24.2.07

DOZE ANOS


Eu tinha doze anos e
um corpo inconsciente

a brincar com o vento.

Da chuva só sabia que lavava

o sal das minhas mãos.

A verdura dos olhos
escondia segredos

na arcada do céu,
na fundura do mar.

Esperava pelo peixe
com asas de dragão
que me levasse
às ilhas perfumadas
dos meus sonhos de verão.

Aos doze anos
a areia era oiro em pó,

mas não tinha
valor
porque o maior tesoiro
estava na cabeleira loira do rapaz

a cavalgar a nuvem

e a soltar melodias
que havia de trocar
pelo pranto dos rios.

Com doze anos
eu tinha um coração igual ao meu.


Não, tu nunca tiveste doze anos. Os meus ficaram para sempre agarrados a um grão de areia que se entranhou no joelho direito e de lá se recusou a sair. Foi quando caí da bicicleta que o meu amigo me emprestou. Disse "sem mãos" e não reparei no pedregulho no meio da vereda. Chorei muito quando vi o sangue a escorrer e a empapar os "soquettes" brancos. Nesse tempo os curativos faziam-se na farmácia. Doíam tanto. Mas sabes que me sentia importante por ter uma ferida daquele tamanho? Como os heróis do Cavaleiro Andante, eu iria ficar com uma cicatriz. Eu sei que era literatura para rapazes, mas era da que eu gostava. Tu não. Nunca tiveste doze anos. Eu dançava, em redor da ameixeeira que meu pai plantara. E depois trincava as ameixas e deixava o sumo, mais escuro que o sangue do joelho, escorrer pelo pescoço, pela blusa. Dava-me arrepios. E o que eu gostava de me deitar de costas no chão da rua a olhar o céu. Dali viria o meu amor loiro. O pior era quando a minha mãe chegava primeiro.
Tive doze anos.
Tu não. Guardaste algum grão de areia no teu corpo? Então, já vês...

Licínia Quitério

Dedicatória: Para uma Menina que foto-escreve conversando com o seu grãozinho de areia.
L.Q.

18.2.07

RECANTOS



Tudo me pede a escrita,

a fala, o canto -

A chuva, o luar, a seca,
o frio dos homens.
O alvoroço de longas mesas
de banquetes
ou o silêncio inquieto
das esperas.
A idade dos céus
ou o princípio das feridas.
Os abismos e as clareiras
na espiral dos dias.
Os sinais, os enigmas,
os mistérios dos caminhos.
O granito e o cristal,
o carvão e o oiro,
ou o sabor dulcíssimo
de um eco.

Tudo me pede a letra,
a voz, a música
e o gesto.

Pobre, tão pobre sou
que dou o que me invento
e sempre fica um resto
num recanto do tempo.


De mãos dadas é uma expressão de maravilha. Mãos oferecidas, recebidas, presas por vontade. Asim se passeavam as duas mãos, a dele e a dela, um cofre de afectos, de certezas. Os corpos ao compasso das mãos, seguindo os caminhos por elas traçados, sem que os donos de tal se apercebessem. Detiveram-se por momentos diante da moldura tomada por trepadeiras de campainhas em estridências de azul. Uma luz branca, teimosa, a devassar espaços onde as cores amorteciam, os contornos se esbatiam. As mãos deram-se com veemência. Quiseram segurar o presente, para que os seus donos mais fundo sentissem a verdade daquele recanto de um tempo ido.

Licínia Quitério

12.2.07

O GOSTO


Gosto de me sentar em banquinhos de pau,
com cheiro adocicado de fumeiros.
Gosto do choro do salgueiro
batido pelo vento.
Gosto dos cães que não nos obedecem
que para tal nos bastam os seus donos.
Gosto de rebuçados de cinema
e de os desembrulhar na escuridão.
Gosto de olhar as montras
porque tudo o que mostram já me sobra.
Gosto da rouquidão da voz do adolescente,
a anunciar o eclodir do macho.
Gosto do Che mitificado no seu esquife,
como um Cristo de novo assassinado.
Gosto de receber saudades por herança.
Gosto do gosto da hortelã
antes de a ter na boca.
Gosto das pernas da Marlene a preto e branco,
em contraponto aos gritos do Tarzan.
Gosto do azul do céu, do azul do mar ,
mesmo sem mar nem céu;
azul, só de sonhar.

