macia a cal na fímbria dos telhados
restos de noite a deslizar nas ruas
mornas as vozes
esperança de sol na humidade das ervas
vagas promessas de árvores futuras
Manhã
se te pertenço traz-me o dia
farei dele o meu rosto
o meu vestido branco
a flor do meu papel de fantasia Licínia Quitério




11.5.22

OS OBJECTOS

 os objectos

uma vida duas vidas muitas vidas

revividos recompostos resistentes

inertes

atentos persistentes permanentes

viajantes

de parede em parede

de chão em chão

de casa em casa

provocadores

espreitadores

sabedores

guardadores

de amores de segredos de degredos

de histórias tantas quantas 

os anos as casas

as tempestades as danças

descoloridos deformados

estalados esventrados

os objectos são

a aragem

o anúncio da passagem


Licínia Quitério

14.4.22

NOVO LIVRO



Este meu novo livro será apresentado no próximo dia 23, pelas 16 horas, na


Casa de Cultura D. Pedro V

Rua José Elias Garcia, 72

MAFRA

Ali terei o prazer de vos receber para uma conversa amena com poetas e poemas.

Licínia Quitério
 

29.3.22

PALAVRAS NOVAS

 

Precisamos de palavras novas

limpas de violência e de perjúrio

Palavras breves libertas da rouquidão

encharcadas de sol e de abundância

Estamos cansados de palavras velhas

carregadas de pólvora e botox

a pesarem na surdez dos rebanhos

Havemos de fazer a festa das palavras

se elas enfim chegarem e contarem

com que sílabas calaram

a infame ladainha dos guerreiros

sobre as ruínas metodicamente construídas


Licínia Quitério

26.3.22

A GUERRA

 

Nasceu da raiva dos vulcões

da inclemência da tempestade

da secura das florestas

a guerra

alimentou-se do leite azedo das mães

do sangue arrefecido dos soldados

da desmesura dos imperadores

a guerra

cresceu para ser dona das casas

das ruas das cidades dos países

para secar os rios

para queimar os corpos

para rasgar os mapas

para apagar os nomes

a guerra

ergueu altares ao ódio

à doença à fome

à morte de inocentes

a guerra

declarou-se invencível

universal eterna

obedecida e venerada

a guerra

esqueceu-se do amor

e definhou

a guerra


Licínia Quitério

22.12.21

O MEDO

 O medo atravessou fronteiras.

Veio até nós circular corrupto.

Confiámos na nossa capa de certezas.

Dissemos vai aqui não está ninguém.

Por resposta um riso de esporas afiadas.  

Vive na casa dos medos milenares.

Mutante senhor do mundo que mudou.

E nós com ele a tactear veredas e poemas.




Licínia Quitério

21.12.21

MAR


 


10.12.21

QUASE

 Um pássaro deixou tombar um fruto

ou o vento embalou uma semente,

um quase nada.

Vi da terra sair um gomo verde,

ainda quase nada.

Percebi tua vontade de crescer

e dei-te terra, água.

Mostraste flores singelas,

quase nada.

Os grãos de pólen convocaram as abelhas.

Os frutos vieram minúsculos,

quase nada.

A vida nos juntou e foste

a minha árvore sem nome,

quase tudo.


Licínia Quitério


22.11.21

A CONSTRUÇÃO

A gente constrói.

A gente constrói-se.

A gente reconstrói.

A gente reconstrói-se.

Nas fundações da construção, os braços da ruína.

A gente teima.

A gente diz que este não é o tempo da ruína.

Constrói, reconstrói.

A gente ilude o tamanho do tempo.

Constrói, reconstrói.

Constrói, reconstrói.


Licínia Quitério

11.11.21

OS MALDITOS

 Caminham sempre até os pés se gastarem, até se perderem dos filhos, das mães.

Já esqueceram palavras que digam casa, água, riso.
Aprenderam fome, tortura, ódio que foi tudo o que lhes deram para a viagem.
Caminham sempre, sobre o gelo, sobre a areia, sobre o fogo, até os pés se gastarem.
Vão em direcção à terra prometida pelos deuses que lhes disseram do leite e do mel.
Sacrificaram os animais, as mulheres, as crianças, para aplacarem a ira dos cobradores de impostos.
Se for preciso atravessam os rios ou adormecem na correnteza e por lá ficam iguais aos peixes seus irmãos.
Caminham até ao mar azul que não se abre para os deixar passar.
Confiam nos barqueiros, dão a moeda, a última, o salvo-conduto para a terra do esquecimento.
Os que não pagaram continuarão a caminhar até avistarem o império e os seus muros.
São da Terra dos deuses que não pagam promessas.
Dali não passarão, os malditos.

Licínia Quitério
Foto da net

8.10.21

A ESTRADA

 Na estrada longa, o nosso carro de sol e chuva  

segue a viagem de conhecer, esquecer.  

Passageiros sobem, passageiros descem.

Sinuosidades encobrem as margens

e apagam quem nelas caminhou e se perdeu.

Indelével, a memória dos vivos e dos mortos.

Revelados são os nomes dos passageiros

que continuam no carro, invisíveis,

testemunhas da inacabada solidão.

Todos os caminhos vão dar a Roma, dizia-se

quando o mundo era o tamanho da cidade.

 Neste tempo sabemos que todos os caminhos

 vão dar a uma cidade de nome Vida  e o seu contrário.



 Licínia Quitério

arquivo

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