16.7.07

AS VETUSTAS PEDRAS



As vetustas pedras da noite
te dirão
da decepção
das andorinhas
ao perceberem as casas sem beiral

Não chores
Suspende apenas
um pequenino susto
na mais alta ramada
do caminho

E observa
as poderosas colunas
amparando ruínas

Licínia Quitério

9.7.07

VIAGENS




Soltamos a âncora e largamos as velas
onde está escrito o mar
É urgente partir e demandar novas areias

Acostamos e caminhamos descalços
sobre o pó de pérolas antigas
Se for preciso adormecemos encharcados
de sol e de intraduzíveis murmúrios

Depressa nos cansamos do ardor na pele
do cheiro intenso das algas ressequidas
das grinaldas da festa fora da nossa aldeia

Faz pouco que chegámos e já os nossos braços
pedem o porto a estrada o abrigo
o minúsculo ponto de partida aonde é urgente chegar
e ancorar e projectar viagens
até areias novas algas secas e grinaldas de festa
que nos trarão saudades da aldeia

É ainda um menino, aprendendo a servir as mesas dos homens e das mulheres e dos meninos em férias. Nervoso, afastando a melena escura do escuro do olhar. Senti que queria entrar na conversa. Fiz-lhe perguntas vagas. Agarrou-as com avidez e desatou a falar. Dele. Do pai que tinha ido embora. Da mãe que o tinha tirado da praia. Da escola que o tinha roubado ao mar. Diz Mar como quem diz Vida. E ri baixinho, provocando o sobressalto dos ombros. Agora que lhe tiraram os barcos, sonha com outros nomes. Diz Luxemburgo, Espanha, Andorra. É por aí que passará o futuro, depois de concluído o curso de mecânica. Já se vê na "estranja", a família reagrupada, ele no seu carro, comprado com o seu dinheiro. Ele que tenta explicar-me o que é "passar a noite no mar", abrindo os braços em leque e fechando os olhitos como homem que falasse de corpo de mulher. Viagens fará este menino. E, sempre que puder, voltará para se sentar na sua praia, esperando o barco que o levará de noite ao mar. Dei-lhe um beijo, por despedida. Não se mostrou surpreendido. Deu-me um sorriso bonito e apressou-se a levantar os pratos sujos.

Licínia Quitério

30.6.07

JACARANDÁ

Corridas as estradas
de chumbo e oiro e assombração
Silenciado o restolhar das follhas
nos pátios interiores
Sepultados os cães vadios
sob a raiva dos transeuntes de domingo
Apagadas as cores
das línguas maternais
nos discursos dos guardiões do templo
Vendida a onda verde das searas
e ninguém a reclamar colheitas
Perdidos os olhos vítreos da boneca
Afogadas em jarras as rosas de toucar

Sentada agora estou
- ou assim me vejo -
no sorriso lilás do jacarandá
florindo os dedos longos da idade


O nome decerto lhe foi dado por vozes quentes, tropicais. Só cantando o podemos dizer, a saborear-lhe as sílabas, prolongando a alegria da tónica: Ja-ca-ran-dáá. As flores brotam, triunfantes, decididas, a pincelar o negro dos braços nus. Dizem li-láás nos nossos olhos, na sala de espera de mais um verão. Retiram-se, discretas, quando o recorte verde das folhas se anuncia. Todos os anos as procuro nas velhas ruas da cidade. Receio que um dia lá não estejam. Quero que fiquem para contar do meu sorriso sazonal e da minha voz dizendo a quem passa: Vejam como estão lindos. Já floriram os ja-ca-ran-dáás!!

Licínia Quitério

13.6.07

DIAS

Dias com um poema por escrever
a roer-me por dentro
a querer espreitar na fresta do desejo
de enfim poder dizer
como foi construído este alvoroço
quem acendeu o lume
e depois o apagou
onde mora o dono da casa que vagou
porque não morre o pássaro
se lhe morreu o canto

Dias ondulantes
de passos hesitantes
de febres e de frios
à espera do poema
que transporte a palavra
a enorme e única palavra
capaz de traduzir o nome da cidade
onde em verdade habito
e respiro e me deito



Sentia um cansaço frio que lhe escorria pelo corpo. Podia ser um manto líquido, herança das últimas chuvas. Caminhava como se o dia fosse uma encosta íngreme, sem sombras vegetais. Olhava o chão com a indiferença dos velhos nos jardins. Apoiou-se na beira de um poço e viu no fundo da água uma janela de luz difusa. Alguém passou e lhe disse: O que faz aí? É melhor afastar-se. Obedeceu. O cansaço era tão grande que não conseguiu dizer: Talvez lá em baixo haja um poema a descansar.



