Foi quando disse
rosa
que te fizeste
flor.
Tivesse eu dito
casa
serias o olhar
mais alto da
cidade.
Tivesse eu dito
amor
serias o meu corpo
junto ao mar.
Talvez esse Poema que todos procuramos um dia assome a esta janela
Foi quando disse
rosa
que te fizeste
flor.
Tivesse eu dito
casa
serias o olhar
mais alto da
cidade.
Tivesse eu dito
amor
serias o meu corpo
junto ao mar.
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Licínia Quitério
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A gente sabe lá de que é que falam
Aquelas duas mulheres
Nem novas nem velhas
Nem bonitas nem feias
Duas mulheres só isso
Cada uma a carregar um
saco
Cada uma a carregar uma
verdade
Cada uma a pesar a
verdade da outra
Verdades não são coisas
para ouvir
São para dar numa mão
fechada
À outra mão que não a
sabe abrir
As duas mulheres não são
novas nem velhas
As vidas das mulheres não
são bonitas nem feias
São vidas só isso
Que as mulheres carregam
nos sacos
A embrulhar o pão de
cada dia
E falam as mulheres falam
E o pão nos sacos
endurece
E mais endurece a vida
Verdade se diga
Que é disso que as mulheres não falam
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Dizes que me percebes
e eu acredito
Também acredito nos deuses
e nos seus mensageiros
e nos seus inimigos
e nos seus obedientes seguidores
Acredito porque nunca os vi
afagar palavras que escrevo
rir desbragados das verdades
que dispo e atiro ao vento
Não nunca os vi chorar
no mesmo acorde do meu riso nocturno
nem sorrir por lhes falar
de amor perdido e encontrado
Acredito nos deuses e acredito em ti
todos tão distantes
tão sem graça
quando percebem tudo o que eu não sou
Licínia Quitério
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12:27:00 p.m.
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Podia não ter acontecido
e tudo seria exactamente igual
A vida continuava a somar anos
e saudades
As portas da casa haviam de chiar
nos gonzos
de manhã ao acordar e à noite
depois da lua ter passado
sobre o muro do quintal
Tudo exactamente igual
como se alguma coisa tivesse acontecido
O prato na mesa o cabide no armário
o livro aberto a envelhecer memórias
A lágrima presa por teimosia
até ao dia da torrente
Tudo como antes de nada ter acontecido
de não ser mais que uma vontade
peregrina de mudança
Licínia Quitério
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11:28:00 a.m.
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Em voo planado, a ganhar alturas,
ventos de feição, algumas lágrimas de nuvem,
remoinhos, acalmias,
novos ímpetos, arrojos,
ternuras envergonhadas,
sinais de lume, olhos de lince,
lonjuras, lonjuras, música, música,
mundos, aquém e além dos astros,
tudo, nada.
Os poemas, no seu destino de pássaros.
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Atravessar os anos sem contar
a não ser nas horas de choro
nascidas nas pedras afiadas
pelos caminhantes da fortuna
ou nos dias de tédio
aprisionados pela bruma
que não morreu de madrugada
Mais longos os anos
Mais breve o anúncio de horizonte
As velas ardem a alumiar a estrada
da água que desistiu dos cântaros
No novelo dos anos por contar
o vento tece mantas
de aconchego e perdição
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5:38:00 p.m.
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Juro que era cinzenta quando a conheci
a cidade
Toda de pedra
geométrica tão geométrica
feita para eu me perder
na volta duma quadrícula
O rio fazia o seu desenho e seguia
indiferente à exactidão da cidade
Quase sempre cinzento
o rio
a não ser num único poente
em que o encontrei distraído a colar nas pontes
escamas de luz
Amei a cidade cinzenta
Voltei e voltei à cidade cinzenta
até deixar de ter medo de me perder
na geometria
Sempre encontros marquei na tal hora do poente
quando o rio se distrai por me ver e acende
a água
e oferece às pontes meias luas
Agora quando penso na cidade
sei que cinzento é a cor das cidades que amamos
quando pela primeira vez as visitamos
Para não me repetir passei a dizer pessoas e não cidades
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7:26:00 p.m.