Gosto de tantas coisas, meu Amor,
mas do que eu gosto mesmo é de gostar.

Licínia Quitério, "Da Memória dos Sentidos"

Dizia amiúde coisas estranhas. Fora do contexto das conversas em que a julgavam presente. Faziam-lhe perguntas incómodas: Sabes que o Fulano deixou a mulher? Não, não sabia. Nem sabia sequer quem era Fulano. Porque esperavam que tivesse algo para dizer, arriscou: Como ficaram os olhos dela? As mãos dele agora estão vazias? Gostaria de saber. Mas ninguém tinha as respostas. Continuaram: Parece que arranjou outra. Exclamou: Oxalá gostem do mesmo mar. É tão importante para viajarem num barco de dois lugares. Dizia coisas francamente esquisitas.
Também os gostos dela eram bizarros. Chapéus com fitas coloridas, terras vermelhas, jogos de palavras, casa velhas. E já ninguém a podia ouvir afirmar, em ladainha: Gosto tanto! Nem valia a pena perguntar-lhe: De quê? Era sempre o mesmo. Subia ligeiramente os ombros, apertava as mãos e sorria com os olhos húmidos. Alguém um dia comentou: Parece que saíu dum quadro de Renoir. Ela não deve ter ouvido, senão teria sussurrado, com aquela voz sedosa e distante: Gooosto.


Licínia Quitério

6.2.07

MANHÃS


Sim também pertenço
a esta claridade matinal
suaves cortinados

frescas névoas

macia a cal
na fímbria dos telhados
restos de noite
a deslizar nas ruas
mornas as vozes

esperança de sol
na humidade das ervas
vagas promessas
de árvores futuras

Manhã
se te pertenço
traz-me o dia

farei dele o meu rosto

o meu vestido branco

a flor do meu papel de fantasia


Ela sabia o que a fez despertar tão cedo. Lembrava-se de ter visto o retrato a sair da moldura e a deitar-se a seu lado. Quisera tocar-lhe, mas os braços ficaram pesados, inertes. Foi bom o latido do cão no quintal das traseiras. Acordou sem ter tempo de dizer o porquê de todas as manhãs. Ouviu a voz de um dono a ralhar e a fala do cão a abrandar, a calar. Levantou-se, abriu a janela e ofereceu-se à luz indecisa da manhã. O corpo inseguro como um canavial a emergir da bruma. A ponte ainda lá estava. A que atravessaria até à outra margem do dia. Talvez por essa certeza, cantarolou baixinho: manhã tão bonita, manhã...

Licínia Quitério


31.1.07

MUROS


Muros, vendas, avisos,
feridas por sarar,
choros de estrelas moribundas,
ondas, memórias de mar,
metais ferventes,
trilhos de lava,
que quereis de mim?
Que tenha medo do oriente?
Nada sabeis dos meus domínios.
No meu peito há uma rosa de ventos
a girar, a girar.
Na minha voz um som antigo
a ecoar.
Que venham muros, vendas, avisos!
Vós não cabeis
nas minha mãos tão nuas.
Trilhos de lava,
esperai meu despertar.


Pequena, franzina, uma modesta página por escrever, diriam. Muitas estações percorridas, impressas na pele, nos cabelos. O corpo a fingir agilidade, traído por breves estremecimentos, como se memórias de vento o agitassem. O sorriso persistente, em desafios de alegria. Preparada para a luta, gostava de pensar. Assim enganava os pesadelos. Os óculos escuros, quase sempre. Os olhos eram o seu maior obstáculo. Macerados, mas teimando em denunciar brilhos profundos. Ainda não queria ser ilha. Península, sim. Estreita, cada vez mais estreita, a ligação ao continente. Quando decidia visitá-lo, transfigurava-se, com uma força de leoa jovem. Dizia, depois, cansada, mas contente: mais um muro derrubado. Era essa a sua maneira de contar os dias. Desde que o calendário enlouquecera.

