29.4.15

SETE ESTRELO



Olha o Sete Estrelo. 
Acena-te na cintilação dos sete irmãos. 
Há quem lhe dê geométrica definição. 
Outros, 
os que desenham animais,
na compulsão de povoar o céu,
vêem o corpo, a cauda, 
adivinham-lhe as patas de bicho maior.
Sete estrelas, sete tentações, 
sete luzeiros a adornar a eternidade. 
Fecha a respiração, 
abre rasgões na noite,
adia o sono e a lassidão. 
Verás a pequenez da tua mão.

Licínia Quitério

27.4.15

A CASA



Não andava pela casa. Era a casa. As paredes abriam-se à sua passagem. Faziam-se portas e janelas viradas para lugar nenhum, mas de que se podia dizer rua ou quintal. Escutava o soalho a falar palavras antigas, sem sentido. Havia o tecto manchado de céu, de asas de borboleta. Não havia móveis. Ela sabia que há muito tinham fugido para áfricas, brasis, onde voltaram a ser árvores, antes do lenhador. Vozes na casa, nos corredores da casa, nas salas vazias. Vozes doces, redondas, limpas de estridências e soluços. Para lá das paredes abertas, os quintais em volta. Do húmus, a forte germinação das sementes. Um canto de pássaros do sul a rasar as copas, a rasar as estevas. Sem flor ainda, as estevas. Na mão, a lâmina de sol. Brandiu a espada que da lâmina nasceu. Um grito de fera ferida irrompeu da terra, atravessou as paredes abertas, cravou-se no azul do tecto. Fez-se noite. Ela deambulava pela casa, sendo a casa, quando a noite acabou e os móveis regressaram das florestas. O miar de um gato nas redondezas trouxe-lhe o despertar. Fechou a janela do quarto. No tecto havia aquela mancha que lhe lembrou um urro de animal. Não a apagaria.

Licínia Quitério

24.4.15

MANHÃ


Manhã soturna com gato e chuva. 
Há muitos anos, era outra a rua, outro o gato.
Logo mais haveria de ser Primavera. 
As ruas e os gatos sempre esperam uma nova estação.

Licínia Quitério

19.4.15

CRAVO


Escrevo-te daqui, da beira rua, 
com todas as letras decoradas, 
no tempo dos quintais e das amoras. 
Aprendi a casá-las, descasá-las, 
em trabalhos de verbos, em uniões de nomes.
Soube-me bem ouvi-las, 
a fabricarem músicas, arpejos, 
melodias, 
por vezes gritos, com eco noutro peito, 
noutra rua. 
Às vezes escrevo sol, outras caverna. 
Às vezes me demoro, outras me apresso.
Com cinco letras rubras, 
um dia escrevi 
Cravo 
e ele pegou raízes nesta casa. 
De tal sorte medrou, o passageiro de Abril, 
que a desordem nas letras se instalou.
Umas mais se juntaram, outras se retiraram. 
Assim, 
por mais que as mude, 
que as ordene, 
ao escrever Cravo, escrevo 
Liberdade.
Nada a fazer. 
Eu fico bem. 
Missiva terminada. 

Licínia Quitério

12.4.15

DO TEMPO BRUTO


Pouco se fala deste tempo bruto, 

falho de rituais, celebrações. 
Temível a escassez de dias novos, 
com gente a contemplar as áureas proporções,
de joelhos no saibro, 
atenta ao eco das esferas, 
comovida, silenciosa, 
longe, já muito longe
da multidão avara e ululante.

É este o tempo da corrida,
do mais lesto,
da luta, 
do mais forte,
do corpo, 
o mais violado.

Quem sabe, cala, 
que veloz é a luz,
e nada resta de quem com ela competir.
Forte é a gravidade que nos cola, 
sem apelo, 
a todos os fantasmas.
Do corpo, ah, do corpo,
só sabemos que nasce e vai morrendo,
indiferente ao abuso e ao incenso.

É preciso falarmos do que importa.
Da concha do caramujo, da espiral dos dias.

Licínia Quitério 

10.4.15

NOVE ANOS


O SÍTIO DO POEMA nasceu faz agora nove anos, num tempo em que eu desbravava caminhos, na pele ainda a marca da cor das olaias, a afastar as silvas das bermas, a erguer a voz para dizer o que na casa morava e eu não sabia. Tenho muita ternura por este lugar virtual, meu caderno de apontamentos de escritas e olhares, fermento de livros que nasceram, porque outro tempo foi vingando, outros saberes de tristeza e alegria, de novidade sempre. 
Parabéns, companheiro do bom desassossego.