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No cofre, no silo, na garganta
Junto ao ouro, à corda, ao grão
Desde a mina, o campo, o sangue
Depois da dor, do golpe, do ciúme
Antes do brilho, do tremor, do vibrato
Em tudo e nada e nunca e sempre
Aquela voz acontece
E diz o nome, a data, a rua
E a certeza do silêncio
Tudo o que nos deixa é a lembrança
De um tempo ameno
De um lugar seguro
De um som inominável
Se a voz aconteceu há de voltar
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3:12:00 p.m.
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Do nome a vogal dominante
nada mais
Do rosto o contorno
interrompido aqui e ali
como se sombra de gigante o procurasse
Do corpo o vulto em movimento
que pouco importa para a vida do retrato
Ficou a voz macia e clara
aquém do esquecimento
dizendo chamando
em permanência vogando
procurando o eco
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6:34:00 p.m.
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Crescer
é o que faz a semente
a prometer o gérmen
que há de crescer até ser corpo
ansioso por crescer
e lhe chamarem vegetal em água ou terra firme
ou animal em água ou terra firme
quem sabe será árvore
quem sabe será gente
quem for trará consigo a marca
o signo o som a luz e tudo o mais
que fez crescer a semente
até ser animal
até ser gente
até voltar a ser a terra a água
ou a bola de cristal duma qualquer vidente
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11:23:00 a.m.
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Se fosse assim
gostoso como beijo
de amor maior que a estrada
inda que pedregosa a estrada
mas orgulhosa a estrada
das ervas a espiarem os passantes
apressados os passantes
absortos os passantes
ansiosos do fim
que só verão depois da curva
apertada a curva
mal desenhada a curva.
Se fosse assim gostoso
o caminhar de sombra em sombra
o beijo ainda acima da vontade
de o lembrar
antes de ter nascido
depois de ter nascido
igualzinho ao que foi
sem nunca ter nascido.
Será assim depois da curva
por entre a sombra
a estrada
ainda a estrada.
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12:40:00 p.m.
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A iludir o tempo
o homem de passagem
na areia escreve
dá a volta ao mundo
numa mão fechada
é grande e nada tem
Ano vai ano vem
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Um poema modesto
De palavras pequenas
Esdrúxula nenhuma
As tónicas assim
Macias quanto baste
A fazerem-se ouvir
Sem nunca magoar
Os ouvidos atentos
De música sedentos
Um poema amável
A convidar sossego
A caminhar connosco
Devagar devagar
Um poema menino
Um poema adulto
Com a idade do homem
A vibração do sol
O silêncio da lua
Um poema a esconder
Entre panos de linho
Num colo de mulher
Tão pequeno o poema
Tão tímido o poema
À espera de nascer
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2:50:00 p.m.
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As mulheres estão cansadas.
Já não carregam os filhos
já não acartam comida
já não suportam o cio dos homens.
A guerra deu-lhes o cansaço
matou-lhes os filhos
queimou-lhes a comida
levou-lhes os homens.
A guerra ensinou-as a caminhar para sítio nenhum
a beber as lágrimas onde a água não chegou.
Estão tão cansadas as mulheres.
Esquecido o ritmo das danças
movem-se comandadas pelos ossos
pelo som das fúrias.
Abrasadas pelo incêndio do céu
aos poucos vão esquecendo o próprio nome.
Guardarão o nome duma terra
onde sepultaram os filhos os homens
um ou outro animal.
Estão cansadas.
Caminham em círculos
às vezes tropeçam
às vezes ajoelham
em silêncio.
A guerra levou-lhes a fala
e as orações são inúteis
na terra esquecida dos deuses.
São mulheres cansadas de guerra.
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2:48:00 p.m.
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Este verbo dar com o reflexivo se
tudo inverte tudo torna e transtorna
e pode destruir o sujeito que dá
pois de tanto querer acrescentar
se encurtou diminuiu
e pouco ou nada de si restou.
O verbo lá ficou no seu modo infinito
a pairar a esperar a mão que colhe
o coração que aperta.
A rua está deserta e o verbo não conjuga
por se ter enganado no tempo do sujeito.
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7:23:00 p.m.
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Muitas vezes crianças somos todos.
Meninos cor-de-rosa a tatear,
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4:42:00 p.m.
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Era quase de noite quase dia
era tarde e era cedo para chegar.
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4:38:00 p.m.
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