7.8.14

A BELEZA


Só a beleza nos salva da demência. 
Quando nascemos é ela que buscamos
e chorando invocamos. 
Assim se esvai a vida, no medo 
de saber que não a encontraremos, 
porque de fumo a fronteira 
entre a bela e o monstro 
e de agulhas a dor de não sabermos
se belo é o que chamamos monstro, 
se horrível é o que dizemos belo.
A demência nos mata quando
o tempo de entender se é belo ou feio
se dissipou e deu lugar à nebulosa
onde tudo cabe, tudo igual
aos outros e a si próprio.
Palácio, floresta, canto ou grito,
tudo o mesmo. Ali será que a bela
e o monstro se perderão de amores.

Licínia Quitério 

30.7.14

O ESCOMBRO


As cidades bombardeadas não são a cores nem a preto e branco. 
As cidades bombardeadas são da cor do escombro. 
Não têm céu, as cidades bombardeadas. 
Acima do pó, a ausência do céu. 
A cor do caos é indecifrável, inominável.
Do escombro erguem-se corpos imponderáveis que são fumo.
Só as cordas de fogo têm cor. Só elas permitem mapear o escombro. 

Licínia Quitério

29.7.14

CONHECER



Conhecer um lugar, melhor, reconhecê-lo. Dizer baixinho estive aqui. Desconfiar dos sentidos. Tocar a pedra e não tocar. Pronunciar um nome de erva. Ouvir a fala da nascente. Antes de tudo, pedra ou erva ou água,  dizer estive. Mais do que estive, fui. Sem alegria nem tristeza, fui. Por instantes, saber da plenitude. Tanto basta para não mais voltar.

Licínia Quitério

23.7.14

ESPERA-ME


Espera-me como se eu fosse um barco carregado de névoa a dissolver horizontes.  O meu corpo é a gávea onde subiram marinheiros, buscadores de outros céus, desistentes da terra e suas glórias. Não me julgues de velas golpeadas nem de remos quebrados. Basta-me o vento ou a sua ausência. 
Repara como envelhecem as traves da vigia. Só eu não envelheço porque amarrei o tempo a uma escuna e a mandei vogar, vogar sobre o nada a que tu chamas mar. Se de esperar te cansas, abre a janela e vem, voa, caminha, abre as águas e adormece. Eu sou a névoa, eu sou o barco, ficarás comigo a dissolver horizontes. Que te importa o olhar?

Licínia Quitério  
    

15.7.14

ESMERALDAS


Gritar esmeraldas na bainha do mar acende labaredas no profundo, em cavernas pejadas de desejos, leitos brancos de morte inacabada, de ogres soluçantes,  de territórios imaculados. Um dia fui o substantivo enrolado no colo das gaivotas. Hoje esqueci a substância do azul. Por isso lanço gritos na bainha do mar e aprazo encontros febris na maré viva, na noite da lua grande. Convocarei feitiços, sacrifícios, abençoarei a demência, a insanidade. De manhã, a semente de lótus lá estará, na minha mão direita a implorar-me a terra, a água, o homem que há-de vir, semeador sem sonhos nem memória. Acreditar será o meu martírio.

Licínia Quitério   

7.7.14

SINTO FRIO


Sinto frio e estranho-me. Vejo o sol, mas tenho frio. Um frio que me ficou de há muito, de um tempo finito de encostas soalheiras, de campainhas azuis, de morangos maduros. É um frio opaco, de despedidas e desistências, de cumes gelados, de abraços esquecidos no avesso da memória. Um frio de animais abandonados nas bermas, e quem diz animais diz irmãos, amigos, expostos à devora, à avidez da nova selva que não tem fim, não tem fim.

Licínia Quitério

4.7.14

A OLIVEIRA

,

Tu, que nasceste depois da oliveira, e os teus irmãos depois das irmãs dela, ao pé dela viveste, dela fugiste e a ela voltas e a olhas agora como se de árvore fosses mãe e, serena, a cuidas para que não desista, não se negue ao inverno e entregue os frutos. As folhas tombam sobre ti, em teu redor, e as vais somando como dias, e o total da soma nunca saberás. Por cada ramo novo, uma lembrança de outros ramos que quebraram, arderam, só por dentro, para não amedrontar os animais. Porque conheces a compulsão das seivas, tronco abaixo, tronco acima, em ti não se abre o espanto pelo rumor de vozes muito antigas que dizes, a quem te perguntar, ser o roçar de rendas no soalho. Ninguém pode saber os termos do contrato que com ela firmaste, sendo tu menina e nua e a oliveira o teu palácio de ventura.

