21.5.14

A CHUVA



A chuva salva do deserto, condena à enxurrada. Águas de todo o ano, leves, violentas, poalha e corda, refresco e inundação, rega e aluvião. Desejo da terra, repouso do afogado. A chuva dá a erva e a borboleta e as apodrece e mata. Tal qual a doçura do amor, a desmesura da paixão. Da raiz à casca morta, tudo na árvore se ri e se alumia, quando a chuva a toca. Evanescente a voz da chuva nos beirais da vida. Nós, no centro de todos os círculos, recebendo a chuva. Nós, na orla da abundância, inquietos, pela seca, pela cheia. Não pensar destino, pensar chuva, deixar-se ir, desaguar.

Licínia Quitério

14.5.14

O HOMEM CONSTRÓI


O homem constrói. É de sua natureza fazer a casa, as casas, a cidade, as cidades. Faz e acrescenta e tudo torna mais largo, mais alto, muito muito mais alto. Babilónias vão crescendo e morrendo, enquanto os homens misturam suas falas, suas preces, suas pancadas no metal, na pedra. Orgulhosos são das obras conseguidas. É seu destino construir, subir, dizer eu fiz, eu sei, e não parar, que o mais fugaz descanso pode trazer a queda, a derrocada. As árvores observam, estendem braços, cabeleiras, sabem da construção e do seu tempo. Ocupam-se a desenhar no céu caligrafias invisíveis que contarão como tudo começou e os homens se fizeram fábrica e tijolo, tijolo e fábrica, e o orgulho se fez dor e a dor sossego e só as árvores ficaram, pode-se dizer, em carne verde e viva. 


Licínia Quitério

9.5.14

MOINHO


Estás aí, parado, exibido, e a turba a dizer foi assim, já não é. Em ti a memória da dureza do grão, da toada do vento, da moleza da água, da mudez das mulheres, na sementeira, na debulha, na ordenha do gado, na lavagem da roupa, no linho, na renda, na descoberta dos homens, a parir, a ajoelhar, a abençoar, a suplicar, a adivinhar, a amaldiçoar. Aí, parado, és sombra, assinatura, marca, nostalgia, vizinhança, anúncio. Moinho, país, à beira água, na lembrança do grão, na perdição do oiro. Conquistador do vento, sedutor, seduzido, perdido na paisagem, na promessa de flores, ou de grãos, que a seara é vasta e a ceifeira não falha.

Licínia Quitério

7.5.14

TARPEIA


Minha rocha tarpeia, meu soluço de inverno, pélago, desabrigo de fugitivo, inclemência, tremor nos invisíveis fios, minha vocação de abismos e alturas, só princípio e fim, minha ignorância absoluta de crime e castigo, minha impaciência para a normalidade dos dias, meu incontrolável desejo de partida, minha incauta memória que me trais e me alertas, me ergues e me tombas, me reergues e escreves, com a minha letra, infindáveis cadernos de folhas secas, de humidades, a dizerem da aventura de viver entre o voo e o mergulho, sabendo da tarpeia e a desprezando.

Licínia Quitério

6.5.14

CONTA-ME



Conta-me a história daqueles anos em que as tuas pernas cresciam mais do que o amor que era então uma cor difusa, um brilho suave, por vezes um clarão que logo se apagava dentro do teu peito, esse peito enorme em frente ao mundo, sem temor, sem rancor, ainda. Devagar, que a pressa de crescer esmoreceu e o melhor é estar sentado à beira vida, reclamando a memória, refazendo os caminhos nunca feitos, as paixões ou os seus lampejos. Diz-me das caixas onde guardaste as conchas, os recados, as canções proibidas, as certezas de que as flores conservariam a cor e o perfume. Sei que já não podes usar as palavras antigas para nomear o que passou. Ninguém te entenderia, apenas eu que ensurdeci e aprendi a ler nos olhos dos que passam, emudecidos, ausentes, num mundo que perdeu as dimensões, quem sabe virtual, quem sabe virtuoso. Conta-me, que eu já esqueci, que tamanho tinham as tuas pernas e as minhas no tempo de começarmos o amor. 

Licínia Quitério 

3.5.14

O ANÚNCIO


Isso foi no dia do anúncio, quando soubémos de ti porque era outra a música, toda feita de lava e de espuma, e os rosários passavam de mão em mão, tecendo a prece que se chamava Ganges ou Éfeso ou ladeira dos milagres, indistintos nomes de lugares indistintos, agora que a música nova os inundava e os rosários eram mesmo de rosas como antes não se vira, perfumadas, vivas. De esse dia pouco ainda se sabe, nem dos homens, nem das mulheres, nem dos frutos, nem das abelhas, nem dos trabalhos, se é que os houve nesse dia. Sabemos que outro haverá, que uma vez acontecido voltará,  conforme ao que foi, igual, o mesmo, porém, de tão distante, não o reconheceremos. Continuaremos, mansamente, a pousar o desejo nas mais altas pedras, a mão em pala sobre o olhar, pronunciando mares e caravelas.

