1.10.06

CONTINUAR



Ensaio de foto dedicada a esta amiga e a este amigo

Responder à chamada

de quem nos fala de água
e afogar os demónios
das estradas da noite.

Bonito é caminhar
sobre as memórias
dos pássaros de fogo
que é como quem diz
de mãos abertas e trementes.

Obrigar as tábuas do soalho
a devolver os cheiros
das ceras e das danças
e do suor libidinoso e casto
de antigas madrugadas.

Redescobrir a fonte dos amores
quase a desmoronar
com a falésia.

Dizer bom-dia.
Continuar em frente.
Um pé em terra firme
o outro na maresia.

Há quantos anos estais aí, portões, muros, caminhos arenosos que escondeis calhaus rolados? A resposta não vem. Porventura a pergunta não devera ser esta. Tento outra: Quantas gaivotas vos sobrevoaram a ensaiar os voos picados sobre cardumes que daqui se avistam? De novo o silêncio.
Desisto e continuo a jornada. Olho os meus pés doridos e indago: Há quanto tempo aqui vos trago? Responderam: Pela primeira vez hoje vieste.
Mentiram, mas ensinaram-me a continuar. Só assim poderei aprender a perguntar.

Licínia Quitério

19.9.06

VIRÁS

Fragonard

Virás solene e belo

com o brilho da prata
e o verde dos limos
e a maciez das pétalas
e a ternura inconfessada
dos guerreiros.

Sorrirás pelos trilhos da alva
desviando as facas
domando as fúrias
do meu descaminho.

Perguntarás:
Mulher quem és agora?
Lavarei as mãos
nos meus ribeiros
para nelas beber a tua voz.

Não te responderei
antes do anoitecer
quando o meu corpo
se esquecer do cardo
e se fizer o lírio.

Aguardarás sereno
como uma prega
na espádua do tempo.

A hora chegará
de retalhar as cordas
e atravessar o espelho
e apagar o lume
na casa da montanha.

Só então te direi:
Sou a pedra de canto
do sítio que habitavas.
Meu nome um monossílabo
como tu como eu
como chão como céu.

Licínia Quitério


Vou fazer uma pausa. Espero regressar brevemente. Este convívio é precioso demais para desistir. Que a Poesia, como eu a sinto, vos acompanhe.

Licínia

15.9.06

DA POESIA

Auguste Rodin - A Catedral

Se o poema demora,
espera o progresso dos ramos,
o choro oculto
na voz quente dos homens,
o anúncio do verão
na curva da cintura das mulheres.

Repousa as mãos na mesa
até que se desdobre
o algodão bordado
e se apresente o pão.
Dorme.
O corpo sobre a manta
da névoa litoral.

Acorda, com a calma
de um dia sem defeito.
Acolhe a ternura nas mãos,
o beija-flor no peito,
a música na pele.

Chegará o poema
a inundar a folha de papel,
a gravar nas sementes
a quentura do sol,
a desenhar perfis
de estátuas gregas
no céu do laranjal.


Licínia Quitério


"... Para seu equilíbrio, o Homem necessita tanto de instrumento como de símbolo, tanto de funcionalidade como de poesia, tanto de engenharia como de transcendência.
O excesso de um destes lados da balança produz doença. O excesso de instrumento produz a angústia de um grande vazio interior. O excesso de símbolo pode levar ao delírio sem meta nem objectivo.
A nossa sociedade prima pelo excesso de função. Pela falta de voo. Pela incapacidade para dialogar com as grandes e misteriosas forças do Universo e da alma humana.
Mas em todos os momentos da História apareceram os artistas e os poetas com as suas oficinas de pedras e de cores, de palavras e sonhos, a tentar levar o nosso olhar mais acima e mais ao fundo.
Estes artistas e poetas são homens e mulheres inquietos. Gente que se interroga sobre as suas angústias, que fala com a macieira e com a corrente do rio, que constrói catedrais e que se alimenta de música. ..."