Licínia Quitério 

30.6.14

ACONTECE


Acontece ficarmos presos num fiapo de mundo, os olhos da cor dos lagos nessa hora, as mãos ignorantes do que pesam as pedras, do sangue rente às pedras, do corpo da pedra que lá no alto começa e ameaça. Um rumor de batalhas havidas, homem contra homem, isto é meu, isto é teu, e a água a correr, e o vale cada vez mais fundo, cova, tumba, nada é nosso. 
Licínia Quitério

28.6.14

ERA UMA CHUVA


Era uma chuva muito leve, a pontear-nos os cabelos de frescura. A floresta tinha pequenos estremecimentos, diria, sensuais. Apetecia penetrá-la, desvendar-lhe os segredos, animais transparentes cujo nome só ela sabe. Fica
mos sempre aquém deste saber, deste sabor, deste odor de mistério e exaltação. Ficamos sempre ao largo e seguimos os caminhos travessos por medo dos golpes, das feridas, das mágoas, que a floresta guarda, que a floresta esconde, no seu chão de verde, no seu chão de lume. Era uma chuva muito leve.

Licínia Quitério

20.6.14

AS CASAS


Avança a corrosão das casas e os velhos que as habitam afagam os gatos esculpidos nos parapeitos. A velhice das casas é sempre mais antiga que a de quem nelas mora. Como os ninhos, persistem na secura e aguardam outras aves. Se eu falasse da vizinha da frente teria que dizer do ranger das madeiras e das vozes com que fala, assombrada que está por tantos mortos que dela se esqueceram. Ela desce a escada e dia a dia acrescenta-lhe um degrau. Ela sobe a escada e pensa na última subida. As casas envelhecem subitamente quando as crianças partem e deixam para trás a memória do choro, dos brinquedos. Os poetas fazem metáforas com as casas, interrogam-nas, mas é  a vizinha da frente que acende a luz a iluminar as noites da casa. Os poetas ficam cá fora, a tentar decifrar o número da porta, que só a vizinha sabe em que sombra do rosto se escondeu.

Licínia Quitério  

7.6.14

O FENO


Os meus olhos sobre o feno, sobre as ondas do mar deitado. As minhas mãos imóveis revolvendo a terra onde se movem cansados animais. Maior que as coisas vivas, o mar da minha ignorância. Certezas tenho deste não saber vida fora, campo adentro, deste espanto de agulhas de sol e de chuva, iguais, sempre iguais, nos dias e nas noites, nas horas irrequietas dos transatlânticos ou no tempo acre dos estábulos. Na fímbria dos instintos, esta fome, esta sede, este desejo de pérolas, este pálido tremor assinalando os ossos.

Licínia Quitério 

4.6.14

O LIVRO


Quando abrimos o livro pela primeira vez, uma voz soou, morna e macia, a aconchegar paisagens no nosso ouvido interno. Líamos lagos e mulheres jovens, descalças, antes dos filhos e das batalhas que haviam de fazer. Muitas páginas depois, lemos os homens, também jovens e descalços, a aprenderem a leveza das mulheres, a estranharem a força dos fios, o engenho das teias. Já o livro ia a meio quando os lírios floriram no chão das guerras, brancos, perfeitos, anjos restauradores do tempo da brandura. Aqui devíamos ter fechado o livro, antes das páginas onde tudo apodrece e um odor a aves degoladas alastra e enlouquece.

Licínia Quitério

28.5.14

NÓS


Não somos mais que este país de sol e sombra, a arder, a gelar, valentaço e brigão, amedrontado e frouxo, muito sexo, pouco sexo, muito siso, pouco siso, de multidões a celebrar ou a apupar o que foi, o que há de ser, o que nunca será. Tudo verde, muito verde, enquanto a seca vai, a seca vem, que assim se fazem as cousas, assim se cumprem as vidas. Somos assim, mais de riso que sorriso, mais de soluço que choro, muito guardados em nós, que de aberto nos basta este céu escandaloso que apetece fechar na gaveta dos fundos e tirá-lo de lá, mais comedido, no dia da festa que fazemos, bem ao nosso jeito, sem cuidar de saber que jeito é esse que dizemos nosso. Somos povo, povoléu, populaça, bem calhados na troça e na chalaça, a rimar, a trautear no banho as canções de antanho, as que ficaram presas no ouvido, húmidas do suor das madrugadas que tivemos ou não tivemos, conforme a história a ser contada ou a ser calada, conforme o dia acabe vestido de sossego ou de veneno. Somos assim, iguais a outros mais, mas sempre de nós mesmos desiguais.