Licínia Quitério

6.4.15

CAMINHOS


Envelhecidos de abandono e ferrugem, os caminhos já não levam nem trazem. 
Aguardam a derrocada ou a maquilhagem. 
Quem os viveu deles reteve os cheiros da limalha e da salsugem. 
Agora diz brinquei aqui, amei ali, um lamento de viés, um dizer dantes havia gente, agora é o deserto.
No caos, a aparição de velha dama, sombrinha de renda, a mão enluvada. 
O temor e a sedução da decadência. 
Estética de filmes negros, de prostitutas maltratadas e bêbados perdidos da vertical do amor. 
Quantas histórias no cenário, este em que os homens se deixaram jogar com cartas viciadas, confiados na sorte de uma só bala na câmara. 
Ainda há barcos deitados no rio, pescadores de lodos e desgraças, passantes de passos perdidos em busca de memórias dos que dali fugiram, desfeita a ordem dos dias da aventura. 
Caminhos que é preciso dizer.

Licínia Quitério

30.3.15

UM BARCO PRESO AO CABELO




















Digo-te,
a miúda tinha um barco preso ao cabelo.
O mar, esse, estava preso ao barco.
Quando a miúda corria,
o barco deslizava,
e o mar com ele,
digo o mar ou
o pedaço de azul 
que me cabia nos olhos
a seguirem a miúda
que corria, 
e não sabia
do barco preso ao cabelo,
do mar preso ao barco,
dos meus olhos
a segui-la,
livre, 
solta.

Licínia Quitério

27.3.15

EU A ROLAR NA PAISAGEM


Eu a rolar na paisagem, 
dormente, 
dizendo, vamos.Eu levada pelo rodado do dia, 
a pensar nas árvores derrubadas, 
no grito das árvores, 
no suor do lenhador, 
na raiva do lenhador presa à fome dos filhos.
Os gritos das árvores acesas, 
o rosto malvado do lenhador, 
a panela ao lume, 
a fervura do caldo.
Benditas árvores 
que são lume 
que água não apague, 
que caldo é muro contra as fomes.
A chaga no peito do lenhador, 
e a mulher por detrás do fumo, 
por detrás do caldo.
Ah não há fome que resista 
à fúria do homem vestido de lenhador, 
a enfrentar o pavor das árvores.
Logo mais,
o silêncio. 
Por detrás do fumo, 
o rosto da mulher, 
da vestal manchada de nascimentos, 
a apagar-se.

Licínia Quitério

25.3.15

HERBERTO HELDER


Não, não entendi, não amei a poesia de Herberto Helder nos meus anos verdes de leitora. Deixei de lado, ali no canto dos "obscuros", dos que sabia um dia haveria de ler, amando. Foi tarde que aconteceu, não sei quando nem como nem porquê. Lembro-me de ter folheado, displicentemente, um dos livros do canto e pensar, como é que eu não vi isto, o tempo que eu perdi. Foi daí que me apaixonei pelo HH, que passei a pensar nos seus poemas mesmo sem os ler, qualquer coisa que eu não sei explicar, como se a força dele também estivesse em mim e me guiasse as palavras em direcção aos seus ritmos de terras negras e águas ferventes. Talvez eu esteja atacada de algum lirismo serôdio, tão desajustado do pulsar de HH, mas a sua "morte sem mestre", não a do livro que me inquietou, me causou estranheza, mas a morte dele, deu-me uma dor de perda de algo, ou de alguém muito amado, mestre e guia, um homem grande, triste, bebedor de abismos, passageiro ardendo, indo.

Licínia Quitério

20.3.15

DIA DE ENVELHECER


Um dia de envelhecer, 

um daqueles dias cor de ferrugem, 
com sombras muito oblíquas, 
mãos pendentes corpo abaixo, 
as costas dobradas na subida, 
na boca o gosto acre de aluviões.  
É preciso que o diga, 
por estas ou por outras palavras, 
eu não sabia o que era envelhecer 
antes de passar pelo portão da casa, 
um portão de ferro da cor do tempo, 
um trabalho de ferreiro, 
de pé à boca da forja, 
o suor a arrefecer-lhe as axilas, 
os músculos do braço mais cheios, 
menos cheios, 
e aquela mão enorme, 
dona e senhora do martelo, 
a bater, a bater, 
e os gritos do metal em brasa, 
a ceder, a estirar, a dobrar, a curvar, 
sem quebrar, 
que o ferreiro conhece o limite 
e ousa bater, bater.
Nos dias de envelhecer, 
quem passa pelo portão 
e nele prega o olhar, 
fugaz mas firme o olhar, 
soletra fogo com letras de rio 
e afasta-se 
com o verbo apagar por entre as pedras.

Licínia Quitério  

16.3.15

É DIA


É dia e ao marinheiro amanhece um barco carregado de esperança. 
Nada pode parar esta viagem.
As mãos são remos de oiro. 
O vento o peito enfuna e faz-se vela.
Não lhe importa que praga, que feitiço.
Um barco de virtude não se teme, navega. 
A proa é rosto e a popa o outro lado desse rosto. 
Entre os dois, um corpo que é sorriso e canto de ninar.
Pela água vai o barco. 
Vai e voga. 
Voa.
Dos remos de oiro vão saltando lumes, faúlhas, cintilações da sombra.
Solto, audaz, o barco avança. 
Não sabe de destino. 
Vai, carregado de esperança.
Outro dia não há. 
É o que sabe.