JOSÉ FANHA

10.9.06

DO VAZIO

Foto antiga


Vazios os lugares
e as mãos abertas
a tactear os rostos
como paredes nuas.
Pálidas as vozes
e nos ouvidos
só apelos de mar
na vaza da maré.
Quando por fim a tarde
aceita a rendição
as mulheres amam
os lugares vazios
e deitam-nos no colo
e embalam-nos
com as vozes sobrantes
do cansaço.
Mesmo os lugares vazios

sonham com a enchente
na cava desse abraço.


Por instantes, a mulher desafiou o vão do arco e casou o corpo com o aprumo da coluna. Ergueu o braço e, com a mão em pala, ajudou o olhar na busca do rio. Talvez tenha avistado as caravelas por detrás das casas. Voltou-se a sorrir e convidou o homem: Vamos continuar as descobertas? Foram. O lugar permaneceu. Sem o sorriso de inventar navegações. Vazio.

Licínia Quitério

5.9.06

DAS MÃES

Postal antigo

Afagam os cabelos dos filhos
com dedos desarmados
e pensam fios de linho
no tear das lembranças
do enxoval.

Do linho nascem panos impolutos
que com dedos armados vão rasgar
até que a fios tornem.

Quando os filhos partirem
percorrerão os vales
subirão aos montes
com os fios do linho nos braços
a cantar.

Alguns ficarão presos em silvados.
Outros se perderão pelos caminhos. Mas
a paciência das mulheres é infinita
quando se trata de voltar ao tempo
de afagar as sedas

ou de rasgar o linho até ao fio do olhar.

Recordas-te, Mãe? Eu tinha os cabelos ruivos e encaracolados. Sentias muito orgulho na cabeleira da tua Menina. Dizias, quando eu corria ao Sol do meio-dia, que a minha cabeça parecia envolta em labaredas. E, ao dizê-lo, os teus olhos verdes eram lagos de Verão.
Depois, o meu cabelo envergonhou-se e escureceu. Acalmou as chamas. Mas ainda hoje, se está feliz, ganha reflexos rápidos de cobre líquido.
Agora estás a dizer-me que um dia os meus cabelos serão brancos, como os teus. Vou gostar. Já que não tenho olhos de mar, terei um diadema de espuma branca, como as ondas.
Recordas-te, Mãe? Quando eu aninhava a cabeça no teu colo, os meus cabelos corriam em busca da seda das tuas mãos. Tudo ficava tão lindo, Mãe. Recordas-te?

Licínia Quitério

31.8.06

DA SAUDADE



Salvador Dali - Rosa Meditativa

Ainda é cedo, sabes?
As pedras são maiores que as nossas mãos.
No ar pesa a espessura da tristeza.
As uvas estão verdes.
Não é tempo do vinho.
O grão já é farinha mas
o fermento dorme.
Não é tempo do pão.
Pequenos os seios das mulheres.
Não é tempo do leite.
As abelhas zumbem mas
a flor do rosmaninho é só botão.
Não é tempo do mel.
Amargos os lábios dos homens.
Não é tempo do beijo.

Ainda é cedo, sabes?
Esperemos de mãos dadas
sentados no caixote dos brinquedos
bebendo os versos que havemos de escrever.

Verás que amadurece o tempo da saudade.



Vamos a um dicionário e encontramos a definição da palavra saudade: lembrança triste e suave de pessoas ou coisas distantes ou extintas, acompanhada do desejo de as tornar a ver ou possuir; pesar pela ausência de alguém que nos é querido; nostalgia.
Sabemos que é um substantivo muito comum, do género feminino (tinha de ser?), singular em número. A partir deste enquadramento gramatical, podemos dizer:

"Prazer em conhecer-te, saudade. Vou fazer-te sujeito da oração: A saudade é transparente. Ou objecto: Eu sinto saudade do mês de Abril. Adjectivar-te: Saudade louca. Quantificar-te: Tanta saudade. Tecer considerações a teu respeito: A saudade não mata. A saudade seca. Dar-te ordens: Vai-te embora, saudade."