Licínia Quitério 

21.5.14

A CHUVA



A chuva salva do deserto, condena à enxurrada. Águas de todo o ano, leves, violentas, poalha e corda, refresco e inundação, rega e aluvião. Desejo da terra, repouso do afogado. A chuva dá a erva e a borboleta e as apodrece e mata. Tal qual a doçura do amor, a desmesura da paixão. Da raiz à casca morta, tudo na árvore se ri e se alumia, quando a chuva a toca. Evanescente a voz da chuva nos beirais da vida. Nós, no centro de todos os círculos, recebendo a chuva. Nós, na orla da abundância, inquietos, pela seca, pela cheia. Não pensar destino, pensar chuva, deixar-se ir, desaguar.

Licínia Quitério

14.5.14

O HOMEM CONSTRÓI


O homem constrói. É de sua natureza fazer a casa, as casas, a cidade, as cidades. Faz e acrescenta e tudo torna mais largo, mais alto, muito muito mais alto. Babilónias vão crescendo e morrendo, enquanto os homens misturam suas falas, suas preces, suas pancadas no metal, na pedra. Orgulhosos são das obras conseguidas. É seu destino construir, subir, dizer eu fiz, eu sei, e não parar, que o mais fugaz descanso pode trazer a queda, a derrocada. As árvores observam, estendem braços, cabeleiras, sabem da construção e do seu tempo. Ocupam-se a desenhar no céu caligrafias invisíveis que contarão como tudo começou e os homens se fizeram fábrica e tijolo, tijolo e fábrica, e o orgulho se fez dor e a dor sossego e só as árvores ficaram, pode-se dizer, em carne verde e viva. 


Licínia Quitério

9.5.14

MOINHO


Estás aí, parado, exibido, e a turba a dizer foi assim, já não é. Em ti a memória da dureza do grão, da toada do vento, da moleza da água, da mudez das mulheres, na sementeira, na debulha, na ordenha do gado, na lavagem da roupa, no linho, na renda, na descoberta dos homens, a parir, a ajoelhar, a abençoar, a suplicar, a adivinhar, a amaldiçoar. Aí, parado, és sombra, assinatura, marca, nostalgia, vizinhança, anúncio. Moinho, país, à beira água, na lembrança do grão, na perdição do oiro. Conquistador do vento, sedutor, seduzido, perdido na paisagem, na promessa de flores, ou de grãos, que a seara é vasta e a ceifeira não falha.

Licínia Quitério

7.5.14

TARPEIA


Minha rocha tarpeia, meu soluço de inverno, pélago, desabrigo de fugitivo, inclemência, tremor nos invisíveis fios, minha vocação de abismos e alturas, só princípio e fim, minha ignorância absoluta de crime e castigo, minha impaciência para a normalidade dos dias, meu incontrolável desejo de partida, minha incauta memória que me trais e me alertas, me ergues e me tombas, me reergues e escreves, com a minha letra, infindáveis cadernos de folhas secas, de humidades, a dizerem da aventura de viver entre o voo e o mergulho, sabendo da tarpeia e a desprezando.

Licínia Quitério

6.5.14

CONTA-ME



Conta-me a história daqueles anos em que as tuas pernas cresciam mais do que o amor que era então uma cor difusa, um brilho suave, por vezes um clarão que logo se apagava dentro do teu peito, esse peito enorme em frente ao mundo, sem temor, sem rancor, ainda. Devagar, que a pressa de crescer esmoreceu e o melhor é estar sentado à beira vida, reclamando a memória, refazendo os caminhos nunca feitos, as paixões ou os seus lampejos. Diz-me das caixas onde guardaste as conchas, os recados, as canções proibidas, as certezas de que as flores conservariam a cor e o perfume. Sei que já não podes usar as palavras antigas para nomear o que passou. Ninguém te entenderia, apenas eu que ensurdeci e aprendi a ler nos olhos dos que passam, emudecidos, ausentes, num mundo que perdeu as dimensões, quem sabe virtual, quem sabe virtuoso. Conta-me, que eu já esqueci, que tamanho tinham as tuas pernas e as minhas no tempo de começarmos o amor. 