Licínia Quitério

26.1.07

FIAMA


foto tirada da net


URBANIZAÇÃO

Tudo o que vivêramos
um dia fundiu-se
com o que estava
a ser vivido.
Não na memória
mas no puro espaço
dos cinco sentidos.
Havíamos estado no mundo, raso
um campo vazio de tojo seco.

Depois, alguém
urbanizou o vazio,
e havia casas e habitantes
sobre o tojo. E eu,
que estivera sempre presente,
vi a dupla configuração de um campo,
ou a sós em silêncio
ou narrando esse meu ver.

FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO


Como José Gomes Ferreira dizia dos pássaros, eu quero dizer que os POETAS quando morrem caem no céu. Seja ele o que for ou nada seja. É esse agora o lugar que me acolhe quando leio FIAMA.

Licínia Quitério

20.1.07

OS PÁSSAROS



O dia há-de chegar,
com a capa de vento

a ondular

e cabelos de sol
a clarear
o côncavo das grutas.


Nas mãos, o riso dos meninos

e o canto dos pássaros.

Sempre os pássaros,

com seus presságios

álacres ou soturnos.


Estarei na minha torre,

a entrançar desejos

de tapetes de flores

e de águas borbulhantes

e de pássaros verdes.

Sempre os pássaros.

O dia há-de chegar,

a embrulhar de azul

o meu castelo,

a invadir a torre,

a incitar-me ao salto,

a colar-me nos olhos

a leveza dos pássaros.

Sempre os pássaros.


Irei.


Desde sempre os conhecemos. Em bandos ou solitários, nos campos, nas praias, nas cidades, os pássaros lá estão. Espiam-nos, chamam-nos, provocam-nos. Às vezes rasam-nos o corpo, sem se deixarem tocar. Cantam para nos acordar, gritam à procura do asilo nocturno ou aparecem de noite a piar tristezas. Louvam a vida e pressentem a morte. Habitam os troncos das árvores ou as moitas rasteiras ou as fragas nas alturas. Mergulham até ao peixe ou debicam as searas. Sabem tudo do vento e das tempestades. Livres, livres. Tão alto subindo, tão alto, são a nossa inveja, a medida da nossa pequenez. Nunca os poetas os ignoram. Ilustram-lhes os versos ou são os próprios versos. Quem pode imaginar um mundo sem os pássaros?

Licínia Quitério

14.1.07

PENAS



como uma pena
deixas a ave-mãe e oblíqua voas

por vezes hesitante por vezes saudosa


vejo-te arrepiada mas não fria
ainda não cansada não dorida

mas ao sabor dos ventos dominantes


fazes-me pena agora

apenas pena

à espera de repouso numa ave

que te embale sem nada perguntar

Penas como tu assim perdidas
escondem as falas na dobra do olhar


Desejos de partir. Quem os não tem? Deixar a moleza do berço, dizer adeus à casa, guardar na trouxa o respirar das ervas do quintal, a cantata de vozes amigas, uma mão-cheia de luz da janela do quarto e nada mais. Fazer-se vaga-mundo. Declarar, pela primeira vez, como gosto de ti, minha Senhora Vida. Seguir, subir, subir. E sorrir, sorrir muito. Sentir o corpo igual à terra e ao ar. Esquecer que há ganhar e perder.
Poucos o fazem. Medo de regressar. De não achar a aldeia. De nunca mais as suas falas serem percebidas. Guardarão no coração para sempre a pena de terem ficado. Por medo de outras penas.