Um desafio:
Saudade é...
Quem quer arriscar um sinónimo? Claro que não virá em dicionários. Tem de vir de dentro, do coração.
Fico à espera, na volta do correio.

Licínia Quitério

26.8.06

DA NOITE






Vincent Van Gogh - Noite Estrelada


NOCTURNO

Eram, na rua, passos de mulher.
Era o meu coração que os soletrava.
Era, na jarra, além do malmequer,
espectral o espinho de uma rosa brava...

Era, no copo, além do gin, o gelo;
além do gelo, a roda de limão...
Era a mão de ninguém no meu cabelo.
Era a noite mais quente deste Verão.

Era, no gira-discos, o "Martírio
de São Sebastião", de Débussy...
Era, na jarra, de repente, um lírio!
Era a suspeita de ficar sem ti.

Era o ladrar dos cães na vizinhança.
Era, também, um choro de criança...

DAVID MOURÃO-FERREIRA


É de noite e pelas paredes da casa escorrem sombras, a iludir as formas, a engordar volumes.
Ela é Alice e olha o gato enroscado no colo.

As flores na jarra secaram, mas a lembrança do orvalho dá à noite um cheiro líquido. Os livros dormem e alimentam a avidez das traças.
De longe, chega o lamento uivante de alguém que se perdeu e não voltou a casa.

É de noite que chora. Não grita, não soluça. Só lágrimas a lavar a máscara do dia.
De noite escreve. Sem endereço, que o mensageiro é a própria noite, sabedora de destinos por cumprir.


Licínia Quitério

25.8.06

DESAFIOS

Egon Schiele - Mulher Sentada


O Herético teve a gentileza de me nomear, no Jogo de Etiquetas que anda a passar entre bloguistas. Correndo o risco de não fazer a escolha mais correcta, porque apenas posso etiquetar seis Amigos, aqui declaro:

Alfazema Azul - O Preservar da Memória
Amar Palavras - A Poesia à Flor da Pele
Diafragma - O Bom Senso e o Bom Gosto
Dovoar - A Poesia em Estado Adulto
Era uma vez um Girassol - O Feminino
Papel de Fantasia - O Saudável Humor

Escuso-me a por etiquetas em mim própria. Deixo a tarefa para quem me conhece pelas palavras que escrevo.

Que este desafio seja mais um sinal de que as cumplicidades e as partilhas são possíveis neste nosso território "blogal" que também é, em grande medida, um local de recreio do espírito.

Licínia Quitério

20.8.06

DA GUERRA


Delacroix - Entrada dos Cruzados em Constantinopla

Chegam notícias da guerra.

Disseram-me que as guerras
visitam as cidades.
Tenho medo.
A minha cidade é antiga.
As ruas têm pedras soltas
em que os velhos tropeçam.
Na torre da igreja maior
faltou o azeite.
As corujas partiram.
Os jardins estão pobres
(a chuva tem sido salgada).
Mas na cidade eu habito
e nela acolho os irmãos
e os filhos deles.
Na pequena praça
há o banco verde
com uma criança ao colo.
É uma cidade triste,
mas antes de o ser
já era a minha cidade.

Chegam notícias.
Penso fechar as portas da cidade
e convocar as cores.
A cidade será
o ocre da planície,
o cinzento do céu.
Cidade sem cidade.

Dizem as notícias
que a guerra nada sabe do silêncio.