Licínia Quitério

P.S. Parece-me que o Sítio do Poema anda um bocadinho cansado. Por isso o vou mandar de férias. Voltará à conversa com os Amigos, revigorado por fortes ares, tranquilas águas. E deixa-vos beijos.

29.5.07

TEMPOS


Sou do tempo 
da negrurados becos 
nas cidades cansadas de bandidos

Era o tempo 
de dizer bidon-ville
ou nova-iorque ou liberdade
com os dentes cerrados
com as portas cerradas

Era um tempo 
de carroças de ciganos 
atulhadas de cantares e imprecações

Foi um tempo 
de amarrar viagens
nas varandas altas dos aeroportos
nos cais imensos dos comboios imensos
de mais partidas que chegadas

Chegou o tempo
do incêndio das papoilas
do fundo respirar dos becos
da alegria dos escravos
e do susto dos faraós

Nesse tempo 
soubemos abraçar com igual ternura
a ferrugem dos cascos dos navios
e a velha prostituta de amesterdão

Sou  deste tempo 
em que me sento na cadeira de baloiço 
e espero novas de gaza ou de bagdad

Vou ficar neste tempo 
de remorso e de preguiça 
como se fosse um deus a descansar


Licínia Quitério



21.5.07

NASCENTE

foto gentilmente cedida por uma Amiga



Vem, sem avisares,
dizer-me que provaste
a água fria das nascentes
e gostaste
e eu vou gostar de lhe tomar
o gosto em tua boca.
Dirás da força dessa água
na fonte inicial que procuraste.
Eu vou senti-la
em contenção na dobra do teu braço.



Vem dizer-me
o som fantástico da gruta
por onde a água escorre
e às vezes se detem
adiando a viagem.
Eu vou escutá-lo em tua voz
e não sentirei medo
que tudo o que me trazes
vem do sítio exacto
onde as flores aguardam
as águas do meu peito.


Chamavam-lhe Zé da Fonte. Todos os dias, mal o sol acordava, caminhava até à nascente modesta, escondida por entre pedras gastas e ramadas pendentes. Ajoelhava-se e lavava os olhos, longamente, com as mãos inundadas de água fria. Depois tirava do bolso um naco de pão que mastigava devagar, muito devagar. Já de pé, dizia baixinho: Até amanhã, Mãe.

Ninguém lhe conhecia família. Não se poderia dizer que idade tinha. Caminhava aos saltinhos como um rio sobre leito pedregoso. Havia quem o temesse. Havia quem o adorasse. Por uns dias ninguém o viu. Procuraram em redor da fonte. Nem rasto.

Um corpo apareceu a boiar no ponto em que o ribeiro que nascia da fonte se encontrava com outro ribeiro nascido de outra fonte. As pessoas ficaram pesarosas. Coitado do pobre Zé da Fonte. Como foi que isto sucedeu? Só a Rosa Maria, que também caminhava aos saltinhos e tinha olhos cor de musgo, soube explicar, na sua voz murmurante: Voltou a ser água. Um homem tem de cumprir o seu destino.


Licínia Quitério

15.5.07

DIAFRAGMA

"Silêncios e Sombras" foi o último poema que nos deste.

Mas tu foste LUZ.

Obrigada, S.