Licínia Quitério  

30.4.14

O PODER


O poder é uma janela que se abre sem se abrir,
uma janela aberta por dentro, fechada por fora.
O mais longo tempo do poder é ocupado a
inventar janelas, depois a construí-las.
O poder tem rosto de olhos abertos sem pálpebras,
frios como os dos peixes quando dormem e não vêem.
Os olhos do poder são facilmente reconhecíveis,
chamam-se janelas, todas iguais, opacas, vidradas
como os olhos cegos, como os olhos mortos.
Por detrás de cada janela há a respiração ofegante
dos que projectam, ininterruptamente, mais janelas,
quem lhes dera sem vidros, só a aparência de vidros,
só a morte da transparência, só o triunfo da palidez.

Licínia Quitério

20.4.14

É PRECISO QUE CAIA


É preciso que caia a grande pedra, nossa cela e abrigo.
Que caia e se desfaça e dela fique uma lembrança
do que foram os dias imensos e os dias breves
em que fomos réptil que se apaga e águia que flameja.
Quando cair, do pó que acontecer há-de ficar um grão
a ser o coração duma semente. Vestidos de nudez,
caminharemos, inocentes, inermes, guiados pela claridade
das nascentes. Simples, iguais por fim aos sábios
e aos dementes, aos reis com trono e aos degredados.
Toda a hora será de nascimento e morte, indolor, indiferente,
de mágoas não sabidas, que um corpo assim, desfeita a pedra,
igual à luz e à treva, não cai, não se alimenta, não se esvai.
Vagueia eternamente e será mãe ou filho ou liberdade.

Licínia Quitério

10.4.14

À TARDE



Quando à tarde as dores se enovelam,
ao colo das mulheres é que chegam
os gatos macios, impenetráveis.
Seu pelo de segredos, seu olhar inefável.
É nas linhas da tarde que se prende
o sopro das manhãs, agora amortecido.
Por dentro das mulheres há vulcões,
terramotos, o fulgor do aço de perdidas
batalhas, e à boca acode-lhes o travo
da traição, à pele o branco do abandono.
Os gatos ameaçam os pulsos das mulheres
e elas deixam-se morder, imperturbáveis.
Na tarde acontece um fio de sangue
que elas lambem, saboreiam, contentes
por se saberem copo, corpo, fonte.

O tumulto do sangue, a doçura do sangue.
A mulher onde a tarde se implode,
no abuso dos gatos, e a aranha
a tecer no pessegueiro.

Licínia Quitério

30.3.14

SE NÃO SABEIS



Se não sabeis da minha sede
porque me dais água?
Se não entendeis o meu frio
porque me dais roupa?
São tão altas as minhas montanhas
e vós falais dos degraus lá de casa.
Eu não canto vós sabeis.
Porque falais então na minha voz?
Só me serve este ínfimo quarto
onde guardo o meu cofre
que vós julgais cheio.
Ignorais o nada com que o encho.
Aceito tudo menos
a vossa compreensão.

Licínia Quitério

23.3.14

QUANTAS VEZES


Quantas vezes passou já não se lembra.
De ponta a ponta foi se lhe pediram
uma côdea de pão ou uma sardinha
que nesse tempo se partia e não chegava.
Palmilhava os becos e decorava os passos
de curva a contracurva da rua que diziam
escondia lobisomens e outros homens.
Se alguma vez os viu e neles demorou
a frescura 
esqueceu
para apagar as nódoas da vergonha
a cor do asco e da gordura.
De tanto se esquecer já não pode afirmar
sem mentir que se mudou da rua ou talvez
ou talvez
a rua a esquecesse e os homens partissem
e só os lobos lembrem o seu corpo de pedra
a curvar a deitar a erguer 
e uma erva a nascer.

Licínia Quitério

19.3.14

PAI



Era o único homem lá de casa e eu aprendi a dizer Pai

Quando ele chegava e me pegava ao colo
Ou me ensinava a caminhar com os meus pés
Nos dele, para trás, para diante, as minhas mãos nas dele.
Continuei a dizer Pai, a pensar Pai,
Mesmo quando me zangava com ele
Ou fingia zangar-me para me tornar crescida.
Com ele descobri as letras no caixote de madeira
E havia um K e ainda sei qual era a palavra.
Levei muito tempo a livrar-me dele
Que queria saber tudo de mim e eu não
Queria que ninguém soubesse de mim.
Só me livrei dele quando começou a
Contar-me segredos para eu guardar.
Foi sempre o único homem lá de casa
Até que eu mudei de casa e o deixei
Para poder visitá-lo sempre sempre,
Até ao dia em que ele se tornou meu Filho
E também Pai que isso nunca deixei de lhe chamar.

