4.4.12

ATRAVESSAM OS RIOS




Atravessam os rios com a leveza
das fadas da noite e a alacridade
dos botões da primavera
Cheiram a corpos extenuados
das batalhas e ostentam
na pele as estradas do luto e do fulgor  
Esperam poemas onde poisar
as muitas falas aprendidas
na passagem das águas 
nos rumores dos ventos
no estalar das folhas secas
em dias de abandono
Imóveis suportam a chegada
dos bichos invasores
das pragas impiedosas
do riso obsceno da morte
Reescrevem os fados 
iludem predições
tratados de sobrevivência
Partiram há muito e afirmam
a presença inquietante da ruína


Licínia Quitério


Reprodução de foto de Augusto Cabrita

28.3.12

CORRE, CAVALGA


Corre, cavalga, corre



Tanto mar, tanto ar,
tanta espuma de tempo,
tão alto o céu,
tão funda, tão funda,
essa morte vivida


Corre, cavalga, corre,
mensageiro e mensagem,
aflição e aflito


Corre luz, corre vento,
cavalga o dorso, 
o pescoço e o ventre


Sê a janela e o grito,
o silêncio das rosas,
a paz do suicida,
a ordem e o caos


Cavalga, corre,
ateia o fogo, apaga o fogo,
diz os nomes dos peixes,
devora os peixes


Chora a morte dos anjos


Sê viandante e estrada,
obreiro e construção


Corre, cavalga, corre
e ri, humanamente,
da falência dos deuses
no tempo da alegria, ri


Licínia Quitério


Foto de Rui Medeiros

22.3.12

MULHER


Serás água, mulher, 
quando fores mais líquida 
que a sede que te nomeia a boca 

Vento serás 
se o teu cabelo montar a quadriga do sol 
e for igual ao lume

Árvore serás 
quando o teu corpo for ponte 
e bandeira  de estrelas 

Não tomarás tristeza 
porque animal serás 
de liberdade livre que não sabe da morte

Pedra serás
polida pela mão do peregrino
esperando o milagre
que só tu, mulher, estátua, pó de lágrimas,
serás capaz de de conceber


Licínia Quitério 

14.3.12

MARÇO



Nas copas o mês de Março abre florações de seda pura. Os seios das raparigas enfrentam o vento da tarde e endurecem. Rapazes cortam os pulsos quando os sentem perto. A lua cheia durou três dias e os cães cansaram-se de uivar. Quem olhou o poente cor de sangue viu um cavalo negro a galopar a galopar até ao sol até ao fogo até ao fim. A sujidade das ruas é o despudor da seca a confundir os velhos na contagem dos dias. Nas noites faz-se um tilintar de guizos um chiar de madeiras um cheiro a estábulo. Tempo de demónios de bruxas de almas peregrinas. São os idos de Março dizem os adivinhos os filósofos os poetas as virgens loucas. Ouve-se ao longe o estrépito dos impérios dizem os políticos os doutores os miseráveis. É o amor que chega dizem as raparigas afagando os seios.

Licínia Quitério   

8.3.12

O FUMO

Só palavras de sal para dizer
os dias das cidades
bombardeadas
Lâminas nos dentes dos algozes
a retalhar a carne das mães,
a carne dos filhos
Uma mulher na paisagem
é uma árvore decepada
onde não cantam pássaros
No meu tempo nascem
as cidades de fumo
Mais do que escombros,
 fumo
Cidades secas, silenciosas,
disformes,
sem gramática possível,
sem reflexos
No meu coração uma ave que pia,
um retrato de cidade
chamada Aleph ou Alice,
um estilhaço de espelho,
uma planta carnívora,
salgada