Licínia Quitério

14.5.07

INFÂNCIA


Tenho estado a pensar que
a infância era do tamanho
da casa da minha tia -
nem muito grande nem muito pequena.
Na conta exacta dos meus anos
a que os adultos chamavam
felizes e despreocupados.
A casa da minha tia
também tinha o feitio da minha infância.
Era como um brinquedo grande
que me fazia imaginar histórias
que um dia eu havia de contar aos meus filhos.
Tinha uma parede forrada de papel pintado,
a imitar um jardim para onde abria uma grande janela,
igualmente pintada.
Eu abria a janela e regava com um regador de cartão
as plantas viçosas que estremeciam contentes comigo.
Na sala, havia uma janela, janela mesmo,
e sempre a minha tia dizia: cuidado
não te debruces.
(Ainda hoje gosto da palavra “debruces”
que há muito deixaram de me dizer.
pelo menos, com aquele tom de voz
de almofadinha morna.)
Sem me debruçar,
eu regalava-me a ver as janelas dos prédios
para além do jardim, jardim mesmo.
Pessoas abriam e fechavam as janelas
e eu podia distinguir as mãos, os ombros,
as cabeças e os olhos.
Bom, os olhos só os adivinhava
(azuis, como na minha família não havia.)
e com eles enfeitava livros cheios das histórias
que um dia havia de contar aos meus filhos.
Agora que já não há a tia
nem a casa com jardins de papel e
nem sei se os olhos seriam azuis
quando abriam e fechavam as janelas,
agora dedico-me a recordar a infância
que nem sequer sei se foi a minha


Licínia Quitério

7.5.07

ANOITECER


Por vezes não é mais do que uma sombra
No soalho à frente do teu passo
Por vezes dizes – vai-te
E arredas a cortina

Por vezes tem contornos de animal
Cansado e ferido
Não sabes se avançar ou recuar
Não sabes se gritar ou emudecer

Não te ensinou o berço o anoitecer


Levantava-se cedo. Quase sempre. E cantarolava enquanto abria as portadas e arredava as cortinas. Brincava com o gato ainda de olhos piscos, ajeitava as flores nas jarras, fazia um café que aspirava com delícia e rodeava a chávena com a concha das mãos. Seria sempre assim.
Lia quando tropeçou na frase "caiu a noite". Um ligeiro aperto no peito, uma sombra no chão da sala, a quietude do gato. Correu para o espelho e ele devolveu-lhe o rosto enrugado, baço.
Como podia não ter dado por tantas rotações e translações? Foi esse o instante em que percebeu que anoitecer não é um verbo. É uma oração.


Licínia Quitério

1.5.07

ABRIL E MAIO



Sentado no degrau do mês de Abril,
Assim te quero.
Muitos livros abertos no olhar
O das perguntas ainda sem resposta,
O dos enigmas dos sonhos de cristal,
Os de aventuras de heróis,
Sem nome e sem morada,
E os outros, lavrados de paixões
Incendiadas de manhã
E à noite amortecidas.

Assim te quero.
De mãos limpas do pó e das ofensas.
Os braços tensos pela espera
De outros braços.
No desalinho dos cabelos,
Os alvos, luminosos fios
dos tempos de passagem.

Só não te quero se não cantares.
Que a tua voz fala de Maio
E é por ela que Abril há-de voltar.

Era Abril quando a casa me espreitou. Uma velha menina solitária, a descansar as suas pedras nuas. A porta entreaberta a convidar o cheiro das flores, o piar das aves, o rumor das árvores tocadas pela mornidão da brisa. Assim eu poderia falar da casa perdida na paisagem sem homens. Não consegui. Se me perguntam onde a vi, digo: Está onde Abril não chegou. Um sonho em ruínas, rodeado de mal-me-queres. A porta, essa sim, ainda entreaberta. Na esperança teimosa de um Maio que bem-lhe-queira.

Licínia Quitério

25.4.07

25 DE ABRIL

Só tarde fora o meu novo PC iniciou a sua vida activa.
Não me deixou falar de Abril como queria e devia.

Quando o admoestei pela demora, disse-me:
"Também Abril tardou. Mas chegou."
Hei-de descobrir quem o programou tão assisadamente.

QUE VIVA ABRIL NOS NOSSOS CORAÇÕES
!

