11.12.18

UMA ROSA




Uma rosa é uma rosa

A rosa nasce
onde a dor se apresenta
se afinca a morder a roer
a rasgar o tecido
a amarelar o sangue
a corromper o nervo
No coração da ferida
nasce a rosa
É um sorriso no matagal
uma maçã no escombro
Nasce de noite
sobre a erva má
Quando amanhece
e o corpo aquece
a rosa cresce
a rosa dança
ao derredor da chaga
e a perfuma
e a enlaça
e o corpo esquece
a fundura do poço
o tremor o fervor
da pele até ao osso
Ora sim ora não
o corpo avança
Rosa rosae
é uma declinação
é uma oração
a desviar a lança

Licínia Quitério

6.12.18

AS ESPERAS


É a hora de preparar o deserto para a noite longa, 
de falar baixo ou calar, 
de recolher as roupas, 
de desligar os motores, 
de convocar o silêncio do peito, 
de procurar sentido para as mãos, 
de juntar palavras de dia com palavras de noite
e escrever a louca saudade da maré alta, 
dos pinheiros altos, 
da janela alta das esperas.

Licínia Quitério

30.11.18

A AUSÊNCIA


É preciso partir. 
Amarrar viagens ao bordão de saudades 
que bem cedo florescem.
Fechar as asas da insânia

a pairar sobre os leitos.
Nas mesas espalhar o mel 
para que voltem as abelhas.
Visitar as aldeias da infância 
que tão mal conhecemos. 
Nunca retroceder, antes correr
ao encontro das vozes dos ausentes.
Fugir dos precipícios que sorriem,
dos cães danados,
do voo das harpias,
da boca de lava dos tiranos.
Decifrar a escrita do vento
nos livros das florestas.
Nunca dormir antes do ocaso.
Nunca dormir depois do ocaso.
A viagem não se faz de noite nem de dia.
A viagem navega em nossas veias
onde não há luz nem escuridão.
Quando partimos começamos
a construir a nossa ausência.
Também se pode dizer a eternidade.

Licínia Quitério

21.11.18

UM PAÍS



Há um país onde tudo arde
menos a boca das mulheres
onde a água se demora
e os olhos dos homens
onde a água escorre
É um país onde tudo seca
e treme
e desmorona
Só a água se demora na boca das mulheres
à espera de ser leite
e ser criança
Só dos olhos dos homens escorre a água
que vai ser lago
e afogar a cinza
Há um país à beira do abismo
Há uma mulher a contar as ovelhas
Há um homem a juntar as sementes
Nenhum deles quer saber o nome do país


Licínia Quitério

6.11.18

OS PEIXES



Contra o tempo nascidos
a terra os cria,
a guerra os mata, a guerra
a fome os mata, a fome
o medo os mata, o medo

Eis os sobrevivos, os andantes
os foragidos da tragédia
os do sangue fervente
por beberem as dunas
como se fossem água
por comerem as pedras
como se frutos fossem

Sonham com barcos
por não haver cavalos no deserto

O mar os chama
o mar os leva
o mar os traga

Alcançarão a frieza dos peixes
o seu bailado
a sua morte breve
líquida

Licínia Quitério

20.9.18

NOVO LIVRO


17.9.18

OBJECTOS


A tranquilidade dos objectos, 
o seu silêncio 
ajudam-me, 
acrescentam-me. 
Partilhamos histórias, segredos.
Eu sou, eles estão.
Usamos o mesmo canto de mundo,
a liquidez da noite.
Por sorte, eles não têm coração.

Licínia Quitério

14.9.18

RITMO



O gato dorme as suas horas de gato.
Os peixes ensaiam acrobacias.
As plantas crescem ao ritmo do silêncio.
Ventos furiosos massacram povos
longe do gato que dorme, dos peixes acrobatas,
do crescimento das plantas.
Eu espero ventos novos, sensatos.