Licínia Quitério

8.1.07

PIEGUICES


dizer
o teu olhar

assim como quem diz
o tamanho da nuvem

ou o peso do vento

ou o contorno breve
da alegria


as tuas mãos

como falar dos peixes

em lagos de frescura
ou dos arados

na quentura dos dias

a tua voz

a cantar no silêncio

das cordas do violino

antes do arco


dizer-te
na lonjura
inteiro nos meus passos

como se fosses música
como se fosses luz

como se fosses força

como se sempre fosses


Piegas, como já não se usa. Acocorada, a fotografar um pequeno lago de jardim há muito necessitado de limpeza. Explicou:

é a Vida. pequenos frutos selvagens que ninguém quis comer. folhas cansadas das árvores. seixos atirados por crianças marotas. musgos. larvas. um fervilhar dos fundos a explodir à tona. águas antigas, sábias. já aqui nadaram peixes vermelhos. se pudesse, guardava tudo isto num livro que foi meu.

E riu-se. Parecia contente. Aquela cabeça! Não acaba bem, não.

Licínia Quitério

2.1.07

PERCURSOS


Venho de longe
de terras pobres
caseadas de portas
com trincos de madeira

Trago nos olhos
os microcosmos
das brasas das fogueiras


Nos cabelos
os cheiros da queima das ervas

a esconjurar maleitas


No longe havia gente
que atirava palavras

à dor e à alegria

e aos bichos tresmalhados


Para trás ficaram
as fontes e a sede dos cântaros

e a evidência da Cassiopeia

e o bailado dos vaga-lumes

Venho guiada pelo murmúrio

de raízes subaquáticas

Perdi o mapa das viagens

e desprezo regressos


Aqui cheguei
para conjugar o verbo

no tempo dos meus passos


Percorres-te. E vais abrindo sulcos até chegares ao ponto em que te vejas.
Tropeçarás em músculos, nervos e artérias onde pulsa o vermelho. Continuarás sem pressas e pensarás como cidade velha que rompeu as muralhas.
Quem te habitou? Quem te viveu? Quem de ti emigrou?
De tanto caminhares na inclinação do corpo, mesmo encostado ao osso te hás-de achar.
Muito sereno, sem nada te doer, esquecido das espadas, enfim dirás:
Prazer em conhecer-te. Contigo vou ficar.

Licínia Quitério

28.12.06

ANO NOVO



O POETA BEBE A LUZ
E INCENDEIA AS PEDRAS
NO SEU PEITO
O ANO É SEMPRE NOVO


Para todos os que durante o ano que está a findar visitaram este blog, mesmo sem o comentarem, vai o meu veemente agradecimento. Tenho aqui posto as palavras que sei dizer. Muito para além das minhas expectativas, tenho encontrado eco em leitores generosos e sabedores que me incentivam a continuar. Bem hajam, Amigos!
Um Novo Ano de claridade e esperança para todos.

Licínia Quitério

18.12.06

O CIRCO

Círculo de Cor, de August Macke

Desta vez é que vou
encontrar o lugar
que possa partilhar
com a pomba e o leão,
o camelo e o cão,
a menina bonita
de doirado despida,
o cavalo a correr
e a menina a aprender.

Senhoras e Senhores,
público respeitável,
vamos todos viver,
numa noite notável,
o maior, o maior
espectáculo visto.

Chapéu de sol e estrelas,
muita cor, muita luz.
Os bancos são de pau,
a música não para
e nesta grande nau,
redonda como o sonho
de todas as infâncias,
o coração aquece
e nós temos os olhos
e os ouvidos atentos
a tudo o que acontece.

Aqui não há distâncias
entre nós e o palhaço
que tropeça, tropeça,
sem chegar a cair
e que chora em repuxo,
a fingir, a fingir.
E os miúdos a rir
e os graúdos a rir.

