28.9.11

QUANDO NASCE UM POEMA

Quando nasce um poema
nasce com ele um mundo de paisagens
absurdas com florestas de gelo e
frutos palpitantes. E as gotas
de água de um amor antigo a refrescar
desertos. Um poema é um microcosmo
de ternura e de raiva, de mel e azedia,
de paixão ardida e renovada. Se cor
tem o poema nunca foi nomeada. Se
forma tem é a de um anjo ou melhor
a das asas que o anjo perdeu.

Ao certo só sabemos que o poema
nasceu quando um pássaro canta ou
um homem desperta e se levanta.



Licínia Quitério

22.9.11

HÃO-DE TOMBAR OS FRUTOS



Hão-de tombar os frutos e a madureza
há-de manchar a folha branca e alastrar
em delta de doçura no início das palavras,  
na polpa das palavras antes presas
na aflição das mães, na escuridão do inverno,
no sangue negro das feridas, na solidão
das viúvas de homens por haver, no pavor
noturno dos precipícios, no choro velado
das mulheres veladas, na pacificação
do ópio, nas fúrias naturais, na explosão
das bombas no coração dos homens.
Ó senhores do desprezo, abri vossas janelas
que a palavra nascida e a doçura dos frutos
serão a vossa terra e o vosso céu,
e a flor do lótus, e o jarro de cristal,
a linfa, o bosque e a ninfa, o tabernáculo,
o miserável servo dos palácios,
a decepção do ourives sem o ouro,
a grandeza do Amor, do Amor, do Amor.
Assim acontece porque um fruto cai.
Podes dizer maçã.

Licínia Quitério

18.9.11

TUDO É POSSÍVEL


Tudo é possível no balcão dos sonhos
podes vir de mansinho com outro rosto
e eu sem nada me pesar dizer há muito
espero por ti Dirk e a bandeja na mão
a bandeja do Rick que passou a ser tua
e o piano vermelho a flutuar naquela rua
de Veneza não não era um canal era uma
rua ou talvez não fosse Veneza e o teu
sorriso dorido de café e gin igualzinho
ao do Dirk porque eu sei também o teu
estava a sofrer há um tempo assim de
tudo doer e digo mesmo tudo a bandeja
o piano a rua a cidade inteira é uma dor
informe talvez a vida seja isso um tempo
de doer e fugir para o balcão abaulado
dos sonhos a preto e branco há quem
diga que são a cores os sonhos das
pessoas tristes há quem fale de uma luz
que faz vermelhos os pianos que flutuam
quanto a mim fico à tua espera Dirk podes
estar em Lisboa ou Casablanca podes até
não vir sei o sonho de cor.

Licínia Quitério

17.9.11

AS TORRES

As torres. Sempre as torres.
Os homens cavalgam os verbos
e constroem.
Por cada pedra o custo de uma vida.
Eia, eia! Um palmo mais, um ombro mais, eia!
E as torres crescem, e a ambição consome,
mais que a fome.
As torres têm olhos e vigiam as noites
com os homens dentro.
No cimo das torres há agulhas, desafios,
gritos mudos.


A lua grande passa, abraça.
A torre conta luas.  Um dia
a torre cai. A lua volta.




Licínia Quitério


Foto de Rui Medeiros.

12.9.11

CANSADO DA SUPERFÍCIE


Cansado da superfície 
assim dizia o homem
em  manhãs bafientas da estação.
Tardam as notícias do fundo
onde se prendem gritos e vontades
e os peixes dormem com os olhos
abertos dos esfomeados.
Dizia brancas mãos o homem
e chorava como choram os homens
na vastidão dos seus lagos
interditos.
Não será hoje o dia
de cortar as águas
que a faca da memória
ainda sangra.
Homem, as brancas mãos virão.
No fundo, os peixes dormem.