Licínia Quitério 

3.5.14

O ANÚNCIO


Isso foi no dia do anúncio, quando soubémos de ti porque era outra a música, toda feita de lava e de espuma, e os rosários passavam de mão em mão, tecendo a prece que se chamava Ganges ou Éfeso ou ladeira dos milagres, indistintos nomes de lugares indistintos, agora que a música nova os inundava e os rosários eram mesmo de rosas como antes não se vira, perfumadas, vivas. De esse dia pouco ainda se sabe, nem dos homens, nem das mulheres, nem dos frutos, nem das abelhas, nem dos trabalhos, se é que os houve nesse dia. Sabemos que outro haverá, que uma vez acontecido voltará,  conforme ao que foi, igual, o mesmo, porém, de tão distante, não o reconheceremos. Continuaremos, mansamente, a pousar o desejo nas mais altas pedras, a mão em pala sobre o olhar, pronunciando mares e caravelas.

Licínia Quitério  

30.4.14

O PODER


O poder é uma janela que se abre sem se abrir,
uma janela aberta por dentro, fechada por fora.
O mais longo tempo do poder é ocupado a
inventar janelas, depois a construí-las.
O poder tem rosto de olhos abertos sem pálpebras,
frios como os dos peixes quando dormem e não vêem.
Os olhos do poder são facilmente reconhecíveis,
chamam-se janelas, todas iguais, opacas, vidradas
como os olhos cegos, como os olhos mortos.
Por detrás de cada janela há a respiração ofegante
dos que projectam, ininterruptamente, mais janelas,
quem lhes dera sem vidros, só a aparência de vidros,
só a morte da transparência, só o triunfo da palidez.

Licínia Quitério

20.4.14

É PRECISO QUE CAIA


É preciso que caia a grande pedra, nossa cela e abrigo.
Que caia e se desfaça e dela fique uma lembrança
do que foram os dias imensos e os dias breves
em que fomos réptil que se apaga e águia que flameja.
Quando cair, do pó que acontecer há-de ficar um grão
a ser o coração duma semente. Vestidos de nudez,
caminharemos, inocentes, inermes, guiados pela claridade
das nascentes. Simples, iguais por fim aos sábios
e aos dementes, aos reis com trono e aos degredados.
Toda a hora será de nascimento e morte, indolor, indiferente,
de mágoas não sabidas, que um corpo assim, desfeita a pedra,
igual à luz e à treva, não cai, não se alimenta, não se esvai.
Vagueia eternamente e será mãe ou filho ou liberdade.

Licínia Quitério

10.4.14

À TARDE



Quando à tarde as dores se enovelam,
ao colo das mulheres é que chegam
os gatos macios, impenetráveis.
Seu pelo de segredos, seu olhar inefável.
É nas linhas da tarde que se prende
o sopro das manhãs, agora amortecido.
Por dentro das mulheres há vulcões,
terramotos, o fulgor do aço de perdidas
batalhas, e à boca acode-lhes o travo
da traição, à pele o branco do abandono.
Os gatos ameaçam os pulsos das mulheres
e elas deixam-se morder, imperturbáveis.
Na tarde acontece um fio de sangue
que elas lambem, saboreiam, contentes
por se saberem copo, corpo, fonte.

O tumulto do sangue, a doçura do sangue.
A mulher onde a tarde se implode,
no abuso dos gatos, e a aranha
a tecer no pessegueiro.

Licínia Quitério

30.3.14

SE NÃO SABEIS



Se não sabeis da minha sede
porque me dais água?
Se não entendeis o meu frio
porque me dais roupa?
São tão altas as minhas montanhas
e vós falais dos degraus lá de casa.
Eu não canto vós sabeis.
Porque falais então na minha voz?
Só me serve este ínfimo quarto
onde guardo o meu cofre
que vós julgais cheio.
Ignorais o nada com que o encho.
Aceito tudo menos
a vossa compreensão.

Licínia Quitério

23.3.14

QUANTAS VEZES


Quantas vezes passou já não se lembra.
De ponta a ponta foi se lhe pediram
uma côdea de pão ou uma sardinha
que nesse tempo se partia e não chegava.
Palmilhava os becos e decorava os passos
de curva a contracurva da rua que diziam
escondia lobisomens e outros homens.
Se alguma vez os viu e neles demorou
a frescura 
esqueceu
para apagar as nódoas da vergonha
a cor do asco e da gordura.
De tanto se esquecer já não pode afirmar
sem mentir que se mudou da rua ou talvez
ou talvez
a rua a esquecesse e os homens partissem
e só os lobos lembrem o seu corpo de pedra
a curvar a deitar a erguer 
e uma erva a nascer.