Licínia Quitério

18.3.14

UNIVERSO


A frase debruada, a palavra lavada, a música escorrente. 
Um fio de verdade, uma concha de vento, um aperto de mão. 
Pode ser um poema, pode ser um anúncio, pode ser uma pena.
Uma estrela nascente ou uma estrela morrente. 
Um universo no cais do coração.

Licínia Quitério








VIVA


A estação era seca
e os vampiros sugavam os humores
que deviam criar duendes nas florestas.
Como um clarão preso no nevoeiro
ou um relógio mole a escorregar da torre
ou um sino que perdeu o tino e a aldeia,
o silêncio era um monstro
a sufocar
e a reclamar afagos impossíveis.
Estava eu viva e dormia.

Licínia Quitério, 2004

foto de escultura de Rui Chafes, "Enquanto eu vivia", 2013

8.3.14

LÍQUIDOS


De água falo, mesmo que de corpo,
terra, secura, tremor de mãos, viagem.
Antes que o dissesses, não sabia que
meus versos eram inundação e leito.
Líquido escorrente, amor primeiro,
a fazer-se enchente e alagar e, se não
bem percebido, a afogar a boca da inocência.

Sobolos rios me agigantei, dentro dos rios
caminhei, a linha de água paralela ao oiro.
Há peixes nos meus versos, bem os vejo, 
signos, luzeiros, exclamações, inúteis peixes 
quando a água da lua se despe e se insinua.

Licínia Quitério

6.3.14

CINZA


Quem me dera vermelha a cinza do poema,

vermelha e quente, escandalosa e quente,
a insinuar bandeiras embrulhadas em gritos,
deserções de efebos dos salões da guerra.
Quente a cinza das palavras esculpidas
no respirar dos povos, na ternura branca
das mãos, que são mães, que são mar
aberto aos barcos carregados de sol.
Da cinza fria, cor da cinza fria, renascem
teatros de milagres, reverberações,
aves imateriais, imunes à peste, ao dardo.
Quero um poema vermelho, escaldante,
que a cinza seja sangue e escorra 
das pedras dos castelos e alimente
o corpo há tanto tempo lacerado
dos que se retiraram, deliberadamente
cegos, para os desvãos da cidade.

Licínia Quitério

25.2.14

HOMENS COMO ESCADAS


Há homens que são como escadas
quando sobem o abrir dos dias,
com uma sombra pela mão e as meninas
dos olhos vestidas de seda escura.
Ao fim do dia são ainda escadas,
mas a sombra fugiu-lhes da mão
e perdeu-se na escrita dos países,
enquanto falavam de números
ou calavam a opacidade dos sonhos.
Há homens tão belos como as rendas
de ferro onde poisam os braços,
a descobrirem o fio de claridade
com que traçam as sombras.
Homens como escadas, 

transeuntes, oblíquos,
de poros luminescentes.

Licínia Quitério

Foto de Maria Emília Homem da Costa

16.2.14

UMA DANÇA


Aberta na tormenta,
coro de aflições, de perdições. 
Vão as dunas, vão as casas, 
vão as certezas
na sucessão dos dias. 
Pairam afectos, versos, 
acordes incoerentes. 
Ficou-nos na memória 
o amarelo-oiro dos narcisos 
impedidos de florir. 
Tudo muda, tudo se refaz, 
tudo se constrói e se destrói. 
Sempre e nunca é uma dança que nos dói.

Licínia Quitério

8.2.14

OS DIAS


Animais perseguidos, os dias 
fogem em direcção ao poço, 
ao princípio onde crescem 
os botões de luz, as ervas, 
os ribeiros ou o pequeno nome
onde se ergue um homem.
Na pressa de chegarem,
os dias deixam penas,
cascas de árvore, casas,
cantos solenes de morte e nascimento.
Imensa a tela onde se escrevem
músicos, poetas, pintores,
santos e vagabundos. 
Todos procuram o travão dos dias,
a explicação da treva, 
a distância que vai do braço 
ao arco, dos olhos à janela.
Correm os dias, perseguem
e são presa, uivam nas clareiras,
lambem os corpos, assinam
a quadrícula que fica das cidades.

Licínia Quitério

2.2.14

SABER


Saber que amanhã tudo será diferente


Que o gelo se derrete e a água 
escorre em desafio à sede
que vai e volta e vai e volta 
e nunca se detem porque
nada termina ou principia

Licínia Quitério

foto de Hugo da Silva

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