Licínia Quitério

3.9.11

FOI NO TEMPO



Foi no tempo da velhice das rosas.
Os flamingos presos na tarde lodosa
dos tiranos. Sinais de fumo
na pele atormentada do pântano.
Escamas de virtudes
do tempo jovem das rosas
punham um brilho diamantino
na placidez das palavras.
Ausentes o viço e a turgidez das pétalas.
Presentes o odor a cais e
o vulto dos peixes-náufragos.
A cor das rosas podia ser dos flamingos
ou do cansaço de um tempo
anterior às auroras sanguíneas
e à sede infinita dos vulcões.
Podia e não podia. As rosas
guardam o regresso das vozes 
no borbulhar dos pântanos.
Escuta.


Licínia Quitério

29.8.11

O BALANÇO, O BALOIÇO


O balanço, o baloiço,
para cá, para lá,
vai acima, vai abaixo,
corre corre, para para,
sobe agora, desce logo,
tem cautela, sem temor,
lá ao longe, aqui ao pé,
foge foge, fica fica,
não te largues, salta agora,
fecha os olhos, abre a boca,
porque gritas, porque cantas,
tantas vezes, quantas vezes,
olha o chão, olha as estrelas,
e o menino, qual menino,
já não é, já não se lembra,
foi pequeno, foi maior,
subiu subiu, desceu desceu,
e o balanço e o baloiço
vai acima, vem abaixo,
para a frente, para trás,
mais depressa, devagar,
e a menina, qual menina,
já não é, já lá não está,
foi acima, foi abaixo,
foi ao céu, caíu ao chão,
correu correu, chorou chorou,
e o baloiço e o balanço
já não sobe, já não desce,
e o menino não voltou
e a menina não voltou,
e o baloiço lá ficou.
Foi a sorte que mandou.

Licínia Quitério

23.8.11

TIVE ENCONTRO


Tive encontro com o vento. 
O olhar de lume dos cavalos alados.
Os chicotes na desfolha dos palmares. 
Os meus cabelos de medusa, não mulher,
não serpente, não sossego.
Posso contar da leveza, da premonição,
do rodopio, da tentação.
Oiço, claramente oiço, as novas
do deserto soletrando água
nos sons primordiais.  
Línguas sem vogais que só o vento guarda
e anuncia no vórtice terrível, devastador,
da sua escrita de areia e lava.
Maior o meu tremor que o meu temor.

Licínia Quitério

17.8.11

SE AGORA



Se agora aqui estivesses, neste tempo

de brumas pegajosas, com sinetas de

alarme no coração dos ossos, ficarias

suspenso no adejar das raparigas,

remoendo silêncios de velha porcelana.

Caminharias no limiar dos precipícios,

para trás e para diante, numa demora

insustentável, num ritmo sublinhado

pelo metrónomo dos dias, assim

traçando as linhas da argúcia, da lucidez,

da amargura que se lia no vago tremor

das mãos, no desejo imerso nas pupilas,

na tentação da fogueira, sim, da fogueira

a chamar-te no estertor dos rios.

Se aqui estivesses, nestes dias de breu,

dirias, com os braços a despertar nos meus:

Hoje há chuva de estrelas.

Só no escuro as veremos.



Licínia Quitério

12.8.11

OS PENSAMENTOS




Os pensamentos do homem
fazem germinar objectos.
Antes da cadeira existir
já o homem se sentava
e fabricava os pensamentos,
a desenhar letras de fumo
na imobilidade do tecto.
Os olhos entrançavam danças rápidas.
Depois paravam e dir-se-ia um vapor
de saudade o que escorria pelos braços
que um dia seriam da cadeira.
Ainda que um cachimbo se demore
na bainha dos lábios, o homem dirá,
pelo canto da boca, as dimensões ideais
do seu antigo, único projecto.
Por ele ali chegou, ao lugar onde é possível
afirmar: loucura é nome de pássaro
na seara da noite.
Disse
e o carrossel de estrelas acendeu-se.