Licínia Quitério

19.3.14

PAI



Era o único homem lá de casa e eu aprendi a dizer Pai

Quando ele chegava e me pegava ao colo
Ou me ensinava a caminhar com os meus pés
Nos dele, para trás, para diante, as minhas mãos nas dele.
Continuei a dizer Pai, a pensar Pai,
Mesmo quando me zangava com ele
Ou fingia zangar-me para me tornar crescida.
Com ele descobri as letras no caixote de madeira
E havia um K e ainda sei qual era a palavra.
Levei muito tempo a livrar-me dele
Que queria saber tudo de mim e eu não
Queria que ninguém soubesse de mim.
Só me livrei dele quando começou a
Contar-me segredos para eu guardar.
Foi sempre o único homem lá de casa
Até que eu mudei de casa e o deixei
Para poder visitá-lo sempre sempre,
Até ao dia em que ele se tornou meu Filho
E também Pai que isso nunca deixei de lhe chamar.

Licínia Quitério

18.3.14

UNIVERSO


A frase debruada, a palavra lavada, a música escorrente. 
Um fio de verdade, uma concha de vento, um aperto de mão. 
Pode ser um poema, pode ser um anúncio, pode ser uma pena.
Uma estrela nascente ou uma estrela morrente. 
Um universo no cais do coração.

Licínia Quitério








VIVA


A estação era seca
e os vampiros sugavam os humores
que deviam criar duendes nas florestas.
Como um clarão preso no nevoeiro
ou um relógio mole a escorregar da torre
ou um sino que perdeu o tino e a aldeia,
o silêncio era um monstro
a sufocar
e a reclamar afagos impossíveis.
Estava eu viva e dormia.

Licínia Quitério, 2004

foto de escultura de Rui Chafes, "Enquanto eu vivia", 2013

8.3.14

LÍQUIDOS


De água falo, mesmo que de corpo,
terra, secura, tremor de mãos, viagem.
Antes que o dissesses, não sabia que
meus versos eram inundação e leito.
Líquido escorrente, amor primeiro,
a fazer-se enchente e alagar e, se não
bem percebido, a afogar a boca da inocência.

Sobolos rios me agigantei, dentro dos rios
caminhei, a linha de água paralela ao oiro.
Há peixes nos meus versos, bem os vejo, 
signos, luzeiros, exclamações, inúteis peixes 
quando a água da lua se despe e se insinua.

Licínia Quitério

6.3.14

CINZA


Quem me dera vermelha a cinza do poema,

vermelha e quente, escandalosa e quente,
a insinuar bandeiras embrulhadas em gritos,
deserções de efebos dos salões da guerra.
Quente a cinza das palavras esculpidas
no respirar dos povos, na ternura branca
das mãos, que são mães, que são mar
aberto aos barcos carregados de sol.
Da cinza fria, cor da cinza fria, renascem
teatros de milagres, reverberações,
aves imateriais, imunes à peste, ao dardo.
Quero um poema vermelho, escaldante,
que a cinza seja sangue e escorra 
das pedras dos castelos e alimente
o corpo há tanto tempo lacerado
dos que se retiraram, deliberadamente
cegos, para os desvãos da cidade.

Licínia Quitério

25.2.14

HOMENS COMO ESCADAS


Há homens que são como escadas
quando sobem o abrir dos dias,
com uma sombra pela mão e as meninas
dos olhos vestidas de seda escura.
Ao fim do dia são ainda escadas,
mas a sombra fugiu-lhes da mão
e perdeu-se na escrita dos países,
enquanto falavam de números
ou calavam a opacidade dos sonhos.
Há homens tão belos como as rendas
de ferro onde poisam os braços,
a descobrirem o fio de claridade
com que traçam as sombras.
Homens como escadas, 

transeuntes, oblíquos,
de poros luminescentes.

