Quando nasce um poema
nasce com ele um mundo de paisagens
absurdas com florestas de gelo e
frutos palpitantes. E as gotas
de água de um amor antigo a refrescar
desertos. Um poema é um microcosmo
de ternura e de raiva, de mel e azedia,
de paixão ardida e renovada. Se cor
tem o poema nunca foi nomeada. Se
forma tem é a de um anjo ou melhor
a das asas que o anjo perdeu.
Ao certo só sabemos que o poema
nasceu quando um pássaro canta ou
um homem desperta e se levanta.
28.9.11
QUANDO NASCE UM POEMA
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HÃO-DE TOMBAR OS FRUTOS
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TUDO É POSSÍVEL
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17.9.11
AS TORRES
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12.9.11
CANSADO DA SUPERFÍCIE
Cansado da superfície assim dizia o homem em manhãs bafientas da estação. Tardam as notícias do fundo onde se prendem gritos e vontades e os peixes dormem com os olhos abertos dos esfomeados. Dizia brancas mãos o homem e chorava como choram os homens na vastidão dos seus lagos interditos. Não será hoje o dia de cortar as águas que a faca da memória ainda sangra. Homem, as brancas mãos virão. No fundo, os peixes dormem. Licínia Quitério |
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3.9.11
FOI NO TEMPO
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29.8.11
O BALANÇO, O BALOIÇO
para cá, para lá,
vai acima, vai abaixo,
corre corre, para para,
sobe agora, desce logo,
tem cautela, sem temor,
lá ao longe, aqui ao pé,
foge foge, fica fica,
não te largues, salta agora,
fecha os olhos, abre a boca,
porque gritas, porque cantas,
tantas vezes, quantas vezes,
olha o chão, olha as estrelas,
e o menino, qual menino,
já não é, já não se lembra,
foi pequeno, foi maior,
subiu subiu, desceu desceu,
e o balanço e o baloiço
vai acima, vem abaixo,
para a frente, para trás,
mais depressa, devagar,
e a menina, qual menina,
já não é, já lá não está,
foi acima, foi abaixo,
foi ao céu, caíu ao chão,
correu correu, chorou chorou,
e o baloiço e o balanço
já não sobe, já não desce,
e o menino não voltou
e a menina não voltou,
e o baloiço lá ficou.
Foi a sorte que mandou.
Licínia Quitério
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23.8.11
TIVE ENCONTRO
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17.8.11
SE AGORA
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12.8.11
OS PENSAMENTOS
Os pensamentos do homem
fazem germinar objectos.
Antes da cadeira existir
já o homem se sentava
e fabricava os pensamentos,
a desenhar letras de fumo
na imobilidade do tecto.
Os olhos entrançavam danças rápidas.
Depois paravam e dir-se-ia um vapor
de saudade o que escorria pelos braços
que um dia seriam da cadeira.
Ainda que um cachimbo se demore
na bainha dos lábios, o homem dirá,
pelo canto da boca, as dimensões ideais
do seu antigo, único projecto.
Por ele ali chegou, ao lugar onde é possível
afirmar: loucura é nome de pássaro
na seara da noite.
Disse
e o carrossel de estrelas acendeu-se.
Licínia Quitério
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6.8.11
OS HOMENS PLANTARAM
Os homens plantaram os cedros e disseram: Nós saberemos o vosso tempo de crescer. Sereis os guardiões do vento e dos olhares indesejados. Não ficareis doentes nem morrereis sem nossa ordem. Ser verdes e fortes é o vosso labor e o cumprireis. Aceitareis os nossos excessos e não direis da vossa estranheza. Não dareis asilo a aves palradoras. Jamais quebrareis a mudez e o alheamento. Para nosso deleite, tereis frutos pequenos e olorosos. Não penseis em deitá-los à terra, pois os arrancaremos. Obedecer é o vosso destino, o vosso inestimável conforto. Imperturbáveis, os cedros. Dir-se-iam felizes os súbditos verdes dos homens cinzentos. Não se entende porque apareceu uma rede entre os cedros e os homens. Há quem diga que os protege da mudez absoluta dos cedros.
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1.8.11
QUE SABES TU
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QUANDO OS MUROS
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19.7.11
ENCOLHES OS OMBROS
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NAQUELA HORA
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28.6.11
VOLTAR
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21.6.11
VAMOS SUBIR
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DEVORAS-ME
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8.6.11
TEM DE HAVER UM POEMA
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1.6.11
UM ESBOÇO
Um esboço, uma pegada, um trilho.
Escada de corda das nossas emoções,
bamboleante vertigem do nosso atrevimento.
Assim se abrem os dias de subir as ruas,
de cumprir as tarefas maiores que as nossas mãos,
de aceitar as árvores cortadas,
os olhos dos velhos, aguados,
a raiva dos despojados,
o silêncio dos culpados,
o ranger dos ossos.
Há ainda um pássaro sobrante
no susto da falésia e notícias
de ramos coloridos nas auroras de gelo.
Um passo e outro passo,
o coração no vento, uma voz alheia na garganta.
A escalada da rua, a construção do dia,
a sagração da vida.
Tudo, ainda.
Licínia Quitério
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