5.9.26

A FESTA


Está no seu segundo dia, A Festa.
Percorrer as minhas memórias da Festa é recordar a alegria que inunda, que abraça, que canta, que se passeia entre nós que somos todos o coração e o sangue da Festa.
É viver a cidade da utopia, em que a cultura e o trabalho se encontram num anel de cor e limpeza e segurança.
É lembrar os amigos que já não estão e que foram parte do corpo são que a Festa continua a ser.
É estar na Festa mesmo não podendo estar, porque o que ela me deu foi para ficar e lembrar com um brilhozinho nos olhos e uma esperança no triunfo da liberdade, da bondade, da dignidade sem fronteiras.

VIVA A FESTA DO AVANTE!

28.7.26

REDONDO O MUNDO

Redondo o mundo de caminhar em frente. 

Paralelamente ao cordão de tristezas
uma mão de desejos como esporas

que fazem sangrar que fazem correr.
Todo o corpo arde na febre da viagem.

Todo o corpo arrefece na praça da memória.
Um só corpo não basta para poder voltar
à casa construída.

Na outra volta do mundo

no outro vão do arco

uma luz se levanta

cada dia mais clara mais bondosa.

É o sinal do silêncio na linha da partida.
Um corpo continua para que outro recomece.

Nunca uma casa permanece.


Licínia Quitério


23.7.26

A PAZ

 É minha a paz das mãos que alimentam

dessedentam curam afagam

afastam do precipício

ajudam na subida iluminam.

É minha a paz dos olhos atentos

olhos-guia olhos-companhia

olhos-livro-de-memória.

É minha a paz das bocas falantes sussurrantes

bocas-corola bocas-enseada

bocas-silêncio-e-música.

Dos corpos nada digo.

Deles me esqueço me ausento

corpo-apenas-onda-apenas-prado.

Há uma paz só minha:

a dos telhados brancos onde um anjo se alonga.


Licínia Quitério

21.7.26

O CHÁ

 Na sala há aromas de chá

a espuma a coroar a taça

o sol nas paredes da tarde. 

É a hora dos relógios

da areia da água

das árvores sobrantes

dos véus da cor do chá

do arremedo das danças

dos medos das preces

do calor dos corpos

do calor do chá

do ardor da memória

da febre dos animais

do tremor da grande pedra

do odor do sangue. 

Na taça o chá esfriou.´


Licínia Quitério



 

20.7.26

DAR

 O verbo dar no seu modo reflexo 

tudo inverte tudo torna e transtorna

e pode destruir o sujeito que dá

porque de tanto querer acrescentar

se encurtou diminuiu.

 

O verbo lá ficou no seu modo infinito

a pairar a esperar a mão que colhe

o coração que aperta.

A rua está deserta e o verbo não conjuga

por se ter enganado no pronome sujeito.


Licínia Quitério

 

9.6.26

A DECADÊNCIA

 A decadência veloz duma era, o anúncio da mudança, a relatividade do mal, a pressa e o temor de conhecer o acto final.

Travestidos os bruxos, as sibilas, indecifráveis os oráculos.

Tempo de fogo e enxurrada a adubarem a pobreza infinitamente crescente.

A natureza e os humanos em competição, no sofrimento, na mortandade.

Nem os poetas, nem eles, se apercebem das vozes nos seus pátios interiores.


Licínia Quitério


28.5.26

AS VELAS

Atravessam as horas e os anos
os caminhantes da fortuna
Longos os dias de tédio
sem anúncios de horizonte
A névoa não morreu de madrugada
A água desistiu dos cântaros
No novelo dos anos por contar
os caminhantes tecem mantas
de aconchego e perdição
As velas ardem a alumiar a estrada

Licínia Quitério

24.5.26

A ROMÃ

quem sabe um dia

esquecida a seda do vestido

eu seja bago e outro e outro

e seja festa

na mesa do inverno


Licínia Quitério

 

24.1.26

A NEVE

 Se eu caminhasse sobre os campos de neve e olhasse para trás, perceberia um rasto verde de agulhas e um cheiro morno de incenso no altar da distância.

Havia de sentir uma dor provisória, amortecida, guardadora dos casulos da memória, uma garra cravada na garganta do inverno.

Chegada a hora de afastar um sonho enroscado no pulso, pegaria na espuma e nas sombras para as depor na paisagem com a leveza que as aves ensinam.

 Licínia Quitério


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