Licínia Quitério

15.8.18

Que faremos


Dizemos que horror
que pena me dão
navegantes de barcos velhos
caminhantes de sandálias gastas
míseros de pão minguado
descrentes de milagres
comprados com as dores
dos finais infelizes

Fica pequeno o nosso coração
mas a nossa casa continua grande
a nossa pele ao abrigo das feras

Se tocarem à nossa porta
que perguntas lhes faremos
em que língua nos darão respostas

Deixaremos à solta os cães do medo
ou por sinais diremos
meu menino teu menino
água fresca mesa posta



Licínia Quitério

25.7.18

O INFINITO


Tudo é possível para lá do vidro.
Um candelabro, muros em pedaços,
rostos, folhas verdes,
um ou outro animal.
Reflexos, dizes, encontros, digo.
A luz é isto,
a transparência, o real e o virtual,

a verdade e a mentira.

A luz permite,
o vidro esconde, o vidro mostra.
Para lá do vidro todo o mundo habita
a mesma dimensão.
O nosso olhar
com o real não se conforma
e busca para além do vidro
o reflexo, dizes,
eu digo a ilusão, o infinito.

Licínia Quitério

23.7.18

O POEMA


Um poema não nasce nas pontas dos dedos
Não cresce porque o Sol se levanta
Um poema não se esconde nos retratos
Não espreita na cortina da noite
Não bebe no soluço da fonte
Um poema anda por aí
Na escuridão na claridade
No antes no depois
É preciso saber o nome do poema
Antes do nome a voz
Antes da voz
O silêncio
A casa onde o poema nos espera

Licínia Quitério

10.7.18


6.7.18

LUZ


Resistir, mudar, sobreviver
Um sonho a vários tempos
A casa, o corpo
Enquanto luz houver

Licínia Quitério

29.6.18


28.6.18

SIGNOS


Signos por decifrar, travessias de espelhos, fumarolas dançantes, soluços, agonias,
e também
risos, retratos gloriosos, fórmulas mágicas de poções mágicas, jardins de lírios e maçãs, anjos de pão e paz,
e também
demónios matadores, violadores de corpos e palavras, meninos afogados,
o desespero dos homens leiloados, o desespero das mulheres oferecidas, as gargalhadas dos invasores, as gargalhadas dos vendedores,
o rasgão na cortina, o estilhaço do vidro, o rasto de sangue no caminho das pedras.
Este rol infindável de carimbos na pele, este sufoco, esta ignorância, este desejo de luz que ilumine e não cegue
é o que nos habita os dias ensombrados
e também
os outros, quase felizes, ensolarados.

Licínia Quitério


14.6.18

MENINOS



Meninos
Na deriva dos ventos
Perdida a terra e a mãe
No grande mar balançam
Em frágeis fingidos barcos
Novas faluas sem barqueiro
Só frio só medo só sede
Quem os resgata
Quem os ampara
Na noite dos fantasmas
Quem lhes chama filhos
Quem lhes dá um nome
Quem lhes abre o porto
Quem

Licínia Quitério

10.6.18

COISAS RARAS




Estava no fundo do rio.
Era uma pedra, um segredo?
Só eu sei que senti frio.
Era Verão e tive medo

que a pedra me seduzisse,
que o segredo me tentasse,
que o sorriso me fugisse,
que a tua voz me escapasse.

Guardei o rio na memória
das coisas raras que achei.
Assim se conta uma história
de pontes que atravessei.

Licínia Quitério

9.6.18

CONVITE

http://www.centesima.com/content.asp?startAt=4&categoryID=15&newsID=859

Na Livraria Centésima Página, em Braga, no dia 22 de Junho, pelas 18h30m,

com os meus livros e as caligrafias de Ariana Andrade.

Apresentação de Virgínia do Carmo, da Poética Edições.

Apareçam.


Licínia


6.6.18



5.6.18

VOLTAR


Voltamos aos lugares onde passámos
de mão dada com a pequena idade.
Foi a rua que estreitou
ou os nossos braços se alongaram
em busca de outras ruas outros sóis.
Era uma terra amável de bons dias boas tardes
então por cá menina.
As tias velhas eram mais novas do que eu
agora sou. 
O tio levava-me ao castelo. 
O braço dele a apontar
vês lá em baixo o rio.
Hoje não sei ao certo como chegar
ao rio nem isso é importante
depois de tantos rios ter passado
e nem sequer dos nomes me lembrar.
Gostei de ver as andorinhas
iguaizinhas às que rasavam a janela.
Juro que ouvi a voz da tia
anda para dentro está a arrefecer.
Puxei para cima a gola do casaco
caminhei sem do calor me aperceber.

Licínia Quitério

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