Licínia Quitério

6.8.11

OS HOMENS PLANTARAM



Os homens plantaram os cedros e disseram: Nós saberemos o vosso  tempo de crescer. Sereis os guardiões do vento e dos olhares indesejados. Não ficareis doentes nem morrereis sem nossa ordem. Ser verdes e fortes é o vosso labor e o cumprireis. Aceitareis os nossos excessos e não direis da vossa estranheza. Não dareis asilo a aves palradoras. Jamais quebrareis a mudez e o alheamento. Para nosso deleite, tereis frutos pequenos e olorosos. Não penseis em deitá-los à terra, pois os arrancaremos. Obedecer é o vosso destino, o vosso inestimável conforto. Imperturbáveis, os cedros. Dir-se-iam felizes os súbditos verdes dos homens cinzentos. Não se entende porque apareceu uma rede entre os cedros e os homens. Há quem diga que os protege da mudez absoluta dos cedros.

Licínia Quitério

1.8.11

QUE SABES TU



Que sabes tu da casa?
Abriga-te, veste-te a dor e a alegria,
dá-te olhos para saberes os mundos.
É enorme e vazia no verão de cada inverno.
Cheirosa a sândalo, pequena, 
na festa imaginada do amigo ausente.
Pouco mais sabes.
Nunca saberás quantos pombos a olharam
nem o dia em que o vento lhe roubará
a transparência das vidraças.

É a tua casa, ou és tu a casa. Tanto faz.

Licínia Quitério

25.7.11

QUANDO OS MUROS


Quando os muros desabam
e as cancelas apodrecem,
é o tempo da explosão das sementes,
as mais ousadas, as mais sofredoras,
as mais simples.
Tocam sinos a rebate nos torrões calcinados, 
o orvalho das madrugadas reaprende
o seu ofício de nascente
e o pólen dos cravos nomeia os ventos,
os insectos, as vozes dos homens.
É nesse tempo sem relógios
que o amor se faz baga e folha e haste
e aroma de glicínias e doçura de figos 
e o alarido das gralhas e o coaxar das rãs 
na fertilidade dos charcos.
Desabam os muros e as cancelas apodrecem
na inutilidade dos advérbios.
As sementes, as mais sábias, despertam.
Acontece outra vez.
Milagre, se lhe quisermos chamar.

Licínia Quitério

19.7.11

ENCOLHES OS OMBROS






Encolhes os ombros a afastar
os répteis da lembrança.
Os teus olhos vagueiam
pelas feridas das casas.
Tens medo de saber a chegada da água,
o cheiro a lodo nos remos,
os metais corroídos,
o desejo a afundar, a afundar.
Cada sombra um sobressalto,
uma gota de suor na palma da mão.
Porque guardas a moeda
se não acreditas no barqueiro?

Licínia Quitério


12.7.11

NAQUELA HORA


Naquela hora todas as portas
se abriram e o teu corpo ganhou
o tamanho das palavras
que não quiseste dizer.
Havia o cheiro a alecrim e incenso
das procissões nos caminhos serranos.
Ouviram-se sinos nos campanários
distantes de aldeias distantes
em mapas ainda mais distantes.
Veio o cipreste e afirmou
ser irmão doutro lugar ao norte.
Era uma árvore perdida a reclamar
asilo como acontece nas histórias.
Nas vidraças podia ler-se o desenho
branco das máscaras de Veneza.
Se não fosse inconcebível,
um barco subiria as escadas
e tu, ainda de pé, com um menino
ao colo, embarcarias, sorrindo,
murmurando um cante do país ao sul.
Noutra hora, todas as portas voltaram
a fechar-se. 