Licínia Quitério

29.2.12

NO SÍTIO DAS TORMENTAS



Alongo-me no sítio das tormentas
depois do remoinho 

nascido crescido e encorpado 
como se fosse gente e assobiasse 
ou lobo que uivasse 
à gravidez da lua
Sou um bicho solar
de olhos pregados 
na escuridão das pedras
As fúrias dormem 
Quando acordarem
limpa a memória do horror antigo
hão de dizer os homens
que tal nunca houvera acontecido
Não fora o arrepio 
também eu negaria 
a enxurrada o precipício a queda
a gula do oceano o grito
aqui onde respiro
a placidez dos ares 
como se amor viesse  
ou uma estrela nascesse


Licínia Quitério

22.2.12

DEVIA SER ASSIM


Devia ser assim. Uma árvore é uma árvore. 
Há palavras que calam os desejos da árvore. 
Mancham o verde com que dizemos árvore. 
Assustam os pássaros nos olhos da árvore. 
Mudam as vontades fermentadas no lenho. 
Cansam a árvore até morrer de tédio.
Devia haver um letreiro em cada árvore, digo,
no rosto da floresta: "Silêncio. A ler o vento.".

Licínia Quitério

16.2.12

O BANCO DA AVENIDA


o que apetece mesmo e vale a pena
é sentar-me no banco da avenida
fazer com ele corpo e amizade
desdobrar um jornal da semana passada
e assim com o harmónio dos braços
reler as tardes que por ali passaram
e as outras que vieram de longe
e se enroscaram no meu colo de garça
e às vezes apertaram até que um grito
me mordia  e eu entontecida me perdia
há tanto tempo foi que já não lembro
a cor dos meus cabelos a varrer
o teu ombro da largura do mundo
ou da avenida ou do parapeito
da janela não vem isso ao caso
mas sei que é no teu ombro que descanso
quando me sento e leio as tardes
e os pombos no banco da avenida


Licínia Quitério

10.2.12

NÓS, AS MALAS



Vamos à descoberta, ao achamento,
à aventura, à procura dos mundos
infinitos que guardamos nas malas.

Como pesam as malas. Por entre
os fatos,  os livros, os sapatos,
arrumam-se, invisíveis, os segredos,
e, no regresso,  as mortes dos caminhos.
A pele das malas transporta as nossas
cicatrizes, a gala das noites de diamante,
os rótulos sucessivos dos nossos
sucessivos rostos, os nomes sobrepostos
das cidades do frio, do calor, da mansidão.
Dentro das malas se atravessa a vida.
Viajantes eternos, à descoberta, vamos.


Licínia Quitério

5.2.12

A TERRA




A terra nos acolhe os passos e a alegria.
Lonjura é o tempo, não a terra. Essa nos guarda
a história, os desacatos, o colo e a carícia.
Um dia vamos e corremos a estrada e no sítio
aprazado há um abraço e um sorriso de mãos 
largas e o cansaço desfaz-se e nem dizemos
cheguei ou estou aqui porque sempre estivemos.
Cada homem um livro por abrir  até ao dia
em que uma flor garrida dele se desprende
e, rente ao chão, no tecido do sol a possuir
a terra, começa um canto, uma oração, um
soluço, um arrastar de móveis, e uma lenda
nasce. Era uma vez... a terra inteira e nós.


Licínia Quitério


24.1.12

VERDE MAR


Podes dizer que o mar é verde
verde como os prados daqueles
países ao norte nos bilhetes postais
que chegavam no dia dos teus anos
e tu miravas e viajavas de mansinho
pelo corredor sombrio com um sorriso
guloso do chocolate do leite das vaquinhas
brancas pintalgadas de negro a pintalgarem
os tais prados verdes daquele verde
que agora dizes é a cor do mar
Isso era no tempo dos teus anos verdes
esses sim verdes como os prados
que depois pisaste e já não tinhas
um sorriso guloso nem mesmo um sorriso
triste e os chocolates foram amargos
que tudo fica amargo se os postais
demoram e às vezes chegam e dizem
nunca mais e mesmo assim ao dizeres
prado dizes mar ou meu amor como
no tempo verde dos teus anos