Nos teus olhos morava, desde há muito, a guerra. Talvez lá tivesse estado desde o princípio. Da guerra soubeste quase tanto como do amor. Quando ela, sem convite, se sentou à tua mesa, afastaste decididamente as formigas de asa que te disputavam a carne ressequida. Olhaste os pés e viste que te tinham calçado botas de soldado. A palavra inimigo passou a morar diante da tua porta. Pensaste em acompanhar a debandada das formigas de asa e procurar o deslumbre de uma lâmpada. Mas mandaram-te ficar. Vestiste as cores sujas dos guerreiros e defendeste o teu charco e a pele dos teus homens. Apuraste os cálculos e a pontaria. Conseguiste, disparando, dizer ao inimigo: "Não te matarei. Não me matarás.". O pacto foi selado na escuridão da noite tracejada pelo lume das balas .
Na tua guerra ninguém morria. Até ao dia em que, de ambos os lados, o pacto foi quebrado. Nada pudeste fazer. Voltaste, incólume. Mas nem o amor conseguiu tirar dos teus olhos a dor de teres visto a guerra.


Licínia Quitério

15.8.06

DA ALEGRIA


dizes-me alegria
e abro-te a janela do meu peito
onde se escondem ramos
de perpétuas roxas

vem colhê-las com os olhos

a aragem dum beijo
poderá magoar
o tule a seda o vidro
à beira de quebrar



Os nossos sentimentos podem ser tão frágeis quanto esta árvore que Klimt pintou, quanto uma folha seca entre as páginas de um livro. Que fazer da alegria ? Contemplá-la, segredar-lhe carícias, abrir a alma e dar-lhe guarida, se quiser. Quando for embora, poderemos abraçá-la com força. Uma boa lembrança é um animal vigoroso a desbravar caminhos.

Licínia Quitério

10.8.06

DAS PALAVRAS


Helena Vieira da Silva - Biblioteca

Batiam asas mas
sempre tropeçavam
em borboletas brancas.
As sílabas
na busca do palácio
das palavras.
Assim dizias tu
a desculpar
a visível mudez.
Quando a chuva lavava
a pobre fala dos homens
choravas letras
dentro dos dicionários.
As estantes gemiam
ao peso das ideias
afogadas.
As larvas entretinham-se
a devorar discursos.
Não desesperaste.
E o dia aconteceu
em que disseste
a única palavra permitida
a quem pela voz dos anjos se perdeu.



O menino disse: Vem.
A menina disse: Fico.
O menino disse: Porque ficas?
A menina disse: Sou assim.
O menino disse: Já viste o bosque?
A menina disse: Gosto de medronhos.
O menino disse: Eu trepo às árvores.
A menina disse: Tenho medo das cobras.
O menino disse: Gosto muito das tuas tranças.
A menina disse: O meu pai é poeta.
O menino disse: A minha avó é Maria Isabel.
A menina disse: Estou cansada de dizer tantas coisas.
O menino disse: Quando for crescido compro um avião enorme.
A menina disse: Deixas-me encher o avião de letras?
O menino disse: Deixo.
A menina disse. Vou.

Foram bonitos para sempre porque falaram juntos muitas palavras felizes.

Licínia Quitério

5.8.06

HISTÓRIAS


Conta-me uma história
com lobos maus, raposas a voar,
cegonhas sem vergonha,
palavras a rimar.

Conta.
Que se não contas, Mãe,
com que é que eu vou sonhar?






Foto de Joana Leitão, em Mafra Regional

São os novos contadores de histórias. Andarilhos que percorrem o país, a desenterrar tesouros para os salvarem do esquecimento e depois os partilharem com crianças, em escolas, bibliotecas. Recolhem histórias, às vezes dão-lhes novas roupagens e depois contam-nas, com vozes bem moduladas e gestos expressivos, em salinhas coloridas, e encantam miúdos e graúdos. São modestos acontecimentos que não merecem notícia da chamada imprensa de referência. É pena. Neste nosso mundo de desalentos, seria conveniente anunciar que há gente que se ocupa de coisas tão notáveis como o levantar da memória e a passagem do seu testemunho. Por caminhos destes, não se perderá a magia das vozes que dão asas aos sonhos suspensos dos olhos das crianças. Já agora, contem-me uma história!