Licínia Quitério

19.4.07

TRISTEZAS



Digo-me quando triste
e nas palavras ponho incenso
e deixo arder as velas
até queimar as mãos
No ar arrisco frases
que se vestem da textura dos crepes
e são ágeis como o corpo das medusas
capazes de bailar no mar
sem o tocar

Poderia dizer-me
ausente ou indiferente
como os olhos dos loucos
como os olhos da fome
mas tristeza não é fome nem loucura
Digo-me quando triste
e sei porquê


Nasceu ali sem se fazer anunciar. Uma plantinha minúscula, sem brazão. Não davam por ela. Inesperadamente, num dia triste de inverno em despedida, floriu. Como um floco de neve poisado no canto do degrau. A senhora da casa reparou nela, tocou-a num afago e passou a dar-lhe os bons dias. Jurava que a flor lhe respondia com um breve estremecimento. Resistente, a plantinha com sua flor de neve e olhinhos de oiro. A primavera chegou e ela ali, muito firme, muito serena, sempre discreta.Contou-me a senhora da casa como triste ficou no dia em que o degrau se sombreou de luto por lhe terem arrancado a companheira. Disse: Apeteceu-me chorar. Pudera! Quem não chora quando perde um amigo com olhos de oiro?

Licínia Quitério

12.4.07

ARTES



"LES TROIS ARTS" - óleo sobre tela de JÚLIA CALÇADA

Só podia ser a sépia, respondia. O que a pintora queria mesmo é que fosse um quadro branco que desse a ler o cansaço. Tentou, mas sem êxito. Não encontrou leitor. Só a tal bailarina o entenderia. A tal, a que dançou voando sobre os sons que recusavam o silêncio. Talvez tenha tocado em pontas o chão sublime de sons inaudíveis. Quanto tempo dançou? Dizia: Sempre. Como quem assina o próprio nome. Não podia parar o diálogo com o pianista, o que conhecera tocando uma melodia que nunca ouvira. Construída de lamentos de ervas pisadas e de risos de malmequeres ao sol. A música tecia-lhe as vestes e o piano tocava sozinho se as mãos dele vinham guiar-lhe a cintura. Quando a música parou e as mãos se esfumaram, um cansaço branco, muito branco, a envolveu. Deitou-se sobre o piano, o cetim das sapatilhas no teclado a desenhar um acorde extravagante. Ela entenderia a brancura do quadro. Mais ninguém.


Esta a minha resposta a um desafio de uma rosa sem espinhos chamada Maria.

LICÍNIA QUITÉRIO

8.4.07

ANIVERSÁRIO

Digo? Não digo? Digo. Este blog foi criado faz hoje um ano. Eu sei que isso pouco acrescenta à vida que lhe dei. Um ano é só um ano, é só um ano. Mas devo ao Sítio do Poema esta meiguice. Ele tem sido muito amável para comigo. Não se limitou a ser um suporte virtual de coisas que escrevo. Não cumpriu o mero papel de montra. Deu-se. Agarrou-se aos fiozinhos invisíveis que com ele se cruzam e desvendou caminhos e encontrou pessoas e falou com elas e delas fez amigos. Aceitou o figurino que lhe dei e não pediu outras roupagens. Diz que se sente bem assim, por agora. Pus-lhe uma folhinha alaranjada ao peito e disse-lhe que se chamava plátano. Ele sabe que não é, mas não me desmentiu. Com ela se vai anunciando em visitas a amigos. Atreve-se a fazer comentários, mais ou menos sérios, mais ou menos brincalhões. Nem sempre muito acertados, talvez porque nem sempre acorda com a cabeça no lugar. Abre um sorriso que só eu vejo quando lhe deixam recados bonitos, generosos. Muito mimado este blog. Quando decidi colar-lhe no vidro da janela fotografias que eu faço, fez um ar de desdém e murmurou: “Atrevimentos...”. O certo é que se conformou e ainda não rejeitou alguma. Paciente, este meu blog. Quando estou muitos dias sem lhe dar um post, sinto-o puxar-me pela manga, como a dizer: “Então? Estou farto de descansar.”. Enérgico este blog. Um dia destes deu em refilar e disse-me: “Eu não pedi para nascer!”. Algum de vós o ensinou a dizer isto?

Vai ficar surpreendido quando vir que hoje não tem poema, nem foto. Não faz mal. Depois explico-lhe que há sempre um dia em que descobrimos que alguém mudou as cores da nossa casa sem nos perguntar. Assustamo-nos, mas continuamos a habitá-la.

P.S. Em nome dele, o meu agradecimento a todos vós.

