28.7.26

REDONDO O MUNDO

Redondo o mundo de caminhar em frente. 

Paralelamente ao cordão de tristezas
uma mão de desejos como esporas

que fazem sangrar que fazem correr.
Todo o corpo arde na febre da viagem.

Todo o corpo arrefece na praça da memória.
Um só corpo não basta para poder voltar
à casa construída.

Na outra volta do mundo

no outro vão do arco

uma luz se levanta

cada dia mais clara mais bondosa.

É o sinal do silêncio na linha da partida.
Um corpo continua para que outro recomece.

Nunca uma casa permanece.


Licínia Quitério


23.7.26

A PAZ

 É minha a paz das mãos que alimentam

dessedentam curam afagam

afastam do precipício

ajudam na subida iluminam.

É minha a paz dos olhos atentos

olhos-guia olhos-companhia

olhos-livro-de-memória.

É minha a paz das bocas falantes sussurrantes

bocas-corola bocas-enseada

bocas-silêncio-e-música.

Dos corpos nada digo.

Deles me esqueço me ausento

corpo-apenas-onda-apenas-prado.

Há uma paz só minha:

a dos telhados brancos onde um anjo se alonga.


Licínia Quitério

21.7.26

O CHÁ

 Na sala há aromas de chá

a espuma a coroar a taça

o sol nas paredes da tarde. 

É a hora dos relógios

da areia da água

das árvores sobrantes

dos véus da cor do chá

do arremedo das danças

dos medos das preces

do calor dos corpos

do calor do chá

do ardor da memória

da febre dos animais

do tremor da grande pedra

do odor do sangue. 

Na taça o chá esfriou.´


Licínia Quitério



 

20.7.26

DAR

 O verbo dar no seu modo reflexo 

tudo inverte tudo torna e transtorna

e pode destruir o sujeito que dá

porque de tanto querer acrescentar

se encurtou diminuiu.

 

O verbo lá ficou no seu modo infinito

a pairar a esperar a mão que colhe

o coração que aperta.

A rua está deserta e o verbo não conjuga

por se ter enganado no pronome sujeito.


Licínia Quitério

 

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