Desta vez é que vou.
Vou partir com o circo.
Vou tocar o trompete,
vou vender chiclete.
Pinto as unhas de verde,
calço as botas de cano
com que sempre sonhei,
ajudo a desdobrar
o tapete do mágico
com que vai ocultar
a hora de cortar
a mulher deslumbrante
em três partes distintas.
E o público a pensar:
se algo correr mal,
como é, coitadita,
quem a vai consertar?
E eu por dentro de tudo
a saber como é.

Desta vez é que foi.
Já tenho o meu lugar
neste mundo em viagem,
bem dentro da miragem
que só tem uma margem:
a do lado de lá,
onde a pomba e o leão,
o camelo e o cão,
conhecem a Mimi
a trepar pela corda
e a acenar com um lenço,
e o palhaço que chora,
e o menino que ri,
e a menina bonita
no cavalo a correr.

Fui com o circo de vez.
Quando me anunciar,
o homem do turbante
vai dizer como faço
um número importante:
“Se subir é difícil
descer é bem pior!”
E o rufo do tambor
a engrossar o tremor
nos assentos de pau,
nos remendos da nau
que amanhã partirá
p’lo mundo, onde haverá
sempre alguém a dizer:
(baixinho é bem de ver
não vá alguém ouvir)
Vou partir com o circo,
desta vez é que vou,
ninguém me irá deter.

É entrar, é entrar,
meus senhores, é entrar!
O maior, o maior
espectáculo visto
não tarda a começar!!


Num registo um pouco diferente do habitual, hoje convido-vos para uma ida ao circo. O maior espectáculo do mundo anda por aí. Se eu demorar um pouco mais, não se assustem. Talvez me tenham passado a chamar Mimi. Por uns tempos. Só por uns tempos. Entretanto, que a Magia vos acompanhe.

Licínia Quitério

12.12.06

RETIROS


Sentir
a doce primavera

no abandono da parede nua.

Saborear nos frutos

o segredo da lua.

Lavar as mãos no rio

e perceber na água

a cicatriz do frio.

No rosto

a palidez de um sonho

ainda por sonhar.

O veludo de mãos

a tactear o corpo

esquecido de acordar.

Um arrastar de passos

na rua que não há.


Tão longe a dor
no tempo de retiro.

Em vez do gelo o vinho,

em vez do ferro o copo,

em vez da briga a festa.

Na mesa posta
da embriaguez,

a ternura servida

e convidado o riso.

Silenciado o grito.

Tão longe a dor
.
Quem dera no infinito.


Havia dias em que não aguentava o peso daquele arremedo de vida cheia. Esperavam dele o que nunca alcançara. Só sonhara. Cercado. Era como se sentia. Diziam-lhe como és importante e achava-se uma minhoca. Pediam-lhe esmolas e era ele o mendigo. Batiam-lhe palmas e só queria afagos. Pedia amor para aprender a amar. Cansado de dizer ternura como quem diz eu queria. Tentava uma saída. Era quando o descobríamos, à beira de um vago abismo, embriagado pela leitura de um livro, a gola levantada contra o frio, retirado do ruído do mundo que lhe estoirava a pele.

Licínia Quitério

6.12.06

LABIRINTOS


foto de L.Q.
É a brancura da manhã deserta
dos rostos habitantes de outros
sóis.
O rumor leve das folhas outonais

pelas veredas do teu ouvido interno.
Escutas a história de Ariadne,
a outra, a descuidada, a sem temor,

a que se riu do Minotauro e o fio largou.


Não queres saber do fim.
Afastas a folhagem.

Basta-te o labirinto do silêncio.
Teseu não mais voltou.
Se morto ou matador, agora tanto faz.


