17.11.25

A FRONTEIRA

 

quero passar a fronteira

trago comigo

fechado neste saco

o pouco que aprendi

na mala a abarrotar

a teimosia de viver


mais nada a declarar

a não ser

senhor agente

este frasco a cheirar

às mãos da minha mãe

em afago permanente


senhor agente

vou dizer-lhe um segredo

uma fronteira é um traço

num mapa

é só passar um dedo e apagar


não conte a mais ninguém

e deixe-me passar


adeus senhor agente
Licínia Quitério

12.11.25

A TEMPESTADE

 Vai passar vai passar a tempestade

Escuta o discurso do vento

Recolhe a folha seca

Com um recado inscrito

Podes não ter aprendido

A linguagem das nervuras

Mas elas conhecem

O desenho da tua mão

A voz do vento dir-te-á

Um nome que esqueceste

Numa conversa de outro tempo

A chuva canta no parapeito

Um cânone de outras paragens

A tempestade vem e vai e voltará

Tu continuarás  sem entender

A impermanência dos dias da bonança


Licínia Quitério


9.11.25

AS CASAS DA GUERRA


São as casas da guerra
tão baixas
quase rente à ideia de casa
Esventradas
quase só pedra e memória de abrigo
São volúveis
seduzidas por cantos novos
silvos estrondos
As casas ajoelham
sobre uma manta um colchão
Uma panela sobre a trave
Uma desordem nova
nas casas da guerra
todas semelhantes
Uma vergonha antiga
de moradores que eram também as casas
as paredes das casas
o respiro dos bichos das casas
Fumegam as casas da guerra
como se fervessem
o chá o caldo
a água de um carinho que esqueceram
que lhes roubaram
Diz-se


Licínia Quitério


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