Licínia Quitério

16.1.12

UM CHEIRO A RELVA


Há um cheiro a relva
acabada de cortar 
nos passos leves com que medes
incansavelmente medes
a casa 

e o tempo de a viver


Não gastas 
a casa 

Acrescentas passado 
e escritas de sábios
à história que há de ter
a casa


Vestes 
a casa 
e o teu odor a ervas
pode ser o perfume das manhãs
o álcool das noites
o fumo do inverno 
o suor do verão


Sei que os teus passos
retomam a contagem 
quando a orquídea
na janela
abre um sorriso de mulher
e um tilintar de sinos
explica o vento
nos muros do quintal
onde respira
a casa



Licínia Quitério 


9.1.12

SOLSTÍCIO



Uma pena à tona de água
num crepúsculo sem deuses
O silêncio das aves
Uma súbita agonia
Tudo doi na tarde mais breve
de todas as tardes
Risos de infantes 

há muito envelhecidos 
cavalgam o solstício
Pragas bênçãos esconjuros
ladainhas remorsos rosários

abecedários obscuros incompletos
A tontura das nebulosas 
procura estrada no meu peito
O meu peito doi
Tudo doi na fronteira
insuportável da beleza
Tanto


Licínia Quitério 


4.1.12

SOBRE A AREIA


No dia das palavras 
apagadas, 
com as mãos desenharemos 
as cores da tarde sonolenta, 
a pele rasgada das casas, 
a alegria verde das plantas.
Quando faltarem as palavras
necessárias, na medida
das coisas nomeadas, 
caminharemos descalços sobre a areia
a inaugurar o livro das verdades
e o dos segredos e, antes do sangue,
o dos desejos.
O amor, à míngua de palavras,
só os olhos dirão, macios, irrequietos,
varrendo brumas e pináculos, 
iluminando a noite, alimentando
incêndios. 
Assim fechados, meus olhos sobre a areia.


Licínia Quitério





2.1.12

CLARISSE E OS ÁLBUNS




18. Ah como se lembra daquele inverno soalheiro de colher maresia e gritos de gaivotas e trazer tudo aconchegado para dentro do livro que começara a escrever há muito, muito tempo, quando ainda não sabia de desertos que nem de areias se povoam. Clarisse escalava rochedos e procurava ecos no côncavo das furnas. Inventava palavras para nomear o grande mar que para sempre lhe tingiu o olhar. Na velhice da foto, Clarisse reconhece o esplendor das ondas na sua posse faminta de mais mundos. Sentia-as tão próximo que chegava a pensar ser uma delas, assim violenta e poderosa, sequiosa e apaixonada. Talvez se possa ver, em contraluz, o contorno de um corpo, ou dois, abraçados, desafiando alturas e funduras. Barcos nem vê-los que a bravura do mar os não consente.   Uma fresta de inverno assim recolhida como uma alga ressequida entre papéis de recordar.


Licínia Quitério 

26.12.11

CLARISSE E OS ÁLBUNS




17. Foram os anos insidiosos nas páginas do álbum de lombada doirada. Entraram, um a um, pelas pequeninas frestas entre as folhas, e ajustaram contas com as cores. Como um vento desatinado que tivesse mudado as coisas, os lugares, as gentes, dando-lhes outros poisos, outros tons, outros tempos. Uma peça de teatro com um encenador enlouquecido que da tragédia fez comédia e deu grandeza ao vilão e sonho ao imbecil. É por isso que Clarisse não consegue lembrar-se em que céu aconteceu o voo triunfante do pássaro branco de peito negro. Talvez no céu azul da terra quente em que se deitava de costas no pino do verão.   Afundava os pés na areia de oiro, as pernas dobradas pelo joelho, e cavava pequenas crateras circulares, 
com as mãos espalmadas, até que o chão as cobrisse até aos pulsos. Clarisse gostava de se pensar planta a enraizar terra dentro, firme, muito firme, tranquila na imobilidade vegetal que desejava. Poderia bem ser a terra das casas baixinhas e azuis, agora mais azuis, esquecidas da brancura dos dias felizes. Encurvados os telhados, encurvados os dias de Clarisse, intacta apenas a curva do olhar. No ano que chegar, Clarisse há-de com ele encetar desafios na busca de retratos que o vento não tenha violado. Assim permaneça na beira do tanque, à tardinha, a rola de peito róseo a que falta uma asa.