Licínia Quitério

Foto de Maria Emília Homem da Costa

16.2.14

UMA DANÇA


Aberta na tormenta,
coro de aflições, de perdições. 
Vão as dunas, vão as casas, 
vão as certezas
na sucessão dos dias. 
Pairam afectos, versos, 
acordes incoerentes. 
Ficou-nos na memória 
o amarelo-oiro dos narcisos 
impedidos de florir. 
Tudo muda, tudo se refaz, 
tudo se constrói e se destrói. 
Sempre e nunca é uma dança que nos dói.

Licínia Quitério

8.2.14

OS DIAS


Animais perseguidos, os dias 
fogem em direcção ao poço, 
ao princípio onde crescem 
os botões de luz, as ervas, 
os ribeiros ou o pequeno nome
onde se ergue um homem.
Na pressa de chegarem,
os dias deixam penas,
cascas de árvore, casas,
cantos solenes de morte e nascimento.
Imensa a tela onde se escrevem
músicos, poetas, pintores,
santos e vagabundos. 
Todos procuram o travão dos dias,
a explicação da treva, 
a distância que vai do braço 
ao arco, dos olhos à janela.
Correm os dias, perseguem
e são presa, uivam nas clareiras,
lambem os corpos, assinam
a quadrícula que fica das cidades.

Licínia Quitério

2.2.14

SABER


Saber que amanhã tudo será diferente


Que o gelo se derrete e a água 
escorre em desafio à sede
que vai e volta e vai e volta 
e nunca se detem porque
nada termina ou principia

Licínia Quitério

foto de Hugo da Silva

28.1.14

GUERRA E PAZ



Passam os homens e no seu rasto ficam  as muralhas a  contar a história da defesa e do ataque, do saque e dos saqueados, dos heróis e dos cobardes, dos homens guerreiros, das mulheres guerreiras, da força do ferro, da escassez do pão, da vigilância, da artimanha, da traição, da lealdade, da indigência, da fartura, da queda, da vitória, do ouro e do sangue, da matança, da embriaguês, da humilhação, da confiança, da desistência, da glória dos vencedores, do opróbio  dos vencidos.

A queda das muralhas, o campo aberto, o gado tresmalhado, a orgia do ar novo, a confiança, a fartura, a alegria, os homens de paz, as mulheres de paz e as crianças que dantes não havia.


Passam os homens  e no seu rasto ficam as muralhas a contar a história, a repetir a história, eterna a história de erguer muralhas, de derrubar muralhas, e sempre e sempre a glória eterna, o opróbio eterno e, por raras vezes, os homens de paz, as mulheres de paz, a cuidarem crianças que na guerra não havia.

Licínia Quitério  

26.1.14

NÃO TE ILUDAS


Não te iludas, o teu poder tem apenas o peso da tua bolsa. Menor do que o teu medo é o teu grito de comando. O teu desejo de água será sempre do tamanho da fonte que não alcanças. Podes fazes nascer a construção que guardará o teu tesouro, mas não a liberdade. Se isto aprenderes, talvez um pássaro pegue o teu tormento e te mostre a gota que faz viver o amor.

Licínia Quitério 

19.1.14

CINEMA


Passeio em ti como num corpo nu.
Percorro-te, abraço-te, comovo-me.
Cidade foste do tempo da ternura
a deslizar dos braços para a rua.
Na sala do cinema havia pombos
e grãos de lua nas nossa mãos
ausentes do tormento, da geada.
Corria o filme e nós com ele, brancos,
despojados, aninhados na hora
que era a nossa e se cumpria.
Estava escuro lá fora, a casa envelhecia.
Lá dentro a história ardente acontecia.
Passavam rebuçados da minha boca
à tua, em calda de desejo e de doçura.
Por lá ficámos, do futuro esquecidos,
arrumados em latas de memória.
Percorro-te, descubro-te, invento-te,

tropeço na calçada, sujo-me na caliça,
regresso à sala como se fosse a mesma,
como se fosse eu que ali estivesse
e a história inacabada terminasse,
desfeito o rebuçado, desenrolada a fita.
Disseste corta! ou fui eu que adormeci?

Licínia Quitério

16.1.14

AMAR UMA PEDRA


Amar uma pedra é descobrir-lhe o coração. Entender o respirar dos séculos, os traços, as cicatrizes. Não confundir beleza com tragédia. Saber os nomes do rei e do construtor. Contemplar colunas e os braços a erguê-las: as rendas e as feridas. Capitel como cabeça a altear o fuste e a suportar o tecto, o céu. Adivinhar a palpitação do homem, o poder do homem, a ousadia do homem, a miséria do homem. Ajoelhar se for preciso, beijar o chão da pedra, ouvir, vindas da terra, a humildade da pedra, a soberba do homem, o bater de um coração, que foi pedra, que foi homem.