Licínia Quitério





31.7.06

DAS ESPERAS

Rafal Olbinski - Espera

A buganvília secou.
Não esperou pelo solstício.
Duas vezes floria em cada ano.
Viu uma vez a neve
e decidiu que tinha visto tudo.
Desistiu.
Florir sempre também cansa.
Recusou beber a água fria
com sabor a terra e a animais
enrijeceu as hastes
despediu as folhas
e ao vento as entregou.
Quando vierem as abelhas
já não encontrarão a mesa posta.
Ficaram os espinhos e
as marcas na parede.
Não passou testemunho mas
a festa escarlate dos seus cachos
perdurará na memória das abelhas.

Levantou a louça da mesa, lavou-a e pô-la a escorrer. Ele foi sentar-se no sofá a ler o suplemento de economia do jornal diário. Esperou que ela viesse sentar-se ao lado dele. Anunciou: Vai começar a telenovela. Estranhou o toc-toc dos sapatos de salto alto pelo corredor. Tem o péssimo hábito de andar descalça. Vestida para sair. O saco de fim-de-semana ao ombro. Olhou-a mas não lhe encontrou os olhos. Só a voz: Não esperes por mim.

No bairro ganhou o nome de o Espera-a-Mulher. Na paragem de autocarro. O das dezoito e vinte e quatro. É ali que se encontram quando voltam dos empregos. Espera que saia o último passageiro. Ela às vezes distrai-se a pensar sei lá em quê e não repara que chegou ao destino. Amanhã voltará.

Aprendeu a lavar a loiça e pô-la a escorrer. Espera não voltar a ouvir o toc-toc no soalho do corredor. Já o alcatifou.

Licínia Quitério

20.7.06

JORGE DE SENA


NOUTROS LUGARES

Não é que ser possível ser feliz acabe,
quando se aprende a sê-lo com bem pouco.
Ou que não mais saibamos repetir o gesto
que mais prazer nos dá, ou que daria
a outrem um prazer irresistível. Não:
o tempo nos afina e nos apura:
faríamos o gesto com infinda ciência.
Não é que passem as pessoas, quando
o nosso pouco é feito da passagem delas.
Nem é tanto que ao jovem seja dado
o que a mais velhos se recusa. Não.

É que os lugares acabam. Ou ainda antes
de serem destruídos, as pessoas somem
e não mais voltam onde parecia
que elas ou outras voltariam sempre
por toda a eternidade. Mas não voltam,
desviadas por razões ou por razão nenhuma.

É que as maneiras, modos, circunstâncias
mudam. Desertas ficam praias que brilhavam
não de água ou sol mas solta juventude.
As ruas rasgam casas onde leitos
já frios e lavados não rangiam mais.
E portas encostadas só se abrem sobre
a treva que nenhuma sombra aquece.

O modo como tínhamos ou víamos,
em que com tempo o gesto sempre o mesmo
faríamos com ciência refinada e sábia
(o mesmo gesto que seria útil,
se o modo e a circunstância permitissem),
tornou-se sem sentido e sem lugar.

Aonde e como? Aonde e como? Quando?
Em que praias, que ruas, casas e quais leitos,
a que horas do dia ou da noite não sei.
Apenas sei que as circunstâncias mudam
e que os lugares acabam. E que a gente
não volta ou não repete, e sem razão, o que
só por acaso era a razão dos outros.

Se do que vi ou tive uma saudade sinto,
feita de raiva e do vazio gélido,
não é saudade, não. Mas muito apenas
o horror de não saber como se sabe agora
o mesmo que aprendi. E a solidão
de tudo ser igual doutra maneira.
E o medo de que a vida seja isto:
um hábito quebrado que se não reata,
senão noutros lugares que não conheço.


JORGE DE SENA


Nunca o Poema é longo se tão belo.