Licínia Quitério

28.6.11

VOLTAR


Voltar. O que é voltar?
Nadar contra a corrente,
subir o rio, procurar
o lago antes do açude. 
Ler os sinais na morte das aranhas.  
Ser Alice na senda do coelho 
e tropeçar no fio do impossível.
Fechar os olhos até sentir
o recado do sol
numa folha de vidro.
Voltar ao infinito azul
embora seja branco
embora seja negro.
Ficar entre o corvo e o cisne.
Esperar eternamente
entre o cisne e o corvo.

Licínia Quitério  

21.6.11

VAMOS SUBIR




Vamos subir com as asas da manhã.
Sacudir o torpor da insónia e os fantasmas
nocturnos, repetentes, nas teias da memória.
É Verão, dizem, e acredito. Acredito
no pregão dos calendários, na vara de sombra
na parede da casa, na virgindade das areias.
Vamos, com a tenacidade dos peregrinos,
descobrir o adro dos encontros, dos abraços,
dos sorrisos, das danças de roda das mulheres,
das danças de roda dos homens, das danças
de roda dos filhos das mulheres e dos homens.
É Verão, eu sei, o dia é largo e as hienas
farejam as feridas e a fraqueza das crias.
Vamos devagar, com rasto de preguiça
nas sandálias leves. Atenção aos abutres
de olhar de pomba, nos seus poisos altos.
Longo, longo, o tapete de sol
que da nossa garganta se desdobra.
Continuemos, pois.

Licínia Quitério

     

15.6.11

DEVORAS-ME


Devoras-me, devoro-te. Há milénios.
Começámos ainda os dias se chamavam
sol ou lua, e as palavras eram outras,
mais curtas, mais sonoras, e nas vozes
se faziam estalos de chicote ou o gorgolejar
de líquidos à boca das ânforas.
A palmeira devora o deserto. Devoram-se.
Antes da areia, quando as tâmaras
eram só o mel das tâmaras.
O leão devora. Os leões devoram-se.
Desde o dia em que as mães esconderam
os filhos no coração das grutas.
Céu e mar devoram-se. Mar e céu
regurgitam-se, ritmados.
Voam os peixes e os pássaros mergulham.
Porque te amo, devoro-te.
Há milénios és a areia, a água,
a nuvem, o leão, o mel. Devoras-me.
Sou um fruto maduro na curva da idade.
Decifrei o segredo da Estrela Polar.

Licínia Quitério

8.6.11

TEM DE HAVER UM POEMA



Tem de haver um poema numa pedra de sol,
numa gota de sal, num riacho a florir.
Bem por dentro do vento, há-de estar uma pluma.
Abre a mão e verás uma ave do sul a piar, a piar.
É um espinho, um soluço, uma seta, um trovão?
Um passado, um caminho, uma luz, um porvir.
Música tem de ser o crocitar do corvo,
o choro dos escravos, a saudade, a saudade.
O rosto da infâmia, as mãos da crueldade,
o dorso da inveja, o ventre suicidado.
É urgente o instante de agarrar o poema,
desvendar a palavra, vesti-la, devorá-la,
fazer com ela amor.
Esperar a chuva e a serenata, a tília e o luar.
O inominado, o inacabado, o imperfeito,
a vida.

Licínia Quitério

1.6.11

UM ESBOÇO


Um esboço, uma pegada, um trilho.
Escada de corda das nossas emoções,
bamboleante vertigem do nosso atrevimento.
Assim se abrem os dias de subir as ruas,
de cumprir as tarefas maiores que as nossas mãos,
de aceitar as árvores cortadas,
os olhos dos velhos, aguados, 
a raiva dos despojados,
o silêncio dos culpados,
o ranger dos ossos.
Há ainda um pássaro sobrante
no susto da falésia e notícias
de ramos coloridos nas auroras de gelo.
Um passo e outro passo,  
o coração no vento, uma voz alheia na garganta.
A escalada da rua, a construção do dia,
a sagração da vida.
Tudo, ainda.

Licínia Quitério

arquivo

Powered By Blogger
 
Site Meter