Licínia Quitério

11.1.14

AS CIDADES ABERTAS



Levei-te a passear nas cidades abertas, construídas antes de eu ter entrado nos dias da névoa e do ruído, antes da partida da rola de peito róseo a que faltava uma asa. Havia gente nas janelas, havia janelas nas casas, havia casas nas ruas, havia ruas na cidade. Havia e não havia. Por dentro de nós passava o mundo,  saía e entrava sem licença e não deixava traço nem poeira. Cidade que tocássemos passava a respirar na nossa mão, no nosso olhar. Assim voltávamos à cidade que não voltava a si mesma, que nada volta a ser o que uma vez vivemos. E nós já outros, e a imobilidade das estátuas a retardar-nos o passo, e nós caminhando sempre, pensando frutos e nunca os pronunciando, tal qual como nos sonhos em que passeamos por cidades abertas, sem névoa e sem ruído.


Licínia Quitério

3.1.14

NADA A OPOR



Nada a opor. O céu azul, a pedra branca, a planta verde. E a água, dirás, que não tem cor. Tudo o mais se faz curva, princípio e fim, o ar que somos, a chuva prometida. É a íris, é o arco, é o desejo de subir, de perceber a luz e a ilusão, o som além do sino, a erosão a preceder a queda, a ascensão da seiva e o seu regresso. Assim se faz a história do acordar em campo aberto à nossa incompetência de viver, no começo do escombro, anunciado nas runas, na beleza insondável das ruínas.


Licínia Quitério  

26.12.13

ACORDAMOS


Acordamos com a franja da noite
a deixar entrever restos de sonhos.
Imagens incoerentes, tempos vivos
de mortos, absurdas torres, e a fala
mil vezes 
repetida, alucinada,
em demanda de abrigo, num limiar
de opala.


Na alegria e na tristeza, restos de sonhos
alimentam a poeira da casa, da estrada,
incandescente às vezes, branca, fria,
quando a noite volta e se derrama.

Licínia Quitério

21.12.13

SILENCIOSA


Fria casa do inverno
O sol abraça
a negritude
e dela faz rio
de milagres
As árvores
presas na boca
dos esfomeados
As ervas dormentes
na quietude do grão
Recolhimento
Os olhos
desmesuradamente
abertos
que esta luz não cega nem aquece
Os dedos
encurvados
A carne contra o gelo
Os corpos
caminhantes
na lentidão do dia
Círculos
Círculos
Círculos
A tontura
antes da noite
da arca da noite
Maior a noite
Silenciosa noite
Silenciosa

Licínia Quitério

15.12.13

DÃO-SE-ME


Dão-se-me os bichos e as plantas
como se para mim tivessem renascido.
Acontece porque neles penso e me demoro.
Pequenos anjos sabedores das frestas, das falhas,
das agulhas de luz com que se rasgam sombras.
E homens grandes, também,
fugazes, tristes, imperfeitos,
bebedores de abismos,
passageiros ardendo,
indo.

Licínia Quitério

8.12.13

A ESTRADA DE CLARISSE

                               


Longe dos álbuns, Clarisse continua-se nos dias da penumbra e do regresso. Já outra, sendo a mesma, que o retrato de si se adoça e pacifica. A estrada, limpa de sombras, conta-lhe os passos, guarda-lhes o rasto, o cheiro a cravos. De Clarisse permanece inteira, atrevida, a verdura do olhar. Duas folhas vivazes em árvore de Outono. Uma ostentação, um desafio. 

Licínia Quitério 

3.12.13

DISCO RÍGIDO


É mais um livro, o quinto, que me leva os escritos e os expõe à vontade de quem os quiser ler. Este diz-se em prosas, muito várias prosas, de vários tempos e lugares, de vários jeitos de escrever, de vários tamanhos e intensidades. Nele estão  recordações ficcionadas, divagações sobre os dias, desvarios até de uma Clarisse que sonha e é o próprio sonho. Realista, poético, onírico, avulso e descontrolado, numa poeira de palavras que se juntaram na gaveta dos novos tempos, no disco rígido do meu computador, que é como quem diz, na minha memória, esse lugar estranho onde tudo cabe e por vezes se deixa espreitar, por vezes se fecha a sete chaves, por vezes para sempre. 

Licínia Quitério

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