Licínia Quitério

Notas:
1. Num intervalo do descanso, passei para vos deixar esta prendinha.
2. Foi com pesar que soube do encerramento do blog do Jorge Esteves. Penso traduzir o sentimento de muitos de nós ao afirmar: "Amigo Jorge, sentimos muito a falta da inteligência e da generosidade do seu unicórnio azul. Que seja muito feliz no mundo real e, se puder, volte a esta esfera onde tão boa companhia nos fez. Um grande abraço."

Licínia

7.7.06

DA PREGUIÇA


Fiodor Vasiliev - Prado Húmido

A preguiça envolve a tinta das manhãs.
Uma coberta a invadir a cama o quarto a casa.
A luz é baça e morna.
A vontade um bicho invertebrado.
Por fora da preguiça tudo é vidro.
Preguiça não tem porta.
Só umbrais.
Ranhura em casca de ovo.
A preguiça vencer é um desafio -
transpor a abertura
ousar ir ao combate
sem temer arestas afiadas e
acreditar nos braços promissores do aloés
.

A sua divisa era "Tem tempo...". Nunca tinha pressa. Nunca alguém lhe ouviu dizer "Despacha-te!". Os relógios, para ele, eram máquinas maravilhosas que a sabedoria dos homens tinha construído desde o princípio do céu. Para medirem o tempo do universo. Projectava relógios de sol. Os que mais o seduziam. Não os concluia. "Obra pensada já existe", dizia. Preguiçoso, chamavam-lhe. Tomava isso como um cumprimento. Nunca perdeu tempo. Ganhou-o todo. Pensar era o seu ofício, a sua paixão. Recusava agir, a não ser para produzir perfeição e beleza que, afirmava, são uma e a mesma coisa. Dada a raridade de oportunidades de o conseguir, preguiçava muito. Dormia pouco. Havia tanto para aprender. Mesmo quando não lia, os olhos profundos moviam-se incessantemente a decifrar o grande livro da vida e das pessoas que tanto amava. Foi o ser humano mais preguiçoso que conheci. Acho que os antigos lhe teriam chamado um Sábio. Prefiro lembrá-lo como um Homem Bom. A preguiça sente a sua falta.

Licínia Quitério

Recado para os Amigos:

Até Agosto, a minha presença no blog vai ser apenas fortuita. Razão? Férias. Não terei oportunidade de vos comentar, nem de vos retribuir as sempre amáveis visitas e ainda mais generosas palavras. Tem sido uma convivência que superou as minhas melhores expectativas. Por aqui têm passado palavras lindas, inteligentes e afectuosas. Como sabem, as palavras são para mim objecto de adoração, por isso vos declaro como me sinto feliz por vos ter encontrado. Atrevo-me a dizer que já reflectimos, rimos e chorámos juntos. Tudo num mundo chamado virtual. Embora. Daí há gente. E gente bonita. Daqui estou eu, disposta a continuar convosco esta partilha gostosa, até onde as minhas capacidades o permitirem. Bem hajam.

Licínia

3.7.06

DA DIGNIDADE



Francisco de Goya - Os Fuzilamentos do 3 de Maio de 1808

A que morreu às portas de Madrid,
com uma praga na boca
e a espingarda na mão,
teve a sorte que quis,
teve o fim que escolheu.
Nunca, passiva e aterrada, ela rezou.
E antes de flor, foi, como tantas, pomo.
Ninguém a virgindade lhe roubou
depois de um saque - antes a deu
a quem lha desejou,
na lama dum reduto,
sem náusea mas sem cio,
sob a manta comum,
a pretexto do frio.
Não quis na retaguarda aligeirar,
entre «champagne», aos generais senis,
as horas de lazer.
Não quis, activa e boa, tricotar
agasalhos pueris,
no sossego dum lar.
Não sonhou minorar,
num heroísmo branco,
de bicho de hospital,
a aflição dos aflitos.
Uma noite, às portas de Madrid,
com uma praga na boca
e a espingarda na mão,
à hora tal, atacou e morreu.
Teve a sorte que quis.
Teve o fim que escolheu.