Nunca entendeu a cidade. As ruas como serpentes, subindo e descendo colinas, num alvoroço de carros e de gentes. Becos, travessas, calçadas, em profusão. Largos, praças, pracetas. Sabia que lá no fundo se deitava o rio. Dele o cheiro de marés e marinheiros de travessia. Dele a neblina sonolenta a roçar as portadas, a assustar as sardinheiras. Quantas vezes se perdeu na traiçoeira malha de caminhos? Insistia. Retrocedia, aceitava o desafio de uma curva em cotovelo, seguida de outra e outra e mais outra. Dobrava as esquinas que para ser dobradas foram feitas. Por vezes, sentia cansaço e parava num miradouro. Aproveitava para ganhar pontos de referência: uma igreja, um obelisco, um jardim, um prédio assustadoramente alto. Não voltaria a perder-se. Mas a memória estava gasta de lembrar os seus mapas interiores. E voltava a perder-se. Desistiu de entender a cidade. Aprendeu a viver nela sem tentar decifrar-lhe os enigmas. Tranquilamente, percorria os seus labirintos, deixando o acaso escolher as direcções. Até que um dia se encontrou em frente a um portão entreaberto, ao fundo de uma ruela sem brilho. Ia jurar que nunca ali tinha passado. Sentiu um arrepio quando o transpôs. Olhou para trás e viu a cidade larga, limpa, sem serpentes nem neblinas. Mas longe, longe... E seguiu em frente.

Licínia Quitério

30.11.06

DO MAR


foto de L.Q

Não basta olhar o mar.

É preciso forçá-lo

a ser as nossas lágrimas.
Mergulhar nele os astros

há muito adormecidos

na franja do tapete.

Recuperar o sal

e semear a praia.

Esperar pelas algas

e entrançar os cabelos.

Beber no côncavo da onda

e afastar os peixes.

Não pronunciar escamas.

Antes pétalas.

Sempre dizer mergulho

e não naufrágio.

Somos velas em terra.

Por que não navegar?

Vagueava pelo doirado da praia, com as sandálias na mão, a baloiçar. Afagava maternalmente um cão que corria ao seu encontro. Baixava-se e apanhava conchas. Devolvia-as ao mar e a boca desenhava um sopro, ou um beijo. Acenava às gaivotas com braços brancos como lenços. Sempre sorria quando olhava o céu. Deixava um rasto leve nas areias, como se pena fosse. Não sei a cor dos olhos, dos cabelos. Podiam mesmo não ter cor, como se diz da água. Bailava em torno de uma pedra baça e nela acendia brilhos de fogueira. Pisava rendas de espuma e uma poalha de estrelas lhe salpicava a leveza da saia.
Há quanto tempo a não vejo. Vou perguntar ao mar se ma levou.

Licínia Quitério

24.11.06

DO DESENCANTO

Foto de L.Q.

Um homem dorme nas arestas do frio
os ossos apoiados na lembrança
de um verão abrasador.
Eis o sono do homem
que percorreu os mares e regressou.
Nos olhos o esplendor da verdura das ilhas.
As mãos em leque na explicação das aves.
Parava em Maio a ouvir
o eco dos trovões pelas esferas.
Sentou-se amarrotado
nos degraus cor de cinza da pobreza.
Era quando cantava
com a voz doente do remorso.
Cansou-se da viagem
e desistiu da água
e demandou o porto.
Chorou ao tactear o gume da cidade.
Ensurdeceu que a música era grito.
Emudeceu na espera do silêncio.
Guardou no bolso a aspereza do dia.
Adormeceu obedecendo à noite.
Não sabe se sonhava.
Não sabe se dormia.


Arredou a cortina e espreitou a rua. O dia tinha sol, daquele a que se costuma chamar radioso. Devia ser Domingo. Há muito que o calendário deixara de lhe interessar, mas percebeu que a padaria estava fechada e viu uma jovem que andava com todo o vagar, parando de vez em quando para tirar uma fotografia. Pelas sombras das casas projectadas no passeio, concluiu que ainda não era meio-dia. Há muito deixara de olhar para os relógios. Não eram eles, nem os calendários que marcavam o passo do tempo. Maquinalmente, acendeu um cigarro. Era o último do maço. Que chatice, pensou. Tomou banho. Olhou-se no espelho e, com surpresa, viu uns fiozinhos líquidos a correrem dos olhos e a esconderem-se nas barbas. Há muito que isso não lhe acontecia. Concluiu: Tenho de ter mais cuidado. Um homem sem a companhia de um cigarro pode ser apanhado pela tristeza.
Saiu apressado à procura de uma tabacaria.