Licínia Quitério

8.3.15

O FAZEDOR DE PAISAGENS


Dizias casa grande, e  abrias 
os braços,
de parede a parede, 
como se casa fosse de verdade. 
Quem te olhava acreditava na precisão do gesto 
e julgava-te a abarcar o mundo, 
que só podia ser tão vasto 
como a vontade de o saberes. 
Perto da casa havia o mar e, 
de o pensares, 
os teus olhos ficavam verdes de algas, 
e azuis de sol, 
e cinzentos de procela. 
Se havia árvores de vento, 
em redor da casa, 
tu o dizias na tremura dos ombros.
Quem passava afirmava, 
esta é a casa, 
este o mar, 
estas as árvores do vento. 
Tu não te sabias fazedor de paisagens, 
mas continuaste a esboçar lugares 
que depois albergavas 
na casa maior do coração.


Licínia Quitério

15.2.15

NOVO LIVRO

E os poemas se fizeram livro, desta vez nomeado O LIVRO DOS CANSAÇOS. Aqui fica a notícia da apresentação, para a qual estão todos convidados. Será uma agradável tarde de conversa, na Ericeira, em sala com vista de mar. Grata pela vossa presença assídua neste sítio de poemas.

Licínia Quitério

3.2.15

DIAS DE NADA



Os dias de nada não são de tristeza nem de alegria.
São sem entusiasmo nem decepção. 
São só dias de nada, dormentes sem sono, quietos sem espera. 
Não são úteis nem inúteis.
Olham a chuva e não se molham. 
Pode o vento soprar que não se desalinham. 
Existem, apresentam-se, não se demovem da sua nulidade. 
Sem os dias de nada não tentaríamos tudo. 
Ao menos tentamos.

Licínia Quitério

3.1.15

PODE ACONTECER


Pode acontecer que o piar de um pássaro te chame à amurada do navio e lhe perguntes donde vens, de que terras te perdeste, que procuras no meio do nada, que recado trazes lá donde partiste, donde fugiste. 
Que sabes tu da dor de um pássaro no meio da tarde, no meio do mar, olhando-te, sim, olhando-te, o seu olhar de vidro igual ao olhar dos mortos, mesmo assim de corpo alucinado, e tu perguntando, repetindo, mais alto, donde vens, que escondes que não me dás, que queres de mim, perdida de mim, no meio desta tarde, no meio deste mar, sabendo agora de um pássaro de nenhures, que me visita, me desafia, me enternece. 
Foi breve o tempo do pássaro no navio. Partiu, como veio, sulcando o nada, e tu, num aceno, a dizeres um nome improvável para um pássaro em perpétua viagem.

Licínia Quitério

1.1.15

ANO NOVO



Esplendoroso dia. 
Sobre a cidade o sortilégio do azul. 
Nada pode calar este assombro. 
Dizemos liberdade com a voz dos pássaros.
Vamos colher a novidade.
Vamos.


Licínia Quitério

24.12.14

O CISNE



Quem te via deslizar na tarde ficava preso no teu encanto, na serenidade do teu rosto, quase perfeito, quase triste.
Era impossível não pensar na dama do lago que lançava pérolas às águas na hora exacta do poente.
Sua filha serias, ou irmã, ou talvez ela tivesse voltado, com o seu colo de cisne branco, sua mudez, suas penas a fecharem-lhe os olhos.
Quem te via não sabia que nome te chamar, que o tinhas bem escondido no cerrado da boca.
Leda seria um nome, mas quem se atreveria, temendo que cantasses, e ao cantar morresses, e afinal fosses mais cisne que Mulher. 


Licínia Quitério

17.12.14

QUERIA-TE


Queria-te na agonia das cores 
quando a tarde acalmava. 
Era como se um pássaro de cinza 
esvoaçasse ao invés dos meus passos. 
Eu ainda não entendia 
o signo que trazia preso ao bico. 
Um batuque de distâncias atravessava-me 
e eu não sabia porque me doíam  
as lembranças dos mares da infância. 
Queria-te mas não te queria assim 
na hora da desistência dos mágicos. 
Queria-te mas não podia chamar-te 
ao caminho onde tudo estava, tinhas dito, 
era só descobrir. 
Não voltou o pássaro de cinza 
e o caminho continua, imenso. 
Vou juntando pedaços de mistérios, 
com a certeza de que tudo ali foi semeado, 
como disseste. 
É só saber colher. 

Licínia Quitério

10.12.14

NUVENS



São água, pouco mais.
São minúsculas gotas, são poeira de céu, são penas de anjo, ou penas de homem, é igual.
Varredura de vento, suspensão de gelos, oráculo de chuvas.
Alguém me ensine o corpo exacto de uma nuvem, a cor de cada floco, a distância que vai do azul à minha mão, o tempo de vida de um castelo de sonhos, o sabor da maresia, a duração do amor.
Se nada me ensinarem, tão pouco vale o meu olhar colado às nuvens.
Melhor deixá-las ir, deixá-las.

Licínia Quitério

arquivo

Powered By Blogger
 
Site Meter