Licínia Quitério

1.4.07

ÁGUAS


Tudo era água
e eu deitada nos leitos curvilíneos
das sereias
Era um canto longe
e eu dormente na viagem ritmada
das algas
Aromas de velas
antes do tempo ardidas
Todos os barcos encalhados
em súbitos baixios

Só eu só água
só o salto prateado de um peixe
só reflexos de mim
só a crua mudez dos oráculos

Da praia nem sinal


Há tanto tempo queria ver os golfinhos nas brincadeiras que se dizia acontecerem no estuário do grande rio. Ontem subiu para o barco e lá foi. O sol muito aberto picava-lhe a pele sardenta dos ombros. Com irreverência, tirou o chapéu da cabeça, atirou-o ao rio e deixou que o vento lhe soltasse os cabelos. Sentia-se tão bem. Rodeada de azul e verde e oiro. Foi até ao varandim da proa. Quase sem barco. A sós com as águas cheias de algas, de peixes, de medusas. Pirata nas Caraíbas. Num barco para Ítaca. Podia ter sido tanta gente. Podia ter estado em tanto lado. Mas era só uma mulher devassando as águas com o olhar salgado, na esperança de ver uma dança de golfinhos. Com um pouco mais de imaginação, até seria capaz de avistar uma sereia. Foi aquele sol a pique. Hoje acordou com febre. No sono agitado, sentiu que alguém lhe beijava as mãos. Regressará ao rio. Desta vez os golfinhos não faltarão ao encontro. Ah... e não voltará a dar o chapéu às águas.


Licínia Quitério

27.3.07

MEDOS



Um tempo houve em que as paredes não existiam.
Só as árvores nomeávamos.
Penso paredes e sinto-me cansada.
Escrevo árvores como se as tivesse inventado.
Pinto árvores nas paredes para as poder saltar.

De súbito, do outro lado,
um chicote de gritos:
Devoraram as árvores!!

Tenho pena.
Já não ouso escrever palavras
como estrelas, ou montanhas, ou liberdade,
nem pintar árvores para depois trepar.
Pode sempre haver, no avesso das paredes,
quem se divirta a devorá-las,
talvez porque afinal eu as tivesse inventado...

Assim, a partir de hoje,
apenas pensarei, sensatamente,
paredes,
altivas como montanhas a namorar estrelas,
macias e frementes como jovens árvores,
leves e saudáveis como o sabor da liberdade.

Até deixar de me cansar.

In "Da Memória dos Sentidos"


O meu Pai dizia: O medo não existe. E eu avançava pelo quarto escuro, devagar,os olhos muito abertos, a afastar as sombras dos ramos da nogueira. Mãos de lobo a tentarem agarrar os meus brinquedos. O medo não existe. E eu dava mais um passo,já muito perto da boneca que me chamava (eu ouvia) no tampo da mesinha à cabeceira. Finalmente tocava-a e de pronto a agarrava. Retrocedia, com passos estugados, em direcção à luz por momentos roubada. O coração batia e uma alegria nova me invadia. O meu Pai sabia tudo. O medo não existe.

Ainda hoje não tenho relutância em entrar no quarto escuro onde não há boneca nem sombras da nogueira. Apenas eu com o medo futuro.

Licínia Quitério

20.3.07

FLORESTAS


Que guardam as florestas pela noite?
Duendes, adivinhos, virgens loucas.
Repousos animais, leves respirações.
Olhares que só no escuro
se perdem da cegueira.
Molezas e frescuras vegetais.
Trabalhos lentos, exactos,
de operários incansáveis.
Cumprida a noite, as florestas
preparam as vestes matinais.

Com os cuidados de mulheres antigas,
com véus de névoa encobrem a nudez.
E, quando o novo dia as visitar,
estarão serenas, hirtas,
cobertas dos seus verdes radicais.
Duendes, adivinhos, virgens loucas
são agora invisíveis, impalpáveis.
Tornam-se seivas, agulhas, frutos altos.
Obedecem ao vento. São reais.


