
foto de L.Q
Não basta olhar o mar.
É preciso forçá-lo
a ser as nossas lágrimas.
Mergulhar nele os astros
há muito adormecidos
na franja do tapete.
Recuperar o sal
e semear a praia.
Esperar pelas algas
e entrançar os cabelos.
Beber no côncavo da onda
e afastar os peixes.
Não pronunciar escamas.
Antes pétalas.
Sempre dizer mergulho
e não naufrágio.
Somos velas em terra.
Por que não navegar?
Vagueava pelo doirado da praia, com as sandálias na mão, a baloiçar. Afagava maternalmente um cão que corria ao seu encontro. Baixava-se e apanhava conchas. Devolvia-as ao mar e a boca desenhava um sopro, ou um beijo. Acenava às gaivotas com braços brancos como lenços. Sempre sorria quando olhava o céu. Deixava um rasto leve nas areias, como se pena fosse. Não sei a cor dos olhos, dos cabelos. Podiam mesmo não ter cor, como se diz da água. Bailava em torno de uma pedra baça e nela acendia brilhos de fogueira. Pisava rendas de espuma e uma poalha de estrelas lhe salpicava a leveza da saia.
Há quanto tempo a não vejo. Vou perguntar ao mar se ma levou.
Licínia Quitério


