Licínia Quitério

19.11.06

PARQUES


Foto de L.Q.

O tempo nos parques é íntimo, inadiável,

imparticipante, imarcescível.
Medita nas altas frondes, na última palavra da palmeira,
na grande pedra intacta, o tempo nos parques.
O tempo nos parques cisma no olhar cego dos lagos,
dorme nas furnas, isola-se nos quiosques.
Oculta-se no torso muscular do ficus,
o tempo nos parques.
O tempo nos parques gera o silêncio do piar dos pássaros,
do passar dos passos, da cor que se move ao longe.
É alto, antigo, presciente o tempo nos parques.
É incorruptível; o prenúncio de uma aragem,
a agonia de uma folha, o abrir-se de uma flor
deixam um frémito no espaço do tempo nos parques.
O tempo nos parques envolve de redomas invisíveis
os que se amam; eterniza os anseios, petrifica
os gestos, anestesia os sonhos, o tempo nos parques.
Nos homens dormentes, nas pontes que fogem, na franja
dos chorões, na cúpula azul, o tempo perdura
nos parques; e a pequenina cutia surpreende
a imobilidade anterior desse tempo no mundo
porque imóvel, elementar, autêntico, profundo
é o tempo nos parques.

VINICIUS DE MORAIS

Passeiam-se nos parques como gatos. Deslizando, com elegância e sem pressas. Apurando os sentidos, a reconhecer o território. Afagam o tronco de uma árvore, olham a copa e, se fosse da sua natureza, trepariam e ficariam muito serenos, deitados no garfo de dois ramos jovens. Esmagam nos dedos uma folha de lúcia-lima e cheiram-na, aspiram-na, com sensualidade disfarçada. Pontapeiam uma pinha caída no saibro do caminho, para depois, mais adiante, a apanharem e a arremessarem. Como um gato faz com um novelo. São solitários. Evitam cruzar-se com outros exploradores. Procuram tomar caminhos diversos. Debruçam-se nos lagos, molham as pontas dos dedos e não as enxugam. Às vezes passam-nas no rosto. Espiam os pássaros, detêm-se, para não os assustarem.
Os gatos, esses, aparecem de noite. É o seu tempo dos parques. É também o tempo de muitos outros bichos que viram os homens sem serem vistos. Dos mistérios dos parques só os gatos sabem. Nunca os revelarão. Os poetas sabem disso, mas continuarão a deslizar nos parques, imitando os gatos. Na esperança de um dia saberem ler o que eles trazem inscrito nas pupilas.

Licínia Quitério

14.11.06

DAS SOMBRAS


Foto de L.Q.

e a minha amiga disse

“é preciso que chova

abundantemente chova”
.
disse-o com o lápis afiado

a bailar na folha amarelada

do caderninho em que desenha
histórias
de chuvas
que só ela sabe
.
palavras de poeta
húmidas e ferventes

a colorir as flores
do sangue em nossas veias
.
a lavar as ruas
das sombras incoerentes.


Diz frases curtas, bonitas, sempre precedidas de leves silêncios. Traz consigo livros e cadernos e lápis de cor e amostras de lãs grossas de cores, diria, tropicais. Com os dedos finos e longos enrola e desenrola fios de missangas, enquanto fala das gaivotas, das pedras, das chuvas. Para, pensativa, entre dois golos de chá de camomila, para ver por dentro a acácia dos seus sonhos recorrentes. Meio envergonhada, pede-me que leia um poema que escreveu durante a última insónia. Escrito à mão, numa caligrafia de menina prendada. É uma Senhora Poetisa, mas ninguém a conhece. Um dia, hei-de levá-la ao cimo do meu monte de planetas e gritar o seu nome. Quando ela voltar a casa, poderá lê-lo nas pedras da calçada em frente à porta. Uns se espantarão ao ver desenhada uma acácia. Outros dirão que são apenas sombras incoerentes.