REINALDO FERREIRA

Você trabalha para nós há muitos anos já. Sabe que gostamos do seu trabalho. Sabe que é mesmo uma das pessoas mais competentes da nossa empresa. Os clientes fazem muito boas referências a seu respeito. E é muito bem vista pelos seus colegas. Nem todos, claro. Você sabe porquê. Ninguém gosta de ser chamado de traidor. Lá porque não alinharam naquela greve, não quer dizer que não sejam boa gente. Onde é que eu quero chegar? Não, sabe bem que nós não queremos saber da política de cada um. Por você ser mulher? Nem pense nisso. Na nossa família sempre fomos muito liberais. Até tive uma tia-bisavó sufragista, você sabe. Porque o seu marido é lá dos sindicatos? Isso não tem nada a ver, acredite. Então? Ora, como é que eu hei-de dizer... Pronto, vamos direitos ao assunto. Você é inteligente e sabe o que lhe convém. Há aquele lugar de chefia há muito à sua espera. Sim. Só que, você sabe, é um cargo de confiança e precisamos que você... Não faça essa cara. Estou a falar-lhe com o coração nas mãos. Eu sei que anda aí uma lista de reivindicações a correr pela fábrica. Já viu, pois então. Está lá o seu nome. Não, não estou irritado. Percebeu, percebeu o quê? Bastava uma palavrinha sua e esse estúpido movimento acalmava. Ó mulher, não se precipite. Pense na oportunidade que lhe estamos a oferecer. Amanhã dá-me uma resposta. Chantagem? Você diz cada coisa! Dignidade, dignidade... Pronto, pronto, não se exalte. Vamos ficar por aqui. A propósito: fica a saber que o seu serviço passará a depender directamente do Dr. Guimarães. Então se já calculava, agora pode ter a certeza. E só mais uma coisa: esta conversa entre nós nunca existiu. Apre, não me fale mais em dignidade! Pode ir.

Licínia Quitério

29.6.06

DO TEMPO


Foto do Tó-Zé - Tempo Antigo

Há quanto tempo foi
que esta batida começou
a ecoar pelas crateras
dos vulcões dormentes?
Vieram gelos e degelos
e com eles chegaram e partiram,
de mãos dadas com os deuses,
bactérias, sáurios, mastodontes
que ainda procuramos,

na ânsia de saber
como foi que tudo aconteceu.
Esse pulsar cadente
ora nos enche de sustos,
ora nos despe ao sol,
ora se diz amor ou raiva ou dor.

Quando não o sentirmos,
vão dizer que morremos.
E não nos importamos.

Também os retratos envelhecem. Amarelados. Manchados de humidades. O pulsar do Tempo nada poupa. Um dia talvez as nossas interrogações cessem de pairar. Um dia talvez possamos transpor o arco para além do qual alguma luz se mostra. Um dia talvez saibamos da batida e saudemos os sáurios. Entretanto, para cá do arco, vamos contemplando os retratos no fundo das gavetas, lembrando o musgo nas paredes e aproveitando o Sol para nos despirmos.

Licínia Quitério

26.6.06

FAZ DE CONTA


Antoine de Saint-Exupéry - Aguarela

Jogar ao faz de conta com a vida.
Dizer fizeste bem a quem me deixou mal.
Falar do vento forte no meio da calmaria.
Recomeçar a obra de costas para o fim.
Fazer a festa ao cão antes de o ver chegar.
Pular na nuvem quando pisar o asfalto.
Brincar às escondidas no deserto.
Sentir o negro e afagar o branco.
Prender a lantejoula por debaixo da pele.
Enunciar o cheiro das flores por nascer.
Cantar ao desafio com a própria voz.
Trepar à amoreira e anunciar a seda.
Olhar o velho sentado no degrau e
Dizer de um barco que acostou no cais.
Acreditar que o sino é um seno a soar.
Quedar-me à beira-morte e dizer beira-mar.