Licínia Quitério

19.12.11

CLARISSE E OS ÁLBUNS




16. Não pode Clarisse suspender o balanço dos dias. Imóvel só o pêndulo sobre os retratos dos álbuns. Há um tempo de regresso, feito de memórias breves, pequenos grãos de saudade, pétalas amargas de flores suicidadas, lágrimas puras dos dias azuis. Nos arcos dos templos visitados, os olhos dos seus olhos ainda atentos às rolas de asas quebradas. Clarisse não reconhece os lugares, mas sabe que a esperam no dobrar de uma folha amarelada, num serão de contos a amaciar o inverno. Recorda como diziam havemos de lá ir como se tivessem já ido e voltado. Tamanho era o lago do presente que era também futuro e tudo nele se bebia. Clarisse afaga com os olhos verdes as colunas verdes e sorri à varanda das viagens do grande tempo de sorrir. Não tem pressa. Uma noite virá de saber o retrato da cidade inteira, das varandas de homens dormentes, das cantigas de roda, dos labirintos, dos morcegos, da vibração dos amarílis. Essa a grande certeza de Clarisse, a fechar com doçura o álbum das viagens.


Licínia Quitério
    

13.12.11

ERA UM TEMPO DE MULHERES




Era um tempo de mulheres como estátuas, de olhos cegos, abertos, da cor das íris que nos arcos moram. Mulheres esbeltas, veladamente nuas, com  pés deslizantes como barcos à bolina. Mulheres mudas, com sorrisos desenhados pelas mãos das mães e dos homens. Mulheres que só ouviam os ecos das vozes das mães e dos homens. Era um tempo de flores que só as mulheres colhiam, de frutos que só as mulheres davam a comer. Era um tempo, digamos, todo verde. As mulheres estátuas eram também árvores verdes e as flores e os frutos delas nasciam. Não se sabiam verdes, as mulheres, nem estátuas, nem árvores. Sabiam de mães e de homens que lhes moldavam os olhos, a boca, o corpo. Amadureceram as mulheres e outras cores aprenderam. Sabem que são brancas, ou negras, e quebraram a ordenada mudez. Agora dizem filho e sabem que os seus olhos já não cegos são espelhos de flores, de novos frutos, de outras mães, de outros homens. Tudo nasce neste tempo das mulheres. 

Licínia Quitério  

6.12.11

DÊEM-ME


Dêem-me
um resto de verão uma franja de lenço um caroço de alperce um pião uma bruma da tarde uma escama de peixe um dó menor uma folha de trevo um retrato a sépia uma fresta de luz
uma razão
uma razão
para construir para defender para louvar para caminhar para refazer para atacar
para voltar
para voltar
ao ninho à árvore à estrada ao mar à música ao grito
ao riso
ao riso
na prata das sereias na rouquidão dos machos no veneno das bruxas na natural infância na vibração
do amor
do amor

Dêem-me
quero dizer
a sede

a água
a água
o desejo


Licínia Quitério


1.12.11

GRAÇA


com a graça da tarde desmaiada
poisas nas varandas da cidade
a álacre nudez das borboletas

em vez de dizeres rio dizes mar
em vez de mar falas de mundo
em vez de amor soletras vida

trazes contigo o odor das  rosas
de janeiro e do pão fermentado
nos alvores da liberdade

terá outra varanda o amanhã
para poisares a verde madureza
o doce sobressalto e o cansaço
das pedras com que dizes tempo

Licínia Quitério

Nota 1: Foto trabalhada a partir de um original de M.
Nota 2: Publicação (foto e texto) dedicados à M. e à B. 

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