P.S. Dedico este post
a todos os poetas do meu País que nunca viram os seus trabalhos publicados. Na sombra das gavetas, há muitos e belos poemas à espera dos leitores que com eles possam voar. Quem sabe um dia...

Licínia Quitério

9.11.06

DAS RUÍNAS

foto cedida pela Tina e pervertida por L.Q.

Na vila velha, a casa velha,
ou as veias nas fendas onde correm

trepadeiras de campainhas azuis

que sempre voltam com as andorinhas,

ou os gatos invisíveis nos parapeitos,

a lamber feridas inventadas,

ou os restos teimosos da tinta verde

nas paredes da sala de jantar,

ou o frio respirar das lagartixas no beiral

do telhado azul de nuvens raras.

Lá dentro, uma tosse miúda, persistente
,
ou um ranger de portas empenadas

ou os talheres a tilintar na mesa,

a abafar suspiros censurados,

ou os gritos do medo pelo escuro

ou o piar do velho mocho

ou as correrias das crianças:

não me apanhas, não me apanhas…

Ali a casa ainda habitada

a alimentar ruínas.

Licínia Quitério, "Da Memória dos Sentidos"


"Por fim, depois da Revolução, creio, conseguiu pensões do Estado que lhe davam para viver. Mas os cães e os gatos, que tratava como filhos, levavam-lhe tudo. Viviam com Ela, na casa que foi envelhecendo, rachando, apodrecendo. Por dentro e por fora. Foi fechando salas, desligando luzes, pregando janelas. Não deixava ninguém entrar. Não permitia que se visse o que era fácil de adivinhar. Atendia as pessoas a uma janela, por último já só entreaberta.
Também Ela foi ficando velha, encurvando, encolhendo. "
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"Não, nunca aceitou a disciplina do Lar de Idosos. Era difícil de aturar, mal-educada, agreste para empregados e visitas. Detestava tudo e todos. Dizia-se presa. Teimava, iludia vigilâncias e conseguia o cigarro, o uísque. Queria voltar para a sua “barraca”, como, com requebros de doçura, chamava aos restos da casa que afinal havia de lhe sobreviver. Duram tanto, as casas, não acha? As pessoas, não. Depois, as casas ficam vazias. É uma pena. Antes que me esqueça. Reparou que a casa lhe ganhou o nome? Passou a ser “A Casa de Ela”. "

(excertos de um conto)


Licínia Quitério

4.11.06

COISAS SIMPLES


Foto de L.Q.

Sobre a mesa de pinho
uma taça de vidro

Lá dentro
uma castanha brava
um tronco de alfazema
colhido no quintal
uma folha de choupo
que me bateu à porta
uma bolota que chegou do sul
uma falha de xisto
um pedaço de lava do vulcão
uma minúscula rosa do deserto
uma vieira um búzio
uma estrela do mar

Tudo tão simples

A natureza veio à minha casa
descansar


Há quanto tempo foi que, pela última vez, paraste e te sentaste e respiraste fundo e fechaste os olhos e folheaste o álbum das tuas imagens? Eu quero dizer aquele álbum a que colaste a etiqueta "Coisas Simples". Já não te lembras. É natural. Depois de tantos temporais, de tantas guerras, de tantos relatos em grito sobre essas guerras e esses temporais, como deves estar cansado. Tão cansado que tens medo de parar. Ou vergonha... Não tenhas. Acredita em mim. Parar é reconhecer a Vida. Pode acontecer que sintas um leve arrepio. Um estremecimento como se adivinha na relva pela tardinha. Não te assustes. É o sinal de que estás pronto para saborear de novo as pequeninas coisas que havias esquecido. Foram elas que fizeram de ti um homem grande. E continuam ao teu dispor. E gostam que as revejas, de olhos fechados. Com um sorriso doce. Assim mesmo. Assim...

Licínia Quitério

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