"...- Se fazes favor... desenha-me um carneiro...
Quando o mistério nos impressiona demais, não ousamos desobedecer. Por muito absurdo que tal me parecesse, a mil milhas de distância de qualquer lugar habitado e em perigo de morte, tirei da algibeira uma folha de papel e uma caneta. Mas, lembrando-me de que tinha estudado principalmente geografia, história, cálculo e gramática, disse ao homenzinho (com um ligeiro mau humor) que não sabia desenhar. Ele respondeu-me:
- Não tem importância. Desenha-me um carneiro."

Que tem a ver este pequeno excerto de "O Principezinho", de Antoine Saint-Exupéry, com o meu texto acima e o título "Faz de Conta"?

Convenhamos que, quando a lógica da vida não funciona, o absurdo é um caminho tão válido como qualquer outro.
Façamos então de conta. Eu faço versos sem o saber dos Poetas. O Principezinho, sem saber desenhar, desenhou um carneiro. Às vezes resulta...

Licínia Quitério

22.6.06

PUTA DE VIDA


Toulouse-Lautrec - Au Salon de la Rue des Moulins

AS PUTAS DA AVENIDA

Eu vi gelar as putas da Avenida
ao griso de Janeiro e tive pena
do que elas chamam em jargão a vida
com um requebro triste de açucena

vi-as às duas e às três falando
como se fala antes de entrar em cena
o gesto já compondo à voz de mando
do director fatal que lhes ordena

essa pose de flor recém-cortada
que para as mais batidas não é nada
senão fingirem lírios da Lorena

mas a todas o griso ia aturdindo
e eu que do trabalho tinha vindo
calçando as luvas senti tanta pena


FERNANDO ASSIS PACHECO


Lembras-te do barquinho de papel? Sim, de papel de jornal. Sempre foste muito exacto. Na vela podia ler-se: "Vende-se cachorro". Foi por causa do peso do cachorro que o barquinho adornou. Não, não foi o vento. No vale, o ar estava imóvel. Por isso o charco sem ondas. Foi o meu olhar que empurrou o barco. Se o cachorro se afogou? Não. Saltou a tempo para o ramo do salgueiro. Tu não viste. Estavas tão entretido a matar formigas. Ontem vi o barquinho aos pés da nossa cama. De vela panda. Não ouviste ladrar? Estavas a dormir, eu sei. Já não te interessas por formigas. Eu ainda gosto dos cachorros escritos nos barcos. Até amanhã.

Licínia Quitério

18.6.06

O QUENTE SABOR


Foto de autor que desconheço

Sonhei com o quente sabor das tâmaras
a polpa cor de açúcar queimado
a trazer lembranças de leite-creme das avós
as fibras a prenderem-se nos dentes
a retardar prazeres a prolongar trabalhos

Acordei na areia da praia e
quando disse bom-dia saiu da minha boca
um fruto sem nome que tomou o caminho
dos navios ao longe.

Fechei os olhos mas não voltei a sonhar
com o sabor quente das tâmaras.

Abandonei a praia e passei a seguir a rota dos navios.



Têm um "o" esculpido no tegumento lenhoso da semente. As tâmaras. Isso sabemos nós, os que fazemos palavras cruzadas. Em pequena, apanhava-as do chão, limpava-as do pó com o avesso da orla da saia e comia-as com avidez, só para chegar depressa ao caroço. Sempre desejei encontrar uma tâmara que fugisse à regra natural e não tivesse aquela circunferência mágica que me intrigava. Parecia-se com um pequenino olho a testemunhar a minha gulodice. Até hoje, nunca me apareceu uma tâmara cega. Também nunca achei um trevo de quatro folhas. Nem vi um elefante branco. Nem uma túlipa negra. Nem sequer estive em Creta com o Minotauro. Mas não me lamento. Uma raridade a vida me ofertou. Alguém me deu a conhecer o sabor quente das tâmaras e me ensinou a rota dos navios. Para sempre. Que mais posso desejar?


Licínia Quitério

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