Um ar frio e húmido fazia-nos sentir os ossos. Passámos rente à floresta. Só rente, que para lá entrar faltou coragem. Uma luz tímida roçava as copas. Daí a pouco diríamos: Chegou o sol. Um bater de asas ergueu um grande pássaro. Vimo-lo poisar, por entre o nevoeiro, no que seria um ramo ou uma diagonal do quadro. Depois de nos aproximarmos, chamámos-lhe corvo. Negro a diluir-se na tinta acinzentada da manhã. Lá ficou. Parecia imóvel. Em mim se deu um estremecimento. Vi nele a sombra de um companheiro de outras viagens. Miragem de outras florestas que não de enganos. Foi decerto aquele ar frio da madrugada. A afastar lembranças, disse: Com um café quente isto passa.

Licínia Quitério

14.3.07

CORES


O homem bebe o céu azul.
Na terra negra afunda sombras
e
aguarda a alvura dos lírios.


Disseram-me que o arco-íris se pintava de sete-cores. Sempre pela mesma ordem: vermelho, alaranjado, amarelo, verde, azul, anil e violeta. Também lhe chamam o arco-da-velha. Noutras falas, é o arco-no-céu, o arco-da-chuva, o arco-relâmpago e mais não sei. Sempre lhe chamei o arco-das-cores. Quando o sol se mostra por detrás da cortina da chuva, corro a espreitar o céu. E ainda hoje, quando o arco se mostra, o deslumbre me fica no sorriso dos olhos. Antes que a magia desapareça, cerro as pálpebras com força, a restaurar a minha reserva de cores. Até voltar a encontrá-lo, vou pintando o mundo a meu jeito. Do negro não quero saber. Teimo em louvar o branco.


Licínia Quitério



8.3.07

BALOIÇOS



Entrançar luz e sombra
com as mãos do entardecer
nas cordas desfiadas do baloiço

Alindar as madeiras

com a leveza das brumas
e a húmida firmeza dos abraços


Dizer valeu a pena

nas línguas dos países

desenhados nos atlas da memória


Escrever tranquilidade

com a caligrafia

dos segredos das caixas de cartão


Baloiçar baloiçar

vai embora papão
sentir a grande voz e ali ficar


Baloiços ou balanços? Palavras em que nos sentamos à procura do ritmo inicial. Meninas em baloiços deram quadros célebres. Mais do que meninos. Transgressões consentidas a quem era exigido recato e contenção. Um baloiço em ruínas pendurado entre árvores é uma imagem muito forte que não quis aqui reproduzir. Preferível adivinhá-lo lá ao fundo, perto do portão que forçosamente haverá. Vou empenhar-me em consertar este baloiço. Se calhar precisarei de muito, muito tempo. Mas cumpre-me cuidar do sítio onde me irei sentar e balançar, balançar, quando chegar o momento de saber o fim da história. Não se preocupem. Sinto-me bem. Já deviam saber que sou dada a desvarios. Tão-badalão, cabeça-de-cão...

Licínia Quitério

2.3.07

ESPELHOS


Persigo há muito a senda dos espelhos.
A intrigante e abismal distância
onde tudo descansa. Reinos virtuais
de nevoeiros e acordes improváveis.

Os espelhos não dormem. São atentos
ao nascimento e à morte de imortais.
Intacta guardam a memória dos que
na sua transparência se colaram.

Quem dera ao entardecer os penetrasse
o frio diamante do meu peito

e os incontáveis braços das ausências,
comovidos, rendidos,
me pegassem.


Vaidosa. Não podia passar por um espelho sem nele se mirar. Não, não compunha o cabelo, não retocava a pintura. Nada desses gestos vulgares de fêmea em sedução. Olhava-se e começava a falar baixinho. Afastava-se e acenava leve, levemente. Depois, aproximava-se mais, mais. Até tocar a superfície fria, com as mãos, com a ponta do nariz. A tentar sobrepor-se à imagem. No espelho começava a opacidade de um círculo que lhe saía da boca e lhe tomava conta de parte do rosto. Nas palmas das mãos, a lâmina polida amornava. Um toque suave de um encontro esperado. Olhos bem abertos, quase dentro dos outros, dos iguais, do outro lado. Onde?
Ele um dia perguntou-lhe: Que procuras? Apanhada de surpresa, afastou-se, compôs a figura e disse: Nada. Jura que ouviu a outra, também a afastar-se, dizer: Tudo.
Vaidosa?

Licínia Quitério

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